domingo, 6 de maio de 2007

Sobre a Virada Cultural, o gangsta rap e duas nações apaixonadas

Senta, que esse é grande.

Capítulo 1: Um passeio no mundo livre
A iniciativa da Virada Cultural é muito boa. Dedicar 24 horas da rotina noturna de uma cidade como São Paulo à cultura e às artes é, acima de tudo, sensato.

Pooooorém, algumas vezes a coisa acaba se perdendo. Por ser um evento dessa grandeza, evidente que a prefeitura precisa ser, no mínimo, megalomaníaca na organização dos seus eventos principais. Mas o que se viu na Praça da Sé (não falo da putaria com os Racionais, chego lá no próximo capítulo) foi o tal pretexto da cultura se perder completamente no meio de centenas de milhares de pessoas, batalhando por um espacinho, coisa semelhante a um busão gigante e que não sai do lugar.

Impossível usufruir da arte desse jeito. O verdadeiro espírito da Virada Cultural pode ser achado em eventos menores, fechados e tudo o mais, pois esperar receber um pouco da energia cultural de São Paulo no meio daquela muvuca é, no mínimo, ingenuidade.

(Mas a Nação Zumbi consegue, mesmo assim, ser a melhor banda do Brasil em cima de um palco. Que beleza)

Capítulo 2: Vida Loka
Eu gosto bastante dos Racionais. Acho o Mano Brown brilhante, e eles são das poucas bandas de rap hoje que eu ouço sem lamentações.

Mas precisa parar com essa babaquice de ficar se fazendo de menino mau. Não dá mais. As letras do grupo, se for reparar, nem fazem apologia ou incitação à violência. O problema é a postura. Essa coisa de pagar de bad boy, de 'aquele que você odeia amar', pra usar as palavras do próprio Brown. Os Racionais são o grupo musical que mais influenciou a juventude brasileira desde a Legião Urbana, e hoje é cool ser casca-grossa, olhar feio, botar medo. Como diz o Lobão, 'é tudo pose, é tudo pose, é tudo pose'. Mas é tanta pose que o personagem acaba incorporando, e então temos uma legião de delinqüentes.

Pra ele pode ser bonito provocar o caos, estimular o Tyler Durden de si mesmo, mas essas crianças acabam fazendo coisas por embalo que de maneira nenhuma ajudam em seu próprio crescimento pessoal. Acho o Mano Brown tão brilhante quanto o Renato Russo, mas precisa acabar com essa coisa ridícula de menino bom e menino mau. Chega dessa 'vaidade' besta, dessa coisa de querer se sentir poderoso. Cada um precisa saber o quão insignificante é e se colocar no seu lugar.

Capítulo 3: Love's got the world in motion
(Título emprestado do New Order, que não tem nada a ver com a história)

Ainda na Virada, tive a oportunidade de assistir a um show do Beatles 4ever, puta banda cover daquele grupinho semi-famoso. Depois, fui ao Canindé assistir à final da segunda divisão do Campeonato Paulista, entre Portuguesa e Rio Preto.

Fiquei muito emocionado de estar no meio de duas nações apaixonadas (embora, no caso do jogo, eu fosse mais um estranho no ninho). É impressionante perceber como coisas como a música e futebol podem unir milhares de pessoas sob uma única bandeira, em uma atmosfera de felicidade intensa e orgulho rasgado por fazer parte de uma coisa tão grande e tão bonita. Cada refrão de Don't let me down cantado em coro, cada 'Lusaaaa, lusaaaa' soando em uníssono pela arena, cada abraço comovido durante o 'nanana' de Hey Jude, cada abraço comovido depois de um golaço, cada grito de euforia após a primeira nota de Come Together, cada grito de euforia após o apito final do juiz. Estar no meio de tudo isso é, além de uma experiência antropológica divertidíssima, uma prova de que a felicidade existe sim, mas vive em pequenas redomas, protegida pela paixão dos fãs. Foi foda.

Um comentário:

lecus disse...

foi do caralho....que virada, que bocejada, que fila bem cortada, que carrinho de cachorro-quente que nada....
mas, merda caindo no colo dos outros é "desfecho"...
mcs influênciados por seja lá o que for não dá...
roqueirinhos entram nessa também, é tal radicalismo obsceno e agressivo que incomoda e assusta...
BEATLES 4EVER, começaram com helter skelter, pra mim não precisava mais nada, a não ser mais uma horinha de show...
enfim, foi um prazer, inté mais vê...