Mostrando postagens com marcador Verdades. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Verdades. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Autoajuda

A pandemia tem basicamente zero pontos positivos (não tente olhar os aspectos positivos de uma desgraça como essa, aliás; tá tudo bem achar tudo uma merda). E uma das coisas ruins nesse tsunami de negatividade foi que me deixou trancado num quarto com meus instrumentos, microfones e tempo livre. Aí eu gravei sozinho umas músicas velhas e, se você acompanha esse blog, já sabe que eu não tenho problema em compartilhar as tontices que eu faço. Então aqui está. Ele chama Autoajuda, são 6 faixas, e um dia quem sabe estará nas plataformas todas.

Depois de gravar eu resolvi experimentar com uns textos de alguma forma relacionados ao tema. Vou soltando esses textos aqui de tempos em tempos. Eis o primeiro:


Bom dia. Bom dia. Hoje eu *nnhhhhhhhhhiiiiiiii*... desculpa, gente, o menino do som não veio hoje, disse que tinha que levar a mãe no médico. Médico que atende domingo de manhã, essa é nova pra mim. Mas tá bom, vamos em frente. Melhorou aí, Nestor? Show, vamos em frente, vamos em frente. Bom dia a todos nessa bela manhã. Tô vendo umas caras conhecidas, bem vindos de volta. Tem umas caras novas também. Não fiquem tímidos, cheguem mais. Todos são bem-vindos aqui. Pode chegar mais, moça, como é o seu nome? Neuza, bem-vinda, Neuza. Nome da minha mãe. O dela era escrito com dáblio, acredita? N-E-W-Z-A. Meu vô achava chique. É. É. Haha. Chega um pouco mais pra frente, gente, senão fica muito perto da rua, é perigoso pra vocês. A essa hora tem cara que saiu da balada, tá mais louco que o Batman, passa aí a milhão e nem vê o que tem pela frente. Mais louco que o Batman. Minha sobrinha me ensinou essa. Chega mais, gente, chega mais. É um prazer ver que cada semana tem mais gente aqui. Sinal de que nosso trabalho tá chegando em mais pessoas. Prazer ter vocês aqui. O que eu queria falar com vocês hoje é… é de fome. Vocês já sentiram fome? Já? É, mas não é dessa fome que eu tô falando não, gente. Eu tô falando de fome de vencer. De conquistar. De garra. Sabe? Ambição, tem gente que chama assim. Quem aqui tem fome? Tem ambição? Quem acorda todo dia com um propósito, com aquela coisa de "hoje é o meu dia"? Pois é. O sol tá na minha cara, não tô enxergando muito bem, mas tô vendo umas mãos levantadas. Bom. Sabe o que a gente faz quando a gente tem essa fome? Quem aqui sabe? O rapaz ali no fundo parece que quer falar. É o que? Lutar? Tem que lutar? Ah, entendi. Gente, é o seguinte: não tem que lutar não. Não tem que ter ambição. Tem gente que fala "Nelson, você é louco. Como você fala essas coisas?". Eu falo. A ambição é a mãe do fracasso. Tem uma pessoa aqui, a Narinha, cadê Narinha? Ali ó, levanta a mão pro pessoal te conhecer, Narinha. Narinha chegou pra mim na semana passada, depois do nosso trabalho aqui, e falou: "eu tô preocupada com meu filho. Ele tá nessa de empreendedor, de startup. Disse que quer fazer um aplicativo pra sei lá o que". Falei: Narinha, isso é normal. O jovem tem dessas fases mesmo. É uma fase, só. Tem que deixar quebrar a cara, deixar se estropiar todo. Se tiver que vender o carro, vende o carro. Se tiver que pegar empréstimo, pega empréstimo. O jovem, ainda mais o jovem no Brasil, que é tudo fudido aqui mesmo, desculpa o palavreado, o jovem se alimenta de sonhos. E sonho não morre com a gente falando. Sonho morre é na paulada. É. É. Haha. É. Depois que tudo der errado, quando ele não tiver mais nada, aí ele vai entender que sonho não bota comida na mesa. O que põe comida na mesa é carteira assinada, ou o pejotinha mesmo, salário fixo. Quando o sonho morre, a alma morre junto. Quando a alma morre, nasce o bom empregado. É o ciclo da vida. Faz o que tem que fazer, não fica com cabeça nas nuvens. O bom trabalhador tem os pés no chão e os dentes no saco do patrão. Desculpa o palavreado. O bom trabalhador desiste quando tem que desistir. Desistir é bom demais, gente. Joga fora aqueles fantasmas, aquele peso. Isso cria câncer, saiu uma pesquisa aí outro dia, lá da Inglaterra. O negócio te corrói por dentro. Isso é angústia, né. Se é pra ter angústia, pega a angústia do patrão, que pelo menos tá te pagando. Ficar angustiado de graça ou se endividando pra isso não dá, né. É. Haha. O sonhador não desiste. O otimista não desiste. Não sabem o que tão perdendo. Tem uma palavra da moda que o pessoal usa agora, "guerreiro". Tudo é guerreiro. Até no futebol você vê lá a torcida cantando "time de guerreiro". Vocês sabem da onde vem a palavra "guerreiro"? Vem de guerra. Vocês sabiam? Você sabia? Menina esperta. O pessoal fala em guerreiro como elogio, mas guerra é bom onde? Vai lá tomar um tiro na cabeça pra que? Defender a pátria. Tem que defender nada não, gente. Não defendo nem minha reputação, vou defender pedaço de terra dos outros. Ainda é melhor isso que fazer aplicativo igual o filho da Narinha, mas pelo menos ninguém usa "startupeiro" como elogio. Imagina só a torcida do Flamengo cantando "time de startupeiro". Haha. Não dá, né. Haha. Às vezes a gente fala as palavras e não entende o que elas significam, e isso é um problema. Palavras tem poder. A guerra, como o sonho, ela tem um objetivo. Quando a pessoa alcança aquele objetivo - quando alcança, né, que é raro - faz o que depois? Acha outro? Faz outra guerra? Outro aplicativo? Fica sempre ali a chinchila correndo na roda? É chinchila que faz isso? Enfim, aquele rato lá. O povo fala mal de rato, fala que rato é o primeiro a abandonar o navio quando tá afundando. E tá errado o rato? Vai fazer o que, ficar lá bebendo água? Haha. Não dá pra ter sonho, gente. Quem quer viver bem acha o prazer na rotina. Todo dia lá. Acorda, manda lá o bom dia no zap, trabalha, almoça, vai embora do trabalho, ouve um rádio, lê um livro, brinca meia hora com o filho, com a filha, assiste TV com o marido, com a esposa, com os maridos, sei lá. Às vezes faz lá um rala-e-rola, mas só de vez em quando, que é pra não ficar muito feliz. O negócio é ter uma vida plana. Não plena! Plana. Pra não acostumar com os picos e não deprimir com os vales. Aceita o tédio. A monotonia. A gente acha que tá no mundo com uma missão, que tem um sentido por trás de tudo. Mentira. A gente tá aqui por azar. Podia ter sido outro espermatozoide, calhou de ser o nosso. O mínimo que a gente faz é honrar os espermatozoides perdedores e não ter uma vida muito melhor do que a que eles tiveram. A gente sabe o que é a derrota. É pra isso que a gente vive. Mas só é derrotado quem luta. Lembra o que a gente falou agora há pouco? Cadê o rapaz que tinha falado isso? Foi embora? Foi embora. Tem gente que não gosta de ouvir, faz parte. Não tem problema. Mas nem tudo é luta. Quando um não quer, dois não brigam, não é esse o ditado? Então a lição de casa pra essa semana, vamos chamar assim, é começar a dar essa nivelada na vida de vocês. Dá um jeito de melhorar o que tá ruim e de cortar o que parece bom. Sem pressa, a gente ainda tem muito tempo pra fazer isso. Expectativa de vida tem aumentado, né, infelizmente. Então vai na boa, porque não é fácil. O importante é começar. Uma ideia, ó, uma ideia, já que a gente falou de desistir: desistam de uma coisa essa semana. Uma só, pra começar. Pode ser daquela carreira tocando Djavan em barzinho, daquele aplicativo, daquela promoção. Assim a gente vai acostumando o corpo e vai evitando o câncer. Tá bom? Obrigado, pessoal, semana que vem a gente tá aqui de novo, se não expulsarem a gente. Um abraço, tchau. *nnnnnnhhhhiiiiiii*

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Retrospecbosta 2017

Duas coisas aproximam-se do fim nesses dias: 2017 e minhas desculpinhas por não escrever aqui. Não escrevi porque não quis, me deixa. Mas agora eu quero, não me deixe! Pra fechar esses últimos meses esquisitíssimos, vamos com uma retrospectiva de assuntos que você não fazia ideia que aconteceram porque, bem, eu não escrevi.

***

Eu tenho uma pança. Ela começou a despontar nos idos de 2011, quando meu metabolismo passou a ficar mais coerente com o resto do meu ser e fracassar. Eu sempre quis uma barriga: é sinal de respeito, sinal de maturidade. Não há sinais de maturidade em mim: só bonequinhos de personagens da Nintendo e bolachas recheadas. Com uma barriga eu poderia finalmente me considerar adulto.

Esse ano a barriga alcançou sua forma mais evoluída até então: rotunda, saliente, confiante. Parece aquelas bolas de borracha que a gente brincava quando era criança: redonda e cheia de gás dentro. Um luxo.

Mas o efeito não foi o desejado. As pessoas falam. As pessoas ficam "nossa o que é isso é uma barriga?". As pessoas falam a respeito dela quando eu não estou por perto. As pessoas não aceitam minha pancinha. Tratam-me com chacota por ostentar transbordamento acima da cintura mesmo quando tenho braços finos de espaguete e os ombros mais estreitos que a visão de mundo das pessoas na internet. Pois são uns invejosos!, eu digo. Não sabem apreciar o valor de uma bela barrigota. De um abdômen convexo. De ter uma parte do corpo que pode ser dividida em hemisférios. Eu tenho pena das pessoas!

Embora realmente esteja um pouco difícil escrever isso porque a barriga não me deixa chegar muito perto da mesa e talvez esse tenha sido o real motivo da baixa produtividade do blog, mas faz parte.

***

Um dia eu tava na fila e eu era o próximo. Aí uma mulher passou na minha frente. Como se eu não estivesse ali. Como se eu nunca tivesse existido. Como quando você passa e sente um calafrio e as pessoas que acreditam em coisas pensam "senti uma presença" mas tal presença não pode ser vista ou comprovada. É isso que eu me tornei: um fantasma, vagando eternamente pelas filas do mundo até encontrar a fila que finalmente me levará para os portões do inferno.

Mas eu não deixei barato: pus as mãos na cintura e olhei bem feio. Rá! Se ela tivesse visto ia pensar duas vezes antes de furar fila novamente.

***

Após um longo hiato dos palcos que absolutamente zero pessoas sentiram, voltei a me apresentar ao vivo com o Volto Logo Joyce. Foi um show muito especial, com um palco montado na rua em um evento voltado à causa animal. Foi no centro de São Paulo e atrás do palco era possível ver o famoso Elevado Presidente João Goulart, antigo Elevado Costa e Silva. Confesso que fiquei muito emocionado porque sempre foi meu sonho tocar com o Minhocão atrás.

***

Eu peço desculpas pela última, estou muito triste.

***

Tomei uma importante decisão de negócios: convidei minha namorada para viver sob o mesmo teto que eu, estabelecendo uma fusão que aumentou em 100% o número de bonecos de personagens da Nintendo nesse apartamento. Concorrentes entraram na justiça alegando monopólio mas suas intimações pra mim são como baratas: eu gentilmente as conduzo para fora do ambiente.

Além disso estou feliz* e minha barriga aumentou, então 10/10.

***

*AVISO LEGAL: a felicidade é uma construção social e as únicas coisas que existem são a tristeza e a dor e somos todos apenas fantasmas vagando por esse mundo procurando a fila certa.

***

Meu gato (adotado esse ano, aguarde o post a respeito) resolveu treinar para as próximas olimpíadas usando a TV nova como barreira na modalidade corrida com obstáculos. Ele deu sinais de não estar preparado para concorrer ao errar e fazer a TV SE ESPATIFAR NO CHÃO E DESTRUINDO TODA SUA LINDA TELINHA. Comprei outra e decidi colocá-la num suporte na parede, exercendo assim toda minha perícia com ferramentas para trabalho manual e com conceitos estéticos como alinhamento. Não ficou tão ruim, é só sentar e inclinar a coluna 30 graus pra esquerda que tá tudo certo.

Em nota relacionada, fui tentar trocar o cabo da TV que ficava no quarto (também em um suporte) enquanto segurava o aparelho contra a parede usando apenas uma mão. Por incrível que pareça, eu não proporcionei nem o equilíbrio nem a força adequados e ela foi pro chão.

Pus a culpa no gato.

***

Além da saliência abdominal também estou ficando com a barba esbranquiçada, mais um sinal inequívoco de que eu já deveria ter saído da adolescência a essa altura.

***

Minha memória, que desde sempre foi meu maior orgulho e, honestamente, a única coisa boa a meu respeito, está se desmanchando como a aprovação de um certo prefeito de uma certa cidade importante do país. Acessar informações no meu cérebro tem sido um exercício difícil e improdutivo, e por muitas vezes já me vi perder meia hora investigando uma tarefa no trabalho só pra descobrir que eu já a tinha feito.

Eu não tenho piadinha espirituosa pra fazer com essa, é só uma merda.

***

Meu pai pôs no rack da sala dele uma foto minha e do meu irmão juntos e a diversão dele é mostrar pras pessoas e perguntar quem sou eu e quem é meu irmão. É um jogo muito difícil, eu mesmo só acertei na segunda.

***

Tinha um casamento pra ir e decidi honrar a barriga e a barba branca: resolvi aprender a fazer um nó de gravata. Não foi fácil. Muitas tentativas. Muito suor. Muitos socos na parede de frustração. Não, você não vai desistir. Você já desistiu de muitas coisas na sua vida, chega! Você é capaz! Tapa na cara. Cena do Whiplash que o cara pergunta se o batera tá acelerando ou atrasando.

Dia do casamento. São Paulo, 2017. A hora da verdade. A apreensão toma conta de mim. Me preparo mentalmente. Ponho a calça, a camisa, o cinto. Respiro fundo. Mãos trêmulas. Vamos, você consegue! Passa por trás. Uma volta. Passa por dentro. Outra volta. Mais uma. Passa por dentro de novo. Ajusta.

Puta calor, fui sem gravata mesmo.

***

Meu contrato de união estável foi redigido por um Youtuber.

Sério.

***

Bom, esse foi um resumo do que rolou esse ano. Foi até que bom. Espero que o seu ano tenha sido bom também e que você tenha sido capaz de estocar energia e felicidade porque o ano que vem será uma tempestade de bosta. Boa sorte pra gente, boas festas pra você, desculpa qualquer coisa e obrigado pela audiência.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Burrice

Parte do meu processo de envelhecimento tem sido gasto procurando ser uma pessoa melhor, mais justa, com mais empatia e menos julgamentos sumários. Esse talvez seja um dos motivos pra esse blog andar tão devagar: imagina que saco ler toda semana um bocó escrevendo "gente, calma, vamos pensar o lado da outra pessoa". Sai daqui, internet é pra apontar dedo na cara.

Um dos julgamentos mais comuns e mais irresistíveis é considerar burro todo mundo que possa pensar ligeiramente diferente de você ou que não tenha um repertório intelectual que o senso comum reputa como sendo próprios da pessoa inteligente. Então esse é um dos esforços maiores que tenho feito nessa minha jornada rumo à nulidade completa, o de entender que existem inteligências diferentes, que esperteza acadêmica não define tudo, que há tantos fatores envolvidos em cada acontecimento que é possível cinco pessoas terem opiniões diferentes e mesmo assim não estarem exatamente erradas. Um ou dois talvez sejam filhos da puta, mas não burros.

Ops, estou julgando de novo. Desculpe.

Mas como todo esforço observado sob a ótica maniqueísta (que está errada, sempre, para com isso), há aquele desafio, aquela pedra no sapato, o inimigo sombrio que quer evitar seus planos a qualquer custo. E, quanto mais eu tento avaliar outras perspectivas, descobrir os pontos fortes em que a pessoa brilha e demonstra inteligência especial, tem uma pessoa que derruba minha teoria toda vez. Minha teoria de que ninguém é burro, você que não viu direito. Tem um sujeito, vamos preservar o nome dele por ora, que continua me desafiando. Que fica chutando todas as minhas análises, que toda vez que eu consigo finalmente resolver um grande quebra-cabeça lógico e retórico ele dá um tapão, derruba no chão e grita na minha cara "VAI DIZER QUE EU NÃO SOU BURRO AGORA?"

Sim, tem sido cada vez mais difícil não achar que eu sou um palerma completo. Talvez porque eu me conheça melhor do que conheço a qualquer outra pessoa. Veja: a ignorância me faz achar que as pessoas são inteligentes, o conhecimento me faz achar que eu sou burro. Se isso não é poesia, é o que? Não é poesia mesmo, só quero saber o que é.

"Ah, mas você é inteligente". Obrigado, mãe. Eu às vezes gosto de pensar que sou mesmo, mas estou aqui travando uma queda de braço entre minhas querências inocentes e os fatos duros. Eu sei que estou na internet e na internet os fatos não tem importância, mas ao mesmo tempo eu nunca ganho uma queda de braço, então é meio como a história do gato com o pão com manteiga.

Mas apesar de eu ter dito que fatos não importam, vamos a eles. Listo a seguir alguns acontecimentos recentes ou relativamente recentes. Julguem por vocês mesmos (concordem comigo): eu fiquei calculando a velocidade da esteira de bagagem no aeroporto pra andar por ela no sentido oposto até alcançar minha mala que caiu do outro lado (ao invés de só esticar a perna e passar por cima); cogitei VIRAR MEU ASPIRADOR DE PÓ EM CIMA DA LIXEIRA ao invés de só tirar o saco com a sujeira de dentro; subi 18 andares de escada para o escritório pois o prédio estava sem luz, de modo que não havia o que fazer no diabo do escritório; fiz uma trilha montanha acima sob o sol do meio dia sendo que havia setas apontando no sentido contrário e um trenzinho que levava para o alto da montanha; não passei protetor solar enquanto fazia a trilha da montanha sob o sol do meio dia; cortei cenouras fazendo o movimento da faca em direção à minha cara; desisti de esperar o metrô que demorou cinco minutos depois de já ter pago passagem, saí da estação e fui caminhando para o trabalho pra chegar muito atrasado e suando feito um filho da puta (diversas ocorrências); comprei uma guitarra em promoção pra vender pelo preço normal, não vendi, ela estragou; paguei mais caro por um produto pelo qual eu havia pedido desconto; deixei a cachorrinha com diarreia deitar nas minhas roupas; sério, lê a última de novo; fiz minha tia que queria um sorvete de banana comprar um frozen banana, afinal, por que isso não seria um sorvete de banana? (não era); fiquei uma hora na fila errada no aeroporto e só não perdi o voo porque atrasou; fiz faculdade de publicidade; comprei um tênis de presente pra namorada achando que combinaria perfeitamente, pra só depois que cheguei em casa lembrar que ela tinha um igual; derrubei uma tupperware cheia de gordura por toda a cozinha porque decidi segurar ela só pela tampa - que era uma tampa de panela; tentei desmontar um chuveiro me posicionando exatamente embaixo dele e sem desligar o registro; comprei camisetas femininas achando que eram masculinas, não sem ter resmungado mentalmente que estão fazendo camisetas cada vez mais apertadas hoje em dia; falei "parabéns" pra uma colega que foi se despedir após ter sido demitida; coloco o pé quando vou puxar a porta pra ela não abrir com força, mas ela bate no meu pé e pof na minha cara (diversas ocorrências); quando requisitado (obrigado) a dar um depoimento para as câmeras que serviriam a um vídeo institucional da empresa, contei uma piada sobre masturbação.

Todos fazem burradas. Todos tem pontos fortes. Faz parte do balanço universal, o grande equilíbrio que não nos permite despencar. Mas e quando não há esse equilíbrio, quando você é inteligente às vezes e burro quase o tempo todo? Quer dizer que você é burro mesmo, tem jeito não, e minha teoria tá errada. O que não tem problema porque eu sou burro e você já viu teorias propostas por pessoas burras? Eu também não, porque ninguém é burro, tem que ver o lado da outra pessoa. Ou sim? Não sei mais, tô confuso, vou parar com isso.

Alguém quer comprar uma guitarra?

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Emperdedorismo 2.0: como fracassar no Vale do Suplício

Quem quer que tenha nos criado, pessoinhas pensantes numa rocha espacial, cometeu um erro de projeto meio grave, se é que posso assim ter a ousadia de criticar tamanha magnificência. O problema é, vê, que somos seres semanticamente orientados: nos foi dado o dom de ver significado nas coisas. Nenhum outro ser vivo no planeta Terra possui semelhante talento. Onde está o erro de projeto: podemos ver significado nas coisas, mas nas coisas não há, sinto muito, significado nenhum.

Qual o sentido da vida? Por que nós? Pelo que lutamos? Bem, por nada. Nada faz sentido. Nada quer dizer nada. É só caos e colisão de moléculas. E isso cria um certo problema, um problema crônico próprio da nossa espécie, assim como é próprio do poodle ter otite: há o nosso corpo, e nele há a nossa alma, e nela há um imenso vazio.

Sim, um buracão, como se uma bala de canhão nos tivesse transpassado e deixado um buraco que nunca se fecha. E assim vivemos, em dor, em agonia, procurando respostas que nunca virão. Isso não é evitável, não senhor. Mas também somos uma espécie adaptável, e é desse poder maravilhoso que vem nosso combustível pra nos impulsionar permanentemente até o momento da única certeza, da única verdade, você sabe qual é.

Mas vamos deixar isso um pouco mais positivo. Hoje eu não quero lamentar, não quero depreciar, hoje eu quero ajudar! E é com esse propósito totalmente altruísta e demonstrativo da grande nobreza de caráter que me pertence que eu resolvi investir naquela que eu considero a próxima grande onda, aquela que virá depois que essa onda atual nos der um caldo e levar todos os nossos sonhos para o fundo do mar: estou falando de Emperdedorismo, que é a qualidade de todo aquele que não é só um fracassado, um bosta, um pobre diabo que não faz nada que preste, um inútil, um imbecil, um traste, um erro filha da puta, mas também uma pessoa que quer aprender a evoluir e a aprimorar sua própria fracassabilidade. Esqueça promessas de glória, frases edificantes e planos de felicidade: o importante é abraçar a sua própria miséria.

Hoje, pra começarmos de maneira mais leve, quero apresentar algumas formas de nos ajudar a lidar temporariamente com aquele grande vazio de que eu falei alguns parágrafos acima. A palavra chave aqui é "temporariamente", pois lembre-se: não existe sucesso, existe apenas o adiamento da derrota.

[apagar depois: traduzir as palavras-chaves pro inglês porque vai ficar loko d+]


Animais de estimação

Sim! Uma das maneiras mais eficientes de preencher aquele vaziozão no peito é com afeto, amor incondicional e controle absoluto sobre a vida de outrem. E animais são demais: eles são... tão fofos. Eles brincam com você, eles te dão carinho, eles te fazem companhia, eles cagam no seu travesseiro. Não é também um mar de rosas, né. Mas animais são irados e se você não concorda talvez seu problema seja outro. Talvez você apenas seja uma pessoa horrível. Desculpe. Falei.

Lááááá no fundo, porém, a posse de um animal cumpre uma outra tarefa ainda mais importante, embora seja uma que não ousamos admitir, que não ousamos sequer pensar: eles são, basicamente, ferramentas que nós mantemos com o único propósito de nos entregar amor e devoção totais. Calma! Não atire pedras ainda. É um pensamento perfeitamente normal e inclusive é a base de praticamente todas as civilizações já descobertas. Pense nos deuses e demais autoridades místicas (ou, paralelamente, no seu próprio chefe no trabalho) que exigem sacrifícios, ritos, ou orações: eles só nos colocaram aqui pra gente puxar o saco deles. A verdade é aquela: manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Mas então, animais. Tão bonitinho os animal.


Escapismo

Se o mundo é assim mesmo e nele só o que nos espera é sofrimento e Zubats, por que não viver em outro mundo? Tem tantos mundos por aí. Cada livro tem uns montes. Cada jogo tem mais outros tantos (alguns jogos também tem Zubats, é verdade). Cada filme, cada série, cada álbum (os jovens ainda ouvem álbuns ou só playlists?), cada pano pra costurar, cada relatório pra redigir, cada pisada firme no acelerador (respeite o limite de velocidade), cada gota amarga de uma cerveja vagabunda, cada picadinha ardida de uma agulha bem intencionada, cada rolagem de dado, cada abraço apertado em quem você ama, cada verso desafinado no karaokê, cada colada de zap na testa do caboclo ao lado, cada série de 15 repetições, cada compra por impulso num produto sem nota fiscal. Mentira, evite o consumismo, consumismo é para a nossa alma o que é um peido de vaca pra camada de ozônio.

Esqueça o mundo por um instante. Deixe-se alienar. Eu era um adolescente nerd, covarde e sem perspectiva de crescimento pessoal. Passava os dias desenhando universos paralelos onde só vivíamos eu e minhas criaturas. E você viu no que deu? Exato, um ADULTO nerd, covarde e sem perspectiva de crescimento pessoal.

Com os índices de criminalidade nesse país isso é algo pra se comemorar, sim.


Se achar inteligentão

Perceba que eu escrevi "se achar" e não "ser". A inteligência é ao mesmo tempo muito parecida e completamente diferente da beleza. É parecida porque é uma qualidade rara, presente nuns poucos abençoados. E é diferente porque ao menos em geral as pessoas sabem que não são bonitas.

Sim, você é feio. E burro. Toca aqui.

Não tem problema. Falta de inteligência nunca inibiu alguns dos maiores palermas do universo de destilar teorias, confeccionar textões, juntar dois fatos irrefutáveis e transformar num pensamento que só poderia ter sido produzido por um fungo. Eu conheço um site cheio deles. É do ser humano querer ser melhor que os outros, de acordo com qualquer critério arbitrário que seja mais conveniente para o orador. Nem todo mundo pode ser mais bonito, ou mais forte, ou melhor atleta, ou melhor músico, ou sei lá o que. Mas todo mundo pode PARECER inteligente, e nem é difícil. É só treinar uma cara no espelho, ofender quem tem opinião diferente da sua, ser obcecadamente impermeável aos fatos que te contradigam e plim!, você sente seu ego se expandindo, sua auto-estima florescendo, talvez o bastante pra cobrir um pouco aquele vão.


Ser ignorante

Ué! Mas isso não é o oposto do tópico anterior?

De certa forma, sim. E a boa notícia é que esse é, de longe, o método mais eficiente. Olhe ao seu redor. Veja quantas pessoas vivem suas vidas obstinadamente, com extrema dedicação, sem nunca fazer a rodinha da chinchila parar de rodar. Quem disse que a vida não tem significado? Tem sim, eu li num lugar ali. Quem disse que eu não vou ter sucesso? Se eu quero, eu posso e consigo! Desistir jamais!!!!!!!!exclamação

Essa pessoa não faz ideia. PSIU, NÃO CONTA! Deixa. É melhor assim. Olha como ela sorri. Olha o instagram dela, tem aqueles emoji da mãozinha dando um soco. Isso é maravilhoso. Deixa.

Já pra você que está lendo isso eu tenho que trazer a má notícia: pra você já era. Você sabe demais. Esses olhos caídos e sobrancelhas arqueadas trazem muita sabedoria. Agora é tarde. E, se você começou esse texto sem saber, ops. Desculpa.

Mas já que está aqui, deixa eu te falar sobre o próximo módulo do meu curso de Emperdedorismo, é sobre um negócio que...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Senhor Oliveira

Há diversos pontos referenciais na vida de uma pessoa quando falamos de idade. O primeiro aniversário, o décimo, a maioridade. Depois eles se separam uniformemente a cada dez anos. Só que nenhum desses, nessa cultura de juventude eterna e maturidade quæ sera tamem, é tão temido e evitado como os 30 anos. Adivinha quem chegou lá, coleguinhas.

Euzinho, o amargurado, o desnutrido, o que está devendo textos aqui já faz um tempo. Tenho 30 anos agora e, nesse momento de dor e frescura, é necessário reavaliar toda minha vida, afinal não sou mais um menino. Não sou mais um menino! Sou agora um senhor, e como tal devo agir. Analisando observações e dados recolhidos nas últimas três décadas, eis tudo que devo fazer ou mudar para estar de acordo com o que se espera de mim agora. Senhoras e senhores, lhes apresento o Senhor Oliveira.

O Senhor Oliveira acordará cedo para ler o jornal e tomar um café. O Thiago e o Padula não gostavam de café, mas o Senhor Oliveira é viciado. O Senhor Oliveira terá ações na bolsa e fará piada com a situação da Petrobrás. Não ótimas piadas, porque o Senhor Oliveira é adepto do riso discreto, não da gargalhada descontrolada. O Thiago e o Padula gostavam de fazer os outros rirem, embora não com muito sucesso, mas o Senhor Oliveira prefere cativar o interlocutor fazendo-o admirar sua inteligência. O Senhor Oliveira terá opinião sobre tudo e sempre terá uma crítica na ponta da língua, normalmente negativa, normalmente saudosista.

O Senhor Oliveira comprará um carro e uma casa, e se afogará em dívidas. O Thiago e o Padula tem uma vida financeira bastante saudável, mas todo adulto que se preza precisa estar no vermelho, ter muitas coisas de que não precisa e argumentar que é foda, é tudo pela família ou por qualquer instituição maior que lhe aponte uma arma invisível para a cabeça. O Senhor Oliveira estará cheio de armas invisíveis, cheio de problemas. O Senhor Oliveira vai desenvolver um grau leve de alcoolismo e vai aprender a pescar, porque precisa desestressar, sabe como é, é tanto problema, ai essa vida é complicada.

O Senhor Oliveira terá hobbies (além da pesca) como aeromodelismo ou gastronomia. O Thiago e o Padula só sabem fazer pipoca de microondas, mas o Senhor Oliveira fará um pão com mortadela que huuuum. O Senhor Oliveira terá amigos que o Thiago e o Padula detestariam, e os encontrará a cada seis meses para falar mal do governo e dos problemas, ai essa vida é complicada. O Senhor Oliveira perguntará se é pavê ou pacomê.

O Senhor Oliveira delegará muitas tarefas, só pra depois reclamar e dizer que ninguém faz nada direito, se quer algo bem feito, faça você mesmo. O Senhor Oliveira usará muitos bordões da sua época e baseará todo seu repertório moral em frases de efeito e ditos populares. O Senhor Oliveira vai comprar um box com os DVDs do Changeman, vai achar uma bosta, mas vai se forçar a pensar que é bom, porque naquele tempo é que as coisas eram boas. O Senhor Oliveira vai soltar a franga nas festas de casamento e vai terminar a noite com um óculos do Zé Bonitinho na cara e a gravata enrolada na testa.

O Senhor Oliveira vai por uma capinha no celular.

O Senhor Oliveira virará roqueiro, passará a ir no Morumbi só de camarote e reclamará da fila no mercado. Eles deviam abrir mais caixas. O Senhor Oliveira diminuirá sua frequência de comparecimento a shows e paradoxalmente dedicará muito mais tempo a falar mal deles, de como a estrutura é ruim, o som é baixo, o refrigerante é quente. Ops, refrigerante é coisa do Thiago e do Padula, o Senhor Oliveira só tomará cerveja. A barriga do Senhor Oliveira será imensa. O Senhor Oliveira será politicamente incorreto, e vai se achar o perigosão. O Senhor Oliveira não fará ideia do que é desafiar o sistema, mas isso não o impedirá de reclamar horrores nas redes sociais. O Senhor Oliveira fechará esse blog, ou ao menos vai transformá-lo num espaço com curiosidades e dicas para consertar coisas da casa. O Senhor Oliveira terá uma caixa de ferramentas e a colocará no espaço mais nobre da estante, tampando o porta-retrato com a foto das crianças. O Senhor Oliveira vai sentir saudade de tanta coisa. Mas nenhuma delas vai voltar, porque nenhuma delas aconteceu com o Senhor Oliveira.

O Senhor Oliveira vai sentir uma vontade danada de ser o Thiago e o Padula.

sábado, 5 de julho de 2014

Um lugar na história



Eu sei que já escrevi isso por aqui antes, mas vamos lá: eu adoro Copa do Mundo. E apesar de essa estar sendo, até aqui, sensacional - ao menos desportivamente - eu ainda via um certo problema de encaixe histórico nessa seleção brasileira que não a credenciava ao título. E por "credenciar" eu quero dizer que eu não aceito, não com essa bolinha aí.

Estou sendo babaca, já aviso agora. O que eu quero dizer é que, dado o meu apreço pela história das Copas, eu posso tender a ser meio superprotetor com quem eu acho que tem o direito de ser campeão (e eu entendo que se há uma coisa que não tem o menor impacto nisso tudo é a minha opinião). Cada Copa precisa ser uma história, e cada campeão precisa ser um carregador digno dessa bandeira. Ou por se impor tecnicamente sobre os demais (Brasil em 58 e 70), ou por oferecer um desfecho trágico àquele que se impõe (Itália em 82, Alemanha quase sempre), ou por oferecer à conversa o grande craque que se torna o símbolo da conquista (Maradona em 86, Romário em 94, Zidane em 98). E a seleção brasileira dessa Copa de 2014 não tem nada disso: é um time fraco, não-competitivo e cujo tal craque ainda carecia de se demonstrar à altura da tarefa.

Mas então o Brasil jogou contra a Colômbia pelas quartas de final e fez uma boa partida, claramente melhor que as anteriores, claramente insuficiente ainda do ponto de vista técnico. A Colômbia era um grande adversário por ser, essa sim, uma seleção que já havia ocupado seu espaço na história. Vencê-la era um ponto fundamental para o Brasil almejar a mesma coisa, mas ainda não era tudo. Até que no segundo tempo de um jogo em que imperou a lei do sarrafo (de lado a lado) o lateral Zuñiga tentou subir uma escada invisível mas foi deselegantemente interrompido pelas costas de Neymar, encerrando a participação do craque canarinho na Copa que era pra ser sua. Zuñiga e seus familiares foram xingados e ameaçados de morte e outras violências naquilo que há de ser deus testando a humanidade e esta falhando miseravelmente. Faltam escolas no país, é verdade, mas tem faltado também a boa e velha educação que se recebe em casa.

Sem Neymar, lamento dizê-los, o Brasil é um time tão capaz de vencer uma Copa do Mundo quanto eu sou de namorar a Bruna Marquezine. E foi assim, com uma joelhada nas costas e uma lesão infeliz, que a seleção brasileira paradoxalmente se encaixou no fluxo da história e se tornou merecedora do título, ao menos nos meus exigentes critérios.

A seleção brasileira é muito ruim. Meu deus, horrível. Tem dois zagueiros fabulosos, mas também tem o Jô, provavelmente o pior jogador a calçar uma chuteira em todos os tempos, e olha que eu já calcei uma. Mas um time desses vencer a Copa, apesar de todas as suas limitações, impulsionado apenas pelo apoio popular e pela vontade de entregar essa taça a um dos seus (o que é bem diferente de vingança, seus filhos dumas puta) é justamente o que tornaria esse título espetacular, uma das melhores histórias a se contar sobre uma Copa do Mundo. Não seria o Brasil de 70 nem a Argentina de 86, mas seria melhor ainda: seria como o Uruguai de 50.

E isso seria provavelmente o desfecho mais poético de todos: ganharíamos finalmente o mundial em nossa própria casa, exatamente da maneira como perdemos a primeira vez. Dessa vez não seremos vítimas do Maracanazo, mas AGENTES dele. A partir de agora, eu estou proibindo qualquer outro time de ganhar essa Copa: seria um crime contra a história. O futebol é técnica e tática, mas é, antes de tudo, um livro cheio de páginas em branco. Seria escrotice escrever uma história ruim nele.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Orkut

Eu entrei no Orkut acho que em 2004, e me matei em 2005. Na época as coisas eram diferentes, redes sociais eram novidades e as pessoas até usavam termos hoje obsoletos como "web 2.0" e "urru novo jogo do Sonic". Pra entrar no Orkut você precisava ser convidado, uma dessas babaquices exclusivistas que existem desde sempre na internet porque tem pessoas que querem se sentir importantes. E pelas estalactites de mágoa que se penduraram na frase anterior você deve ter adivinhado que eu tive alguma dificuldade pra participar do negócio.

Não vou negar: eu acessei o Orkut do meu irmão e me convidei. Comecei minha carreira nesse universo das redes sociais como um larápio que ganha acesso a um local para onde não foi convidado porque esse mundo não foi feito para essa gentalha. E eu percebi isso depois de pouco tempo: o Orkut era como uma festa em que o único lugar confortável para você é o canto da parede. Era muita amizade, muita curtição, muitos scraps, muitos depoimentos. Eu só tive um depoimento: "Padula, você merece mais do que essa vida miserável que você leva". Obrigado, amigo.

Como eu nunca me dei mesmo à interação social, pulei do topo do prédio e enterrei meu crânio no esquecimento digital. Como diziam, se você não estava no Orkut você não era ninguém, e essa função me cabia melhor. Voltei às redes sociais vários anos depois, porque a gente envelhece e amolece, mas nunca me senti totalmente à vontade ou tive certeza de que estava me comportando direito (o Twitter deve servir pra mais coisas do que apenas xingar os jogadores do São Paulo gratuitamente, por exemplo). E então essa semana surgiu a notícia de que o Orkut será finalmente encerrado no dia 30 de setembro.

E eu criei uma conta nele.

Senhores, não quero ser palhação (embora eu seja) ou saudosista brega (embora eu seja embora eu seja). Mantenho minha posição inicial: esse mundo de gente feliz, sorte do dia e o que falar desse cara que eu mal conheço mas já considero pacas continua não sendo pra mim. Porque eu não gosto de gente feliz, não gosto de sorte, não gosto de dia e posso garantir que o melhor é que eu mal conheça esse cara, porque me dá mais uma semana e eu não vou gostar dele também. Mas vocês sabem o que é o Orkut hoje? Um mundo que já viu o apocalipse e agora vê o rastro vermelho do cometa vindo terminar com tudo.

Não há mais jovens e hormônios. Eu ando no chão poeirento e piso em cadáveres, em corações e gelinhos despedaçados, em gifs animados e flyers de balada. Eu vejo pessoas conhecidas congeladas, com a aparência de 10 anos atrás. Eu passo na frente de um grande coliseu chamado "Eu odeio as segundas-feiras", aos pedaços. O céu é sempre vermelho, o silêncio predomina.

Essa é uma rede social pra mim, caro leitor. Gélida, vazia, com todos os componentes que simulam um universo fantasioso adequado à minha imaturidade. Eu nem fico zanzando, procurando conhecidos ou explorando comunidades. Só fico lá, no silêncio. É agradável. E o fim do mundo é um cenário que me fascina - não lembro se postei aqui sobre isso, mas já escrevi uma música -, de modo que eu não poderia escolher um lugar melhor pra sentar numa cadeirinha de praia e ver o horizonte se desmanchando.

Óbvio que nada disso vai acontecer de verdade, mas essa é uma das vantagens de ser um bobão: as coisas são bem mais legais na minha cabeça.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Gol roubado


Quando estreou na Copa de 2002, a seleção brasileira venceu a Turquia com um gol descabeladamente roubado, e eu não comemorei. Na verdade, não comemorei mais nenhum gol até o jogo contra a Bélgica, que também se viu prejudicada pelo apito amigo verde e amarelo. Sendo assim, também não vibrei com o segundo gol do Neymar hoje, fruto de um pênalti tão sem vergonha que vai conhecer os pais da namorada e bebe o whisky do sogro e passa a mão na bunda da sogra. E não me agitei no gol do Oscar, mas isso pode ser porque eu odeio esse filho da puta e quero que o calção dele pegue fogo na hora do exame antidoping.

Mas se fosse um jogo do São Paulo, olha só, a história seria outra. Se o tricolor ganhasse de 5 a 0 com cinco gols roubados eu comemoraria todos eles e no final ainda beijaria o juiz (se eu torcesse pra outro time seria só a parte da comemoração). Mas isso não porque eu quero que o São Paulo ganhe, mas porque eu PRECISO que o São Paulo ganhe. É uma questão de saúde, naquele ponto em que você tolera pequenas desonestidades em troca de algo mais importante, como a mãe que rouba comida pros filhos não passarem fome.

Só que a seleção é a minha possibilidade de acompanhar o futebol como ele deve ser visto: de maneira saudável, amigável, bacana, sem que eu termine com tremedeira ou apontando uma faca pra garganta de alguém. É minha chance de conhecer o que há de maravilhoso no futebol, de vê-lo como um bolo de chocolate e não como um cachimbo de crack. E aí, já que eu estou de turista no Pão de Açúcar do esporte e sou uma pessoa fundamentalmente honesta, me dói ver esse tipo de coisa: o cara que se joga no chão, o juiz que é um jumento, o adversário que jogou limpo e levou no cu mesmo assim.

Claro que eu não acho que a Copa está comprada e esse tipo de coisa. Você pode dizer que eu sou inocente, mas vou lembrá-lo de que eu sou mais esperto que você. Mas, poxa vida, com tanta coisa escrota envolvida no planejamento, na execução e no submundo político da Copa, a única coisa que salva nela - o esporte em si - devia rolar sem peso na consciência depois. Vejamos o que vem daqui pra frente.

(na categoria karma ruim vale lembrar que depois de levar aquela Copa com o gol de mão do Maradona a Argentina nunca mais ganhou nada, então cuidado aí)

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Por que eu vou torcer pelo Brasil na Copa

Quatro anos atrás, nos dias que antecediam a Copa da África do Sul, eu publiquei um texto chamado "Por que eu vou torcer pela Argentina na Copa", motivado por essa mania besta em período pré-mundial de despejar sentimentos negativos em cima dos vizinhos que além de não ter nada a ver com a baixa autoestima do Galvão Bueno ainda sequer podem ser considerados um rival à altura da seleção brasileira, convenhamos. Esse post também é um dos campeões de audiência do blog, ganha um doce quem adivinhar o motivo.

E então não deixa de ser divertido perceber que quatro anos depois eu não só estou repetindo o assunto como ainda estou mudando o objeto do post para, justamente, a seleção do país onde eu nasci. São circunstâncias do tempo. Torcer contra a seleção não é mais apenas a melancia no pescoço do sujeito que é meio pamonha e precisa chamar a atenção, agora é uma posição política, um manifesto contra os absurdos feitos e desfeitos nos últimos sete anos por quem deveria fazer dessa Copa um evento que colocasse o Brasil de vez no primeiro escalão nas nações do mundo. Foda-se a Copa, eles bradam, foda-se a seleção brasileira! Um professor vale mais que o Neymar!

É por todo esse contexto e essas circunstâncias que eu achei que devia, portanto, esclarecer a minha posição. Dados todos os acontecimentos e o peso político do maior torneio do maior esporte do maior planeta rochoso do sistema solar, eu decidi vir a público esclarecer por que eu vou torcer pelo Brasil na Copa:

Porque eu quero.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Barcelona x São Paulo: a batalha final

Cheguei da minha superviagem há três dias e ainda estou tendo que me readaptar aos costumes de nossa terra natal (pra ser exato, o meu relógio biológico é que ainda está no fuso horário errado). Mas passada a euforia que se apodera de nós no momento do retorno e o consequente banho de água fria com duas horas pra sair do aeroporto + uma hora e meia de trânsito + o chuveiro pegar fogo + gripar, agora já dá pra avaliar melhor as características principais da adorável cidade de Barcelona. E, como tudo fica mais fácil de compreender a partir de uma referência, decidi por a capital da Catalunha e a capital do estado de São Paulo para competirem numa batalha intensa e sangrenta pelo título de melhor cidade em que eu já passei mais de uma semana (são as únicas).

Vamos às regras: as cidades competirão em uma série de categorias, sendo desde conceitos gerais até desafios específicos. A cidade que vencer a categoria ganha um ponto, e ao final do post vence quem tiver mais pontos. Simples.

Já aviso aqui que não pretendo ser parcial ou piedoso. Meus critérios são muito sólidos e meu julgamento se baseará somente em fatos, evidências, números. Nada de opiniõezinhas, nada de "eu acho que". Estamos lidando com coisa séria aqui.

Sem mais, vamos à SUPERTAÇA MUNDIAL DE CIDADES 2014 (clap clap clap clap clap):


FC Barcelona x São Paulo FC

Primeiramente devo explicar que, embora haja mais equipes de futebol em cada uma das cidades, eu escolhi apenas as relevantes (ninguém ia querer ver um desafio entre Espanyol e Palmeiras, pelamordedeus). O Barça é o orgulho da cidade: em toda esquina há uma loja oficial do clube, e entre as esquinas há diversas lojas vendendo produtos piratas. Fundado em 1899, é hoje um dos maiores clubes da Europa e o maior vencedor do continente nos últimos anos. Sua camisa já foi vestida por craques históricos como Maradona, Romário, Stoichkov, Laudrup, Ronaldinho Gaúcho e Messi e o Camp Nou, seu estádio, é o maior da Europa. Foi bucentas vezes campeão espanhol, duas vezes mundial e os quatro títulos europeus são expostos com destaque e orgulho no museu do clube.

Mas nada disso os impediu de levar dois cacetes do São Paulo de Telê e Raí.

Ponto para São Paulo.


Tibidabo x Pico do Jaraguá

O Tibidabo é uma montanha que recorta toda a margem oeste de Barcelona, o que é particularmente útil quando você é um turista panaca que vai entrando em qualquer viela e não sabe como voltar depois. No topo da montanha tem uma igreja, no topo da igreja tem um Jesus, e lá é alto pra caralho. Também tem um parque de diversões, o qual eu só olhei a uma distância segura porque, como eu já devo ter escrito aqui alguma vez, eu morro de medo de montanha russa.

E o Pico do Jaraguá, ah, quem nunca foi lá? Tem antenas, tem algodão doce, tem patos (tem patos? faz muito tempo que não vou). O Pico do Jaraguá é o ponto mais alto da cidade e eu estou enrolando aqui pra arrumar coisas pra falar sobre ele.

Mas, entre os dois competidores, apenas um deles foi citado num episódio de Friends. E aí fica difícil eleger outro vencedor.

Ponto para Barcelona.


Vendedores ambulantes, parte 1: cerveja

A principal razão de eu ter feito toda essa viagem foi um festival de música que, a exemplo de todos os outros festivais de música do mundo, não tinha o Volto Logo Joyce no seu line up. E, vocês sabem, ao redor de eventos assim sempre há os ambulantes vendendo bebidas a preços menos abusivos que os praticados depois do portão. E lá em Barcelona os caras simplesmente seguram uma latinha na mão (ou aquele six-pack, com um bagulho de plástico unindo todas) e ficam dizendo "beer. beer." SEGURANDO A CERVEJA QUENTE SOB UM SOL DE 18 GRAUS (lá isso é muito).

Em São Paulo as bebidas ficam geladinhas dentro do isopor, e além de cerveja você pode comprar refrigerante e água, muito embora a água possa ser somente o gelo do isopor que derreteu. Evite a água.

Ponto para São Paulo.


Vendedores ambulantes, parte 2: apito

Ao caminhar pelos espaços mais dados ao comércio e ao turismo, como La Rambla e a rua 25 de março, você encontrará, é claro, vendedores de todo tipo de merda que só alguém muito idiota compraria (voltei com uma mala cheia). Um dos produtos em comum é um tipo de apito que você põe entre os dentes e faz barulhos divertidos - e eu só não digo que é um kazoo porque eu não sei se é, mas parece um bocado. Em Barcelona, a batalha pela atenção dos turistas provoca um festival de talentos entre os vendedores, cada um improvisando uma canção diferente e mostrando toda a versatilidade de algo tão pequeno e aparentemente simples, numa bela mensagem de que a criatividade supera todas as limitações.

Em São Paulo, todos - absolutamente todos - os vendedores usam esse apito pra gritar "ai titiiiiaaa".

Ponto para São Paulo (porque família vem acima de tudo).


Gente bonita

Aqui temos um exemplo da seriedade dessa competição. Outra pessoa poderia dizer que as pessoas em Barcelona são obviamente mais bonitas, que parece que você é figurante num seriado de televisão, que se apaixonou por todas as mulheres e que com alguns homens até considerou que a homossexualidade não fosse uma má ideia. OUTRA PESSOA diria isso, OUTRA PESSOA! Mas não eu. E por que?

Porque, amigos, a beleza exterior não importa. É tão frágil quanto uma vaca num furacão, tão perecível quanto uma camiseta nova lavada pela moça que faz limpeza aqui em casa. O que importa são os valores, é a bondade, a lisura, a educação, a honestidade, a amizade. Isso dura pra sempre. Beleza exterior é masturbação, mas beleza interior é amor verdadeiro.

Empate.


Conscientização política e social

Em São Paulo, principalmente desde junho do ano passado, o povo não é tímido ao ir às ruas demonstrar sua insatisfação contra tudo que lhe aflige. Protestam por diminuição na passagem do transporte, por melhor educação, por mais salário para os professores, pela legalização da maconha, contra o racismo, contra a homofobia, contra o machismo, contra desapropriações, contra a corrupção, contra a maldade, contra dores de garganta, contra esses eventos engraçadinhos do Facebook, contra gente que faz uma lista imensa de coisas e dá uma indireta sutil lá no meio porque não é homem pra falar na cara. O paulistano não aceita desaforo, porque é só acontecer algo ruim e nós vamos para a rua pintar nossa cara e tirar selfies e postar com a hashtag #vemprarua.

Em Barcelona, nos nove dias em que estive lá, vi três manifestações: uma alertando o mundo para as coisas horríveis que acontecem na Venezuela, com diversos cartazes mostrando números que denunciam a situação do país; uma com o mote Free Biafra, pedindo a independência da região que fica ao sul da Nigéria e que já foi um estado soberano entre 1967 e 70, mas acabou sendo reincorporada ao restante do país graças à ferramenta diplomática mais poderosa que existe: a porrada (e é óbvio que eu pesquisei tudo isso na wikipedia, na hora achei que fosse o fã clube africano do Dead Kennedys); e uma, essa sim finalmente dos cidadãos catalães, pedindo cadeia para os corruptos e coisa e tal.

Ou seja: enquanto o paulistano tem grande consciência política e não se deixa ser ofendido pelos poderosos, o barcelonês é apenas uma marionete do governo, que compra a submissão de seu povo com suas ruas limpas, seu transporte que funciona, sua educação privilegiada, sua qualidade de vida. Alienados! Vendidos!

Ponto para São Paulo.


Altitude

São Paulo: 760m
Barcelona: zerooooooo

Ponto para São Paulo.


Resultado final

E ao final de nossa competição, São Paulo tem 5 pontos enquanto Barcelona tem apenas 1. Uma senhora lavada, que apenas comprova o que vocês todos provavelmente estavam pensando desde o início do post: as cidades europeias podem até ter estudado nas melhores escolas particulares, mas nunca serão aprovadas no vestibular da vida.

Encerramos aqui nossa transmissão. A seguir, provavelmente muitos textos sobre futebol porque a Copa vem aí. Fique conosco.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Feira das nações

Barcelona me surpreendeu em alguns aspectos, mesmo eu tendo feito uma pesquisa relativamente decente durante os meses que antecederam essa viagem. Uma dessas surpresas, por exemplo, está na beleza da cidade: ela é muito, muito mais bonita do que eu esperava, e olha que minhas expectativas eram altas. É verdade que talvez o meu senso estético possa ser colocado em avaliação aqui, já que eu também acho bonito o centro de São Paulo e o primeiro modelo da Variant, mas vamos em frente.

Outra coisa que eu não esperava, apesar de conhecer o caráter turístico da cidade, é que a incidência de turistas fosse tão alta. E de lugares tão distintos. Por exemplo, tem muito turista em Aparecida do Norte, mas o máximo que você vai ouvir é uns sotaques diferentes e pronto. Aqui tem tanto viajante e eu ouço tantos idiomas diferentes na rua que ainda não sei identificar nem a língua oficial da cidade, o catalão.

Mas com base em certos aspectos como o idioma, a cor da pele e a bandeirinha bordada na mochila, dá pra perceber vários grupos de nacionalidades diferentes, e nisso tirar umas conclusões rasas ou avaliar aquelas imagens que chegam até nós pelas poucas informações que recebemos desses outros povos e culturas.

A língua que eu mais ouço aqui, depois do castelhano, é o inglês. É tão comum que agora eu só converso em inglês, porque a vida fica bem mais fácil. E uma coisa que deu pra notar é que crianças inglesas invariavelmente soam como almofadinhas irritantes paus no cu. Isso pode ser só reflexo de uma juventude inteira assistindo filmes que gozavam desse perfil, mas que parece, parece. A criança pode falar qualquer coisa (tipo "tá gostoso esse sorvete, hum") e eu já quero gritar pro pai "porra, ponha limites nessa criança!".

Outro grupo que tem bastante aqui, e hoje eu vi tantos que pensei ter acordado na cidade errada, são japoneses (e a tal cidade errada é São Paulo mesmo, no bairro da Liberdade). Eles são muitos. Hoje eu vi tantos no museu do Picasso que as únicas razões que pude pensar é que ou o Picasso é um popstar tipo Romero Britto no Japão ou eles confundiram com Pikachu.

Entre as línguas que eu não identifico, os mais populosos são os alemães (e por "alemão" eu considero "todo aquele que tem a cara branca, o cabelo loiro e fala grunhindo"). Não sei o que dizer deles, não me importo. Eu já vi alguns russos, e devo dizer que me desapontaram um pouco, porque nenhum deles fez nada bizarro como estou acostumado a ver nos vídeos. Hoje vi também uma caravana da Noruega, de umas 40 pessoas. Existia uma história (que não sei se é real) que a média de idade da população na Noruega era tão alta e a taxa de natalidade tão baixa que eles passavam propagandas eróticas no horário nobre pra incentivar o coito nas pessoas. Vamo procriar, galera. O que eu posso dizer, na minha limitada experiência, é que o mais novo desses 40 deve ter, chutando baixo, uns mil e duzentos anos. São muito assombrosamente velhos. Acho que se você emendasse eles todos numa sequência na linha do tempo daqui pro passado, um de cada vez, o primeiro estaria flutuando no espaço porque ainda não haveria Terra.

E há os brasileiros. Aparentemente Barcelona é um destino para famílias, porque a configuração padrão que eu encontro é pai + mãe + filha encalhada. Já vi também casais com crianças e um casal em lua de mel - e eu sei disso porque, no livro que fica na saída da exposição que mostrava a tenebrosa época em que o General Franco surrupiou da Catalunha toda sua identidade e a encheu de nazistas e fascistas, eles escreveram "Ana e Luis estiveram aqui em lua de mel <3" e eu fiquei meio contrangido porque não consigo imaginar nada mais inapropriado pra escrever, tirando aquela vez que o Justin Bieber visitou a casa da Anne Frank e escreveu que, se ela vivesse hoje, seria uma belieber. Fora do padrão, encontrei só dois amigos que desciam uma ladeira cantando Hello Goodbye. É verdade que eu tenho vontade de abraçar os brasileiros aqui (e as pessoas que cantam Beatles em qualquer lugar), mas eles eram jovens e homens, então nah.

Ah, e há também os com a camisa do Corinthians, porque pelo visto não há lugar no mundo livre dessa desgraça. Eu disse que Barcelona me surpreendeu, mas não falei que era positivamente.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Homem não chora

É sabido, cá entre os habitantes desse planeta, que homem não chora. Ou que não deve chorar, pra ser mais preciso. É uma imposição de conduta, como tantas outras com as quais a gente se habituou a viver, e baseia-se na ideia de que não é produtivo nem abonador para um humano do sexo masculino demonstrar emoções, pois todo homem deve ser um deserto sentimental, uma muralha psicológica e uma máquina no cumprimento de suas funções de macho, porque, sabemos, é bem difícil caçar antílopes com os olhos cheios d'água.

Mulheres choram. Mulheres tem lá seus hormônios, tem lá seus sentimentos, mulheres são frageizinhas, ui, que florzinha. E homens não podem ser como mulheres, porque precisam ser melhores pra manter de pé toda essa estrutura paternalista que precisa existir, porque vai que desaba isso e o mundo vira um lugar melhor. Nem pensar. Então desenhamos nossa complexa arquitetura das atribuições de cada gênero na mecânica da sociedade, em que o homenzinho (representado pela cor azul) não chora e a mulherzinha (representada pela cor rosa) chora um bocado, enquanto lava nossas roupas e põe nossas cervejas no congelador.

Só que o mundo não é assim tão simples e as convenções mudam ou se desencaixam com o estado corrente das coisas, então há os homens que choram, seguros de seu mapa emocional, despreocupados com o tribunal social. Bom pra eles. Mas, ainda que amolecidos os padrões, se você é um homem e tem essa mania besta de fazer escorrer água pelos olhos, precisa dessa confiança no seu próprio taco.

E o que fazer quando você não é lá muito seguro mas chora feito um pano molhado sendo torcido? Eu tenho um amigo (não vou citar nomes, ele prefiro ficar anônimo) que chora mais do que é recomendado não só para um homem, mas também para uma mulher, para uma criança e para um cavaco numa feijoada no sabadão. E não é que ele chore porque é triste e o mundo é cruel, é quase um protocolo de reação solitário. Ficou confuso, mas vou explicar melhor.

Esse meu amigo tem essa mania boba, coisa de quem levou surra de menos e assistiu Chaves de mais, de responder tudo com piadinha, com comentariozinho sem graça. É como um tenista que, mal preparado nas categorias de base, só devolve a bola de um jeito. Mas e quando não é exatamente tênis, pois não há uma contraparte? Quando tem uma máquina cuspindo bolas do lado de lá, mas não tem pra quem ele rebater? Ele chora.

Tá vendo um filme, e o filme é triste: chora. O filme é feliz: chora. O filme é uma merda: chora. Não acontece nada no filme: chora. Vê um episódio de uma série, alguém consegue um objetivo: chora. Alguém não consegue: chora. Alguém se apaixona: chora. Alguém é eleito presidente das Doze Colônias: chora. Ouve uma música triste: chora. Ouve uma música bonita: chora. Ouve uma música ruim: troca de música, também não é assim.

E ele só chora quando está sozinho em um espaço fechado e sem risco de ser flagrado. Não porque em público ele saiba se controlar; na verdade, é justamente por isso que toda fruição de entretenimento ele faça sozinho. No cinema ele vai pouco, mas tá escuro e dá pra disfarçar. Em shows ele dá umas escorregadas também e eventualmente canta "you're asking me will my love gro-o-o-ow" entre soluços, mas também dá pra esconder um pouco. De resto, sua persona pública mantém os olhos secos, o coração duro e as emoções trancadas, porque ele tem uma reputação a zelar e não vai pegar bem se as pessoas começarem a achar que ele é mole desse jeito. Não, esse meu amigo é machão, carrega a bandeira da tradição masculina de outrora, do tempo que homem não chorava, não amava e não depilava o peito. Deu a impressão que esse lugar reservado onde meu amigo chora é dentro de um armário, mas também não é por aí.

 O caso é que nem o mundo está muito preparado para um banana sujeito sensível desses nem esse pamonha sujeito está muito preparado para esse mundo. Mas esse meu amigo se permite sonhar, sonhar com um dia em que ele possa chorar na rua sem ser recriminado, com um dia em que ele não precise usar sua rinite pra disfarçar os olhos molhados. Com um dia em que ele possa escrever na primeira pessoa.

Ou ele pode parar de ser otário, mas tá mais fácil o mundo mudar primeiro.

sábado, 22 de março de 2014

Dodói

Se tem uma coisa que eu gosto a meu respeito (disse "se", não é certeza que eu goste de algo) é que, apesar do meu físico frágil, do meu psicológico tênue e do meu histórico de patologias na infância, hoje em dia é bem difícil eu ficar doente, sabe-se lá por que milagre. E considerando também a minha alimentação (nenhuma) e atividades físicas (nenhuma), posso dizer que sou, eu mesmo, uma afronta à indústria farmacêutica.

Explico: não é que eu e a dona indústria tenhamos grandes conflitos não resolvidos (na verdade, tenho que agradecê-la pela ridícula melhora da minha rinite), é só que, na medida do possível, eu me recuso a tomar remédio. Hoje, e desde alguns dias, estou com uma leve gripinha, nada muito grave. E não, não tomarei remédio por causa disso. Poxa merda, pra que eu vou ficar mimando meu sistema imunológico com presentes e Attack +10 se isso certamente vai criar pra mim lá na frente um grande problema? Na hora que a coisa apertar, se não houver remédio, se o remédio não der conta, como eu espero que meus soldados vão enfrentar o perigo sem o auxílio do dopping? De que adianta ter uma equipe de Lance Armstrongs se na hora do aperto eles precisam de bicicletas com rodinhas pra correr?

Então não, não tomo. Se puder evitar, tô fora. Assim, meu corpo fica forte (por dentro, por fora eu ainda preciso inventar pra moça do trabalho que eu desloquei o pulso e por isso não posso levar o galão de água da cozinha lá pra sala) e eu só fico doente a cada volta completa de Urano ao redor do Sol.

Isso tem alguma base científica? Não, nenhuma (até porque desde que eu nasci Urano não chegou nem perto de completar a volta). Eu recomendo para as outras pessoas? Não, não venha dizer que a culpa é minha. Mas estou bem, estou vivo, estou quase sempre gozando de perfeita saúde, apesar de contrariar todos os bons conselhos da medicina e da minha mãe (em ordem crescente de sabedoria). Então vocês avaliem aí se esse negócio de ficar engolindo remédio para cada dor no cílio é mesmo uma boa estratégia (mas qualquer que seja a conclusão, não me responsabilizem).

Claro que eu tenho só 29 anos e que muita coisa ainda pode acontecer e que, se todos esses milênios de avanços científicos serviram pra alguma coisa, tudo isso vai cobrar seu preço lá na frente e um belo dia eu estarei andando na rua e de repente meu olho vai cair, meu pé vai virar ao contrário e minha cabeça vai ficar do lado da minha virilha. Mas até lá: chupa Pfizer, chupa Novartis, chupa Aché.

Aí acontece igual no Jardineiro Fiel e eles me matam.

terça-feira, 11 de março de 2014

Professor Futebol

Quem gosta de futebol ou pelo menos acompanha os noticiários sabe que nas últimas semanas apareceram alguns casos de racismo, em jogos na América do Sul e mesmo dentro do Brasil (na Europa tem todo dia, nem é notícia mais). Também começou-se uma discussão tímida sobre homofobia após os gritos da torcida corintiana direcionados aos são paulinos (que não é um tratamento exclusivo dos alvinegros paulistanos, diga-se) e vez ou outra uma árbitra ou auxiliar mulher comete algum erro e o machismo vem abaixo.

Os argumentos que relevam ou defendem os fatos baseiam-se naquela história de que foi sempre assim, futebol é isso mesmo, pra provocar o rival vale tudo e tal. E a provocação é o combustível do jogo, concordo: futebol sem zoeira é igual esporte olímpico. Mas acho que pra um esporte que goza de tanto prestígio, influência, importância e adoração popular, passou da hora de deixar de ser apenas esse microcosmo de isolamento moral onde certas coisas são permitidas desde que dentro daquele contexto. Tá na hora do futebol ser exemplo.

Ora porra, vejamos: muito dinheiro é investido no futebol, seja privado, seja público (no último caso é o seu próprio dinheiro, no primeiro caso é de olho no seu próprio dinheiro). Atletas e parasitas associados ganham muita grana, fama, poder, admiração. São parte essencial do movimento popular cotidiano e alvo da dedicação de todo tipo de gente, esses idiotas apaixonados por um esporte babaca que somos nós. E só o que o futebol dá de volta é "entretenimento"? É só esse cirquinho? Tirando ações filantrópicas de atletas mais abonados (muitas vezes mais pelo evento que pela causa) e aquela velha dinâmica do menino-que-poderia-estar-roubando-mas-se-encontrou-no-esporte, o que diabo o futebol realmente entrega pra sociedade que dá a ele sua alma?

Bosta nenhuma, eu digo. E chega dessa porra. É pouco, é nada. Uma máquina dessa proporção, com braços desse tamanho, tem que fazer muito mais. O potencial do futebol para melhorar a sociedade ao seu redor é imensa. Mas ao invés de cobrarmos dele exemplos, entregamos (ao jogo e a nós mesmos, torcedores circulando o gramado) apenas privilégios, o direito de xingar o outro de macaco, de viado, de vagabunda, o direito de chamar o outro de favelado como se isso fosse ofensa, o direito de sentar o dedo no cara da camisa de outra cor sem precisar responder por isso. O futebol deveria ser um instrumento para explicar pra um mundo cada vez mais atrasado e pra essas crianças que veem os seus Batmans no gramado de meião e chuteira que provocar é uma coisa, tirar sarro é uma coisa, ser intolerante com a condição alheia é outra.

E não é só porque eu tenho horror a esse humor de estereótipo, e também não é que eu seja o torcedor de comportamento ideal (e há exemplos - 1, 2 - no blog), o caso é que o futebol é uma delícia e é ótimo como expurgador de demônios. Só que ao invés desses demônios morrerem, eles vão se aconchegando nos espaços vazios da arquibancada e trazendo o pior de cada um de nós à tona. E, meu amigo, se a sociedade já é feia quando finge ser civilizada, imagina quando se deixa levar. Talvez haja um dever social muito maior aqui do que o próprio jogo, e já é mais que hora de fazê-lo prevalecer, sendo você um torcedor, um jogador, um cartola, um profissional da imprensa.

E se há quem diga que isso deixa o futebol chato, eu rebato: se você acha chato um jogo como esse Corinthians x São Paulo do último domingo só porque não pode expressar seus preconceitos em voz alta, seu problema não é com o futebol. Acorda.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

As brigas que eu perdi

Na quinta série eu fui pra manhã, não me lembro por quê. Mas lembro por que voltei para a tarde, no começo do segundo semestre: o meu relógio biológico decidiu que 9 da manhã não era hora de estudar, era hora de mandar um barro. E isso numa fase da vida em que você precisa de autorização pra ir ao banheiro não é a melhor combinação.

O campeonato de futebol interclasses era o maior evento da escola, e naquele ano ele seria grande e brutal: entre a quinta série e o primeiro colegial, todo mundo era adversário. O time da minha sala matinal era bom, pra uma quinta série, e eu era o goleiro. Às vésperas do campeonato começar vieram me dizer que eu seria reserva, porque o Felipe ia ser o titular. O Felipe era da panela e eu não (não que eu não tenha tentado me enturmar: virei goleiro só pra ser aceito, queria mesmo era jogar na linha), e aquilo me deixou meio cabreiro porque eu era muito melhor do que ele. E quando eu mudei pra tarde, todo mundo teve certeza que eu tive um ataque de estrelismo, que não aceitei a reserva. Claro que eu preferi confirmar essa versão.

No primeiro dia à tarde, ainda que eu conhecesse quase todo mundo, as coisas mudaram. Mudou a organização social, mudaram os pelos faciais, mudaram as vozes. Fiquei seis meses fora e não pertencia mais àquele lugar. Tanto que no recreio eu fiquei no canto do pátio comendo Foffy's (lembra?) com o Fernando, que era um cara da sexta série que tinha paralisia e não era muito aceito pelas outras crianças da ilha do Senhor das Moscas.

À época das inscrições para o campeonato tinha gente suficiente na minha sala para duas equipes. Sendo a escola um regime de castas, ia ter um time com os melhores e outro com o resto. Como eu era novo, fiquei no time B, junto com os gordos e os gêmeos. O time A já tinha um goleiro, outro Felipe, e esse era meu amigo desde a primeira série e jogava muito melhor do que eu. Como eu nunca gostei desses filmes infantis em que o bando de pernas de pau (que tem o gordo, o japonês, o nerd e a menina, no nosso só faltava a menina) vira um fenômeno do esporte, tentei cavar um lugar no time principal, e consegui depois de mostrar meus talentos futebolísticos em um contra. E, dessa vez, eu ia jogar onde eu queria: na linha.

Caímos no grupo da morte, com a 7ªB, a 8ªA e o primeiro colegial. No primeiro jogo, contra a sétima, muito estudo, muita tática, um a zero pra gente, UM A ZERO PRA GENTE! É possível, vamos lá, vamos... levar uma lavada. 19x1.

O time B da sala estreou, justamente contra a quinta série da manhã, aquela que me desdenhou pelo frangueiro. Foi um massacre. 26x2 pro time da manhã, e eu só pensava que eu não teria tomado aqueles dois gols. O time B nunca mais voltou a quadra depois daquilo, perdendo os dois próximos jogos por W.O.

Mas nós persistimos, e no próximo jogo, contra os metaleiros maconheiros do primeiro colegial, tivemos uma tremenda evolução: perdemos por apenas 17x2. A partir desse momento, nossa briga não era pela classificação, nossa briga não era contra as outras turmas: éramos nós e o outro time da sala, fugindo da honra de ser o pior time do torneio.

Como eles desistiram dos outros jogos, acabaram jogando delicadamente em nossas costas o fardo de ser a defesa mais vazada do torneio. Fomos para o terceiro jogo, contra a 8ªA, e não foi fácil. Eu era muito pequeno, mesmo pra minha idade, e garotos de 14 anos são infinitamente maiores que os de 11. Num lance em que eu estava no gol (no desespero, posições mudam porque vai que um milagre acontece desse jeito) trombei com um desses seres humanos infinitamente maiores e fiquei com uma cicatriz no cotovelo que carrego até hoje. Em outro, levei uma bolada nas costas que o professor teve que paralisar o jogo pra ter certeza de que eu não ia morrer. Acabou a partida e ninguém nem sabia o placar, tamanha a surra, e o professor precisou ficar contando na ficha. Quando ele anunciou, 25x3, eu comemorei. Todos riram, acharam que a bolada nas costas tinha mexido com a minha cabeça, mas a verdade é que, pra mim, foi uma vitória: no único campeonato que nos importava, quem levou a maior goleada não foi a gente. Chupa, time B.

O campeonato seguiu, nós não, e o time da 8ªA sagrou-se campeão, com o da 7ªB em segundo lugar. No ano seguinte, num surto de lucidez, o professor dividiu em dois campeonatos, um para as quintas e sextas séries, outro para a sétima em diante. Dessa vez, chegamos à final, e perdemos por pouco (graças a um frango meu, vejam a ironia). Mas esse parágrafo não importa.

Importa que essa campanha trágica de humilhações e falta de ar ensinou-me, ainda aos 11 anos, uma das mais valiosas lições sobre a vida: o importante é que tem alguém se fudendo mais que você. E, se isso nunca me empurrou à beira do precipício para testar meus limites e evoluir à base de superação, também me permite estar muito mais à vontade com as circunstâncias da vida (na maior parte do tempo, pelo menos). Eu nunca vou ficar chorando no canto porque não escrevo como o Gabriel García Márquez e ainda vou ter um leve regozijo toda vez que ler alguém terminar uma frase com dez pontos de exclamação ou escrever "concertesa". Pequenas vitórias, é isso.

Mas não sigam meus conselhos, sonhem alto. É que toda vez que eu tento fazer isso vejo a cicatriz no cotovelo, e minha resistência à dor é meio baixa, sabe.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Falar do tempo

Eu não sou um cara viajado, ao menos não dentro do planeta Terra, e mesmo nos lugares em que estive não passei grandes temporadas. Sendo assim posso afirmar, com todas as letras (embora eu não precise de todas, não preciso do k, nem do y, nem do z) que eu nunca passei tanto calor nessa bosta dessa vida. Eu sei que São Paulo não é assim o Rio ou Cuiabá ou Manaus, mas puta que me pariu, não tô dando conta.

E não uso isso apenas como expressão: já considerei o suicídio como fuga desse reinado de satanás ao menos três vezes. Hoje. Porque se é pra viver suando feito uma panela de pressão, com a roupa molhada, a pele vermelha e chegar ao ponto de preferir ficar no trabalho a ir pra casa porque lá tem ar condicionado, eu prefiro não. Abro mão, adeus.

Não é só que a temperatura subiu um pouquinho, é possível ver outros sinais que indicam alterações drásticas na maneira como nada a vida na Terra. Por exemplo, o fato de que à noite faz tanto calor quanto durante o dia é óbvio indício de que não só o segundo sol chegou para realinhar as órbitas dos planetas como ele é negro e joga seus tentáculos de nanquim sobre nossas cabeças para nos fazer pensar que é noite e o sol - o único que conhecemos - está do outro lado do globo espalhando caos e miséria sobre os habitantes de um hemisfério coirmão. Os insetos não só cresceram em quantidade como em tamanho. Já viram os tamanhos dessas baratas? Outro dia eu calcei uma achando que era meu chinelo. Tem pernilongo que entra no meu quarto de madrugada e eu percebo sua presença não pelo bzzz característico (já que eu uso um protetor no ouvido), mas pelo vento que se choca contra o meu rosto, provocado pelo bater das asas desse monstro voador. E eu posso estar enganado, mas tenho a impressão de que outro dia vi, durante uma madrugada de insônia (quem consegue dormir?) a silhueta de uma iguana gigante recortada pelo luar.

São Paulo sempre foi um deserto de gentileza, pontilhado por cactos que são prédios com todos os apartamentos esgotados já na planta, onde sonhos são enterrados na areia e corações rolam e pingam no chão carregados pelo vento. Mas estava bom quando era só na metáfora: isso aí, esse inferno, esse sol a um palmo das nossas cabeças, isso aí num dá não, vocês me desculpem. Vou corrigir meu déficit de viagens do primeiro parágrafo, juntar meus trapos e meus videogames e pegar o primeiro trem pra Groenlândia. Porque só na minha cabeça a melhor maneira de combater esse calor é viver num frio muito pior que tudo que eu já vi na vida.

O que me segura aqui entre vocês é a tubaína que está no congelador, esperando sua hora de estalar na minha boca. Ela é o meu oásis. Mas o dia que faltar ela no mercado, aí é adeus mesmo, pergunte à minha mãe se no céu tem ventilador, e morri.

Mas se me mandarem pro inferno, lascou.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Como eu sofro

O sofrimento humano é, sob a ótica dos manuais de autoajuda e mensagens mal diagramadas do Facebook, algo a se expurgar, uma mancha cinzenta sobre nossa imagem de mundo colorida e ensolarada que precisa ser raspada de lá. Essa é a versão oficial que consta no nosso guia de julgamentos a respeito das coisas da vida: sofrimento é mau, ponto.

Mas, curiosamente, ele também carrega algo muito positivo (e cobiçado): status. E não é de hoje: cicatrizes de guerra sempre pintaram sobre a pele de qualquer cabeça-fraca-maluco as marcas da honra, e todos viam e diziam "esse cara sofreu muito, esse cara é bacana". Funciona também metaforicamente, vejam o Ronaldo, o ex-jogador, que traiu a namorada grávida com três travestis e ainda assim era visto por muitos como um exemplo de vida porque fez uns gols no Santos depois de arrebentar o joelho algumas vezes.

E é claro que o fenômeno se repete em esferas menores, numa acelerada viagem vetorial até que chegamos a este ponto maravilhoso de nossas vidas atuais em que (lei universal da dinâmica social contemporânea, parágrafo único) todo diálogo tende à guerra de mimimis. Significa que alguém sempre vai fazer uma reclamação sobre algo e então a outra pessoa vai menosprezar a insatisfação de seu interlocutor com algum problema próprio no mesmo tema ou em contexto semelhante. Acompanhem essa dramatização:

- Tô preocupado, cara. Meu pai tá sentindo umas dores de cabeça, o médico tá desconfiado de câncer.
- Meu pai teve câncer no ombro, teve que fazer quimioterapia.
- O meu já teve na próstata, ia direto no proctologista, tenho a impressão que um dia eu vi ele no telefone com o médico de noite e ele se despediu dizendo "tchau, amor".
- Tiveram que amputar o braço do meu pai por causa disso, o braço direito, ele nem podia trabalhar mais. Teve que por uma vassoura no lugar porque pelo menos podia trabalhar como faxineiro.
- O meu ficou seis anos desempregado.
- Depois com a vassoura ele derrubou sem querer um balde de cândida em cima do cachorro da mulher do presidente e foi processado e perdeu a casa.
- Meu pai teve que se prostituir pra conseguir pagar o aluguel, e estranhamente ele só tinha um cliente que por coincidência tinha o mesmo nome do proctologista.
- Sem a casa, a gente foi morar debaixo da rua e aí apareceu outro câncer, na perna esquerda.
- O câncer na próstata avançou e ele foi parar na UTI, não tinha nem convênio.
- O câncer na perna avançou e ele foi parar na UTI, teve morte respiratória, foi ressuscitado pelos médicos e logo depois foi esfaqueado por um médico que na verdade era o marido da amante dele disfarçado.
- ...
- ...
- Minha mãe levou chifre da própria irmã.

E qual a razão de tudo isso, senhores? Não, eu não faria vocês lerem todo esse diálogo completamente fictício que não se relaciona a ninguém que eu conheço se não tivesse uma resposta. Ei-la: há uma grande pressão social para sermos grandes, para sermos incríveis, para sermos quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar. Só que, vamo lá, a gente não é tão bom assim. Nem perto disso. Na verdade, perdoe-me por antecipação o habilidoso leitor, a gente é ruim pra caralho em quase tudo. E nisso fica aquele bailinho adolescente com as meninas de um lado e os meninos do outro: ninguém conseguiu nada impressionante, mas ninguém admite que é medíocre. Na verdade, ninguém nem acha que é medíocre, porque se nossas mães disseram que nós somos especiais, então nós devemos ser. Mas e aí, o que faz com todos esses troféus que estão do outro lado do salão sem a gente poder ir pegar?

Arranja uma desculpa. "Não, sabe o que é, eu até ia na mina mais bonita da festa, mas é que machuquei o lábio e tal", no que outro responde "eu machuquei o lábio e o pinto" e um terceiro vai chegar cheio de band-aids nos dedos. As reclamações nada mais são que justificativas orgulhosas e, também, uma tentativa de relativizar o que é sucesso e o que é fracasso, como se alguém fosse pensar "nossa, ele teve bronquite na infância, então é admirável que hoje tenha chegado nesse ponto em que faz um trabalho burocrático numa empresa pequena e usa um crachá com o nome escrito errado".

Só que ninguém pensa isso, porque apesar de tudo ainda existe a guerra do mimimi, era a guerra das trincheiras. E por que, por que isso, por que essa competição? Porque apesar de tudo que não aconteceu nas nossas vidas, continuamos nos achando especiais, continuamos nos achando melhores que os outros. E isso gera um clima de insensibilidade geral, em que todo mundo está sofrendo mas todo mundo está se lixando para o sofrimento alheio, até que todo mundo morra por dentro.

Isso foi muito negativo, peço desculpas, fiquem com essa foto de gatinho pra descontrair:



Eu tenho um blog, e é um blog chamado "vida de bosta". Mas a minha vida é uma bosta? Não, não é. Na verdade, é até mancada reclamar dela: eu tenho saúde, minha família está bem, tenho um bom emprego, não preciso de carro, o Muricy finalmente pôs o Douglas no banco. Mas eu, eu sim sou um fracasso como produto humano, cheio dessas neuras e medos e baixa autoestima e pouco talento. E o que um blog tem a ver com tudo isso? O blog te dá credibilidade. Te dá respaldo. Se meu maior problema na vida é o chuveiro que esquenta demais, eu não aguentaria cinco minutos em campo aberto contra uma garotinha rica cujo braço do ursinho descosturou. Mas ter um blog me dá uma certa autoridade não merecida no assunto, como se qualquer idiota não pudesse entrar no blogger e criar um em cinco minutos. Não sei exatamente porque isso acontece, mas é um fato e que pode ser estendido a outras realidades: já tive muitos colegas que trabalhavam tão bem quanto uma porta sanfonada mas gozavam de prestígio em suas áreas de atuação por escreverem na internet. Funciona, eu vi.

Significa que ao confessar isso tudo eu estou abrindo mão de minha patente, rasgando minha farda, largando o campo de batalha pra ir plantar algodão numa fazenda no sul do Arizona? Não, claro que não. O sul do Arizona é muito quente (diz o cara que nunca foi além de Caieiras). Estou confessando isso tudo é pra esnobar. Continuarão me achando uma autoridade em má vida, continuarão achando o máximo eu ter chegado onde cheguei mesmo tendo bronquite na infância. É a vida, sinto muito.

Demorei quase 30 anos pra encontrar algo em que eu sou bom, até parece que vou largar agora.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Faça o que eu digo, faça o que eu não faço

Embora essa seja uma eleição difícil, já que vivemos um tempo em que todo mundo usa qualquer coisa pra criticar qualquer um, uma das causas de insatisfações mais comuns que pessoas atribuem a outras encontra-se no meio do caminho entre a teoria e a prática, aquilo que o dito popular consagrou como "faça o que eu digo, não faça o que eu faço", o dicionário rotulou de hipocrisia e um primo meu chamava de "hepoesia", numa leitura equivocada de antiga canção de Claudinho e Buchecha. A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e autenticidade.

(não era essa música que meu primo cantava, essa é do Titãs, vá estudar um pouco)

Comigo (é claro que esse texto era sobre mim) funciona assim também, embora não é que eu seja contraditório: eu só sou covarde. Explico: sou, em meu lado conceitual, romântico, político, um apreciador da desordem. Na prática, sou um nerd cagão. Esse tal de rolezinho, por exemplo, que consiste em um bom número de jovens reunindo-se e divertindo-se no shopping center: há os que são contra, acusando de balbúrdia, há os que são a favor, dizendo que não tem treta, só gente curtindo e pá. Eu sou um pouco dos dois: sou a favor, mas pra mim é melhor se tiver putaria. Que entrem todos munidos de canos de metal e pedras e tintas e espírito rebelde e ponham aquele lugar abaixo, os pisos reflexivos, as vitrines limpinhas, aquelas música de filho da puta ("ai não gosto que toque funk acho funk de mau gosto" e essa merda de mpb-eletrônica com disfunção erétil não tem problema?) e entreguem paus e pregos pra cada pobre assalariado de uniforme naquela fábrica de demolir corações e façam uma grande pira olímpica na beira da Marginal. Quanto pior, melhor (se ninguém se machucar e tal, machucar é mancada).

Então na minha cabeça é essa revolução constante moça com as teta de fora no meio dos corpos caídos hasteando a bandeira da França. Mas se eu vou ao banco pagar as minhas contas rigorosamente em dia e aí tem fila e as pessoas não respeitam as linhas amarelas no chão eu já fico transtornado. Gente, isso aqui é pra garantir A ORDEM, vocês não percebem a loucura que é ficar se enfileirando de qualquer jeito, depois disso vão fazer o que, festa no shopping?

Sou cagão, e, mais do que isso, fui feito para obedecer. Nasci pra ser peão. Comigo não tem jeitinho (o que aliás eu aprovo, na minha cabeça), não tem fazer loucuras, não tem quebrar as regras. Em algum momento da minha infância eu devo ter acreditado ser um animal doméstico e agora me coloco imediatamente sob a autoridade de qualquer pessoa, maquininha de senha e faixa amarela. Nem é algo deliberado, é automático. Eu sou aquele professor do Fahrenheit 451 que sabe todos os livros mas não, não quero saber desse negócio de revolução, boa sorte aí, vou trancar a porta. E eu nem gosto desse livro, o que talvez expresse melhor meu sentimento a respeito de toda essa situação.

A verdade é que eu apoio o crime mas tenho medo do castigo, seja este uma bronca da minha mãe ou o encarceramento numa penitenciária maranhense. Não que eu tenha medo de ir para os braços de satanás com a cabeça separada do corpo, é que só deus sabe quantas vezes eu deixo cair o sabonete quando estou tomando banho.

Sendo assim, não arrisco, não petisco, mas você tem todo o meu apoio moral para os seus delitos leves ou celebrações aos hormônios juvenis em espaços públicos. Mas também tenho horror a sangue, então você vai ter que seguir nessa sozinho, companheiro.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Divórcio Blues

Não sou aquilo que você pode chamar de especialista em relacionamentos, mas toda a experiência teórica que eu tenho no assunto (Friends, Zezé di Camargo & Luciano) me faz crer que o momento mais difícil num relacionamento formal reconhecido pela sociedade é a hora do fim. Não só pelas consequências por vezes desastrosas (embora muitas vezes recompensadoras), mas também pelos últimos minutos, aquele breve período de tempo que antecede a hora de trazer as lâminas de tesoura sentimental pra junto uma da outra (assumindo que seja você a pessoa a ativamente por um fim).

Porque além do receio da recepção alheia a essa má notícia (você espera que seja uma má notícia, pelo menos, senão é mancada), há o fato de que nenhum motivo é bom o bastante. Você pode partir o coração dele(a) com essas mentirinhas mequetrefes tipo "não é você, sou eu" (eu sinceramente não sei se isso é usado na vida real, espero que não porque é muito escroto) ou você pode não só partir seu coração como apodrecer sua alma e criar cicatrizes psicológicas perpétuas ao ser simplesmente honesto ("eu acho você insuportável de um jeito tão nefasto que o único motivo de termos permanecido juntos pelos últimos seis meses foi pra que eu expiasse a culpa de estar te traindo esse tempo todo com a sua irmã e com um transexual chamado Márcio - eu também não entendi porque ele mudou o sexo mas não o nome, mas enfim, melhor isso que você").

Mas eis que nesse ano de 2013, que viu toda sorte de lançamentos musicais, da ascensão do funk ostentação ao álbum novo do My Bloody Valentine, de Get Lucky à versão brasileira feita pelo marido da Scheila Carvalho, da volta do Só Pra Contrariar ao EP do Volto Logo Joyce, surgiu, no mar de experiências eletrossônicas do novo disco do Bonifrate, essa música, essa frase: eu não vejo Teenage Fanclub nos teus olhos.

Puta merda, os problemas acabaram, coleguinhas.

Porque essa frase serve não só de checkpoint para o seu relacionamento atual ("eu vejo Teenage Fanclub nos olhos dele(a)?") como também de encerramento perfeito para aquele namoro que já deu o que tinha que dar. É tão perfeita que você precisa falar e sair fora imediatamente, porque se ele(a) falar qualquer coisa depois disso seu final apoteótico seria estragado. É um(a) pau no cu(boboca) mesmo, ainda bem que vocês terminaram.

E o mais legal é que é à prova de contra-argumentos. Vejam o diálogo abaixo:

(DRAMATIZAÇÃO)
- Você quer terminar comigo? Mas por que? Eu sou linda, rica, bem sucedida, jogo futebol, toco gaita e ainda topei aqueles seus fetiches estranhos com Pokémons! Por que, eu pergunto, por quê?
- Porque eu não vejo Teenage Fanclub nos teus olhos.
- Ah, então beleza.

Pode ser, admito, que no final das contas essa conversa só valha pra mim, dada minha conhecida paixão pela banda de Glasgow, uma banda que é tanto amor que até o baixista se chama Amor (e pelos meus fetiches estranhos com Pokémons, mas isso é pra outro post). E se só vale pra mim, sejamos honestos, não vale de nada, porque pra terminar um relacionamento é preciso começar, e isso meio que atrapalharia meus planos de futuro ocultistas.

Mas é uma frase tão boa.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Falar mal de gente

Essa semana, você deve saber, a internet entrou em frenesi pela chegada ao Brasil do Lulu, um aplicativo em que as mulheres dão notas para os homens, especialmente naqueles aspectos que eu não posso falar aqui porque esse é um blog de família. Eu não ia (e não vou) escrever sobre ele porque, apesar da tormenta ideológica, das discussões infindáveis e das reversões éticas (eles criam meu perfil sem eu autorizar mas só deletam se eu pedir), eu não tô nem aí pra esse negócio. Que use quem quiser usar, que se revolte quem se sentir revoltado, que processe quem se sentir ofendido. Eu caguei.

Mas fui caminhando um pouco mais pelo assunto e acabei caindo na discussão mais velha dos últimos 15 anos: a da eterna tentativa de simulação virtual de experiências analógicas. Eu não sei, honestamente, se o Lulu ou qualquer outro aplicativo da espécie (com certeza existem outros) tenta substituir ou incentiva (ou nada disso), mas há poucas coisas mais divertidas que a sua contraparte no "mundo real": juntar pessoas > ingerir coisas > falar mal de gente.

Oh, que horror, devemos cuidar apenas das nossas vidas, todos somos seres humanos e merecemos respeito, etc. Você está correta, madre. O respeito mútuo e a renúncia a julgamentos rasteiros e malignos são elementos-chave para a manutenção da boa convivência em sociedade. E é exatamente por isso que o ritual descrito no fim do parágrafo anterior é tão legal.

Ora, enquanto somos um grupo de pessoas recolhidas a um espaço com a finalidade de sermos escrotos com nossos irmãos de espécie - não só os do sexo oposto, não só sobre vucovuco - somos também foras-da-lei, abnegados. Somos a resistência (a quê, exatamente, eu não sei). Quando estamos reunidos e resolvemos abertamente publicar em voz alta um comentário malicioso sobre alguém, estamos arriscando nossa própria reputação social ao compartilhar a maldade que mantemos escondida na maior parte do tempo com outras pessoas que, convenhamos, não sabemos se vão respeitar a santidade do evento e guardar essa informação num baú (você sabe que você não só vai contar tudo que ouviu como ainda vai falar mal de quem estava na mesa). É perigoso, é transgressor, e é por isso que é do caralho.

Infelizmente também é coisa de babaca, mas faz parte. Todos temos nossos defeitos, mas é mais legal falar dos defeitos dos outros (tirando esse blog, que é quase um templo erguido em celebração aos meus destrambelhos). E é aí que está o problema com o Lulu, com a sua contraparte masculina (que eu sei lá o nome) e com qualquer instrumento virtual de aglutinação de opiniões alheias: mesmo que você esteja presente anonimamente, ainda é algo aberto, facilmente acessível e, o pior de tudo, registra tudo que foi dito para os confins da eternidade. São ferramentas, não são eventos. Não dá pra ver o riso ao mesmo tempo livre, cruel e culpado dos que estão ao redor quando você conta algo que, sob qualquer outro contexto, é mó mancada.

E, por fim, no clube dos babacas você sabe que está sendo cuzão e que fora dali esse tipo de comportamento não é permitido. Quando você faz via um sisteminha, sob a sombra do anonimato, você nem sabe que está sendo cuzão. No primeiro caso, você acaba não só conhecendo mais sobre um monte de gente, acaba conhecendo mais sobre você. No segundo caso, a autocrítica passa longe, é só maldade gratuita. Você vai pro inferno sem nem saber o motivo. Não que esteja errado, mas falta sofisticação.

Ou talvez nada disso seja vantagem e eu só seja um velho avesso à tecnologia. Podia ter um aplicativo pra isso, né? Ia chamar "Gagá".