sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Retrospecbosta 2013

Ano passado eu caí no erro infantil de definir metas para a próxima sequência de 12 meses, o que é infantil porque 1) isso nunca deu certo nunca na história da humanidade nunca; e 2) resoluções de ano novo são infantis e pronto, coisa de quem acha que as coisas podem dar certo (e digo isso sendo um otimista convicto, mas convenhamos, nada nunca dá certo nunca na história da humanidade nunca).

Esse ano eu fui pra uma meta mais simples, uma meta não exatamente de vida - pra não cair no mesmo erro - mas, ahn, "editorial": escrever ao menos quatro textos por mês no blog. E o incrível (juro que nem eu contava com isso no princípio) é que deu certo. Com uma gambiarra aqui e acolá, mas deu certo. 2013 foi o ano com mais posts no Vida de bosta desde 2008, o que me impressiona porque meu deus do céu, como eu arranjava tempo pra escrever tanto?

Caso você tenha perdido alguma coisa, caso você esteja com saudades, caso você queira olhar agora de uma distância segura pra perceber porque perdeu tanto tempo da sua vida lendo essas bagaça, vamos a um rápido (ou nem tanto) resumo dos últimos 12 meses, com um monte de links pra você abrir e ler depois:

Em janeiro, eu falei sobre o aniversário de 10 anos da minha maioridade e sobre minha filosofia de descomplicação na hora de comprar alguma coisa ("eu já acordo cedo de segunda a sexta, trabalho fiel e intensamente até o fim do dia, pego um transporte público lotado, mais o sol, os prazos, as pessoas, a rede que só cai e toda aquela merda. Então, quinto dia útil, eu recebo meu dinheirinho. Pra mim, o trabalho tem que acabar aí"). Em fevereiro, vimos um pequeno conto sobre pessoas aleatórias numa cidade aleatória do interior. Em março, num dos meus textos preferidos - mais pelo assunto que pela obra -, falei sobre uma música do Roberto Carlos e como ela leva pessoas que não tem o costume de escrever e se expressar a abrir seus corações para o mundo inteiro.

Em abril, pra não perder o bonde musical do fim do parágrafo anterior, fiz uma análise investigativa forense (?) de um grande clássico de Daniela Mercury e fiz um relato pobre e apaixonado (com direito a vídeo em que eu apareço, novidade nesse blog) sobre um épico do futebol (que foi rasgado e esquartejado semanas depois). Em maio, um dos posts de mais acesso esse ano, em que eu faço um mimimi desgraçado pela minha voz ser feia fora da minha cabeça (mas o motivo do sucesso de visitações foi, claro, o título do texto) e outro em que sugiro fazermos leitura do futuro pela mancha de cocô no papel higiênico usado. Junho, o mês mais fraco, viu meu relato dramático sobre o chuveiro de casa, que poderia ser melhor. Em julho eu expliquei como a nostalgia me fez ir a um show do Só Pra Contrariar e provei por a + b que estamos numa realidade alternativa, graças a um evento insólito num ponto de ônibus.

Agosto foi bom: eu falei sobre punheta, sobre meus impulsos violentos desenvolvidos por The Sopranos, sobre minha aversão ao hit dos bares Gelimão™ (acho que esse foi o post mais acessado do ano, não sei bem o motivo), cheguei à conclusão de que a gente tá numa escola e, noutro dos meus textos preferidos, uma crônica/conto de ficção científica sobre o metrô da linha amarela e uma invasão alienígena. Agora notei que esse parágrafo começa com "agosto foi bom: eu falei sobre punheta" e confesso que eu talvez não esteja apto pra julgar o que é bom ou não.

Em setembro eu bati no peito pachecão para defender essa pátria maravilhosa e abri meu coração com o Bruce Springsteen, a E Street Band e um fantasma saxofonista. Em outubro eu publiquei um conto sobre ficar com a bunda pra cima que todo mundo achou que era autobiográfico. Em novembro eu falei sobre o Nelson, meu amigão peidorreiro e sobre a sociedade secreta dos cuzões (é nóis). Dezembro foi o mês de eu apresentar meus planos de ser um feiticeiro mecânico automotivo e de revelar os conflitos internos que me atormentam toda vez que preciso ir à igreja.

Teve algum outro texto que o dileto leitor considere digno de nota? Teve algum desses que tocou seu coração/purificou sua alma/te fez ter um AVC de indignação, tipo aquela história do Muse? Conte, conte pra nós.

E é isso, por esse ano é só. Foi um bom ano pro blog, poderia ter sido melhor pro mundo, eu poderia ser mais feliz, você também, mas é o que tem pra hoje. Nos vemos de novo em 2014 - ou quem sabe antes disso ainda, vai que a inspiração bate e a preguiça recua -, aqui pelo blog ou aí pela rua. Divirtam-se, percam os limites, e até lá ;)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Divórcio Blues

Não sou aquilo que você pode chamar de especialista em relacionamentos, mas toda a experiência teórica que eu tenho no assunto (Friends, Zezé di Camargo & Luciano) me faz crer que o momento mais difícil num relacionamento formal reconhecido pela sociedade é a hora do fim. Não só pelas consequências por vezes desastrosas (embora muitas vezes recompensadoras), mas também pelos últimos minutos, aquele breve período de tempo que antecede a hora de trazer as lâminas de tesoura sentimental pra junto uma da outra (assumindo que seja você a pessoa a ativamente por um fim).

Porque além do receio da recepção alheia a essa má notícia (você espera que seja uma má notícia, pelo menos, senão é mancada), há o fato de que nenhum motivo é bom o bastante. Você pode partir o coração dele(a) com essas mentirinhas mequetrefes tipo "não é você, sou eu" (eu sinceramente não sei se isso é usado na vida real, espero que não porque é muito escroto) ou você pode não só partir seu coração como apodrecer sua alma e criar cicatrizes psicológicas perpétuas ao ser simplesmente honesto ("eu acho você insuportável de um jeito tão nefasto que o único motivo de termos permanecido juntos pelos últimos seis meses foi pra que eu expiasse a culpa de estar te traindo esse tempo todo com a sua irmã e com um transexual chamado Márcio - eu também não entendi porque ele mudou o sexo mas não o nome, mas enfim, melhor isso que você").

Mas eis que nesse ano de 2013, que viu toda sorte de lançamentos musicais, da ascensão do funk ostentação ao álbum novo do My Bloody Valentine, de Get Lucky à versão brasileira feita pelo marido da Scheila Carvalho, da volta do Só Pra Contrariar ao EP do Volto Logo Joyce, surgiu, no mar de experiências eletrossônicas do novo disco do Bonifrate, essa música, essa frase: eu não vejo Teenage Fanclub nos teus olhos.

Puta merda, os problemas acabaram, coleguinhas.

Porque essa frase serve não só de checkpoint para o seu relacionamento atual ("eu vejo Teenage Fanclub nos olhos dele(a)?") como também de encerramento perfeito para aquele namoro que já deu o que tinha que dar. É tão perfeita que você precisa falar e sair fora imediatamente, porque se ele(a) falar qualquer coisa depois disso seu final apoteótico seria estragado. É um(a) pau no cu(boboca) mesmo, ainda bem que vocês terminaram.

E o mais legal é que é à prova de contra-argumentos. Vejam o diálogo abaixo:

(DRAMATIZAÇÃO)
- Você quer terminar comigo? Mas por que? Eu sou linda, rica, bem sucedida, jogo futebol, toco gaita e ainda topei aqueles seus fetiches estranhos com Pokémons! Por que, eu pergunto, por quê?
- Porque eu não vejo Teenage Fanclub nos teus olhos.
- Ah, então beleza.

Pode ser, admito, que no final das contas essa conversa só valha pra mim, dada minha conhecida paixão pela banda de Glasgow, uma banda que é tanto amor que até o baixista se chama Amor (e pelos meus fetiches estranhos com Pokémons, mas isso é pra outro post). E se só vale pra mim, sejamos honestos, não vale de nada, porque pra terminar um relacionamento é preciso começar, e isso meio que atrapalharia meus planos de futuro ocultistas.

Mas é uma frase tão boa.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Missa

Nasci em família católica, dos lados de pai e de mãe, e cresci sendo treinado a ferro e fogo para poder ser membro do maior grupo religioso do Brasil, o dos católicos não-praticantes. Vai o tempo e as coisas mudam, sabe como é a vida, e deus e eu já não andamos nos melhores termos há algum tempo, eu achando que ele não existe, ele provando que não só existe como também é rancoroso.

Apesar disso, sou respeitoso com a religião alheia. Se te faz bem, se te faz ser uma pessoa melhor, e, principalmente, se você não me enche o saco: vai nessa, filhão.

Só que a minha família não é mancomunada com satanás como eu e permanece firme e forte em seu catolicismo e, assim sendo, eventualmente compromissos dos parentes acabam me levando de volta ao lugar de onde eu corri minha juventude inteira. Não que eu tenha problema com isso, pelo contrário, eu respeito, olha como eu respeito, e é aí que a coisa começa a ficar complicada: minha insegurança e minha disfarçada egolatria - aquela que me leva a acreditar que o tempo todo todos estão de olho em mim e interessados em meus movimentos - me arremessam num redemoinho neurótico onde eu preciso deixar claro que não comungo de nada que tão dizendo ali, mas com todo respeito.

Exatamente como naquele episódio do Seinfeld em que eles ficam tentando provar que não são gays, não que tenha algo de errado com isso.

Então eu estou em pé, porque cheguei atrasado. Eu posso por as mãos no bolso? Não, no bolso demonstra desinteresse, porque homem só põe a mão no bolso pra coçar a virilha com a ponta do polegar. Cruzar os braços pega mal, né? Parece que eu estou me protegendo, como se fosse o anticristo (embora eu ache que se a estratégia do anticristo pra se defender dos superpoderes divinos é cruzar os braços, talvez seja melhor a oposição começar a pensar num sucessor). E deixar os braços esticados, mãos sobrepostas, atrás do corpo? Mas aí parece que eu tô me precavendo caso alguém chegue sorrateiramente e tente colocar alguma coisa no meu cu, e se eu acho que esse é um risco iminente dentro de uma igreja, estou subliminarmente desrespeitando o local, não? É, isso eu não posso. Mesma postura então, mas com as mãos à frente. Tem um monte de gente assim. Mas é pior, né? Porque aí eu tô protegendo o pinto, não do ataque exterior, mas evitando que eu mesmo faça umas cagada. Tipo "me conheço, vou acabar passando a rola em alguma coisa aí, deixa eu tampar o caminho".

Sinal da cruz eu abaixo a cabeça. Proclamação do evangelho segundo Zequinha, com aquela coreografia intrincada do polegar, eu dou uma coçadinha na testa. Hora de ajoelhar: aí não, tô passando mal, vou lá fora respirar um pouquinho.

Rola um som, eu bato palma, bater palma tudo bem. Toca uma música mais empolgante agora, todo mundo se cumprimentando, coisa bacana. O cara chega, estende a mão, diz "a paz de cristo". Eu aperto a mão dele, olho nos seus olhos, sorrio e digo "e aí, beleza?". Volta o discurso do padre. Alguém cochicha. Não pode cochichar, gente, é desrespeito. "Quando um burro fala, o outro abaixo a orelha", eu mando, pra depois perceber que chamei Jesus de burro.

(Aliás, ontem eu fui num evento do magnífico Miolo Frito e, completamente sem querer e discordando veementemente de mim mesmo depois, me referi à revista como "aquela bosta". Sei lá o que tá acontecendo comigo, devo ter Tourette)

Hora da comunhão, todo mundo faz fila, rola mais um som, que consiste num refrão que repete "incendeia minha alma" por 14 minutos, e eu imaginei todo mundo ao invés disso cantando Soul on Fire e batendo palma e dançando e sorrindo. A minha religião é o Spiritualized. O padre (na que eu fui hoje era um bispo, ele usava um chapéu irado) fica falando sozinho por horas e eu fico lá pensando se, pra melhorar a dinâmica, não devesse ter um comentarista junto pra fazer intervenções pertinentes. Tipo o Neto, manja? "Esse Pedro é um baita apóstolo, trabalhei com ele nas categorias de base do Guarani..."

Aí vem o dízimo. Na minha época eles passavam com uma cestinha recolhendo, agora só põem uma urna lá no meio e o povo que se mate pra jogar o dinheiro dentro. Eu continuo respeitando, olha só, mas tão meio folgados esses caras, hein? Quer meu dinheiro, vem pegar. Não que eu fosse dar, como não dei, não é a minha religião, afinal. Eu nunca nem paguei por um disco do Spiritualized, e isso me fez pensar como eu estou pirateando a missa, vendo de graça um negócio que custa uma grana e tal. Fiquei um pouco envergonhado e secretamente orgulhoso.

Não reclamo, vou pela família. E não como um sacrifício, porque pra mim fazer parte de momentos especiais das pessoas que eu finjo que gosto é uma baita honra (pra eles, RISOS). Além disso, tem uma parte que eu gosto de verdade: quando o padre diz "corações ao alto". Que frase bonita, que imagem espetacular. Imagina todo mundo enfiando a mão no peito ao mesmo tempo, arrancando o coração e segurando-o, pulsando e pingando, com o braço esticado para cima. Caralho, que imagem. E logo depois todo mundo ia cair morto e tal, mas você pode pensar nisso como uma espécie de arrebatamento.

Aliás, se o arrebatamento for assim mesmo, eu tô na missa todo domingo a partir de agora. Não perco isso por nada nesse mundo.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Aquário

Tive a graciosa oportunidade de aproveitar uma folguinha entretrampos alguns meses atrás e planejei a semana toda para uma série de eventos ao ar livre, em contato com a natureza. Ar limpo, sol quente, céu azul, aquela papagaiada. Claro que acabou só chovendo e minhas principais atividades na semana foram doar sangue e tentar resolver os efeitos colaterais de um assalto na frente da minha casa, mas deu pra aproveitar.

Porém, antes dos meus planos serem encharcados e temperados com leptospirose eu pude ao menos riscar um item da lista: conhecer o famoso aquário que fica perto de casa, um que eu não lembro o nome mas cujo ingresso custa um horror de caro. Fui a pé, escalando paredões que estranhamente estavam no meio das ruas (aquilo não podia ser só uma ladeira) enquanto os raios solares despejavam-se na minha cabeça como um shampoo cósmico. Mas vamos lá, vamos ver peixes, vamos contemplar o reino animal por trás de um vidro, o que me deixava superempolgado porque duas coisas que eu adoro são animais e janelas. Ia ser mara.

Só que o lugar é meio escuro e silencioso, talvez para simular vagamente algumas características de um ambiente subaquático, e confesso que isso me deixou meio, como dizer, receoso. E assim que eu parei na primeira "jaula" (como chama aquilo?) e só vi uma pedra, um galho e umas folhas pra depois descobrir que a pedra era um sapo, o galho era um jacaré e as folhas eram folhas mesmo acabei sendo invadido por um terror irracional, como se assim como aquela pedra deu um pulo o chão pudesse se mexer e eu na verdade estar nas costas do Cthulhu.

Assim eu caminhei pelos corredores do aquário, e enquanto crianças corriam e sorriam e famílias tiravam fotos na frente do peixe colorido e da cobra roliça, eu caminhava travado, lentamente, atento a tudo, como um tira num bairro barra-pesada.

E aí você chega nessa salona bem grande que tem um tancão (aumentativo de "tanque") com vitrines em dois lados do cômodo e uma passagem superior que liga os dois compartimentos. E lá estavam eles, magníficos, deslumbrantes: os tubarões. Eram muitos e estavam de boa num canto lá pra ninguém encher o saco, mas eles eram tão lindos que eu fiquei hipnotizado e fui caminhando lentamente em sua direção até ficar com o nariz atochado no vidro, completamente abobado. E nesse momento me passa a PORRA DUMA ARRAIA bem na minha frente, VUUUSH, DO NADA, com aquele :) ridículo rindo da minha cara enquanto eu não sabia o que ia explodir primeiro, meu coração ou meu rego. Vitória do segundo, me caguei inteiro, e se já estava caminhando lentamente antes você imagina agora.

Fui para a próxima área, ainda não recuperado do choque, mas essa era a ala dos peixes do Procurando Nemo e meu coração saiu da minha boca e voltou pro lugar de antes todo aquecido e feliz. Tinha os peixes-palhaço, tinha a Dory, tinha o Gil, tinha aquele baiacu e eu só ficava fazendo "oooown ♥". Estava apaixonado por um filme da Pixar e me humilhando publicamente, sinais claros de que voltava ao meu normal. Ainda acompanhado daquele cagacinho, mas sem o pavor descontrolado do ataque da arraia.

Tirei uma foto com meu celular. Não ficou ótima.

Depois vinha a parte dos dinossauros, e ali eu comecei a achar que a passagem da arraia no meu campo de visão era tipo uma vinheta que fazia a minha transição pra um universo em que é normal ter uma área sobre dinossauros num aquário. Além de uns paineis contando a história de dinossauros brasileiros (cid moreira kkkkkk não, brincadeira) e um esqueletão que se era real demonstra que brasileiro já fazia gambiarra desde quando era réptil, havia uma passagem para outra sala, identificada por uma plaquinha como "Vale dos Dinossauros" e lá de dentro vinha a música tema do Jurassic Park. Imperdível!, empolguei-me sozinho, já que os outros grupos haviam ficado pra trás e eu era o próprio elo perdido. Estava vazio o aquário naquele dia, era segunda-feira à tarde.

Você entra e fica claro que você está mesmo no passado, quando a Terra era habitada por gigantes. Além da trilha sonora cinematográfica, o ar era povoado pelos sons das majestosas criaturas, de piados a grunhidos. No alto, um pterodáctilo plana. À minha frente estende-se uma pequena ponte, e às suas margens estão eles, os dinossauros. Não os de verdade (você acreditou por um instante, hein?), mas estátuas provavelmente compradas de algum circo falido, porque além de mal desenhadas e mal cuidadas ainda estavam completamente fora de escala e proporção. Mas isso nem me desagradou tanto, o que me desagradou foi que logo ao entrar eu tive que me deparar com a bunda de um tiranossauro virada pra mim. Porra, falta de educação. E à medida que eu caminhava em frente, revoltado com essa falta de etiqueta cretácea, a cabeça do monstro vira na minha direção.

Na. Minha. Direção.

Recobrada a consciência, segui em frente para ver algumas representações pouco fieis de diferentes etapas da evolução do ser humano e até o final do passeio ainda pude ver um peixe-boi (ah é, era um aquário), um tamanduá (ou não), um bugio, uns morcegos irados. E foi isso por aquele dia, em que depois eu ainda fiquei vendo vídeos de mulheres peitudas tocando violão e toda a coisa do assalto do primeiro parágrafo.

Escrevo isso agora porque acho que finalmente compreendi a minha desaprovação à obsessão daquele cabeleireiro por peixes. Não era nada contra o cara, era só reação instintiva de proteção depois desse recém-adquirido trauma com criaturas do mar.

Se eu ganhasse um real por cada medo babaca que eu tenho...

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Songbook

O companheiro que me lê há mais tempo sabe que eu tenho uma banda, e que eu escrevo músicas. Recentemente eu percebi que dei com a cara no muro nesse negócio: esgotou, não sai mais nada, nem torcendo (no sentido de torcer o pano, não no sentido de "me dá um 'V', me dá um 'I', me dá um 'DAAAA DE BOOOSTAAA'"). Como o companheiro que me lê inexplicavelmente tem algum interesse no que eu escrevo, e também pra revisitar esses 4 anos de desserviços prestados à já moribunda música brasileira, pensei em apresentar algumas coisas aqui.

Não apresentar tipo pegar um banquinho e um violão e fazer versões barzinho das canções, mas mostrar alguns trechos de letras usando um filtro que faz sentido para o blog. Explico: ao contrário daqui, onde eu eventualmente tento ser engraçadinho mas ao mesmo tempo finjo que tô falando sério de modo que nunca dá pra saber muito bem se dá pra confiar no que eu escrevo, nas músicas eu procurei fazer as coisas de um jeito mais maduro, mais sereno - apesar do que está escrito num dos links ali de cima. Resultado: frequentemente alguém vem me dizer que morreu de rir ouvindo tal música. Não é pra rir, caralho! Então separei uns versos que levam as pessoas a achar que eu tô querendo ser Tiririca quando eu queria ser Lou Reed, ou frases que todo mundo jura que não fazem o menor sentido quando pra mim são mensagens tão claras quanto um memorando corporativo, ou até algumas coisas que eu me orgulho de ter feito mas só eu achei que são boas. Eis:

Eu sonhei com a Medusa me olhando
Mas ao invés de pedra, eu virei Portugal
Eu não sei muitas gírias de mano
Então vou falar de modo mais formal

Ficção científica
Essa entra fácil no rol das piores coisas que eu já fiz. No refrão eu ainda digo que mijei na toalha da pessoa e termino a música cantando que comprei uma touquinha pra ficar igual ao cara do U2


Te dei minha Trakinas, como pôde
Te amei em Helvetica Extra Bold

Olha
Confesso: o "como pôde" tá ali só pra rimar com "bold", a Trakinas foi citada arbitrária e aleatoriamente e eu tenho quase certeza que roubei a ideia inconscientemente de um documentário sobre a Helvetica


Eu deixo meu amor onde o diabo quer
Os meus sonhos eu guardo numa Tupperware

Só você não vem
Tomara que o diabo não queira que eu ponha meu amor na Tupperware também, pode ser que não caiba


E se eu dormir e não sonhar
Em te foder, em te beijar
Pra que dormir então?

Então (ouve aqui)
Pior que eu acho essa frase bonitinha


Túlio queria comer a Cléo Pires
Mas é impossível

José Luis Fracasso (vê aqui)
Aguenta firme, Túlio


Que eu sou um cara sem muitos amigos
Que eu sou um cara sem nada de mais
Que eu sou um cara sem metas na vida e que mora com os pais

Pra vida ser bem melhor
Esse é um caso reverso: eu achei que tava fazendo algo leve e divertido e ficou parecendo um mimimizão emo foda


E quando a gente bater na porta
Os monstros vão nos convidar para o seu baile de máscaras
E todos usam rostos de celebridades
Eu vou de Lula e você de Beyoncé

Quando a gente virar bosta você vai me querer (vê aqui)
Essa não é a primeira música sobre a dominação de um planeta por outras formas de vida, como você verá adiante. Talvez eu esteja obcecado com isso, não sei


Se pá no espaço, num planeta controlado por zumbis
Ficar do seu lado, estourando miolos, caçando lugar pra se proteger
Dos maiores clichês da cultura pop

Freguesia do Ó
"A gente devia ter uma música sobre zumbis" mas eu não gosto de zumbis


Se houvesse um jeito fácil de ser seu enfoque
Te beijar por te salvar do Ganondorf

Ganondorf (ouve aqui)
- Ai que fofo esse poeminha do seu neto, dona Gisa! Ele tem quantos aninhos, sete?
- É do meu filho, ele tem 28
(eu tinha 25, mas acho que isso não alivia)


Exorcizar o futebol
Por o demônio no gol
Nadar no meio dos teus seios bem molinhos
E seus lábios redondinhos
E lavar a alma

My fake plastic love
Outra na categoria "piores músicas de todos os tempos", além de ter um refrão sobre uma boneca inflável ainda expõe minha materno-dependência ("e os rapazes loucos / que a minha mãe disse pra eu me misturar") e certamente me garantiu um lugar no inferno com o verso "e os Jesuses nunca morrem no cio"


Eu te amo
Mais ou menos
Mas te quero só pra mim

Mais ou menos
Essa foi a primeira música que eu escrevi inteira, letra e melodia. Já expunha minha verve romântica e adulta


Traz a maldade na sacola do mercado
Pra impressionar
Pra enlouquecer
Pra despedaçar aquilo que sobrou

Sendo honesto
Ok, essa não faz sentido mesmo. Mas eu escrevi na época da proibição das sacolinhas plásticas no mercado, e achei que trazendo uma notícia atual pra dentro da canção eu talvez me colocasse na galeria dos grandes bardos do cotidiano, como Woody Guthrie, Bob Dylan e Maurício Ricardo


Escreve torto por linhas certas
Não queira o fogo, deseje a festa
Abrace o medo, transe com fúria
Seja pior

Tudo que o mundo precisa é de um vilão carismático
Essa tá aqui pelo título da música, até porque não dá pra achar que esses são exatamente bons conselhos (tirando o do fogo e da festa, que eu escrevi antes da tragédia em Santa Maria então mais uma vez perdi o bonde dos grandes bardos do cotidiano)


Hoje eu roubei um beijo da garota do rio
Um furto tão bem feito que ela nem sentiu

Calvin e Haroldo (vê aqui)
Eu escrevi essa pensando numa garota meio folclórica, mas de personalidade forte e presença marcante - ela é a garota do rio, ninguém mais pode ser do rio. No final ficou parecendo que eu tô assediando cariocas


Envelhece a foto no Instagram e vê
O tempo que a gente era só eu e você
Tanta água rolou e hoje há uma nação
Eu tenho você, você tem um milhão

Instagram
Um dia eu percebi que não tinha nenhuma música de corno. Problema resolvido


O seu prazer, o meu pesar
A ironia e o azar
E a mulher que eu amo
Dá o cu pra outro cara

2006
Essa é bem antiga, da época que eu tinha uma banda de mentira pra compensar o fato de que ninguém queria montar uma banda comigo porque eu era ruim demais (mais que hoje). Sempre me pareceu uma imagem triste essa da paixão platônica idealizada estar na verdade fazendo sexo anal com outras pessoas


Rolas gigantes
Voando em frente
Ejaculando nos telhados das casas de inocentes

Outro mundo (ouve aqui)
Essa. Pra mim era uma parábola sobre a futilidade da condição humana, de sua ascensão em busca das respostas e de sua queda por ter feito as perguntas erradas, um libelo sobre a nossa pequenez, um alerta sobre como o processo de conhecimento empírico pode ser obstruído pela ausência de registro histórico. Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Stanley Kubrick, Douglas Adams, Planeta dos Macacos

Mas todo mundo só fala nessas porra dessas rola

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Seguindo os passos de Saruman

Eu tenho esse plano de me mudar pra uma cidade distante e acolhedora e fugir dessa selva de pedra inclemente onde você não pode nem ficar uns meses sem pagar uma conta que todo mundo fica te ligando. Não sei bem para onde ir ou o que fazer quando estiver lá (pois 1: é difícil achar emprego na minha área fora de São Paulo; 2: eu não quero trabalhar nessa área de corno; 3: eu não sei fazer mais nada), mas hoje tive uma ideia.

Estou numa fase de transição, sacomé: perto dos 30, crise de meia-idade, aquelas coisas. Há um aspecto na minha aparência que já está bem próximo de atingir um estágio crítico, e você sabe qual é porque eu falei dele dois ou três posts atrás: o cabelo. Tá quase, quase acabando. Pessoas com a mesma quantidade que eu já raspam completamente, e eu não o faço porque ia ficar igualzinho meu irmão e ele não merece ser confundido comigo, coitado. Mas colocando algumas centenas de quilômetros entre nós já dá pra pensar em deixar a cabeça lisinha como a lua e ir iluminar os pensamentos dela, só que isso cria um novo problema do pescoço pra baixo: eu sou tão magro que as pessoas não perguntam meu peso, perguntam minha gramatura, e um musguelinho desse com a cabeça raspada ou parece um monge ou parece que está fazendo quimioterapia. Eu gosto tanto de religião quanto gosto de câncer, então essas duas possibilidades não me agradam. Precisa ter algo mais.

Eu também tenho barba, uma barba singela, presente mas discreta, rente ao rosto. E já tenho pensado recentemente em deixá-la crescer, fazer um volumão maior na cara pra eventualmente no meio da tarde aquele calor da porra eu dar uma lambida no bigode e pegar o gostinho de Coca que ficou grudado lá algum tempo antes. E eis como tudo isso se conecta, senhoras e senhores:

  • A minha barba vai crescer e crescer e crescer até a ponta dela chegar na minha barriga, tipo Bamerindus.
  • Enquanto espero minha pelagem facial acompanhar o mesmo movimento migratório da minha genitália, faço cursos de mecânica automotiva e fico fera no assunto.
  • Mudo pra algum lugar nas montanhas, e construo uma casa na beira da estrada.
  • Vestirei, no dia-a-dia, apenas roupas largas e compridas, como túnicas, e um chapéu longo e pontudo (dane-se o cabelo, já tô em outra).
  • Uns dez metros pra frente da casa eu vou lambuzar o piso da estrada de óleo.
  • Então ficarei todos os dias parado na frente de casa, das 9 às 18. Quando passar um carro, alguma criança vai me ver, apontar e gritar "mãããããeeee, um feiticeiro!" e aí eu vou erguer os braços e por as mãos pra baixo como se estivesse lançando uma magia e aí o carro vai rodar no óleo e se estabacar na beira da estrada, uma tragédia.
  • Caso haja sobreviventes, eu vou até lá e digo "poxa, eu tentei acenar pra avisar que a pista estava escorregadia" e oferecerei meus serviços de mecânico a preços obviamente salgados.

O leitor mais carente das faculdades lúdicas pode dizer "você pode só jogar o óleo e arrumar o carro depois, por que se fingir de feiticeiro?". É uma pergunta interessante, pra alguém tão pouco capaz, mas eu não espero mesmo que você entenda. Não se preocupe, não se avexe, pode ficar aí com seu planinho de carreira. Afinal, quem nasceu pra ser peão nunca vai ser feiticeiro.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Pontos sofridos

Esse ano, graças a uma disciplina autoimposta, foi um dos mais produtivos para esta valorosa página da internet. Mas sacomé, na grande massa de textos que se cria e no vai-e-vem dos assuntos algumas pontas ficam soltas, e duas me vem à cabeça. Uma eu não tenho planos de fechar, mas está na hora de cumprir uma antecipação feita no último parágrafo desse post.

Eu sempre gostei de futebol, tanto quanto me recordo. De jogar, de assistir, de acompanhar as notícias no jornal - lembro claramente de uma manchete que dizia "Neto faz golaço e Corinthians vence o São Paulo". Lembro porque eu estava em fase de alfabetização e fiquei fascinado com o jeito como escreviam "golaço", pra mim era algo tipo "goulaço". Sou ao mesmo tempo um produto do meio (já falei sobre) e um alienígena querendo se misturar, então natural que corresse de meião e caneleira sobre o solo gramado da pátria de chuteiras.

(essa última frase usou alguns artifícios estéticos que não necessariamente casam com as melhores práticas da vida: não deixe seu filho jogar bola na rua de meião e caneleira, isso não cria caráter)

Passa o tempo, interesses novos aparecem, se vão, se renovam, e houve um período em que eu estava tão afastado do futebol quanto era saudável (infeliz e coincidentemente, justo na época que meu time começou a ganhar tudo), mas nos últimos anos minha proximidade com o popular esporte é a mesma que tem um carro e um muro ao final de um terrível acidente. E os efeitos não são muito diferentes.

Porque mudou. Eu não me relaciono mais com o futebol como se ele fosse um esporte salutar e divertido para me entreter nas tardes de domingo, me relaciono como se ele fosse a resposta para todos os meus problemas, a emulsão mágica que vai cicatrizar a tênue superfície da minha estabilidade emocional, a pá de areia que tampará esse vazio na minha alma. Eita, que exagero. Mesmo assim, deixou de ser uma relação saudável e produtiva, já passou a ser uma ameaça à minha integridade.

Eu já entrei em discussões irracionais com pessoas que só fizeram uma perguntinha, já desejei que a mãe de um goleiro fosse arremessada de uma catapulta, já quase avancei num segurança de banco que disse em voz alta que tinham que fechar as portas do São Paulo - e isso enquanto eu estava sob o efeito anestésico da conquista de um campeonato! Eu não sou desses babacas que viram outros seres humanos do avesso porque as listras das camisetas deles tem cores diferentes, mas você pode riscar o futebol da lista dos assuntos em que eu sou receptivo à discordância e entusiasta da racionalidade.

Escrevo tudo isso só agora porque acho que podemos embrulhar o assunto futebol por esse ano, já que o São Paulo se humilhou de todas as maneiras possíveis e imagináveis e nada mais há para se fazer. Não foi um ano fácil, e confesso que houve vezes em que eu pensei que não daria conta, que qualquer hora eu ia empacotar na frente do rádio e ia ser aquela cena ridícula, eu morto e babando no chão enquanto as vozes chiadas contavam piadas de duplo sentido ao invés de NARRAR A PORRA DO JOGO MEU DEUS DO CÉU NÃO HÁ RECURSO VISUAL ATRELADO A UMA TRANSMISSÃO RADIOFÔNICA QUER NARRAR ESSA MERDA E PARAR DE FAZER PROPAGANDA? Aí ó, é disso que eu tô falando.

Como estamos em dezembro e na terra dos clichês eu tenho sangue azul, podemos começar nossa retrospectiva dizendo que esse foi o ano em que eu sobrevivi. Mas não sei se aguento mais um assim. Então, se em 2014 você me encontrar caído no meu quarto, inerte e babando, assistido pelas luzes catódicas da televisão, lembre-se disso: o culpado foi o Douglas.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Falar mal de gente

Essa semana, você deve saber, a internet entrou em frenesi pela chegada ao Brasil do Lulu, um aplicativo em que as mulheres dão notas para os homens, especialmente naqueles aspectos que eu não posso falar aqui porque esse é um blog de família. Eu não ia (e não vou) escrever sobre ele porque, apesar da tormenta ideológica, das discussões infindáveis e das reversões éticas (eles criam meu perfil sem eu autorizar mas só deletam se eu pedir), eu não tô nem aí pra esse negócio. Que use quem quiser usar, que se revolte quem se sentir revoltado, que processe quem se sentir ofendido. Eu caguei.

Mas fui caminhando um pouco mais pelo assunto e acabei caindo na discussão mais velha dos últimos 15 anos: a da eterna tentativa de simulação virtual de experiências analógicas. Eu não sei, honestamente, se o Lulu ou qualquer outro aplicativo da espécie (com certeza existem outros) tenta substituir ou incentiva (ou nada disso), mas há poucas coisas mais divertidas que a sua contraparte no "mundo real": juntar pessoas > ingerir coisas > falar mal de gente.

Oh, que horror, devemos cuidar apenas das nossas vidas, todos somos seres humanos e merecemos respeito, etc. Você está correta, madre. O respeito mútuo e a renúncia a julgamentos rasteiros e malignos são elementos-chave para a manutenção da boa convivência em sociedade. E é exatamente por isso que o ritual descrito no fim do parágrafo anterior é tão legal.

Ora, enquanto somos um grupo de pessoas recolhidas a um espaço com a finalidade de sermos escrotos com nossos irmãos de espécie - não só os do sexo oposto, não só sobre vucovuco - somos também foras-da-lei, abnegados. Somos a resistência (a quê, exatamente, eu não sei). Quando estamos reunidos e resolvemos abertamente publicar em voz alta um comentário malicioso sobre alguém, estamos arriscando nossa própria reputação social ao compartilhar a maldade que mantemos escondida na maior parte do tempo com outras pessoas que, convenhamos, não sabemos se vão respeitar a santidade do evento e guardar essa informação num baú (você sabe que você não só vai contar tudo que ouviu como ainda vai falar mal de quem estava na mesa). É perigoso, é transgressor, e é por isso que é do caralho.

Infelizmente também é coisa de babaca, mas faz parte. Todos temos nossos defeitos, mas é mais legal falar dos defeitos dos outros (tirando esse blog, que é quase um templo erguido em celebração aos meus destrambelhos). E é aí que está o problema com o Lulu, com a sua contraparte masculina (que eu sei lá o nome) e com qualquer instrumento virtual de aglutinação de opiniões alheias: mesmo que você esteja presente anonimamente, ainda é algo aberto, facilmente acessível e, o pior de tudo, registra tudo que foi dito para os confins da eternidade. São ferramentas, não são eventos. Não dá pra ver o riso ao mesmo tempo livre, cruel e culpado dos que estão ao redor quando você conta algo que, sob qualquer outro contexto, é mó mancada.

E, por fim, no clube dos babacas você sabe que está sendo cuzão e que fora dali esse tipo de comportamento não é permitido. Quando você faz via um sisteminha, sob a sombra do anonimato, você nem sabe que está sendo cuzão. No primeiro caso, você acaba não só conhecendo mais sobre um monte de gente, acaba conhecendo mais sobre você. No segundo caso, a autocrítica passa longe, é só maldade gratuita. Você vai pro inferno sem nem saber o motivo. Não que esteja errado, mas falta sofisticação.

Ou talvez nada disso seja vantagem e eu só seja um velho avesso à tecnologia. Podia ter um aplicativo pra isso, né? Ia chamar "Gagá".

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Toda vez que eu corto o cabelo eu me sinto naquela cena da novela que a Carolina Internet tinha leucemia

Nos últimos três anos, cortar cabelo tem sido um tormento constante na minha vida. Eu sei, parece loucura, tem tantos cabeleireiros em São Paulo, mas aqui está algo que você não sabe sobre mim: eu sou careca. É verdade. Eu acho que nunca disse isso no blog (nunca, não mesmo, jamais), mas taí, um novo fato. E esse novo fato faz o velho fato parecer mais loucura ainda: como pode alguém quase sem cabelo ter dificuldades para cortá-lo?

Pra mim, a característica mais importante dos serumanos é a sua adaptabilidade (falei disso aqui, lembra?). Infelizmente o que vale pra todo mundo não vale pra mim, então prefiro a repetição, a rotina, as desnovidades. Durante boa parte (talvez a metade) dos anos em que vivi na Freguesia do Ó eu cortava o cabelo só no Jaimilton, até chegar naquele ponto em que eu só chegava, sentava na cadeira, ele perguntava do meu pai, eu perguntava do pessoal lá e pronto, cabou. Quando me mudei para uma terra distante e desolada, tive que procurar novos lugares pra me descabelar, e aí começaram as dificuldades.

Primeiro porque eu sei lá como é que eu queria que meu cabelo fosse cortado. É pra passar a 3? a 4? a 2? Muda a máquina em cima e dos lados? Sei lá. Segundo porque todos os outros lugares cobram muito mais que o Jaimilton, e eu acho desaforo pagar 20 reais pra cortar 20 fios de cabelo. E terceiro porque eu não me sinto bem nesses lugares assim.

Assim: lugares que cortam cabelo em bairros que não são da periferia são, em geral, extravagantes, modernos, estilosos. Tem cheiros estranhos e são limpos. Eu descobri nesse tempo que esse tipo de estabelecimento não é pra mim. Não que eu seja machão e bronco e coisa do tipo, mas depois de passar tanto tempo frequentando um lugar decorado por revistas de mulher pelada dos anos 90 e em que as conversas dificilmente saíam da trindade futebol-jogodobicho-minhamulherfaloupraeuchegarmaistardeseráqueelaestámetraindohaha eu simplesmente não consegui me adaptar a outras realidades. E mesmo quando encontrava locais mais apropriados aos meus gostos primitivos, como o Seu Joaquim, o barbeiro português cego de seis mil anos que tem um salão do lado do cemitério e provavelmente ao fim do dia quando fecha as portas volta pra sua tumba, faltava algo: ou o preço não era bom, ou demorava muito, ou era muito longe, ou o cara ao invés de deslizar a máquina pela minha cabeça como um jet-ski sobre um calmo lençol de água preferia fazê-la galopar como um avião aterrissando. Eu sou careca mas sou gente, isso aí machuca, poxa.

Ontem, por exemplo, sob a chuva desagradável que despencava, resolvi ir num que fica entre o trabalho e o metrô. Custa vintão (ponto negativo), o cara me disse na entrada, mas dane-se, vamo lá. Enquanto esperava e acompanhava na TV um jogo entre dois times que estavam em longas sequências negativas no campeonato português (ponto positivo), ele cortava o cabelo de um cara e não parava de falar sobre peixes. Falou sobre os tipos de peixe, sobre dicas de pesca, sobre o melhor lugar pra comprar (no Ceagesp, não na feira), sobre como conservar o peixe. Quando deu uma brecha de alguns segundos na conversa, o suficiente para que o silêncio flutuante fosse constrangedor, ele mandou: "sabe que peixe é bom para..."

Me preocupou, não nego, porque eu sou muito limitado e não acredito que um homem (mulher tudo bem) consiga ser bom em mais de uma coisa. E um cara que sabe tanto assim sobre peixes não tem espaço na sua agenda de talentos para saber cortar um cabelo - como comprovou o talho que ele deixou no meu pescoço depois, o que me fez ficar com inveja dos peixes (não porque ele talvez saiba cortá-los melhor, mas porque eles ao menos estão mortos). Então você pode calcular que eu não sou mesmo bom no meu trabalho, e isso só acontecerá quando minha profissão for algo tipo biógrafo do Raça Negra. Até lá, vamos enganando os empresários.

Depois que eu sentei na cadeira, justiça seja feita, o assunto com o cliente anterior, já de saída, mudou para azeites. Claro que teve uma transição, com ele falando quais peixes ficam bons com azeite de dendê, mas tudo bem.

A verdade é que, ao final de tudo, ainda permanece meu drama. Você pode até achar fútil, mas é meio dramático, porque é como se eu tivesse um paciente em coma que eu sei que vai morrer, mas como não estou preparado para desligar os aparelhos, fico tentando fazê-lo jogar D&D comigo. Essa metáfora só fez parecer que eu não tenho amigos - o que é verdade - mas não era o objetivo.

"Por que você não corta o próprio cabelo, seu pamonhão?". Ah, eu ouvi você balbuciando essa cinco parágrafos atrás. Resposta: porque não. Sendo eu assim tão limitado e só capaz de fazer uma coisa direito, provavelmente terminaria com um buraco no meio da sobrancelha ou a orelha igual a do Holyfield. Então o mais seguro é deixar cada macaco no seu galho: os profissionais cortam meu cabelo, e eu investigo mais sobre aquelas apresentações históricas no Bar do Coalhada, o Cavern Club brasileiro.

domingo, 24 de novembro de 2013

Timidez

Meses atrás eu comprei o Manual de Sobrevivência dos Tímidos, um guia-chacota sobre a timidez e como se portar num mundo que tem a comunicação como força gravitacional. Eu sou tímido de carteirinha, de cabeça baixa e voz pra dentro, de pouca fala e pouco riso. Nas minhas andanças por esse mundão de meu deus (leia-se Freguesia do Ó, Pinheiros, Ipiranga e av. Paulista), conheci poucos cuja introspecção rivalizava com a minha. Assim eu pensava.

Porque um fenômeno curioso desdobrou-se diante dos meus olhos cada vez que eu mostrava o livro a alguém: boa parte das vezes, a pessoa dizia que eu nem era tímido.

Por alguns segundos me batia uma sensação desagradável, como se eu estivesse vivendo uma mentira. Será que pensei o tempo todo ser recolhido em meus receios quando na verdade desfilo de samba no pé e sorriso no rosto pela passarela da extroversão? Alguns segundos depois, vinha a segunda onda, a da mureta: talvez eu não seja assim tão tímido quanto pensei, talvez até seja saidinho um pouco.

Mas então eu pensava que todos que me diziam isso eram pessoas com as quais eu estava habituado a conviver há anos, muitas vezes até num âmbito doméstico. Ora, falar com gente assim não é ser expansivo, é ser normal (o que eu também não sou, mas por outros motivos).

Também é de se observar que timidez não tem só a ver com falar. Separei para vocês algumas características definidoras importantes, vejam no quadro negro:

Iniciativa: para qualquer interação social acontecer, alguém precisa dar o primeiro passo. E dar o primeiro passo significa sempre dizer "foda-se" para a mais popular questão entre jovens na puberdade (ou homens de qualquer idade): quem perguntou? Pessoas extrovertidas estão pouco se cagando para essas coisas, eles estão desprendidos da expectativa boba de terceiros. Mas aos tímidos, vixe, deus nos livre invadir o espaço de alguém convocando a atenção dessa pessoa para algo que, se ela tivesse mesmo interesse, teria perguntado primeiro. Socorro.

Contra-ataque: mas digamos que a outra pessoa tenha mesmo começado o assunto, e por algum motivo seja esperada de você uma resposta. Quando é só uma pergunta direta ("você é casado?", "pra que time você torce?") é tranquilo. Mas e quando é uma coisa mais etérea, subjetiva, ou quando não é exatamente uma pergunta mas você precisa preencher o espaço que se alarga e grita após o ponto final da outra parte ("essa fila não anda.")? Puta merda, puta merda. Responder o que? Um "é foda"? Coisa mais sem graça, a pessoa vai achar que você não quer falar com ela (o que obviamente é verdade, mas lembre-se que "foda-se" só está no nosso vocabulário quando está entre aspas). Se responder com uma piadinha também é uma merda, porque 1) a pessoa pode estar lá putona, não querendo saber de gracinha; 2) ninguém entende as minhas piadas. Aí existe sempre a saída da resposta fácil padrão ("deviam abrir mais caixas"), mas eu particularmente fico um pouco incomodado com esse tipo de coisa porque a vida é tão maravilhosa e as possibilidades são tantas e a gente fica usando as mesmas respostas formuláicas pra tudo.

Mas elas funcionam, né, fazer o que.

Expressão tridimensional: você ocupa lugar no espaço, e só você ocupa esse lugar. Ele é seu, de mais ninguém! Infelizmente, isso traz certas responsabilidades. Como latifundiário desses metros cúbicos limitados pela sua pele, você precisa fazer valer a pena. Mas aí sua postura é uma bosta, seu zíper tá aberto, você anda de um jeito engraçado e vira a cabeça sempre uma fração de segundo depois de todo o resto do corpo, o que te deixa com aquele ar de ciborgue que acha que aprendeu todos os segredos humanos menos a amar mas na verdade não aprendeu quase nada dos segredos humanos. Você é desastrado e o ar nunca se encaixa bem ao seu redor, então a roupa nunca veste direito e a barba tem toda uma miríade de densidades pelográficas distintas espalhadas tão aleatoriamente que parece que foi de propósito. E você morre de vergonha por isso, claro, mas também não é capaz de apontar exatamente o que está errado, o que é sempre um terror (e nos leva ao próximo tópico).

Neura: e se eu estiver falando alto demais? E se tiver um mato no meu dente? E se o sorriso que eu dei não se configurou exatamente como um sorriso e a pessoa achou que eu tava pedindo silenciosamente pra ela calar a boca? E se usar esse :P não for o mais adequado para esse email enviado pra empresa inteira? E se eu roncar? E se minha cueca estiver com aquela aura marrom? E se eu num momento de desatenção deixar escapar que acho Muse uma das maiores atrocidades que já aconteceram aos meus ouvidos e não conseguir fingir talvez colocando no meio de um texto pra parecer que é um exemplo genérico e não a minha opinião de verdade e que eu preferia que um falcão desse um rasante na minha cara, arrancasse meu olho e logo atrás viesse um pombo e cagasse dentro do buraco que ficou a ter que ouvir uma música deles? E se eu for espirrar e acabar peidando junto? E se


Ora, eu sou tímido porque sou e pronto. Mas daí parece que "tímido" (como "nerd", mas já tratamos desse assunto anteriormente), virou uma insígnia que o cara aleatoriamente se atribui, porque deve ser legal por algum motivo. Estou frequentemente vendo gente se dizendo tímida sem passar nem perto disso. Outro dia mesmo vi uma autodefinição dessa da Britney Spears. Eu teria vergonha de chegar perto da Madonna; ela deu-lhe uma linguada. Ao vivo. Em rede nacional. Usando quatro centímetros quadrados de roupa. Nossa, como ela é introvertida.

A questão é que vivemos - kibarei - em uma expansivocracia, e num mundo em que as pessoas não estão em busca de respostas, estão em busca de desculpas. Eu tive professores na faculdade (sou formado em publicidade, não que me orgulhe) que diziam que naquela carreira não tinha lugar para timidez. Em primeiro lugar, tiremos isso da frente: tem lugar sim, para de ser babaca (embora isso talvez seja pré-requisito, sei lá). Mas claro que nada é mais fácil pra quem é reservado e menos talentoso no trato com os aspectos humanos da vida, então é meio comum por na timidez a culpa por certos insucessos nessa longa caminhada rumo à morte amiga. Então tem sujeito dizendo que é tímido pra justificar o mimimi; ora, deixa disso, campeão. Se você usa a minha desculpa, o que me resta?

É sério: eu conquistei essa ressalva para o fracasso com muito esforço, suor e gaguejadas. Vá caçar as suas próprias desculpas.

Ou tente melhorar, sei lá.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Mais jabá

Mais jabá? Mais jabá.

Na próxima quarta-feira, 20 de novembro, meus correligionários e eu tocaremos na Praça da República, em São Paulo (não na praça exatamente). É feriado, dia da consciência negra (como se os pobres afrodescendentes já não tivessem sofrido o bastante), e dá pra chegar, beber, ouvir nossos alaridos e ir me atualizando sobre São Paulo x Ponte Preta, porque eu estarei um pouco ocupado diminuindo a expectativa de vida dos incautos que comparecerem. Só bons motivos, olha só.

Tem um evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/217860498394611

E um flyer horrível:


Eu se fosse você, ia. Na verdade não ia, não, mas se você fosse eu, iria. Porque aí você teria que tocar. Não sei como isso pode ser um fator de convencimento pra alguém, mas também não sei como tem gente que gosta desse blog, e aqui está você.

Melhor eu parar. Até lá, então.

domingo, 10 de novembro de 2013

A gente se veste do mesmo jeito porque se sente do mesmo jeito

http://www.reverbcity.com/produto/Camisetas/T-shirts/Blur

Já que não sou de colocar fotos minhas no blog, cabe dizer, antes de ir direto ao assunto, que eu me visto assim: camiseta, calça jeans, tênis. A camiseta pode ser de time (difícil), de banda (de vez em quando) ou lisa (o mais normal). Então se um dia você encontrar na rua um cara de camiseta branca, jeans e tênis da Adidas, já sabe: provavelmente não sou eu, mas pode ser.

Passei o último sábado numa epopeia particular para ver o Blur, uma das poucas coisas que faltavam na minha lista de shows obrigatórios pra assistir antes de morrer (vem, Neil Young). Aparei a barba, tomei banho, peguei meu tênis da Adidas mais confortável e fui na camiseta que estava separada desde o começo da semana: uma verde com caixinhas de leite que caricaturizam os integrantes da banda. Ela estava lá havia tanto tempo aguardando esse dia, e esse dia chegou. Não era só uma realização minha, era da camiseta também.

E aí na fila pra entrar eu vejo um cara com a camiseta igual. Bem, era de se esperar, é a grande banda do festival, vai ter mesmo um ou outro usando essa aí. Passando a catraca, vejo mais uma moça. E depois mais um, e mais um e mais outra. Faço uma volta completa em torno do meu próprio eixo e avisto quatro. Não, pera, tem mais um no fundo.

Era uma legião de pessoas com a camiseta verde do leitinho (sendo mais correto, alguns estavam de vermelho, mas com a mesma estampa). Lembrei de End of a Century: a gente se veste do mesmo jeito porque se sente do mesmo jeito. Não que eu ligue pra qualquer aspecto do mundo fashion, mas quando você tem uma camiseta diferente e ela acaba sendo igual, isso meio que te rebaixa como indivíduo e te joga num comboio cheio de gente sem cara.

(Camiseta de time é outra história, gente, é diferente)

Entretanto, foi um grande, grande show. Que banda, amiguinhos. Era pra ser uma realização minha e da camiseta, acabou sendo só minha. Mas, já que a cidade da felicidade era pequena demais para nós dois, a camiseta que se foda.

Se não afirmo minha individualidade pela vestimenta, afirmo pelo egoísmo.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Nelson

Era um fim de tarde de domingo típico, em que eu voltava pra casa depois de passar o fim de semana a mil (sendo paparicado na casa dos meus pais). Cheguei no portão e fui recebido pelos três cachorros, naquele fervor habitual. E enquanto eu habilmente destrancava o cadeado, com todo cuidado e firmeza pra não deixar a chave cair e eu ficar panguando do lado de fora (já aconteceu), ouvi um quarto latido, mais grave, mais rouco. Que diabo é isso. Abri o portão, fechei o portão, abri a porta de casa e tá lá dentro um cocker gordo e marrom de grandes olheiras (e orelhas, claro) que eu nunca tinha visto na vida.

Sei lá quem é esse cara, mas e aí véi, beleza, passa a mão na cabeça e tal. Minutos depois recebo mensagem de uma amiga (que não vou nomear porque ela ainda vai se tornar vilã até o final do texto) dizendo "já conheceu o Nelson?". Ah, então esse é o Nelson. Nelsão.

Ele foi encontrado amarrado num poste, debaixo de chuva. Alguém viu, socorreu e hospedou num pet shop. Outro alguém soube e resolveu levar para um lugar mais aconchegante, até achar alguém pra adotar. Esse lugar era lá em casa (esse pet shop devia se chamar Gomorra, porque imagina).

Nelsão é uma figura. Ele faz barulho igual o primeiro modelo do PlayStation 3, aquele grandão. Ele tem um bafo desgraçado. Ele peida. Ele fica parado do seu lado te olhando por horas, se deixar. Ele tem uma pirocona que só não me deixava apavorado porque eu sabia que ele não conseguia subir na minha cama. Ele foi adotado por outro casal, e a vida ficou triste, e depois ele voltou pra cá, e a vida ficou feliz de novo. Era meu companheirão, ainda que o fato dele ficar parado te olhando por horas seja mais digno de preocupação que qualquer outra coisa.

Então um dia eu estava resolvendo burocracias em recantos engravatados de São Paulo e, na plataforma do trem, recebo outra mensagem, da mesma pessoa, dizendo "achei os donos do Nelson".

Digressão: a gente notou, pelos hábitos e pela educação, que ele foi bem criado. Digo, ele peidava e tal, mas minha família toda faz isso. Então o evento dele estar amarrado no poste deve ter sido um acidente. Decidiu-se procurar os donos antigos. Voltemos.

"Achei os donos do Nelson". Assim, plau, na fuça. E vou dizer que esse não foi dos dias menos ridículos que eu já vivi: embora eu compreendesse a força desse momento, de como era legal o Nelsão voltar para o seu lar, de como era incrível ter-se encontrado uma agulha nesse palheiro interminável, a frustração me escorria pelos olhos. E assim o fez durante o dia todo, mas por sorte eu consegui camuflar com a rinite (lágrimas e catarro / molham o vidro da janela / mas ninguém me vê).

Os donos do Nelson (que na verdade se chama Boris, hunf) buscá-lo-iam naquela mesma noite. Mas naquela mesma noite eu já estava compromissado com os meus tolos sonhos de sucesso e relevância, de maneira que só fui pra casa pegar minha guitarra, meus pedais e correr pro estúdio. Como humilhação nunca é o bastante, ainda deu tempo de pegar o violão e me despedir do meu amigão com uma canção que eu havia composto em tempos anteriores e se chama "Eu vou deixar vocês pra trás" (que eu copiei de um lado B do Oasis, conta pra ninguém). Não consegui, fui engolido pela emoção.

Que fique bem claro que embora eu costume exagerar e incrementar adereços patéticos às minhas histórias para fins cômicos, dessa vez aconteceu exatamente como descrito, por mais vergonha que eu tenha de admitir.

Então eu fiz o caminho inverso daquele do primeiro dia: passei-lhe a mão na cabeça, atravessei a porta, depois o portão, tranquei com o cadeado. Quando voltei, Nelsão não estava mais lá. Se foi pra sempre o meu amigo.

Como eu sou muito bom com datas (e confesso que já tentei escrever um post sobre isso, mas ele conseguiu o inacreditável feito de ser ainda menos interessante que a média publicada), sei que hoje faz um ano da ida do Nelsão, da volta do Boris. Da última vez que soube, uma ou duas semanas atrás, ele estava mal: estava internado, problemas renais. Não sei qual a situação atual e, na moral, também não quero saber. Deixa eu achar que ele tá peidando e encarando por aí, como sempre. Aceitações racionais não funcionaram pra mim um ano atrás, não vão funcionar agora.

Meu amigo vai viver pra sempre e pronto.

Sei que essa foto não combina com a frase final do texto, mas era essa ou uma que somada ao parágrafo sobre a piroca dele poderia levantar suspeitas que eu não tô com a moral assim tão alta pra combater.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Vingança, índios e salgadinhos fedorentos

Eu trabalho nesse lugar que eu trabalho há quase dois meses. É na Vila Mariana, é perto do metrô, é bom. Descobri, pouco antes de iniciar minhas aventuras aqui, que era possível ir andando do trampo pra casa (e vice-versa, mas isso significaria perder minutos preciosos de sono), desde que estivesse disposto a dar uma caminhadinha não desprezível. Eu sempre estou, então tenho feito o percurso da liberdade quase todos os dias desbravando as ruas da zona sul de São Paulo com nada mais que minhas pernas, minha mochila e minha vontade de correr esse mundo em busca de vingança contra o assassino de meu pai.

Meu pai tá vivo, eu que me deixei levar, perdão.

Ainda no começo do trajeto, onde cruza a Vergueiro com a Lins de Ivans Vasconcelos, há uma praça pequena e dentro dela uma quadra de futebol de salão. Os portões estão sempre abertos, qualquer um pode chegar e jogar. Só que...

Na primeira vez que eu passei lá, estava indo ensaiar com a gloriosa e achei estranho uma quadra pública vazia numa cidade do tamanho de São Paulo num país devotado ao futebol como o Brasil. Na segunda vez, já nesse circuito trabalho-casa, a quadra continuava vazia. E continuou vazia todas as vezes que eu passava lá, apesar de sempre ter pessoas na arquibancada improvisada fazendo aquilo que a gente sabe que os jovens fazem de melhor: viver. Poderia-se achar que essa presença de pessoas em estados alterados de consciência contribui para afastar os potenciais jogadores, mas não, qualquer um que já desbravou o futebol amador nesse país sabe que não é futebol se não tiver maconha e armas de fogo.

Comecei a pensar, então, que a razão mais lógica para esse bizarro fenômeno era que a praça foi construída em cima de um campo de futebol indígena, onde os nativos de tempos mais simples batiam a sua bola jogando com as cabeças e aquela coisa toda. Por isso a quadra estava agora amaldiçoada pelos espíritos dos índios craques do passado, como aquele grande time do Tabajara que venceu o Guarani e levou a Copa Vergueiro de 1490. Ora, o que mais poderia ser, certo?

Bom, poderia ser que as pessoas não tavam afim de jogar naquela época, porque agora o diabo da quadra tá sempre cheio e eu perdi o timing do post. Mas num dia a gente perde, no outro a gente ganha: descobri também nesse trajeto um mercado que vende Magikitos, o pior salgadinho do mundo. Dá pra sentir o cheiro daquela desgraça com o pacote lacrado. É irresistível.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Vamos faturar

Além de escrever nesse blog e ter um trabalho normal, alguns de vocês devem saber que eu tenho uma banda. Ah, a banda.

Pois a banda está lançando coisas: é um EP com três faixas chamado 13 minutos, porque ele dura 13 minutos. Não passou o caminhão da criatividade hoje. As três músicas foram escritas por mim, e devo advertir que escrevendo músicas eu sou ainda pior que escrevendo prosa, então você imagine o nível do negócio. Pior, são três canções sobre o amor, e eu não sei nada sobre o amor, porque quando eu pensei que era amor, não era, era cilada.

Como deu um trabalho do caralho pra fazer esse negócio - trabalho suficiente pra sobrescrever o tempo que eu teria para compor um texto para esse blog e cumprir a meta mensal - sinto que é meu dever vir aqui avisá-los e apresentá-los a essa pérola da música pop velha-demais-pra-ser-emo-jovem-demais-pra-ser-careca-mas-a-genética-é-foda-ops-estou-fugindo-do-assunto. Aí se vocês quiserem vocês ouçam, se não quiserem não ouçam, se gostarem espalhem para os amiguinhos, se não gostarem ninguém está aqui para julgar.


Agradeço a atenção, voltaremos à programação normal no top de 5 segundos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Bunda pra cima

A deusa da coordenação motora nunca beijou meus lábios. Quando pequeno, costumava deixar os lápis caírem toda hora, o lanche estava sempre no chão, meus dedos frequentemente ficavam grudados nos palitos de sorvete nas aulas de educação artística. Lembro de brigar com a minha mãe por ela ter-me feito defeituoso, e ela, sem sequer tentar explicar como as coisas são feitas, simplesmente colocava a culpa no meu pai. Mas eu não brigava com meu pai, não tinha essa liberdade.

O tempo passa, a gente - supostamente - fica mais esperto e passa a evitar certos eventos que ponham à prova nossas descapacidades. Dançar, por exemplo, nunca. Nem qualquer coisa que exija movimentos coreografados, como artes marciais (triste a vida de um homem nessa época em que há mais oportunidades para dançar que para brigar). Mas sendo a vida adulta esse mecanismo intrincado preparado para nos foder de qualquer maneira, não dá para se esquivar de tudo.

Não dá pra se esquivar, por exemplo, de receber o troco em moedas no caixa do mercado ou na catraca do ônibus. E moedas são coisas traiçoeiras, vivas, mancomunadas com Satanás. Ao contato da minha mão elas pulam e correm e rolam e fazem todo tipo de movimentos aleatórios e imprevisíveis. Ao chão elas vão, invariavelmente.

A esta altura cabe informar ao leitor, que me conhece há três parágrafos, que no meu quintal não há árvore de dinheiro. Por necessidade financeira e respeito aos descompassos sociais que nos entristecem publicamente é preciso pegar as moedas no chão. Não é uma tarefa digna, não. Desenhemos esse cenário sem os detalhes superficiais: é um homem adulto com a bunda pra cima.

Então corra os olhos pelo fio dessa meada: moedas estão caindo aos meus pés constantemente. Várias vezes por dia, até. E eu estou lá pegando-as, apontando o canhão para a lua, engolindo a dignidade que me quer escapar pelos olhos. Eu passo, portanto, boa parte da minha vida com a bunda pra cima. É uma posição vulnerável, talvez a mais frágil de todas. Você sabe do que eu estou falando. E ficou impossível separar as duas coisas: pra mim, a vida são os pequenos intervalos de tempo entre os momentos em que estou oferecendo meu cu ao mundo em troca de algumas moedas. Não é algo bonito de dizer, muito menos de admitir, mas é isso, não é?

Eu penso nisso, penso em como tudo pode ser visto como uma metáfora sem graça para a existência, e ainda me sinto empurrado pelo ventos da injustiça a culpar a minha mãe, a que me fez quebrado. Eu poderia ser surdo, eu conseguiria viver soluçando permanentemente, mas isso, isso é muita humilhação.

O leitor há de achar que estou reclamando de barriga cheia, que há coisas piores, que ao menos eu tenho moedas para pegar no chão. É verdade, admito. Mas não leia isso como um manifesto, pois não é meu objetivo incomodar a agenda de preocupações de ninguém. Quero apenas contar a minha história, nem que seja para trocar minha vergonha pelo riso alheio. Você pode achar que eu estou me rebaixando, que faço tudo isso para receber escárnio. Mas, no meu caso, é melhor receber gargalhadas que receber moedas. Afinal, é preferível o risco de rirem de mim que o risco de comerem minha bunda.

Ps: O autor achou por bem deixar claro que essa é uma obra de ficção, sem relação com a vida real - exceto a parte sobre não gostar que lhe comam a bunda.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

TC (ou algo assim)

A gente começou a montar o time com primos e amigos. Depois foram chegando os amigos dos amigos, os primos dos primos, os amigos dos primos e a coisa foi crescendo. Viramos um time com titulares, reservas, dois quadros. Tínhamos até uniforme, que era, divertidamente, o uniforme do São Paulo (o pai de um dos caras trabalhava na distribuidora da Adidas no Brasil, à época fornecedora de material esportivo do São Paulo). Estávamos com tudo.

Então fomos disputar nosso primeiro festival, e o adversário era o time de uma escolinha que treinava na mesma quadra. Não lembro o nome, era alguma sigla boba, tipo TC. Estávamos prontos, estávamos confiantes, íamos debulhar. Aí o juiz apitou e eles começaram a trocar passe, um dois três, um corria pra cá, um corria pra lá, chute, gol. 1 a 0 pro TC (ou o que quer que seja), nem um minuto de jogo, nem na bola a gente relou. Eu nem entendi o que aconteceu, como assim eles corriam sem a bola? Que loucura isso, rapaz. O jogo acabou uns 9x3 (pra eles claro), e eu fui até expulso - não fiz uma falta durante o ano inteiro, mas fui expulso mesmo assim.

O TC virou nosso rival, nosso Gary, nossa baleia branca. Jogamos de novo outras vezes, perdemos de novo todas as vezes. Quando estávamos com o time mais forte, mais bem treinado, voando, quando o próximo festival ia acontecer e a gente ia, finalmente, ganhar, eles cancelaram e aí o jogo foi contra outros caras (perdemos também e o time acabou depois disso). Esse último parágrafo não importa muito, mas eu queria contar essa parte da história.

Quarta feira o São Paulo (que usa uniforme igual ao que a gente usava) vai jogar contra o Cruzeiro em Belo Horizonte. E quando eu penso nisso, lembro daquele primeiro jogo contra o TC, deles tocando bola e da gente tonto sem saber pra onde correr tapando o olho pra proteger da areia que subia enquanto eles corriam feito pés-de-vento. Um time que sabe os fundamentos do futebol contra um que tem a resistência emocional de um papel molhado. Naquele ano, o ano do nosso time, o São Paulo foi campeão paulista, tinha França, Denilson, Raí voltando. 15 anos depois, eles viraram a gente. Quem sabe nós não poderíamos ser eles agora.

O curioso é que eu me lembro desse período da minha vida, meus 13 anos, como um dos mais felizes. Mas quando o juiz apitar o fim do jogo na quarta feira e o layout do placar da Globo estiver quebrado porque não prevê três dígitos, a única lembrança dessa época feliz pairando suspensa no ar será a da calamidade. Qual a lição que tiramos disso, hein?

Exato: nunca seja feliz, ou acabará contribuindo decisivamente para a humilhação de 15 milhões de pessoas. Que você não venha me dizer que nunca aprendeu nada com esse blog.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A falácia da volta por cima

Quando um dos milhares de ressecados que pagavam ingresso só pra vaiar seu sacrílego ex-ídolo de Telecaster pendurada no pescoço gritou "Judas!", ele fez uma zoeirinha, mandou a The Band tocar alto pra caralho e disparou a maior versão de Like a Rolling Stone que nós já ouvimos. Vamos esquecer que recentemente o ex-ex-ídolo desejou que aquele cara apodrecesse no inferno e foquemos no mais importante: que momento glorioso aquele deve ter sido, de dar a resposta na cara do filha da puta na hora, de superar os que te opõem, de transformar um jogo perdido numa garbosa vitória.

Esses momentos de volta por cima, de esfregação na cara, ah, eles devem ser maravilhosos. Digo "devem" porque, claro, isso nunca me aconteceu. Nunca. Jamais. Pode ser só o meu complexo de inferioridade me mandando sentar no cantinho e sair do caminho das pessoas - até na vitória: quando estava na primeira série ganhei um sorteio em que concorriam todos os alunos da escola e levei uma cesta cheia de coisas provavelmente deliciosas. A irmã de um xará da minha sala, que estava na quarta série (era uma adulta já), veio depois e me disse que eu deveria dar a cesta pro Thiago 1, porque nosso nome era igual, então que diferença faz. E, naquela hora, eu achei que deveria dar mesmo.

Mas todos sempre contam tantas histórias de quando fizeram alguém calar a boca, de quando derrubaram paredes com seus argumentos fantásticos, de como acertaram um lançamento sensacional no último minuto daquela semifinal do campeonato e o jogo estava empatado. E eu nada, nada (uma vez eu tava com raiva da falta de dedicação da equipe e quando a bola chegou pelo alto dei-lhe uma canelada de qualquer jeito e ela foi vuuum, no ângulo, e seria legal se a gente não estivesse levando uma goleada). Até que ocorreu-me um negócio.

Estatisticamente, o número de pessoas que conta histórias em que elas perderam no final é de zero por cento, com margem de zero pontos percentuais. Não existe. Eu nunca ouvi alguém no metrô falando "e a professora disse que eu não parava de falar e tava atrapalhando quem queria estudar e aí eu comecei a chorar porque poxa vida eu posso estar estragando o futuro brilhante de alguns colegas então pedi desculpa e saí correndo". As pessoas sempre são fodonas, até quando fazem coisas horríveis - eu juro pelo Charizard que enquanto estava na fila pra pegar o ônibus de volta do Rock in Rio ouvi um segurança contar sobre uma mulher que reclamava que ele havia sentado a porrada nela e ele respondia "bati, sim senhora". Você sempre vai ouvir a história do cara que pegou duas minas ao mesmo tempo na balada, mas nunca vai ouvir esse cara contando de quando broxou batendo punheta.

E sabem qual é a verdade? Todos mentem. Todos vocês. Eu estou aqui, sendo honesto com os registros históricos e relatando os tapas na cara mais sensacionais que a vida me deu e vocês tão aí contando vantagem em histórias que vocês na verdade saíram com o rabo entre as pernas. Canalhas, mentirosos! Uma prova: nenhum - nenhum - desses momentos de glória dourada aconteceu na minha presença. E vocês também nunca testemunharam nada do tipo acontecendo com terceiros.

Porque ninguém ganha nessa merda. Somos todos perdedores, patéticos abaixadores de cabeça. Até o Bob Dylan fazia musiquinha tirando onda de everybody must get stoned mas devia chegar no hotel e chorar até soluçar enquanto abraçava os joelhos e dizia "eu só queria ser amado". Sabe aquele episódio do Seinfeld que o cara zoa o George e ele pensa numa resposta tarde demais então recria todo o cenário pra poder usar aquela resposta e quando usa o cara zoa ele de novo? Então, somos todos o George. E o outro cara não existe, é um anjo enviado para nos ensinar que nós não somos nada.

E todo esse post poderia ser o MEU momento de superação, mas agora eu tô arrependido de ter dito coisas tão duras e quero pedir desculpas a todos. Aceitem essa cesta de coisas provavelmente deliciosas como retratação.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Bruce e Clarence



Quando comecei a planejar um texto sobre os dois shows do Bruce Springsteen que vi na semana passada, me vi numa encruzilhada: poderia fazer um relato descritivo e elogioso (muito elogioso) dos shows ou enfiar logo a faca na barriga e rasgar pra ver o que saía de dentro. Escolhi o segundo.

Eu comecei a ouvir a música do Boss pra valer com o Born in the USA e, vou confessar, não saquei de cara qual era todo o apelo. Achei legal e pãns, mas pra justificar estar no Olimpo do rock 'n' roll faltava coisa. E algum tempo depois eu voltei dez anos na história da música e ouvi o Born to Run. Vixe.

De cara, eu não conseguia acreditar que Thunder Road estava acontecendo. Aquilo não podia ser verdade. Tenth Avenue Freeze-Out, Night, Backstreets (meu deus!), Born to Run (meu deus!), She's the One, Meeting Across the River, Jungleland (meu. deus. do. céu) e eu não era mais a mesma pessoa. Depois disso, o Born in the USA (não confunda os nomes) passou a fazer sentido, e aí apareceram dois caras: o próprio Bruce e um tal de Clarence Clemons, lendário saxofonista da E Street Band. O Bruce era o cara que eu queria ser, ou ao menos o cara que ele era naquelas músicas. O Bruce era meu herói. Mas o Big Man era meu amigo.

Você sabe, alguns dias são melhores que outros, e - disso você não sabe - eu sou um autorrecluso, uma ostra escondida na concha de tu madre. Daqui não sai nada, porque eu não tenho forças nem talento nem vontade pra articular as minhas pendengas particulares em abstrações verbais. Sinto muito, não me leve a mal, mas eu sou meu bunker. E naqueles dias que não eram melhores que os outros o Clarence vinha e aquele saxofone me carregava pra uma terra de compreensão e fraternidade. Era como se as ondas sonoras se encaixassem nas minhas ondas cerebrais e foda-se tudo. É meio engraçado (e meio bicha também) porque eu nunca gostei de sax, tirando as precisas intervenções de Bobby Keys com os Stones. Tem músicas que são um soco na barriga, mas tem músicas que são um abraço (e o nível de bichice está atingindo níveis alarmantes).

Mas aí BUM!, Big Man morreu.

Lembro que quando eu soube da notícia imediatamente abri no Youtube uma versão ao vivo de Jungleland e chorei copiosamente durante o solo de saxofone no meio da música (de porta fechada, porque eu só sou um mariquinha extra-oficialmente). Não é que isso fosse mudar muita coisa, porque eu nunca vi o cara, se algum dia visse não falaria com ele, se falasse ele não viraria meu amigo, se virasse eu ia continuar não contando nada e reservando meus mimimis pras gravações de estúdio. Mas a morte tem um peso esquisito.

Mas, ah é, os shows. Ainda que houvesse toda a energia pulsando e sangrando e jorrando sobre todas as pessoas como se o apocalipse estivesse acontecendo do lado de fora e tava todo mundo pouco se fudendo pra isso, eu ainda via a morte ali, como uma sombra. Não digo isso de maneira pejorativa, era como se fosse mesmo o fim, como se Bruce estivesse cantando à beira do abismo (e roubo isso deslavadamente de um ensaio do Greil Marcus lá dos anos 70), como se não sobrasse nada além de estar ali e inventando um novo Messias para um momento de desespero. O amigo se foi, mas o herói ainda estava lá, sobre o palco, sobre as grades, sobre as pessoas, dançando no escuro, de coração faminto (não resisti).

O leitor mais dedicado talvez se lembre que eu comecei um texto sobre o show do Paul McCartney em São Paulo vasculhando as razões que fazem um show ser o melhor da vida. Não se preocupem, nada mudou nesse departamento, o velho Macca ainda fez o melhor show que vi na vida. Mas nos do Bruce eu vi a morte, e sinceramente não sei dizer de qual gosto mais.

Talvez eu precise começar uma segunda lista.

domingo, 8 de setembro de 2013

O Brasil

"O Brasil", enquanto entidade demoníaca representativa de tudo que há de ruim no planeta, ganhou bastante popularidade nos últimos tempos. Após o início da onda de protestos que tomou as ruas do país porque era mais fácil ir pra casa a pé que pagar aquele preço da condução (brincadeira), as evocações a esta abstração maligna tem sido mais e mais constantes. Mas eu gostaria de pedir alguns minutos do seu tempo e alguns centavos da sua paciência para tentar desfazer uma injustiça cruel aqui.

O Brasil, agora sem aspas, é bastante maravilhoso. Não digo com ufanismo nem pachequismo atochado, digo como constatação. Vejam só: é um lugar grande pra burro, boa parte dele na beira do mar, e tantas outras partes pontilhadas por maravilhosas maravilhas como a floresta amazônica, o pantanal, a mata atlântica, as cataratas do Iguaçu, Pirituba (brincadeira). Aqui, tirando umas enchentes, você não vê nada daquelas coisas que devastam os países dos outros: não tem vulcões, não tem terremotos, não tem nevascas, não tem furacões, não tem tsunamis, não caem meteoros, não tem desertos, o calor não é tão quente assim, nem o frio é tão severo. Tem tipo um milhão de bichos e um trilhão de plantas e um dozilhão de doenças venéreas (que só pega quem transa, veja bem). O solo é tão fértil que se você jogar um feto na calçada ele vai atravessar o asfalto e em nove meses você terá uma árvore de bebês no seu bairro.

Resumindo: pra quem fala que "o Brasil é um lixo porque o novo Xbox custa 2200 reais", é melhor isso que pagar 30 centavos nele (sei lá quanto custa lá fora) e perder um mês depois porque passou um tornado e levou embora (e de quebra ainda levou sua casa, seu carro e sua vó).

Nesse ponto o adorável leitor deve estar já pulando da cadeira e assustando os vizinhos aos gritos de "mas os políticos também são Brasil, porra!". Ei, calma um minuto, psh, psh, passô. Eu sei, são Brasil sim. Mas vamos, para fins didáticos, não segregar os políticos a um grupo próprio; vamos incluí-los na categoria "pessoas". Porque é isso que são, afinal, como eu e você. Todas as qualidades negativas que se atribuem aos nobres parlamentares são apenas produto de sua natureza humana, e se eles se corrompem isso é apenas uma possibilidade já contemplada na nossa programação (o código deve ser alguma coisa tipo if oportunidade == true). Sem contar que nós, civis, plebeus, populacho (como você preferir chamar), não estamos exatamente isentos de culpa.

Então, chegando finalmente aos finalmentes, ainda que nós sejamos parte dessa gloriosa nação, anexar a qualquer coisinha a etiqueta "o Brasil é uma merda" é um tanto injusto com todos os outros aspectos que são dignos de aplauso. O que é parte da injustiça que eu menciono no primeiro parágrafo. A outra parte é: quando a gente fala assim, na terceira pessoa ("o Brasil", "esse país", etc), está dando um passinho pro lado e saindo do rumo do torpedo da responsabilidade. Ponhamos a mão na consciência um minutinho, vai: o Brasil é firmeza, a gente é que deixa a desejar. E não vamos resolver essa pendenga fingindo que o problema não é conosco.

Agora que eu avisei qual é o problema, você vai lá e resolve porque minha parte eu já fiz (brincadeira).

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Soneca

A vida é dura pra quem acredita estar destinado a grandes coisas, - tipo cem mil dólares, mulheres, automóveis, mulheres, iates, mulheres, mansões, mulheres - mas é mais fácil negociar com o universo quando as suas pretensões são furrecas. Eu sou uma pessoa simples, de gostos simples, de ambições recatadas. E poucas coisas na minha rotina - quiçá fora dela também - me abundam com mais satisfação que a soneca do despertador.

Este blog já viu, em doses menores ou maiores, meus relatos lamurientos sobre minha incompetência para dormir. É difícil, é difícil. Talvez só exista uma coisa em que eu seja tão ruim quanto dormir: acordar. Então poder adiar esse sofrimento, nem que seja por só nove minutinhos, já me causa mais prazer que qualquer outra coisa que eu vá fazer depois de apertar o "desligar" ao invés do "soneca" (ou snooze, para quem é metido a besta).

Já me disseram diversas vezes o quanto isso é nocivo, que eu sou um preguiçoso, etc. E por tanto tempo eu abaixei a cabeça, me deixei abalar, humilhado, derrubado. Aí me ocorreu uma coisa.

Vivemos para o amanhã, senhores. Os deuses do cotidiano conseguiram nos estragar de tal forma que nos é impossível perceber o valor (positivo ou negativo) do que está acontecendo nesse instante. Nós agradecemos e comemoramos e compartilhamos siglas anglo-saxônicas toda vez que chega a sexta-feira. Mas sabe o que a gente faz na sexta? Trabalha. Assim como na segunda. Bom não é a sexta, porra, bom é o sábado. Mas ninguém comemora o sábado. Nos inunda de prazer a perspectiva do descanso, mas não o descanso em si. Da mesma forma, é comum ver pessoas reclamando de como não gostam do domingo, coberto que está pelas sombras da danação da segunda-feira. Só que o domingo - aceitem - é melhor que a sexta. Muito melhor, nem compara. E isso segue pra tantas outras coisas, e nesses tempos de câmeras de bolso nem se fala. Tem gente que vai a um show e passa mais tempo ajustando as configurações do aparelho e procurando o melhor ângulo do que vendo a banda em si. Que, sabe, é meio que o motivo de estarmos todos ali.

O problema é que só o agora existe. O antes é uma mancha de sangue estampada na ladeira da memória e o depois é uma paisagem sem contraste no horizonte. Esse é o valor do soneca: é prazer imediato, sem adiamentos, sem pensar nas consequências. E eu tenho overdose de soneca todos os dias: meu despertador começa a tocar às 7h50 (já foi 7h20) e eu vou levantar lá pelas 9 (quando estou inspirado, só 9h15 ou 9h20). Não chego no horário num dia de trabalho desde 1996. E não ligo. Se ser feliz é motivo de demissão, pode demitir, é sem dúvida uma justa causa. Eu não quero promoções, não quero progressão salarial, não quero uma carreira enfeitada com lantejoulas e medalhas. Eu quero só mais cinco minutinhos.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Paramos para aguardar a movimentação do trem da história

São Paulo é uma cidade pós-apocalíptica com um problema sério de timing. Melhor dizendo, é uma cidade pronta para a merda, não no sentido de "estamos preparados, venham os demônios alienígenas" mas no de "quando tudo acontecer, aqui será como nos filmes". E há poesia nisso, sim senhor.

O metrô da cidade cinzenta é multicolorido, como muitos devem saber: tem a linha verde, a azul, a vermelha e tal. A linha mais nova é a amarela, e essa é motivo de orgulho para o paulistano mais apaixonado: moderna, elegante, veloz e bela. Tudo cheira a futuro, parece que estamos dentro de uma estação espacial. Não há, pasme, um maquinista. Ninguém pra fazer cara de "olha que babaca do caralho" quando você acha superengraçado estender o braço pro trem, ninguém pra dizer a próxima estação, ninguém pra pedir encarecidamente que o bovino usuário não impeça o fechamento das portas, ninguém para aguardar conosco a movimentação do trem à frente.

Esse é o modelo de futuro que habita o inconsciente popular: coisas fazendo o trabalho. Quanto mais puderem se livrar de pessoas, melhor. A assepsia misantropa tem seus entraves: quem vai dizer qual a próxima estação e por qual lado devemos descer? A solução foi usar uma gravação humana (porque a voz humana ainda soa melhor que a da GLaDOS) e deixar lá. É o melhor que dá, funciona bem, e o futuro não desapareceu do horizonte por causa disso. Ufa.

SÓ QUE, acompanhe o raciocínio comigo: um dia a pessoa da voz do metrô vai morrer. Um dia todos nós vamos morrer. Um dia os demônios alienígenas virão, colocarão um vírus terrivelmente terrível em algo que todos usam (tipo no gelimão) e aí PLAU, humanidade foi pro caralho. Os times não vão mais jogar, os videogames não vão mais ligar, as guitarras não vão mais tocar. Mas o metrô, vixe maria, o metrô vai continuar rodando, dia após dia, noite após noite (parando à meia noite ou uma hora no sábado), chug chug chug chug por debaixo da terra enquanto a mocinha tão simpática, tão alegre, a mocinha que morreu continuará narrando, do além-túmulo, próxima estação República, próxima estação Faria Lima, próxima estação Butantã. Desembarque pelo lado direito do trem.

E quando outros alienígenas pousarem na Terra, daqui a mil anos, e catalogarem o nosso rico ecossistema - e ele estará obviamente mais rico do que é hoje -, haverá um animal que eles não conseguirão classificar. Um grande verme feito de metal que ronrona chug chug chug chug e diz coisas sem sentido repetidamente com uma voz doce e angelical. E eles tentarão colocar as próprias naves para cruzar com os vermes, porque sei lá, vai que.

Com todo o respeito, esse futuro de macintosh que tentam me vender eu não quero. Eu quero o verme com voz de mulher.

Aviso: este texto ignora as leis mais básicas da física e da biologia. Caso os alienígenas resgatem também esse blog, saibam que se isso aí tudo aconteceu foi cagada.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Ali, moço

Eu moro numa rua tal. Descendo ela e virando no final à direita, tem uma outra ruazona que vai até o metrô. Nessa outra ruazona tem uma escola de crianças pequenas. Nesse dia eu estava saindo de casa mais cedo (leia-se nove horas) porque tinha acordado duas horas antes pra ver meu tricolor perder (não vem ao caso). Ao atravessar a rua bem na altura da escola, noto que por uma pequena abertura no portão um grupo de quatro pequenotes de uns cinco ou seis anos de idade tenta alcançar algo na calçada. Eles, me vendo, começam a dizer:

- Moço, moço, pega pra gente, moço.

Melhor, três deles diziam isso. O quarto ficava só me olhando e repetindo:

- A gente tá numa escola.

Eu tava ali meio perdido, não havia nada na calçada além de folhas caídas, folhetos de mercado e um pote de chamyto amassado. Tentei então travar um diálogo com a criançada, o futuro do Brasil.

- O que vocês querem que eu pegue, seus pestinhas?

Mentira, eu não chamei eles de "seus pestinhas", porque isso seria muito de tiozão.

Só que imaginem que tudo isso não aconteceu como nesse texto, com vírgulas e quebras de linha. A coisa foi mais ou menos assim:

MOÇO PEGA PRA GENTE MOÇO Ô MOÇO a gente tá numa escola PEGA PRA GENTE MOÇO o que vocês querem que PEGA PRA numa escola GENTE MOÇO PEGA o que MOÇO a gente tá numa escola AÍ NO CHÃO seus pestinhas MOÇO MOÇO a gente PEGA MOÇO

Eu não conseguia saber o que eles queriam. Eu queria ajudar, fazer o bem para os pequenos dementes (NÃO É UMA ESCOLA PARA DEFICIENTES MENTAIS ENTÃO A PIADA NÃO É DE MAU GOSTO OK?) em busca de sua pokébola imaginária, só que eu tenho 28 anos e não consigo mais ficar por aí imaginando pokébolas. Eu trabalho, posso comprar as de verdade. Mas nada da gente chegar num diálogo (pentálogo?).

a gente tá numa escola PEGA ALI MOÇO PEGA PRA GENTE o que vocês ALI MOÇO o que NO CHÃO MOÇO PEGA a gente tá numa escola POR FAVOR MOÇO o que voc ISSO ALI MOÇO a gente tá numa escola MOÇO PEGA

Veja bem: eu tinha acabado de ver o meu time sofrer a derrota mais patética dos últimos meses (e os últimos meses foram pródigos em derrotas patéticas). Eu acordei mais cedo, dormi mal, estava saindo para o trabalho às ultrajantes nove da madrugada e ainda borbulhavam em mim aqueles desejos violentos incandescentes. Eu só queria saber o que diabo eles queriam pra entregar aquela merda e deixar eles felizes e ir trabalhar com minha consciência metropolitana satisfeita. Mas nós não conseguíamos nos entender. Não conseguíamos conversar. Todos seres humanos, do mesmo gênero (usar a palavra "sexo" num texto sobre crianças não deve pegar bem), da mesma vizinhança, todos unidos na frustração (eu com o futebol, eles com as grades que limitavam sua liberdade e seu desenvolvimento criativo), mas não havia comunicação. Desistindo, eu peguei o pote de chamyto e entreguei e parece que era isso mesmo que eles queriam. Quando foi que todas as crianças do mundo caíram de cabeça pra achar que Chamyto é melhor que Yakult? Quando foi que o barulho da cidade ficou tão alto que não conseguimos mais ouvir, só gritar? Por que aquele tapado daquele idiota ficava repetindo que eles estavam numa escola EU MORO AQUI CARALHO EU SEI QUE ISSO É UMA ESCOLA E MESMO QUE EU NÃO SOUBESSE O QUE MAIS EU PODERIA PENSAR QUE É ESSE LUGAR?

São tantas perguntas, e o mundo parece ser o lugar com todas as respostas. A gente está mesmo numa escola.

sábado, 10 de agosto de 2013

Gelimão

Bar, restaurante, algo do tipo. Você está sentado, o garçom está de pé, ansioso.

- Vou querer uma Coca.

Ele anota. Sem levantar os olhos do bloquinho, manda:

- Gelimão?

Não, caralho. Não quero gelimão. Eu odeio gelimão. Não sei como alguém, em pleno uso de suas faculdades mentais, pode gostar de gelimão. Joguem bosta dentro do meu copo d'água, é menos agressivo e desrespeitoso que gelimão.

Não sei qual foi o desvio errado que o trem da sociedade pegou no passado que nos deixou nesse ponto em que é padrão colocar gelo e limão dentro de um copo de Coca. Não é uma questão de gosto, é obrigação já. Experimente dizer "não, só a Coca" pro garçom. Ele vai tomar como sarcasmo e vai trazer o refrigerante com gelimão do mesmo jeito.

A Coca-Cola é um líquido abençoado e maravilhoso, feito segundo receita de Deus, preparado por anjos, beijado por Satanás. Me dê um copo de Coca gelada e cheia de gás e eu não preciso nem da minha mãe. Então vamos começar pelo gelo: gelo é água. Serião. Se o seu refrigerante já está na temperatura ideal (que é o que se espera dele num estabelecimento desse tipo), por que bucetas você vai aguar ele com gelo? Nem deixa mais frio aquela porra, é só um cubo batendo no seu beiço. É tática pra enganar trouxa. A única coisa que fica gelada no processo é o seu bigode.

E refrigerantes, como sabemos, são feitos com doses industriais inacreditáveis jesuscristoémuitoessaporra de açúcar. Pesquisas comprovaram que em cada gota de Coca-Cola tem açúcar suficiente pra cobrir um vilarejo inteiro e ainda sobra um tantinho pra polvilhar na cabeça das crianças pra elas acharem que tem caspa. Quando você decide ingerir esse veneno, já está decidido a trocar dez anos de vida saudável por doçura e amor. E aí me joga o limão pra AZEDAR o bagulho. Vai tomar no cu.

O gelimão é só mais uma ferramenta dessa urubuzação invisível que é o conceito - jamais pronunciado em voz alta - de que a gente não merece a verdadeira felicidade. De que se uma coisa é boa demais, está automaticamente errada e é moralmente reprovável. O gelimão é a chuva ácida da sociedade sobre nossa liberdade, é o muro que nos separa dos nossos sonhos. O gelimão é o imposto abusivo, é o terceiro cartão amarelo, é o professor de educação artística, é a hora de ir pra cama. O gelimão é o DRM, é os talheres, é pagar mais pra beijar na boca, é não poder usar drogas, é não poder dizer pra sua vó que trabalhar é importante e casar é legal, mas as suas coisas preferidas na vida são dormir e cagar. O gelimão é o despertador, é não poder beber no estádio, é a porta do armário, é a borracha, é o DJ tocar Bon Jovi logo depois de The Cure, é a chapinha, é as definições de vírus foram atualizadas. O gelimão é o não.

Pois eu quero que o gelimão se foda. Eu quero é ser feliz, beber grandes goladas, arrotar alto. Gelimão é frescura, e de frescura na minha vida já basta esse post.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

My bloody valentão

A sociedade está sempre em transição, faz parte do seu movimento migratório rumo à completa falta de sentido (falta pouco, mas chegaremos lá). Pessoas que querem a mesma coisa estão no mesmo lugar, mas pessoas em movimento frequentemente querem coisas diferentes, e daí vemos tantas divisões de filosofias e atitudes, tantas discordâncias morais. Tanta enrolação para um primeiro parágrafo.

Uma das distorções que misturam os fantasmas chuviscados do passado à imagem em alta resolução do futuro é a relação do homem masculino com a violência física (tratei mais ou menos disso em outros tempos, lembra?). Não é aceitável, segundo o moleskine do Bom Gosto na Contemporaneidade, sair agredindo outras pessoas por aí para resolver seus problemas. Mas, ao mesmo tempo, existe essa pressão invisível (um livro de capa dura e páginas amarelas chamado "Tradição") que insinua, assim de leve, que um homem só é homem se já tiver saído na porrada com outro cara (eu sei, EU SEI que é uma contradição divertida). E aí, como faz?

Você pode ficar chocado com essa informação (sente-se primeiro, pegue um copo d'água), mas eu não sou briguento. Nunca tretei com ninguém. Sou uma pessoa que evita conflitos, mesmo os verbais. Sou da paz e tal, mas nem tanto por ter uma alma pacífica e conciliatória, mais por ser um cagão espetacular. E, além disso, eu tenho baixa resistência à dor e a constituição física de um louva-deus, todos atributos que alguém racional como yo levam grandemente em consideração antes de sair por aí se engatando com outro rapaz.

Mas não é a repreensão histórica que me preocupa. Não tenho problemas de não me considerarem um homem por nunca ter levado um soco na cara - acreditem, mesmo que eu já tivesse levando cem socos, ainda há ao menos uma dezena de atributos faltantes que me desqualificam dessa condição -, eu tenho é medo por causa da minha já conhecida sugestionabilidade.

Explico: Breaking Bad ainda não voltou, fica aquele vazio no peito e tal, então fui em busca de outras séries para preencher minha sede de não trabalhar nem ler um bom livro. Encontrei nos clássicos do passado The Sopranos, uma série sobre máfia e tal. E uma das coisas que me impressionam é como esse povo resolve tudo na porrada. Tudo. Eu pedi um ovo frito, ele veio com a gema meio mole, eu entro na cozinha jogo as panela no chão chuto os rato pela janela e soco a cara do cozinheiro até não dar pra saber se o que tá por cima daquele macarrão é molho mesmo.

Pois que eu sou um sujeito sem flexibilidade para lidar com os vai-vens da vida, então observo, calculo, repito. Como eu prefiro a ilha deserta à cidade grande, frequentemente meus parâmetros sociais não vem do que fazem as pessoas de verdade, mas os personagens da ficção. Então não tem sido raro nas últimas semanas eu me pegar com o desejo de partir pra porrada por causa de qualquer coisa que arranhe a superfície do meu ego inflado. Mas há uma coisa na série que não se reproduz na vida real: lá, os apanhantes nunca revidam. Eles só ficam chorando, sofrendo, dizendo porfavorsenhorbatenieunão. E como minha sensibilidade à dor é aguçada, mesmo se eu fosse bater em alguém ia acabar sofrendo por isso. Então na minha cabeça o que se passa sempre sou eu intimidando o "oponente" e ele se cagando de medo.

Motivos pelos quais isso nunca aconteceria:

1- As pessoas podem me enxergar de dois jeitos: como um maluco, perigoso, instável, impiedoso; ou como o rapaz inofensivo vindo de uma família que o criou com muito amor e que tomou Sustagen na infância pra ver se ficava mais fortinho. Adivinha qual eu sou. Adivinha como me enxergarão.

2- Eu não assusto ninguém. Eu tenho 60 quilos, meus braços são finos, minhas mãos são delicadas, meus ombros são pra frente e os joelhos são pra dentro. Eu tenho uma camiseta do Radiohead.

3- A chave da intimidação é a imponência. Então me imagino com os olhos arregalados, olhando bem no fundo da alma do filho da puta e gritando umas coisas aterrorizantes e que não fazem o menor sentido tipo EU VOU CORTAR SUAS UNHAS E PENDURAR ELAS NO VARAL. Na prática, meus olhos iam ficar lacrimejando pelo esforço de manter-se abertos e, dada minha dicção privilegiada, a outra pessoa só ia ouvir algo tipo FSGDFNAF ADPOJFSDF ADASDJ 99ADFS U. O mais provável é que ele se compadeça da minha situação e me entregue o cartão de uma fonoaudióloga dizendo "vai lá, ela é muito boa".

Sem contar que, sendo o robô programado pra abaixar a cabeça que sou, eu sempre devo pensar no que vai acontecer depois que o narrador do além gritar round one: fight. Por exemplo, se o cara estiver acompanhado de outros caras, serei massacrado. Se ele estiver com a namorada, tem traumas psicológicos já expostos. Se ele for uma criança, pode chamar o pai. Em nenhuma possibilidade eu vou me sair bem. A questão é: e se não der tempo de a interpretação tresloucada de Tony Soprano passar pelo script de pessimismo na minha cabeça e eu simplesmente começar a ofender a pessoa que tá esfregando a bolsa na minha cara enquanto eu estou sentado no metrô, dizendo coisas tipo "foda-se se você tá grávida, devia ter pensado mais antes de ir enfiando a piroca de qualquer um aí a menos que você tenha sido estuprada porque aí é mancada e eu sinto muito"? Nada de bom pode vir daí (bom, a criança vai iluminar a vida dela e tal, mas eu vou passar a enxergar o mundo com um olho só). Tudo bem que eu não sou um homem de arroubos emocionais, mas e se meu instinto de Abed suprir essa falta e me por em enrascada do mesmo jeito?

Tô precisando que Breaking Bad volte logo. Nunca tive problemas dando aulas de química.