quarta-feira, 19 de abril de 2017

10!

Dia 7 de janeiro de 1995 eu fiz 10 anos. Lembro de andar na Lapa, queixo erguido, ombros pra trás, braços balançando, com a confiança de saber que eu era um ADULTO. Eu olhava para os outros adultos, torres se erguendo ao meu redor, e me sentia um deles. Eu já era meio burro na época, né, claro que eu não era adulto. Inclusive estava na Lapa porque meu pai foi comprar os chapeuzinhos de papel pra minha festa de aniversário dos Cavaleiros do Zodíaco (irada). Acho que já contei essa história aqui.

Na verdade, acho que já contei todas as histórias aqui. Porque, assim como eu naquele 7 de janeiro de 95, hoje esse blog anda pela Lapa de queixo erguido, ombros pra trás e braços balançando: sim, hoje o Vida de bosta completa 10 (dez) anos! Nossa senhora.

É estranho imaginar que durou isso tudo porque n'A Grande Era das Opiniões Não Solicitadas blogs são cidades em ruínas visitadas por turistas de férias. É difícil de acreditar, crianças, mas houve um tempo em que as pessoas iam de endereço em endereço na rede mundial de computadores procurando saber a opinião de terceiros. Sim, o masoquismo já era tendência antes de 50 tons de cinza.

Tenho vergonha de absolutamente tudo já escrito nesse blog, e a intensidade da vergonha aumenta de acordo com a idade do post. Entretanto, tá tudo aí: é um registro de quem eu era e de quem eu estava tentando ser. Quando a Grande Calamidade acontecer e tudo que meus filhos tiverem de mim forem as lembranças de eu os oferecendo em sacrifício para as bestas saídas do inferno pra me salvar, eles vão encontrar um dispositivo ancestral chamado "smartphone" e no cache de um negócio chamado "site" da entidade que fez o pacto final com Satanás permitindo assim a abertura dos portais para as trevas vão descobrir o Vida de bosta e saber quem era realmente o pai deles. E isso só vai piorar ainda mais minha já abalada reputação.

Mas, ahn, é isso. Peço desculpas pela escassez de conteúdo novo (achei um post nos rascunhos do meu email e devo publicá-lo em breve, yay). Agradeço pela atenção e pela companhia. 10 anos é tempo pra caralho, e eu sei que tem gente aí que tá lendo faz tempo. Brigadão mesmo.

E, para os que estiverem lendo isso no futuro: sigam na direção das montanhas gêmeas. Procurem numa pedra na maior clareira da maior caverna. Apenas essa espada poderá derrotar Belzegoogle. Papai ama vocês.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Burrice

Parte do meu processo de envelhecimento tem sido gasto procurando ser uma pessoa melhor, mais justa, com mais empatia e menos julgamentos sumários. Esse talvez seja um dos motivos pra esse blog andar tão devagar: imagina que saco ler toda semana um bocó escrevendo "gente, calma, vamos pensar o lado da outra pessoa". Sai daqui, internet é pra apontar dedo na cara.

Um dos julgamentos mais comuns e mais irresistíveis é considerar burro todo mundo que possa pensar ligeiramente diferente de você ou que não tenha um repertório intelectual que o senso comum reputa como sendo próprios da pessoa inteligente. Então esse é um dos esforços maiores que tenho feito nessa minha jornada rumo à nulidade completa, o de entender que existem inteligências diferentes, que esperteza acadêmica não define tudo, que há tantos fatores envolvidos em cada acontecimento que é possível cinco pessoas terem opiniões diferentes e mesmo assim não estarem exatamente erradas. Um ou dois talvez sejam filhos da puta, mas não burros.

Ops, estou julgando de novo. Desculpe.

Mas como todo esforço observado sob a ótica maniqueísta (que está errada, sempre, para com isso), há aquele desafio, aquela pedra no sapato, o inimigo sombrio que quer evitar seus planos a qualquer custo. E, quanto mais eu tento avaliar outras perspectivas, descobrir os pontos fortes em que a pessoa brilha e demonstra inteligência especial, tem uma pessoa que derruba minha teoria toda vez. Minha teoria de que ninguém é burro, você que não viu direito. Tem um sujeito, vamos preservar o nome dele por ora, que continua me desafiando. Que fica chutando todas as minhas análises, que toda vez que eu consigo finalmente resolver um grande quebra-cabeça lógico e retórico ele dá um tapão, derruba no chão e grita na minha cara "VAI DIZER QUE EU NÃO SOU BURRO AGORA?"

Sim, tem sido cada vez mais difícil não achar que eu sou um palerma completo. Talvez porque eu me conheça melhor do que conheço a qualquer outra pessoa. Veja: a ignorância me faz achar que as pessoas são inteligentes, o conhecimento me faz achar que eu sou burro. Se isso não é poesia, é o que? Não é poesia mesmo, só quero saber o que é.

"Ah, mas você é inteligente". Obrigado, mãe. Eu às vezes gosto de pensar que sou mesmo, mas estou aqui travando uma queda de braço entre minhas querências inocentes e os fatos duros. Eu sei que estou na internet e na internet os fatos não tem importância, mas ao mesmo tempo eu nunca ganho uma queda de braço, então é meio como a história do gato com o pão com manteiga.

Mas apesar de eu ter dito que fatos não importam, vamos a eles. Listo a seguir alguns acontecimentos recentes ou relativamente recentes. Julguem por vocês mesmos (concordem comigo): eu fiquei calculando a velocidade da esteira de bagagem no aeroporto pra andar por ela no sentido oposto até alcançar minha mala que caiu do outro lado (ao invés de só esticar a perna e passar por cima); cogitei VIRAR MEU ASPIRADOR DE PÓ EM CIMA DA LIXEIRA ao invés de só tirar o saco com a sujeira de dentro; subi 18 andares de escada para o escritório pois o prédio estava sem luz, de modo que não havia o que fazer no diabo do escritório; fiz uma trilha montanha acima sob o sol do meio dia sendo que havia setas apontando no sentido contrário e um trenzinho que levava para o alto da montanha; não passei protetor solar enquanto fazia a trilha da montanha sob o sol do meio dia; cortei cenouras fazendo o movimento da faca em direção à minha cara; desisti de esperar o metrô que demorou cinco minutos depois de já ter pago passagem, saí da estação e fui caminhando para o trabalho pra chegar muito atrasado e suando feito um filho da puta (diversas ocorrências); comprei uma guitarra em promoção pra vender pelo preço normal, não vendi, ela estragou; paguei mais caro por um produto pelo qual eu havia pedido desconto; deixei a cachorrinha com diarreia deitar nas minhas roupas; sério, lê a última de novo; fiz minha tia que queria um sorvete de banana comprar um frozen banana, afinal, por que isso não seria um sorvete de banana? (não era); fiquei uma hora na fila errada no aeroporto e só não perdi o voo porque atrasou; fiz faculdade de publicidade; comprei um tênis de presente pra namorada achando que combinaria perfeitamente, pra só depois que cheguei em casa lembrar que ela tinha um igual; derrubei uma tupperware cheia de gordura por toda a cozinha porque decidi segurar ela só pela tampa - que era uma tampa de panela; tentei desmontar um chuveiro me posicionando exatamente embaixo dele e sem desligar o registro; comprei camisetas femininas achando que eram masculinas, não sem ter resmungado mentalmente que estão fazendo camisetas cada vez mais apertadas hoje em dia; falei "parabéns" pra uma colega que foi se despedir após ter sido demitida; coloco o pé quando vou puxar a porta pra ela não abrir com força, mas ela bate no meu pé e pof na minha cara (diversas ocorrências); quando requisitado (obrigado) a dar um depoimento para as câmeras que serviriam a um vídeo institucional da empresa, contei uma piada sobre masturbação.

Todos fazem burradas. Todos tem pontos fortes. Faz parte do balanço universal, o grande equilíbrio que não nos permite despencar. Mas e quando não há esse equilíbrio, quando você é inteligente às vezes e burro quase o tempo todo? Quer dizer que você é burro mesmo, tem jeito não, e minha teoria tá errada. O que não tem problema porque eu sou burro e você já viu teorias propostas por pessoas burras? Eu também não, porque ninguém é burro, tem que ver o lado da outra pessoa. Ou sim? Não sei mais, tô confuso, vou parar com isso.

Alguém quer comprar uma guitarra?