quarta-feira, 19 de abril de 2017

10!

Dia 7 de janeiro de 1995 eu fiz 10 anos. Lembro de andar na Lapa, queixo erguido, ombros pra trás, braços balançando, com a confiança de saber que eu era um ADULTO. Eu olhava para os outros adultos, torres se erguendo ao meu redor, e me sentia um deles. Eu já era meio burro na época, né, claro que eu não era adulto. Inclusive estava na Lapa porque meu pai foi comprar os chapeuzinhos de papel pra minha festa de aniversário dos Cavaleiros do Zodíaco (irada). Acho que já contei essa história aqui.

Na verdade, acho que já contei todas as histórias aqui. Porque, assim como eu naquele 7 de janeiro de 95, hoje esse blog anda pela Lapa de queixo erguido, ombros pra trás e braços balançando: sim, hoje o Vida de bosta completa 10 (dez) anos! Nossa senhora.

É estranho imaginar que durou isso tudo porque n'A Grande Era das Opiniões Não Solicitadas blogs são cidades em ruínas visitadas por turistas de férias. É difícil de acreditar, crianças, mas houve um tempo em que as pessoas iam de endereço em endereço na rede mundial de computadores procurando saber a opinião de terceiros. Sim, o masoquismo já era tendência antes de 50 tons de cinza.

Tenho vergonha de absolutamente tudo já escrito nesse blog, e a intensidade da vergonha aumenta de acordo com a idade do post. Entretanto, tá tudo aí: é um registro de quem eu era e de quem eu estava tentando ser. Quando a Grande Calamidade acontecer e tudo que meus filhos tiverem de mim forem as lembranças de eu os oferecendo em sacrifício para as bestas saídas do inferno pra me salvar, eles vão encontrar um dispositivo ancestral chamado "smartphone" e no cache de um negócio chamado "site" da entidade que fez o pacto final com Satanás permitindo assim a abertura dos portais para as trevas vão descobrir o Vida de bosta e saber quem era realmente o pai deles. E isso só vai piorar ainda mais minha já abalada reputação.

Mas, ahn, é isso. Peço desculpas pela escassez de conteúdo novo (achei um post nos rascunhos do meu email e devo publicá-lo em breve, yay). Agradeço pela atenção e pela companhia. 10 anos é tempo pra caralho, e eu sei que tem gente aí que tá lendo faz tempo. Brigadão mesmo.

E, para os que estiverem lendo isso no futuro: sigam na direção das montanhas gêmeas. Procurem numa pedra na maior clareira da maior caverna. Apenas essa espada poderá derrotar Belzegoogle. Papai ama vocês.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Burrice

Parte do meu processo de envelhecimento tem sido gasto procurando ser uma pessoa melhor, mais justa, com mais empatia e menos julgamentos sumários. Esse talvez seja um dos motivos pra esse blog andar tão devagar: imagina que saco ler toda semana um bocó escrevendo "gente, calma, vamos pensar o lado da outra pessoa". Sai daqui, internet é pra apontar dedo na cara.

Um dos julgamentos mais comuns e mais irresistíveis é considerar burro todo mundo que possa pensar ligeiramente diferente de você ou que não tenha um repertório intelectual que o senso comum reputa como sendo próprios da pessoa inteligente. Então esse é um dos esforços maiores que tenho feito nessa minha jornada rumo à nulidade completa, o de entender que existem inteligências diferentes, que esperteza acadêmica não define tudo, que há tantos fatores envolvidos em cada acontecimento que é possível cinco pessoas terem opiniões diferentes e mesmo assim não estarem exatamente erradas. Um ou dois talvez sejam filhos da puta, mas não burros.

Ops, estou julgando de novo. Desculpe.

Mas como todo esforço observado sob a ótica maniqueísta (que está errada, sempre, para com isso), há aquele desafio, aquela pedra no sapato, o inimigo sombrio que quer evitar seus planos a qualquer custo. E, quanto mais eu tento avaliar outras perspectivas, descobrir os pontos fortes em que a pessoa brilha e demonstra inteligência especial, tem uma pessoa que derruba minha teoria toda vez. Minha teoria de que ninguém é burro, você que não viu direito. Tem um sujeito, vamos preservar o nome dele por ora, que continua me desafiando. Que fica chutando todas as minhas análises, que toda vez que eu consigo finalmente resolver um grande quebra-cabeça lógico e retórico ele dá um tapão, derruba no chão e grita na minha cara "VAI DIZER QUE EU NÃO SOU BURRO AGORA?"

Sim, tem sido cada vez mais difícil não achar que eu sou um palerma completo. Talvez porque eu me conheça melhor do que conheço a qualquer outra pessoa. Veja: a ignorância me faz achar que as pessoas são inteligentes, o conhecimento me faz achar que eu sou burro. Se isso não é poesia, é o que? Não é poesia mesmo, só quero saber o que é.

"Ah, mas você é inteligente". Obrigado, mãe. Eu às vezes gosto de pensar que sou mesmo, mas estou aqui travando uma queda de braço entre minhas querências inocentes e os fatos duros. Eu sei que estou na internet e na internet os fatos não tem importância, mas ao mesmo tempo eu nunca ganho uma queda de braço, então é meio como a história do gato com o pão com manteiga.

Mas apesar de eu ter dito que fatos não importam, vamos a eles. Listo a seguir alguns acontecimentos recentes ou relativamente recentes. Julguem por vocês mesmos (concordem comigo): eu fiquei calculando a velocidade da esteira de bagagem no aeroporto pra andar por ela no sentido oposto até alcançar minha mala que caiu do outro lado (ao invés de só esticar a perna e passar por cima); cogitei VIRAR MEU ASPIRADOR DE PÓ EM CIMA DA LIXEIRA ao invés de só tirar o saco com a sujeira de dentro; subi 18 andares de escada para o escritório pois o prédio estava sem luz, de modo que não havia o que fazer no diabo do escritório; fiz uma trilha montanha acima sob o sol do meio dia sendo que havia setas apontando no sentido contrário e um trenzinho que levava para o alto da montanha; não passei protetor solar enquanto fazia a trilha da montanha sob o sol do meio dia; cortei cenouras fazendo o movimento da faca em direção à minha cara; desisti de esperar o metrô que demorou cinco minutos depois de já ter pago passagem, saí da estação e fui caminhando para o trabalho pra chegar muito atrasado e suando feito um filho da puta (diversas ocorrências); comprei uma guitarra em promoção pra vender pelo preço normal, não vendi, ela estragou; paguei mais caro por um produto pelo qual eu havia pedido desconto; deixei a cachorrinha com diarreia deitar nas minhas roupas; sério, lê a última de novo; fiz minha tia que queria um sorvete de banana comprar um frozen banana, afinal, por que isso não seria um sorvete de banana? (não era); fiquei uma hora na fila errada no aeroporto e só não perdi o voo porque atrasou; fiz faculdade de publicidade; comprei um tênis de presente pra namorada achando que combinaria perfeitamente, pra só depois que cheguei em casa lembrar que ela tinha um igual; derrubei uma tupperware cheia de gordura por toda a cozinha porque decidi segurar ela só pela tampa - que era uma tampa de panela; tentei desmontar um chuveiro me posicionando exatamente embaixo dele e sem desligar o registro; comprei camisetas femininas achando que eram masculinas, não sem ter resmungado mentalmente que estão fazendo camisetas cada vez mais apertadas hoje em dia; falei "parabéns" pra uma colega que foi se despedir após ter sido demitida; coloco o pé quando vou puxar a porta pra ela não abrir com força, mas ela bate no meu pé e pof na minha cara (diversas ocorrências); quando requisitado (obrigado) a dar um depoimento para as câmeras que serviriam a um vídeo institucional da empresa, contei uma piada sobre masturbação.

Todos fazem burradas. Todos tem pontos fortes. Faz parte do balanço universal, o grande equilíbrio que não nos permite despencar. Mas e quando não há esse equilíbrio, quando você é inteligente às vezes e burro quase o tempo todo? Quer dizer que você é burro mesmo, tem jeito não, e minha teoria tá errada. O que não tem problema porque eu sou burro e você já viu teorias propostas por pessoas burras? Eu também não, porque ninguém é burro, tem que ver o lado da outra pessoa. Ou sim? Não sei mais, tô confuso, vou parar com isso.

Alguém quer comprar uma guitarra?

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Emperdedorismo 2.0: como fracassar no Vale do Suplício

Quem quer que tenha nos criado, pessoinhas pensantes numa rocha espacial, cometeu um erro de projeto meio grave, se é que posso assim ter a ousadia de criticar tamanha magnificência. O problema é, vê, que somos seres semanticamente orientados: nos foi dado o dom de ver significado nas coisas. Nenhum outro ser vivo no planeta Terra possui semelhante talento. Onde está o erro de projeto: podemos ver significado nas coisas, mas nas coisas não há, sinto muito, significado nenhum.

Qual o sentido da vida? Por que nós? Pelo que lutamos? Bem, por nada. Nada faz sentido. Nada quer dizer nada. É só caos e colisão de moléculas. E isso cria um certo problema, um problema crônico próprio da nossa espécie, assim como é próprio do poodle ter otite: há o nosso corpo, e nele há a nossa alma, e nela há um imenso vazio.

Sim, um buracão, como se uma bala de canhão nos tivesse transpassado e deixado um buraco que nunca se fecha. E assim vivemos, em dor, em agonia, procurando respostas que nunca virão. Isso não é evitável, não senhor. Mas também somos uma espécie adaptável, e é desse poder maravilhoso que vem nosso combustível pra nos impulsionar permanentemente até o momento da única certeza, da única verdade, você sabe qual é.

Mas vamos deixar isso um pouco mais positivo. Hoje eu não quero lamentar, não quero depreciar, hoje eu quero ajudar! E é com esse propósito totalmente altruísta e demonstrativo da grande nobreza de caráter que me pertence que eu resolvi investir naquela que eu considero a próxima grande onda, aquela que virá depois que essa onda atual nos der um caldo e levar todos os nossos sonhos para o fundo do mar: estou falando de Emperdedorismo, que é a qualidade de todo aquele que não é só um fracassado, um bosta, um pobre diabo que não faz nada que preste, um inútil, um imbecil, um traste, um erro filha da puta, mas também uma pessoa que quer aprender a evoluir e a aprimorar sua própria fracassabilidade. Esqueça promessas de glória, frases edificantes e planos de felicidade: o importante é abraçar a sua própria miséria.

Hoje, pra começarmos de maneira mais leve, quero apresentar algumas formas de nos ajudar a lidar temporariamente com aquele grande vazio de que eu falei alguns parágrafos acima. A palavra chave aqui é "temporariamente", pois lembre-se: não existe sucesso, existe apenas o adiamento da derrota.

[apagar depois: traduzir as palavras-chaves pro inglês porque vai ficar loko d+]


Animais de estimação

Sim! Uma das maneiras mais eficientes de preencher aquele vaziozão no peito é com afeto, amor incondicional e controle absoluto sobre a vida de outrem. E animais são demais: eles são... tão fofos. Eles brincam com você, eles te dão carinho, eles te fazem companhia, eles cagam no seu travesseiro. Não é também um mar de rosas, né. Mas animais são irados e se você não concorda talvez seu problema seja outro. Talvez você apenas seja uma pessoa horrível. Desculpe. Falei.

Lááááá no fundo, porém, a posse de um animal cumpre uma outra tarefa ainda mais importante, embora seja uma que não ousamos admitir, que não ousamos sequer pensar: eles são, basicamente, ferramentas que nós mantemos com o único propósito de nos entregar amor e devoção totais. Calma! Não atire pedras ainda. É um pensamento perfeitamente normal e inclusive é a base de praticamente todas as civilizações já descobertas. Pense nos deuses e demais autoridades místicas (ou, paralelamente, no seu próprio chefe no trabalho) que exigem sacrifícios, ritos, ou orações: eles só nos colocaram aqui pra gente puxar o saco deles. A verdade é aquela: manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Mas então, animais. Tão bonitinho os animal.


Escapismo

Se o mundo é assim mesmo e nele só o que nos espera é sofrimento e Zubats, por que não viver em outro mundo? Tem tantos mundos por aí. Cada livro tem uns montes. Cada jogo tem mais outros tantos (alguns jogos também tem Zubats, é verdade). Cada filme, cada série, cada álbum (os jovens ainda ouvem álbuns ou só playlists?), cada pano pra costurar, cada relatório pra redigir, cada pisada firme no acelerador (respeite o limite de velocidade), cada gota amarga de uma cerveja vagabunda, cada picadinha ardida de uma agulha bem intencionada, cada rolagem de dado, cada abraço apertado em quem você ama, cada verso desafinado no karaokê, cada colada de zap na testa do caboclo ao lado, cada série de 15 repetições, cada compra por impulso num produto sem nota fiscal. Mentira, evite o consumismo, consumismo é para a nossa alma o que é um peido de vaca pra camada de ozônio.

Esqueça o mundo por um instante. Deixe-se alienar. Eu era um adolescente nerd, covarde e sem perspectiva de crescimento pessoal. Passava os dias desenhando universos paralelos onde só vivíamos eu e minhas criaturas. E você viu no que deu? Exato, um ADULTO nerd, covarde e sem perspectiva de crescimento pessoal.

Com os índices de criminalidade nesse país isso é algo pra se comemorar, sim.


Se achar inteligentão

Perceba que eu escrevi "se achar" e não "ser". A inteligência é ao mesmo tempo muito parecida e completamente diferente da beleza. É parecida porque é uma qualidade rara, presente nuns poucos abençoados. E é diferente porque ao menos em geral as pessoas sabem que não são bonitas.

Sim, você é feio. E burro. Toca aqui.

Não tem problema. Falta de inteligência nunca inibiu alguns dos maiores palermas do universo de destilar teorias, confeccionar textões, juntar dois fatos irrefutáveis e transformar num pensamento que só poderia ter sido produzido por um fungo. Eu conheço um site cheio deles. É do ser humano querer ser melhor que os outros, de acordo com qualquer critério arbitrário que seja mais conveniente para o orador. Nem todo mundo pode ser mais bonito, ou mais forte, ou melhor atleta, ou melhor músico, ou sei lá o que. Mas todo mundo pode PARECER inteligente, e nem é difícil. É só treinar uma cara no espelho, ofender quem tem opinião diferente da sua, ser obcecadamente impermeável aos fatos que te contradigam e plim!, você sente seu ego se expandindo, sua auto-estima florescendo, talvez o bastante pra cobrir um pouco aquele vão.


Ser ignorante

Ué! Mas isso não é o oposto do tópico anterior?

De certa forma, sim. E a boa notícia é que esse é, de longe, o método mais eficiente. Olhe ao seu redor. Veja quantas pessoas vivem suas vidas obstinadamente, com extrema dedicação, sem nunca fazer a rodinha da chinchila parar de rodar. Quem disse que a vida não tem significado? Tem sim, eu li num lugar ali. Quem disse que eu não vou ter sucesso? Se eu quero, eu posso e consigo! Desistir jamais!!!!!!!!exclamação

Essa pessoa não faz ideia. PSIU, NÃO CONTA! Deixa. É melhor assim. Olha como ela sorri. Olha o instagram dela, tem aqueles emoji da mãozinha dando um soco. Isso é maravilhoso. Deixa.

Já pra você que está lendo isso eu tenho que trazer a má notícia: pra você já era. Você sabe demais. Esses olhos caídos e sobrancelhas arqueadas trazem muita sabedoria. Agora é tarde. E, se você começou esse texto sem saber, ops. Desculpa.

Mas já que está aqui, deixa eu te falar sobre o próximo módulo do meu curso de Emperdedorismo, é sobre um negócio que...

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Pokémon

Quando o desenho do Pokémon estreou na Record, chuto que lá por 1999, eu estava naquela idade nebulosa em que seus braços são as cordas de um cabo de guerra entre a realidade e a ficção. A ficção: com 14 anos eu já sou um homem, já tenho um vistoso bigode, já praticamente tenho voz de radialista, já tive meu coração partido em tantos pedaços quanto há Pokémons na última geração. A realidade: se eu ainda sou criança aos 31, imagina aos 14.

Então entre o meu verdadeiro desejo de assistir a todos os episódios jogar todos os jogos ler todas as revistas e a minha ficcional persona neo-adulta que tem coisas mais importantes pra se preocupar como as políticas de privatização do governo FHC e a topologia da minha pele, eu vivia uma vida secreta e sombria, só conhecida por aqueles que eram sanguineamente obrigados a gostar de mim. Foi nessa época que eu aprendi a minha primeira linguagem de programação (programar o videocassete pra gravar os episódios), desenvolvi técnicas avançadas de memorização (pedra tem vantagem contra inseto, Shellder só evolui pra Cloyster usando a water stone) e aprendi a fazer planejamento e gerenciamento de recursos em situações de vida ou morte (a pilha dura 8 horas, já estou jogando desde as 11, preciso parar em 15 minutos, dá tempo de mais uma luta e uma captura caso eu gaste até 3 pokébolas - mais do que isso é muito arriscado). Essa vida subterrânea me transformou num cientista, mas todos esses conhecimentos precisariam ser redirecionados para outras atividades ou eu acabaria morrendo com habilidades que não serviam de nada e sobre as quais eu não me atrevia a falar.

Até que…

Pokémon nunca deixou de ser um sucesso absurdo e continuei jogando esses anos todos (podemos tirar, se achar melhor), mas recentemente algo aconteceu - ou reaconteceu: Pokémon voltou a ser motor dessa nave chamada zeitgeist. Pokémon GO está aí e não há quem não tenha ouvido falar. Minha mãe mandou mensagem perguntando quantos eu tinha capturado. O diretor da empresa veio mostrar áudio do whatsapp do cara falando que na época dele ele saía na rua “pra caçar droga pra dar pra puta”, não Pokémon. Até a CIA está envolvida, aparentemente, nos espionando. E é nessa era de loucura e empolgação, mas de muita incerteza, que se faz necessária a figura daquele que sabe o motivo das coisas, que sabe que um Dratini é raro e um Pidgey não, que sabe diferenciar as silhuetas do Tangela e do Venonat, que sabe que o “ovo podre” se chama Exeggcute e que o nome é Jynx, não “bruxa da neve”. Sim, o mundo deu tantas voltas que finalmente chegou na estação onde eu esperava, com minha Nintendo World debaixo do braço, já cansado e envelhecido, para embarcar. Agora meus conhecimentos servem. Agora minha imaturidade tem utilidade.

Por outro lado, o jogo em si eu não jogo mais. Eu tentei: peguei os Zubats, saí na rua em buscas incansáveis, joguei pedras em outros seres humanos que também jogavam e tentavam uma interação (que nojo). Mas meu celular, coitado, não dá conta. Ele tenta e tenta, mas eventualmente desistiu, como que dizendo que está velho demais para Pokémon. Acho que foi uma indireta. Mas não me abalo: posso ajudar o mundo de outras formas, e antes de virar apenas mais um bug catcher, mais digno e irado é ser um Professor Carvalho, uma voz de experiência e sabedoria, uma bússola que guia os jovens aventureiros. Sim. Sim.



Você: “Mas, professor?”
Eu: “Sim?”
Você: “Não é mais fácil eu usar a internet ao invés de confiar na memória de um mongão?”
Eu: “…”
Você: “…”

Vocês jovens não respeitam mais nada, tá louco.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Retrospecbosta 2015

2015 foi um bom ano, e talvez por isso esse blog tenha ficado às moscas. Me condicionei a escrever só sobre as bosta, e, embora isso estabeleça uma dependência, era como chutar pro gol vazio: sempre tá uma bosta, então sempre haverá sobre o que escrever.

Pois que as coisas mudaram. Não porque não tem tanta bosta (sempre tem, né), mas porque eu não estou mais afim de escrever sobre isso. Sinceramente, hoje eu sequer tenho vontade de me expressar, essa urgência maluca de por pra fora minhas opiniões, meus sentimentos, minhas impressões. Não tô nem aí pra isso mais. E é saudável, é gostoso, você deveria experimentar também (principalmente você que eu arranquei do meu feed no facebook porque que saco, para de dar opinião sobre tudo, ninguém te perguntou).

Mas, para que quem gosta desse blog do jeito como ele é tenha ao menos uma retrospectiva do meu ano, fiz uma em forma de listas categorizadas. Tem tópicos, subtópicos, parágrafos, incisos, vou parar porque eu não sei bem o que significam essas coisas. Coisa sucinta, pá pum, toco y me voy.

Viagens
  • Muitas viagens;
  • Foi legal;
  • Muitos pombos em Buenos Aires. Não coma na calçada;
  • Sério, eles vem e pá;
  • “Pá” pode ser “roubam sua comida” ou “cagam na sua comida”;
  • A Califórnia é grande, longe, e não faz esse calor que dizem que faz;
  • Um cara tentou me vender maconha na frente do McDonalds. Me parece que essa associação só gera lucro pro McDonalds;
  • Um guaxinim invadiu a sacada do meu quarto de hotel, no terceiro andar;
  • Ele era fofo, mas como eu nunca vi um troço desse na vida, não havia hospital num raio de 50km e eu não sei falar “anti-rábica” em inglês, preferi pedir que ele se retirasse, de uma maneira contida e serena, sem escândalos;
  • Foi sim, tá;
  • POIS PROVE! PROVE, QUERO VER!
  • Uma mulher pediu pra eu descer do ônibus só porque eu sou marronzinho;
  • Ou porque eu estava com uma camiseta do Breaking Bad e ela gosta de Game of Thrones;
  • Tudo tem pimenta nesse carai;
  • Monte Verde, em Minas Gerais, é uma vila singela, aconchegante, romântica, muito romântica;
  • Tem bosta de cavalo por todo lado, meu deus do céu;
  • Tem que ver a alimentação desses bichos, não é possível um negócio desse.

Moradia
  • Mudei-me duas vezes durante o ano;
  • Na primeira, ao mover a estante para desmontar, enfrentei uma megalópole de baratas e as exterminei como se fosse c e r t a s entidades genocidas em Sodoma e Gomorra. Algumas foram atingidas por inseticidas mortais e arrastaram seus cadáveres condenados para as pilhas de caixas;
  • Desmontar móvel, montar móvel, por livro na caixa (mil quilos), carregar coisa, muito trabalho físico pra uma pessoa da minha constituição;
  • Achei uma barata morta;
  • A primeira casa era grande, bonita, legal. Muitos armários, muitos quartos;
  • Achei outra barata;
  • Meses depois foi um apartamento. Agora estamos sós, meus instrumentos e eu, no quarto andar de um empilhamento de pequenas tragédias;
  • Morar sozinho dá muito trabalho, sempre tem louça pra lavar, tem pó pra varrer, tem roupa pra passar, tem… achei mais uma barata;
  • Tem duas cervejas na minha geladeira e eu não bebo, venha me visitar.

Animais
  • Aos quatro cachorros somaram-se um gato, depois outra gata. Depois, na casa nova, um gato qualquer se somou à gata, o que não faz sentido porque no final os gatos se multiplicaram;
  • Mais uma barata, mas essa não foi culpa minha;
  • Um passarinho! Olha como ele é belo. Vem, passarinho, que lindo você é;
  • O passarinho morreu;
  • Falei também da pogona, dragão barbudo, largato? Tem um também. Ou uma. Não sei;
  • Uma tartaruga! Oi, tartaruga!;
  • Tartaruga?;
  • Não tenho nenhum bicho comigo no apartamento. Meu coração não aguenta mais.

Futebol
  • Próximo tópico.

Música
  • A banda não ensaia desde abril, então tá devagar o negócio;
  • Estou aprendendo a tocar piano, porque sou esnobe;
  • Só vi um show internacional durante o ano inteiro, mas um show do Faith no More vale mais que mil palavras;
  • Não era esse o ditado.

O Brasil, o mundo
  • Ah, tá complicado, né? Tá complicado;
  • E as escolas, hein? Professores, alunos… tá complicado;
  • E a crise? A crise tá complicada;
  • Crise migratória é um negócio complicado, os refugiados correndo pelas suas vidas, e esse Estado Islâmico aí…;
  • Sim, é complicado;
  • Lá perto de casa tem uma ciclovia. Ciclofaixa. Não sei. Complicado;
  • A ameaça comunista aparentemente voltou. Ou é paranoia? Hein?;
  • É…

Concluindo
Foi legal. Tô vivo. Tô empregado. Joguei Undertale. Fui bem acompanhado. Gastei dinheiro demais. É bom também.

Pro ano que vem eu não prometo nada. Nem você deveria, pare de se enganar. Seja feliz. Ou seja triste. Mas sinta alguma coisa. E até 2016, se isso significar algo. Não sei. É complicado.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Talvez não

Tem sido difícil postar. Eu escrevo, mas não publico. Eu publico, mas desisto. Eu cansei da manifestação. Cansei das piadinhas. É passageiro, mas cansei. A vida vai muito bem, obrigado, e eu não aprendi a produzir em tempos de calmaria. A pior coisa que existe é a felicidade. O amor, a música, a risada, blé. Satisfação não faz vento, e o barco precisa seguir.

Então eu volto qualquer hora. Quando aprender a lidar com isso. Talvez eu publique algo que ficou na gaveta. Talvez não. Talvez a inspiração bata de novo. Talvez eu tome vergonha na cara e troque a inspiração por trabalho. Talvez não. Mas eu volto. Talvez amanhã. Talvez mês que vem. Talvez ano que vem. Talvez não. A dúvida dá um calorzinho bom, né? Coitado de quem prefere ter certeza.

Mas e você, como vai? A gente só falou de mim o blog inteiro :)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Instigado

Não me lembro qual era o dia exatamente, e nem importa, mas lembro que era no segundo semestre de 2005, era sábado e fazia frio. Eu, burro, saí de casa de manhã sem a carteira e aí eu, burro, fui na feira e pedi um pastel e aí, burro, percebi que tava sem carteira, e aí, sortudo, achei um vale-refeição na mochila (eles eram feitos de papel naquela época, veja você), e aí, sortudo, a moça aceitou, e aí, sortudo, ela me deu o troco em dinheiro. Com esse punhado de moedas eu fui pro centro porque havia um trabalho da faculdade a fazer e aí precisava de inspiração, porque quando você é estudante você acha que é artista, mesmo sendo estudante de publicidade, e aí a gente ficou lá durante boa parte do dia, tivemos ideias, pareciam boas na época, que legal. A Patricia e a Karin voltaram para as suas casas, a Patricia pra continuar o trabalho, a Karin pra descobrir que queria fazer publicidade também (ela tinha uma chance, fomos negligentes), e eu fui pra Barra Funda porque ia ter uma espécie de festival no Memorial da América Latina com uns artistas nordestinos. Eu fui pelo Mombojó, pelo sangue pernambucano que carrego nas veias, apesar de que o Junio Barreto também era pernambucano e, ainda por cima, de Caruaru. Eu não sabia, nem o conhecia na época além do nome, como também não conhecia o Cidadão Instigado, que tocou depois dele. E foram mesmo os representantes do Ceará que me chamaram a atenção, que baita show, que boa banda, que guitarrista peculiar. Fui atrás, sacomé, é isso que a gente faz quando é jovem, a gente tem curiosidade.

Quando encontrei o Cidadão Instigado de novo já era 2007, e foi bem no dia da colação de grau. Não da minha, exatamente, porque tinha duas colações de grau: a dos pé rapado, uns meses antes, foi no próprio prédio da faculdade e não teve nada, não teve glamour, só teve uns juramentos, um cara ficava de pé no palco dizendo e a gente repetia solenemente "eu juro agradar meu cliente, eu juro fazer o produto de bosta dele parecer legal, eu juro falar estrangeirismos mesmo quando há uma alternativa perfeitamente cabível em português". Não lembro cem por cento, mas era mais ou menos isso. E a outra colação de grau, desculpem o desvio, era do povo que pagou pela formatura, dos burguês, dos inimigo, a Patricia que me desculpe, aí foi aquela coisa bonita, teve toga, teve we are the champions (do que?), teve paraninfo, mas não teve eu, e não teve o Maranhão (que era maranhense) e não teve o Pinoxê (que não poderia ser menos chileno), porque a gente foi ver o Cidadão Instigado num muquifo na Vila Madalena. Antes deles tocou um cantor meio calvo que fazia versões daqueles mesmos clássicos intragáveis da música brasileira e que poderia muito bem ser um cantor de boteco se não fosse por ter uma banda de apoio e uma camisa cheia de brilhinhos (sabe esses cara?), mas aí teve o show principal e dessa vez eu conhecia as músicas e aí bateu mais forte, foi bonito, o Catatau cantava que o tempo, uôô, é um amigo precioso. Mui amigo, eu diria, porque olha quanto tempo faz e olha o que ele fez comigo, me levou os cabelo, me deu uma banda, só o que me separa daquele cantor agora é a camisa de brilhinhos e o desrespeito pela obra do Jorge Ben.

A terceira vez foi em 2009, e foi curtinho, sacomé show de abertura, mas foi bonito. Ele falou "essa música vai tá no nosso próximo álbum" e disparou "Escolher pra que?" e a Dani, que não era muito íntima da banda, não entendia minha empolgação quando eu dizia que aquela música era boa pra caralho, que aquilo devia tocar no rádio. Rádio era um negócio que existia em 2009. Nesse dia eu também fui fotografado pra uma matéria na Folha, que eu nunca vi, não quero ver, tenho raiva de quem viu (mas fui agora no acervo do site pra procurar e minha foto não entrou na matéria, rá).

Depois disso eles lançaram o tal próximo álbum, muito bom, excelente, e eu de vez em quando passava pelo Catatau na rua, numa das vezes até pensei "conheço esse mendigo de algum lugar" e ele olhava pra mim provavelmente pensando "conheço essa música de algum lugar" porque eu ouvia as músicas dele no meu fone de ouvido Phillips de baixa qualidade que não tinha entre seus principais atributos manter o som só dentro da minha cabeça. Mas foi isso, nesse estágio a nossa relação ficou durante muito tempo, até que

Até que eles lançaram um disco novo, aleluia, e o disco é bom pra caralho, que novidade. Eu vou pedir aqui licença pro leitor que tem passado já todo esse tempo comigo nessa jornada desviando da metralhadora de vírgulas pra fazer um pequeno mimimi, pode ser um mimimi coletivo, quem sabe o leitor não sofre o mesmo que eu? O caso, amigo, posso te chamar de amigo?, é que eu fiquei adulto. O tempo, uôô, veio e me atropelou. E eu soube disso não quando fiquei de pé na colação de grau fingindo que repetia o juramento da categoria, nem quando a pilha de contas pra pagar se acumulou em cima da mesa, nem quando meu pai e meu irmão se despediram de mim na porta da minha casa, minha nova casa, e me deixaram lá pra sempre. Eu soube que virei adulto quando eu deixei de me emocionar ao ouvir música, quando eu deixei de cantar em voz alta na rua no meio de uma tempestade (porque não tinha mais ninguém na rua e aí não dava vergonha), quando eu deixei de mandar música pros outros gritando que isso é bom pra caralho, devia tocar no rádio. Eu virei adulto, resumindo essa besteira toda, quando eu morri por dentro. Acredito que aconteça com um monte de gente, alguns até deveriam morrer por fora também, que horror, não diga uma coisa dessas. Mas então eu ouvi o álbum novo do Cidadão Instigado, e aí eu senti aquilo de novo, aquela sensação de estar fazendo exatamente a coisa certa, de estar vivendo, de ficar à beira de uma crise de choro no meio da rua por causa de um solo de guitarra. É isso, cacete, é isso! E não é uma volta no tempo, uôô, e, se quer saber, o tempo que se foda. Não é a saudade, não é a nostalgia, é a intensidade, é a completude, é sentir alguma coisa além de dor e vergonha. Hoje, agora. Viva o rádio, viva o ticket de papel, viva a Dani, o Maranhão e o Pinoxê, mas, se quer saber, 2005 foi uma bosta, 2007 foi uma bosta, 2009 foi uma bosta, mas 2015 há de ser bom, porque tem música, porque tem ela, porque tem show deles hoje depois de 6 anos e vai ser o melhor show da minha vida, mesmo se não for.

Tá, não vai ser, e daqui a pouco a empolgação se vai, a gente sabe como é forte o campo gravitacional da pasmaceira. Mas olha, é boa essa sensação. Talvez eu deva começar a beber.