terça-feira, 16 de agosto de 2016

Pokémon

Quando o desenho do Pokémon estreou na Record, chuto que lá por 1999, eu estava naquela idade nebulosa em que seus braços são as cordas de um cabo de guerra entre a realidade e a ficção. A ficção: com 14 anos eu já sou um homem, já tenho um vistoso bigode, já praticamente tenho voz de radialista, já tive meu coração partido em tantos pedaços quanto há Pokémons na última geração. A realidade: se eu ainda sou criança aos 31, imagina aos 14.

Então entre o meu verdadeiro desejo de assistir a todos os episódios jogar todos os jogos ler todas as revistas e a minha ficcional persona neo-adulta que tem coisas mais importantes pra se preocupar como as políticas de privatização do governo FHC e a topologia da minha pele, eu vivia uma vida secreta e sombria, só conhecida por aqueles que eram sanguineamente obrigados a gostar de mim. Foi nessa época que eu aprendi a minha primeira linguagem de programação (programar o videocassete pra gravar os episódios), desenvolvi técnicas avançadas de memorização (pedra tem vantagem contra inseto, Shellder só evolui pra Cloyster usando a water stone) e aprendi a fazer planejamento e gerenciamento de recursos em situações de vida ou morte (a pilha dura 8 horas, já estou jogando desde as 11, preciso parar em 15 minutos, dá tempo de mais uma luta e uma captura caso eu gaste até 3 pokébolas - mais do que isso é muito arriscado). Essa vida subterrânea me transformou num cientista, mas todos esses conhecimentos precisariam ser redirecionados para outras atividades ou eu acabaria morrendo com habilidades que não serviam de nada e sobre as quais eu não me atrevia a falar.

Até que…

Pokémon nunca deixou de ser um sucesso absurdo e continuei jogando esses anos todos (podemos tirar, se achar melhor), mas recentemente algo aconteceu - ou reaconteceu: Pokémon voltou a ser motor dessa nave chamada zeitgeist. Pokémon GO está aí e não há quem não tenha ouvido falar. Minha mãe mandou mensagem perguntando quantos eu tinha capturado. O diretor da empresa veio mostrar áudio do whatsapp do cara falando que na época dele ele saía na rua “pra caçar droga pra dar pra puta”, não Pokémon. Até a CIA está envolvida, aparentemente, nos espionando. E é nessa era de loucura e empolgação, mas de muita incerteza, que se faz necessária a figura daquele que sabe o motivo das coisas, que sabe que um Dratini é raro e um Pidgey não, que sabe diferenciar as silhuetas do Tangela e do Venonat, que sabe que o “ovo podre” se chama Exeggcute e que o nome é Jynx, não “bruxa da neve”. Sim, o mundo deu tantas voltas que finalmente chegou na estação onde eu esperava, com minha Nintendo World debaixo do braço, já cansado e envelhecido, para embarcar. Agora meus conhecimentos servem. Agora minha imaturidade tem utilidade.

Por outro lado, o jogo em si eu não jogo mais. Eu tentei: peguei os Zubats, saí na rua em buscas incansáveis, joguei pedras em outros seres humanos que também jogavam e tentavam uma interação (que nojo). Mas meu celular, coitado, não dá conta. Ele tenta e tenta, mas eventualmente desistiu, como que dizendo que está velho demais para Pokémon. Acho que foi uma indireta. Mas não me abalo: posso ajudar o mundo de outras formas, e antes de virar apenas mais um bug catcher, mais digno e irado é ser um Professor Carvalho, uma voz de experiência e sabedoria, uma bússola que guia os jovens aventureiros. Sim. Sim.



Você: “Mas, professor?”
Eu: “Sim?”
Você: “Não é mais fácil eu usar a internet ao invés de confiar na memória de um mongão?”
Eu: “…”
Você: “…”

Vocês jovens não respeitam mais nada, tá louco.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Retrospecbosta 2015

2015 foi um bom ano, e talvez por isso esse blog tenha ficado às moscas. Me condicionei a escrever só sobre as bosta, e, embora isso estabeleça uma dependência, era como chutar pro gol vazio: sempre tá uma bosta, então sempre haverá sobre o que escrever.

Pois que as coisas mudaram. Não porque não tem tanta bosta (sempre tem, né), mas porque eu não estou mais afim de escrever sobre isso. Sinceramente, hoje eu sequer tenho vontade de me expressar, essa urgência maluca de por pra fora minhas opiniões, meus sentimentos, minhas impressões. Não tô nem aí pra isso mais. E é saudável, é gostoso, você deveria experimentar também (principalmente você que eu arranquei do meu feed no facebook porque que saco, para de dar opinião sobre tudo, ninguém te perguntou).

Mas, para que quem gosta desse blog do jeito como ele é tenha ao menos uma retrospectiva do meu ano, fiz uma em forma de listas categorizadas. Tem tópicos, subtópicos, parágrafos, incisos, vou parar porque eu não sei bem o que significam essas coisas. Coisa sucinta, pá pum, toco y me voy.

Viagens
  • Muitas viagens;
  • Foi legal;
  • Muitos pombos em Buenos Aires. Não coma na calçada;
  • Sério, eles vem e pá;
  • “Pá” pode ser “roubam sua comida” ou “cagam na sua comida”;
  • A Califórnia é grande, longe, e não faz esse calor que dizem que faz;
  • Um cara tentou me vender maconha na frente do McDonalds. Me parece que essa associação só gera lucro pro McDonalds;
  • Um guaxinim invadiu a sacada do meu quarto de hotel, no terceiro andar;
  • Ele era fofo, mas como eu nunca vi um troço desse na vida, não havia hospital num raio de 50km e eu não sei falar “anti-rábica” em inglês, preferi pedir que ele se retirasse, de uma maneira contida e serena, sem escândalos;
  • Foi sim, tá;
  • POIS PROVE! PROVE, QUERO VER!
  • Uma mulher pediu pra eu descer do ônibus só porque eu sou marronzinho;
  • Ou porque eu estava com uma camiseta do Breaking Bad e ela gosta de Game of Thrones;
  • Tudo tem pimenta nesse carai;
  • Monte Verde, em Minas Gerais, é uma vila singela, aconchegante, romântica, muito romântica;
  • Tem bosta de cavalo por todo lado, meu deus do céu;
  • Tem que ver a alimentação desses bichos, não é possível um negócio desse.

Moradia
  • Mudei-me duas vezes durante o ano;
  • Na primeira, ao mover a estante para desmontar, enfrentei uma megalópole de baratas e as exterminei como se fosse c e r t a s entidades genocidas em Sodoma e Gomorra. Algumas foram atingidas por inseticidas mortais e arrastaram seus cadáveres condenados para as pilhas de caixas;
  • Desmontar móvel, montar móvel, por livro na caixa (mil quilos), carregar coisa, muito trabalho físico pra uma pessoa da minha constituição;
  • Achei uma barata morta;
  • A primeira casa era grande, bonita, legal. Muitos armários, muitos quartos;
  • Achei outra barata;
  • Meses depois foi um apartamento. Agora estamos sós, meus instrumentos e eu, no quarto andar de um empilhamento de pequenas tragédias;
  • Morar sozinho dá muito trabalho, sempre tem louça pra lavar, tem pó pra varrer, tem roupa pra passar, tem… achei mais uma barata;
  • Tem duas cervejas na minha geladeira e eu não bebo, venha me visitar.

Animais
  • Aos quatro cachorros somaram-se um gato, depois outra gata. Depois, na casa nova, um gato qualquer se somou à gata, o que não faz sentido porque no final os gatos se multiplicaram;
  • Mais uma barata, mas essa não foi culpa minha;
  • Um passarinho! Olha como ele é belo. Vem, passarinho, que lindo você é;
  • O passarinho morreu;
  • Falei também da pogona, dragão barbudo, largato? Tem um também. Ou uma. Não sei;
  • Uma tartaruga! Oi, tartaruga!;
  • Tartaruga?;
  • Não tenho nenhum bicho comigo no apartamento. Meu coração não aguenta mais.

Futebol
  • Próximo tópico.

Música
  • A banda não ensaia desde abril, então tá devagar o negócio;
  • Estou aprendendo a tocar piano, porque sou esnobe;
  • Só vi um show internacional durante o ano inteiro, mas um show do Faith no More vale mais que mil palavras;
  • Não era esse o ditado.

O Brasil, o mundo
  • Ah, tá complicado, né? Tá complicado;
  • E as escolas, hein? Professores, alunos… tá complicado;
  • E a crise? A crise tá complicada;
  • Crise migratória é um negócio complicado, os refugiados correndo pelas suas vidas, e esse Estado Islâmico aí…;
  • Sim, é complicado;
  • Lá perto de casa tem uma ciclovia. Ciclofaixa. Não sei. Complicado;
  • A ameaça comunista aparentemente voltou. Ou é paranoia? Hein?;
  • É…

Concluindo
Foi legal. Tô vivo. Tô empregado. Joguei Undertale. Fui bem acompanhado. Gastei dinheiro demais. É bom também.

Pro ano que vem eu não prometo nada. Nem você deveria, pare de se enganar. Seja feliz. Ou seja triste. Mas sinta alguma coisa. E até 2016, se isso significar algo. Não sei. É complicado.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Talvez não

Tem sido difícil postar. Eu escrevo, mas não publico. Eu publico, mas desisto. Eu cansei da manifestação. Cansei das piadinhas. É passageiro, mas cansei. A vida vai muito bem, obrigado, e eu não aprendi a produzir em tempos de calmaria. A pior coisa que existe é a felicidade. O amor, a música, a risada, blé. Satisfação não faz vento, e o barco precisa seguir.

Então eu volto qualquer hora. Quando aprender a lidar com isso. Talvez eu publique algo que ficou na gaveta. Talvez não. Talvez a inspiração bata de novo. Talvez eu tome vergonha na cara e troque a inspiração por trabalho. Talvez não. Mas eu volto. Talvez amanhã. Talvez mês que vem. Talvez ano que vem. Talvez não. A dúvida dá um calorzinho bom, né? Coitado de quem prefere ter certeza.

Mas e você, como vai? A gente só falou de mim o blog inteiro :)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Instigado

Não me lembro qual era o dia exatamente, e nem importa, mas lembro que era no segundo semestre de 2005, era sábado e fazia frio. Eu, burro, saí de casa de manhã sem a carteira e aí eu, burro, fui na feira e pedi um pastel e aí, burro, percebi que tava sem carteira, e aí, sortudo, achei um vale-refeição na mochila (eles eram feitos de papel naquela época, veja você), e aí, sortudo, a moça aceitou, e aí, sortudo, ela me deu o troco em dinheiro. Com esse punhado de moedas eu fui pro centro porque havia um trabalho da faculdade a fazer e aí precisava de inspiração, porque quando você é estudante você acha que é artista, mesmo sendo estudante de publicidade, e aí a gente ficou lá durante boa parte do dia, tivemos ideias, pareciam boas na época, que legal. A Patricia e a Karin voltaram para as suas casas, a Patricia pra continuar o trabalho, a Karin pra descobrir que queria fazer publicidade também (ela tinha uma chance, fomos negligentes), e eu fui pra Barra Funda porque ia ter uma espécie de festival no Memorial da América Latina com uns artistas nordestinos. Eu fui pelo Mombojó, pelo sangue pernambucano que carrego nas veias, apesar de que o Junio Barreto também era pernambucano e, ainda por cima, de Caruaru. Eu não sabia, nem o conhecia na época além do nome, como também não conhecia o Cidadão Instigado, que tocou depois dele. E foram mesmo os representantes do Ceará que me chamaram a atenção, que baita show, que boa banda, que guitarrista peculiar. Fui atrás, sacomé, é isso que a gente faz quando é jovem, a gente tem curiosidade.

Quando encontrei o Cidadão Instigado de novo já era 2007, e foi bem no dia da colação de grau. Não da minha, exatamente, porque tinha duas colações de grau: a dos pé rapado, uns meses antes, foi no próprio prédio da faculdade e não teve nada, não teve glamour, só teve uns juramentos, um cara ficava de pé no palco dizendo e a gente repetia solenemente "eu juro agradar meu cliente, eu juro fazer o produto de bosta dele parecer legal, eu juro falar estrangeirismos mesmo quando há uma alternativa perfeitamente cabível em português". Não lembro cem por cento, mas era mais ou menos isso. E a outra colação de grau, desculpem o desvio, era do povo que pagou pela formatura, dos burguês, dos inimigo, a Patricia que me desculpe, aí foi aquela coisa bonita, teve toga, teve we are the champions (do que?), teve paraninfo, mas não teve eu, e não teve o Maranhão (que era maranhense) e não teve o Pinoxê (que não poderia ser menos chileno), porque a gente foi ver o Cidadão Instigado num muquifo na Vila Madalena. Antes deles tocou um cantor meio calvo que fazia versões daqueles mesmos clássicos intragáveis da música brasileira e que poderia muito bem ser um cantor de boteco se não fosse por ter uma banda de apoio e uma camisa cheia de brilhinhos (sabe esses cara?), mas aí teve o show principal e dessa vez eu conhecia as músicas e aí bateu mais forte, foi bonito, o Catatau cantava que o tempo, uôô, é um amigo precioso. Mui amigo, eu diria, porque olha quanto tempo faz e olha o que ele fez comigo, me levou os cabelo, me deu uma banda, só o que me separa daquele cantor agora é a camisa de brilhinhos e o desrespeito pela obra do Jorge Ben.

A terceira vez foi em 2009, e foi curtinho, sacomé show de abertura, mas foi bonito. Ele falou "essa música vai tá no nosso próximo álbum" e disparou "Escolher pra que?" e a Dani, que não era muito íntima da banda, não entendia minha empolgação quando eu dizia que aquela música era boa pra caralho, que aquilo devia tocar no rádio. Rádio era um negócio que existia em 2009. Nesse dia eu também fui fotografado pra uma matéria na Folha, que eu nunca vi, não quero ver, tenho raiva de quem viu (mas fui agora no acervo do site pra procurar e minha foto não entrou na matéria, rá).

Depois disso eles lançaram o tal próximo álbum, muito bom, excelente, e eu de vez em quando passava pelo Catatau na rua, numa das vezes até pensei "conheço esse mendigo de algum lugar" e ele olhava pra mim provavelmente pensando "conheço essa música de algum lugar" porque eu ouvia as músicas dele no meu fone de ouvido Phillips de baixa qualidade que não tinha entre seus principais atributos manter o som só dentro da minha cabeça. Mas foi isso, nesse estágio a nossa relação ficou durante muito tempo, até que

Até que eles lançaram um disco novo, aleluia, e o disco é bom pra caralho, que novidade. Eu vou pedir aqui licença pro leitor que tem passado já todo esse tempo comigo nessa jornada desviando da metralhadora de vírgulas pra fazer um pequeno mimimi, pode ser um mimimi coletivo, quem sabe o leitor não sofre o mesmo que eu? O caso, amigo, posso te chamar de amigo?, é que eu fiquei adulto. O tempo, uôô, veio e me atropelou. E eu soube disso não quando fiquei de pé na colação de grau fingindo que repetia o juramento da categoria, nem quando a pilha de contas pra pagar se acumulou em cima da mesa, nem quando meu pai e meu irmão se despediram de mim na porta da minha casa, minha nova casa, e me deixaram lá pra sempre. Eu soube que virei adulto quando eu deixei de me emocionar ao ouvir música, quando eu deixei de cantar em voz alta na rua no meio de uma tempestade (porque não tinha mais ninguém na rua e aí não dava vergonha), quando eu deixei de mandar música pros outros gritando que isso é bom pra caralho, devia tocar no rádio. Eu virei adulto, resumindo essa besteira toda, quando eu morri por dentro. Acredito que aconteça com um monte de gente, alguns até deveriam morrer por fora também, que horror, não diga uma coisa dessas. Mas então eu ouvi o álbum novo do Cidadão Instigado, e aí eu senti aquilo de novo, aquela sensação de estar fazendo exatamente a coisa certa, de estar vivendo, de ficar à beira de uma crise de choro no meio da rua por causa de um solo de guitarra. É isso, cacete, é isso! E não é uma volta no tempo, uôô, e, se quer saber, o tempo que se foda. Não é a saudade, não é a nostalgia, é a intensidade, é a completude, é sentir alguma coisa além de dor e vergonha. Hoje, agora. Viva o rádio, viva o ticket de papel, viva a Dani, o Maranhão e o Pinoxê, mas, se quer saber, 2005 foi uma bosta, 2007 foi uma bosta, 2009 foi uma bosta, mas 2015 há de ser bom, porque tem música, porque tem ela, porque tem show deles hoje depois de 6 anos e vai ser o melhor show da minha vida, mesmo se não for.

Tá, não vai ser, e daqui a pouco a empolgação se vai, a gente sabe como é forte o campo gravitacional da pasmaceira. Mas olha, é boa essa sensação. Talvez eu deva começar a beber.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Senhor Oliveira

Há diversos pontos referenciais na vida de uma pessoa quando falamos de idade. O primeiro aniversário, o décimo, a maioridade. Depois eles se separam uniformemente a cada dez anos. Só que nenhum desses, nessa cultura de juventude eterna e maturidade quæ sera tamem, é tão temido e evitado como os 30 anos. Adivinha quem chegou lá, coleguinhas.

Euzinho, o amargurado, o desnutrido, o que está devendo textos aqui já faz um tempo. Tenho 30 anos agora e, nesse momento de dor e frescura, é necessário reavaliar toda minha vida, afinal não sou mais um menino. Não sou mais um menino! Sou agora um senhor, e como tal devo agir. Analisando observações e dados recolhidos nas últimas três décadas, eis tudo que devo fazer ou mudar para estar de acordo com o que se espera de mim agora. Senhoras e senhores, lhes apresento o Senhor Oliveira.

O Senhor Oliveira acordará cedo para ler o jornal e tomar um café. O Thiago e o Padula não gostavam de café, mas o Senhor Oliveira é viciado. O Senhor Oliveira terá ações na bolsa e fará piada com a situação da Petrobrás. Não ótimas piadas, porque o Senhor Oliveira é adepto do riso discreto, não da gargalhada descontrolada. O Thiago e o Padula gostavam de fazer os outros rirem, embora não com muito sucesso, mas o Senhor Oliveira prefere cativar o interlocutor fazendo-o admirar sua inteligência. O Senhor Oliveira terá opinião sobre tudo e sempre terá uma crítica na ponta da língua, normalmente negativa, normalmente saudosista.

O Senhor Oliveira comprará um carro e uma casa, e se afogará em dívidas. O Thiago e o Padula tem uma vida financeira bastante saudável, mas todo adulto que se preza precisa estar no vermelho, ter muitas coisas de que não precisa e argumentar que é foda, é tudo pela família ou por qualquer instituição maior que lhe aponte uma arma invisível para a cabeça. O Senhor Oliveira estará cheio de armas invisíveis, cheio de problemas. O Senhor Oliveira vai desenvolver um grau leve de alcoolismo e vai aprender a pescar, porque precisa desestressar, sabe como é, é tanto problema, ai essa vida é complicada.

O Senhor Oliveira terá hobbies (além da pesca) como aeromodelismo ou gastronomia. O Thiago e o Padula só sabem fazer pipoca de microondas, mas o Senhor Oliveira fará um pão com mortadela que huuuum. O Senhor Oliveira terá amigos que o Thiago e o Padula detestariam, e os encontrará a cada seis meses para falar mal do governo e dos problemas, ai essa vida é complicada. O Senhor Oliveira perguntará se é pavê ou pacomê.

O Senhor Oliveira delegará muitas tarefas, só pra depois reclamar e dizer que ninguém faz nada direito, se quer algo bem feito, faça você mesmo. O Senhor Oliveira usará muitos bordões da sua época e baseará todo seu repertório moral em frases de efeito e ditos populares. O Senhor Oliveira vai comprar um box com os DVDs do Changeman, vai achar uma bosta, mas vai se forçar a pensar que é bom, porque naquele tempo é que as coisas eram boas. O Senhor Oliveira vai soltar a franga nas festas de casamento e vai terminar a noite com um óculos do Zé Bonitinho na cara e a gravata enrolada na testa.

O Senhor Oliveira vai por uma capinha no celular.

O Senhor Oliveira virará roqueiro, passará a ir no Morumbi só de camarote e reclamará da fila no mercado. Eles deviam abrir mais caixas. O Senhor Oliveira diminuirá sua frequência de comparecimento a shows e paradoxalmente dedicará muito mais tempo a falar mal deles, de como a estrutura é ruim, o som é baixo, o refrigerante é quente. Ops, refrigerante é coisa do Thiago e do Padula, o Senhor Oliveira só tomará cerveja. A barriga do Senhor Oliveira será imensa. O Senhor Oliveira será politicamente incorreto, e vai se achar o perigosão. O Senhor Oliveira não fará ideia do que é desafiar o sistema, mas isso não o impedirá de reclamar horrores nas redes sociais. O Senhor Oliveira fechará esse blog, ou ao menos vai transformá-lo num espaço com curiosidades e dicas para consertar coisas da casa. O Senhor Oliveira terá uma caixa de ferramentas e a colocará no espaço mais nobre da estante, tampando o porta-retrato com a foto das crianças. O Senhor Oliveira vai sentir saudade de tanta coisa. Mas nenhuma delas vai voltar, porque nenhuma delas aconteceu com o Senhor Oliveira.

O Senhor Oliveira vai sentir uma vontade danada de ser o Thiago e o Padula.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Renascimento

Ontem eu acordei sabendo que seria um dia mais corrido que os demais. Não sabia, porém, que aconteceria algo que mudaria a maneira como eu enxergo a própria vida.

Vamos pelo começo.

Acordei, fui para o trabalho, trabalhei (bem...). Saí do trabalho, fui pra aula andando, fiquei por uma e meia em pé segurando um baixo acústico gigante. Saí de lá, caminhei por alguns aclives até o metrô, fui até a Vila Madalena, andei mais um pouco, peguei um ônibus. Contei errado o número de pontos, o ônibus desembestou-se por uma ladeira desconhecida e escura e me largou em um pedaço desconhecido de São Paulo. Eu estava cansado. Olhei para os lados, procurei transeuntes. Só o cara que desceu no mesmo ponto que eu. Sutilmente, saquei o celular e abri o Google Maps. Tem que ser discreto, você nunca deve mostrar que está perdido. Digitei o endereço do meu destino e ele traçou uma rota a pé. Olhei novamente ao redor. Você nunca deve mostrar que está perdido. Vou andando, celular abaixado. Tem que ser discreto, você nunca deve mostrar que está perdido. Vou conferir e encosto sem querer no botão de iniciar a navegação. Uma voz no celular começa a gritar "CAMINHE 300 METROS NA DIREÇÃO DA RUA TAL" enquanto eu ficava desesperadamente tentando desligar aquilo e sussurrando filhadaputafilhadaputafilhadaputa. Tem que ser discreto, você nunca deve mostrar que está perdido.

Andei até o local, consegui chegar. Eu estava cansado. Fiquei lá por duas horas, nesse meio tempo choveu uma chuva horizontal e raios verdes pintaram o céu (eu juro). Fui embora, caminhei até a avenida, peguei um ônibus. Eu estava cansado. Desci do ônibus, andei numa calçada lisa, escorregadia e desnivelada. Um pé, outro pé, um pé, outro pé, um pé, chão. Meu pé direito tentou trocar de lugar com o esquerdo e por consequência minha lateral tentou trocar de lugar com a calçada. A rua estava vazia, mas eu ouvia os risos. Tem que ser discreto, você nunca deve mostrar que está ferido. Levantei e segui até o metrô. Eu estava cansado.

Começo a sentir os efeitos da queda. A dor, o formigamento, a intermitência nos sentidos. Há uma sensação líquida no meu tornozelo. Olho e vejo a meia encharcada de sangue. Muito, muito sangue, o suficiente pra salvar duas vítimas de acidentes. Quem vai me salvar agora, o moribundo do metrô com sangue O- manchando-lhe as vestes. Mando uma mensagem de socorro, mas enfrento apenas zombaria. Sinto minhas forças me deixando, ouço o som de anjos cantando a introdução de Kiss from a rose. Vejo a luz no fim do túnel. Estou chegando ao Paraíso.

Depois do Paraíso, cheguei à Ana Rosa, e depois Chácara Klabin e Santos-Imigrantes. Cambaleante, cheguei até a minha casa. Consegui limpar e estancar a ferida, tomei banho e dormi. Eu estava cansado. E hoje... hoje eu acordei. Perdi a hora, mas ganhei a vida. Hoje, três de setembro de dois mil e catorze, eu posso dizer que renasci às nove e trinta e três da manhã. Atrasado para o trabalho, mas nunca é tarde para recomeçar. Tenho agora uma vida nova à minha frente, e vou aproveitar cada segundo, porque se antes a vida só tinha me ensinado a morrer, ontem a morte me ensinou a viver. Esse blog se chamará, a partir de agora, Vida Maravilhosa. Fiquem comigo, temos uma linda jornada pela frente.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

História de fantasmas

Eu tive o mesmo celular velharia por quase quatro anos (a história dele, para recordar, começa aqui e termina aqui) e o deixei para repouso eterno nos primeiros dias de janeiro nesse mórbido 2014. Repouso eterno, no caso, é tirar o chip, desligar e deixar esquecido em cima da mesinha do computador. As pessoas diziam "joga fora, é perigoso". Eu ignorei, afinal que perigo pode haver nisso? Eu achava que sabia de tudo. Eu não sabia de nada.

Duas semanas atrás, primeiras horas da noite. No meu quarto a luz está apagada e só vejo os pontinhos brilhantes dos aparelhos em stand by. Converso com meu pai no telefone sobre as coisas da vida. A voz dele vacila, ele não sabe por quê (mentira). Ouço um ruído grave. Uma luz se acende, apontando para o teto. Toca uma música suave, quatro notas repetidas. Estou confuso, meu pai fica preocupado. Absorvo coragem de um abraço apertado no meu travesseirinho do São Paulo em formato de flor e vou atrás da fonte de perturbação. É o celular antigo. Simplesmente ligou, oito meses depois, para tocar o despertador. O horário marcado era 8h10 da manhã. Não estava nem próximo desse horário. Minha segurança me trai, deixo o celular novo cair no chão. Ouço baixinho uma voz gritar, lá de baixo: "filhão? Filhão? Filhãããão"

"Oi"

"Ah, taí? Beleza"

(mentira)

Conto a história, ele acha estranho. Acendo a luz do quarto, só por precaução. Aperto o botão de desligar o despertador. Que loucura. Eu hein.

Segue a vida. No dia seguinte, novamente o celular liga e desperta. 8h10. São 19 e alguns minutos. E assim no outro dia. E no outro. Eu não tiro a bateria. Algo me impede. O que será? Passa uma semana. Duas.

O fato de esse celular ter permanecido em coma induzido por oito meses e começar a dar sinais tortos de vida agora me fascina. Nunca me liguei em fenômenos metafísicos ou experiências extra-corpóreas; nada disso me entra na cabeça. Acredito na ciência (e na sua falibilidade), acredito no que pode ser explicado sem apelar para a fé, acredito que a música é matemática e que a vida acaba e nós seremos devorados pelo esquecimento. Eu sempre contrapus essas questões como se elas fossem diametralmente opostas: fé ou ciência, doutrina ou tecnologia. E então eu via, bem à minha frente, com luz e som, céu e inferno se chocando, preto e branco se fundindo sem virar cinza. O que acontece no meu quarto não é só um telefone celular tendo um comportamento inesperado (que, paradoxalmente, é o que sempre se espera de um desses); o que acontece no meu quarto é um clamor desesperado. De todos os fantasmas das tecnologias passadas.

Eu ouvi ali, em quatro notas repetidas, os seus lamentos, o ranger de suas engrenagens, o zumbir de seus radiadores, o clicar de seus botões, o batucar de seus cascos, o metralhar de suas teclas, o arranhar de suas agulhas, o shlop shlop de seus moinhos. Eu ouvi a obsolescência, ouvi o chiado da ligação passando pelo túnel do tempo. Eles encontraram o portal para o presente naquele celular velho largado num quarto com Game Boy Colors e mouses com fio, e eles gritaram por atenção, e eles exigiram como exigem aqueles que já prestaram tantos serviços e construíram a sociedade como ela é hoje. E eu ouvi seu apelo, seu último desejo: uma derradeira volta pelo mundo que os esqueceu, uma última poesia em T9 no mundo que escreve tweets por comando de voz.

E eu joguei fora aquele negócio. Vá chantagear a puta que o pariu.