segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Saudosa maloca

Está enganchado em algum lugar do inconsciente coletivo a máxima de que alguma coisa especial se perdeu com o tempo, fazendo as coisas que antigamente exalavam uma fragrância artística se transformarem em mecanismos rígidos e com cheiro de parafuso.

Exemplos não faltam. Vejam o futebol, que lindo era nos tempos românticos de Pelé, que lixo é hoje, no pragmatismo dos tempos do Dunga. Ou as brincadeiras, que perderam a inocência e as ruas e se transformaram em jogos violentos pixelizados entre quatro paredes.

Somos naturalmente saudosistas, e isso é resultado do rumo que as coisas tomaram com o passar dos anos, à medida em que íamos mais e mais profundamente na caverna do capitalismo, da pós-modernidade, do caralho a quatro. Certo?

Não necessariamente. Veja o exemplo do cabeleireiro. Hoje temos nessa classe dois exemplos interessantes da ação do tempo: tem o cabeleireiro tiozinho, o barbeiro, aquele velhinho de avental azul semi-transparente de tão velho, que trabalha num salão apertado, com o espelho enferrujado nas bordas, um calendário amarelado de 1985 e um radinho analógico sintonizado em uma AM católica.

E tem os salões modernos, grandes, cheios de luzes e espelhos, com bichas rodopiando pra lá e pra cá e peruas e famosos esperando para ter seus cabelos cortados pela mixaria de 400 reais.

Vamos colocar no gabarito desenvolvido lá em cima: o antigo é o artístico, o novo é o mecânico. Mas pensa aqui comigo: se existe alguém que pense mais pro artístico nessa história, é o tiozinho, que corta o seu cabelo do mesmo jeito desde que você tinha cinco anos, ou o cabeleireiro moderno, que passa os dias a inventar e desenvolver todo tipo de design capilar?

Somos saudosistas, sim, não nego. Mas não somos saudosistas porque antes era tudo bom e hoje é tudo uma merda. Achamos que antes era tudo bom e hoje é tudo uma merda justamente porque somos saudosistas. Artístico, mecânico, romântico, pragmático, o caso é que o único artista nessa história toda é mesmo o tempo, que lapida nossa memória e põe tudo que se foi lá no alto da montanha, enquanto pra gente só resta o precipício.

O sentimento é universal, está até na letra do hino do meu tricolor. Mas chega a ser engraçado pensar que, quanto mais se quer andar pra frente, mais se quer voltar pra trás. Manja aquela música do Cartola em que ele diz que o mundo é um moinho? Faz sentido.

Um comentário:

João disse...

Se sabe que isso tem remédio? Sei lá, algumas me enchem o saco, mas ainda faço a barba com navalha. E não é saudosismo não, é porque no final das contas fica mais barato mesmo. É mó bunito, vem num estojinho chinês (lógico!) com um espelhinho embutido. Vc aperta um botão e pum! ele abre. Ae tem todo um ritual, vc abre, põe a lâmina, coloca a parte superior e rosqueia até pegar aperto. Dá pra usar os dois lados, eu gosto. O problema é que tô com um monte de lâminas usadas aqui e não sei como dar fim. Se pelo menos eu ainda soltasse pipas...