quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Por trás dessa lente também bate um coração

Foi com 13 anos (uma das poucas idades das quais não tenho aversão a lembranças) que eu comecei a perceber que enxergar a lousa ficava cada vez mais difícil. A aula de história, então, era um terror, porque a letra da Renata era muito pequena.

Foi aí que eu comecei a usar óculos. Tinha 1 grau de miopia. Só 1, mas já era bem ruim conviver com um mundo borrado. E eu morria de vergonha, paranóico e estúpido que sempre fui, então só usava os óculos dentro da sala de aula. Pra ir embora, meu irmão era quem lia o letreiro do ônibus. Um dia ele faltou, e não quero nem lembrar a quebrada onde eu fui parar.

Aí o tempo passa, você acostuma e tal, até o ponto em que pôr o óculos é a primeira coisa que você faz quando acorda e tirá-lo a última antes de ir dormir. Assim fui, diariamente, até alguns meses atrás, quando comprei um par de lentes. Nunca havia usado, queria saber como era.

Não era bom. É como fazer um fio-terra no olho, com proteção (ou pelo menos é como eu imagino que seja um fio-terra). Como eu fiquei boa parte do ano sem trabalhar, nem me dava ao extenuante e sádico trabalho de ficar machucando meus olhos com aquilo se não fosse pra sair ou algo assim. Depois eu comecei a trabalhar, e optei por usar as lentes todos os dias - e depois de 4 meses nessa rotina, eu já consigo colocá-las em menos de 10 minutos.

Mas o caso é que, como disse, até metade desse 2007 eu só usava óculos. E aí corta para a cena 2.

Fui à faculdade duas vezes essa semana, ver a apresentação de TCC de duas amiguinhas minhas, a Dani e a Dani. Chegando lá depois de tanto tempo rola aquela estranheza inicial, mas o que me incomodou mesmo era que todo mundo que eu conhecia simplesmente passava direto por mim como se eu fosse um fantasma.

Eu sei que peso 30 quilos, mas daí a ser um fantasma ainda há um abismo.

E uma professora reconheceu. Quanto tempo pra cá, o que tem feito pra lá, ela chama outra professora e diz 'olha quem tá aqui!'. A outra olha, olha direito, faz cara de ponto de interrogação e diz 'é você?'.

Aí o leitor, já cansado dessa ladainha, vai perguntar: e que caralho tem a ver aquilo do óculos com a minha deprimente impopularidade?

Os mais sagazes vão ligar os pontos e descobrir que não me reconheciam justamente por eu estar sem óculos. Claro, existe outra possibilidade, mas se eu freqüentasse um psiquiatra ele diria pra eu avoidar esse tipo de pensamento.

Avoidar é foda. Eu preciso mesmo de um psiquiatra.

Uma coisa que eu nunca entendia era como o Clark Kent simplesmente tirava o óculos, trocava de roupa e ninguém mais reconhecia o veado. Agora, esbofeteado pelo choque da experiência, percebo que tinha muito fundamento. E tem outra, quem desconfiaria que um cara que tem visão de raio-x precisaria de óculos? Genial.

Mas veja como é triste a minha situação: passei 9 anos da minha vida usando óculos. As lentes de vidro fazem parte da minha aparência, assim como meus braços finos, minha sobrancelha juntada e, daqui um tempinho, meu cavanhaque homossexual. Quando eu deixei de usar óculos, simplesmente matei o Thiago/Padula anterior. Toda a minha história, meus amigos, meus sonhos (cof), tudo arremessado longe, a perder de vista (tá, desculpa). De repente, passar a usar lentes de contato me fez uma nova pessoa, com a chance de começar tudo de novo.

E eu continuo fazendo as mesmas burrices, puta merda...

2 comentários:

Morto de frio disse...

Tem razão Thiago, o que sempre estragou sua beleza foi o óculos.
Sem óculos é possível que vc vire modelo.

Thiago Padula disse...

Pois é justamente o que eu digo! Obrigado pela observação, mas vou recusar a profissão: quando um ser humano desempenha a mesma função de um poste, é porque algo não deve estar certo.