sexta-feira, 14 de junho de 2013

Minha cidade

Você já deve ter visto tudo que poderia ver a respeito e já deve ter lido coisas bem melhores, o que me deixa um pouco acanhado pra tocar nesse assunto. Mas não quero que vocês pensem que eu me preocupo mais com a temperatura do chuveiro que com os acontecimentos realmente importantes desse conturbado mundo em que vivemos, então vou pedir licença para não acrescentar nada à discussão.

Com licença.

Estamos mudando, amiguinhos. E é curioso notar a coisa acontecendo, a força muscular dos braços e pernas da sociedade se ativando e mexendo a ordem das coisas. É feio, mas interessante. O que eu vejo de mais importante nessa série de eventos explodindo no Brasil essa semana é que a coisa finalmente ameaça subjugar a estrutura fossilizada e criar algo novo - ou trazer algo que ficou para trás. Não é sobre partidos políticos, não é sobre capitalismo ou socialismo, não é sobre classes sociais, não é sobre os vândalos ou a polícia. Não importam os motivos, seja a corrupção, o preço da passagem ou a Copa do Mundo. O que estamos vendo é uma retomada, é a cidade voltando para o povo, para o seu dono de direito. Mas antes há degraus, porque já não somos mais "povo"; fomos diminuídos para manifestantes e depois para criminosos. Marginais que vandalizam o chão da cidade com seu sangue, que ousam sujar o precioso asfalto, o tapete vermelho que estendemos à nobreza da vida urbana, nossos reis de couraça metálica e rodas de borracha.

Mas está mudando, porque estamos deixando de ser apenas vistos como formulários e carteiras de trabalho. Estão nos ouvindo. Ouvindo o nosso pé batendo, nossos gritos gritando, nossos ossos quebrando, mas nos ouvem. E, antes de tudo, estamos nós mesmos abrindo os olhos. Percebendo que o patrimônio da cidade são minhas costas, meu pescoço e meus pés, não o vidro da minha casa. E que a democracia não é poder votar, é poder decidir. Muitos ainda vão sangrar, chorar, correr e sabe-se lá o que mais enquanto o monstro da sociedade se remexe para encontrar uma nova posição mais confortável. Mas a de antes não serve mais. Não nos serve mais.

Ontem, pela primeira vez em 28 anos, eu tive orgulho do povo da minha cidade. E, pela primeira vez, eu a chamei de "minha cidade".

Um comentário:

Leon de Almeida disse...

Senti uma ponta de esboço de emoção no texto