quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Três coisas que eu não gosto nos cachorros de casa

1- O cocô

Quando eu me mudei, já moravam cá dois cachorros: a Pepita e o Rocky. São vira-latas adultos e adoráveis, mas cagam como o inferno. A única experiência de vida que eu tinha e julgava ser útil nessa nova rotina longe dos mimos dos pais era a de limpar cocô de cachorro, mas como eu estava errado. Oh, como eu estava errado. Nos meus primeiros dias, costumava limpar a caca do quintal diariamente, numa rotina que se dava mais ou menos assim: pego o jornal, o saco plástico e o desinfetante; pego o cocô com o jornal; o cocô quebra, liberando um inacreditável cheiro que estava aprisionado, como um feitiço milenar dentro de um baú de merda; paro um minuto pra me recuperar do baque, volto à tarefa; o cocô quebrado começa a esfarelar mais e mais, e se enfiar nas frestas entre os blocos de cerâmica do chão; raspo o chão com o jornal, transtornado; os cachorros vem e a) pegam a sacola e espalham toda a merda que eu já havia juntado ou b) pulam em cima de mim, me desequilibrando e... bem; eu sento no chão (a alguns metros) e choro copiosamente; eles, sensíveis, chegam perto e me abraçam, eu enxugo as lágrimas e penso que agora está tudo bem; termino o serviço e volto pra casa satisfeito. Dia seguinte tá lá aquela colônia de bosta de novo.

E o que me deixa inconformado é que tinha jornal lá pra eles fazerem os seus serviços fundamentais em cima. Mas eles cagavam e mijavam em todos os lugares, menos na porra do jornal. Devem ser intelectuais os filhos da puta, preferiam ler as notícias. Meses depois chegou uma outra bonitinha em casa, a Zula, que ao menos pegou o hábito de fazer suas coisas no local apropriado (ainda não sabe ler, provavelmente), mas o cheiro do que ela faz não pode ser explicado pela ciência.

2- O latido

Eu tomo meu banho quentinho, assisto a algum episódio da minha série favorita e me preparo pra dormir. Arrumo o lençol, a fronha, o edredon, deito-me e sinto a milagrosa maciez do colchão, cada fibra, cada linha se adaptando perfeitamente ao meu corpo depois de um cansativo dia de trabalho. Fecho os olhos e deixo minha mente me guiar, primeiro relembrando os acontecimentos recentes, depois distorcendo a realidade até quWAWAWAWAWAWAWAWWOOWOOWOOWOOWAWAWAWOO

WAWAWAWAW

WAWAW

WAW

...

Como eu ia dizendo, os pensamentos vão ficando confWAWAWAWAWAWAWOOWOOWAWAWOOWAWA

Então eu bato delicadamente na janela e grito KLABOCAFIDAPUTAQRODORMEVOUTRABLHAAMANHÃPSIUCARAI

O que eu acredito que os cachorros entenderam do meu arroubo:

São Paulo, 20 de onzembro, 2h14

Caros Rocky, Pepita e Zula

Não sei se isso é claro para os senhores, então gostaria de manifestar formalmente minha satisfação pelos ótimos serviços prestados na manutenção da segurança de nossa moradia, demonstrando a cada pobre alma que tem a audácia de passar a um raio de cinquenta quilômetros que estão atentos e não tolerarão ousadias. Além disso, como assim nomeado responsável por vossas senhorias (já que as antiquadas leis de nossa sociedade consideram a nós, humanos, seres dignos de tal honra), também fico muito feliz em constatar que não perdem tempo ao responder para todo colega de espécie que ladra na vizinhança. Entendo que, por questões de ofício, nem sempre seja possível comparecer à casa de Lulu, o rotivailer do Olavo, para uma animada rodada de chá com bolachas e bateção de papo. Desta maneira, é importante mesmo que não percam o contato e contem as novidades, mesmo que à distância e durante a madrugada. Como está ele, por sinal? Curado daquela otite?

Enfim, talvez eu tenha soado tolo ao dizer algo óbvio, mas não poderia correr o risco de não deixar claro meu júbilo e alacridade ao ter por perto tão notáveis amigos.

Forte abraço,
Thiago Padula de Oliveira (ou, como devem me conhecer, o "Havaianas pretas")
3- Seus escudos mágicos contra o ódio

Eles cagam debaixo da minha janela, latem de madrugada, soltam pelos por todos os lados (o que pra alguém com a minha rinite é tipo veneno), pulam em mim quando estou usando camiseta branca, comem meu chinelo, fogem pra rua, deixam cicatrizes permanentes no meu braço por medo da agulha de injeção (claro que não é esse o motivo que eu digo quando me perguntam), abrem a porta da frente e fazem minha alma dar um pulo de três metros enquanto o corpo permanece no mesmo lugar, catatônico de susto. E quando eu penso em arrancar fora as suas cabeças... eu não consigo. Não dá. Eu não sei a que tipo de bruxa maligna esses filhos da puta juraram devoção, mas eles lançam um feitiço poderosíssimo que torna impossível odiá-los. E eu acho tudo tão adorável, a cara de delinquente da Pepita, os dentes de Hannya do Rocky (o cachorro feio mais lindo do mundo), a misteriosamente interminável energia da Zula. Talvez porque eles não sejam meus animais, e na hora do aperto você pode sempre empurrar a encrenca pro dono, mas enfim. Provavelmente é isso mesmo.

E o fato de eu não ter NENHUMA moral com eles (a única ordem minha que eles obedecem é "continuem fazendo o que vocês quiserem") só contribui pra minha fama de perdedor vida de bosta. Eu passo vergonha, mas é engraçado (pros outros).

3 comentários:

João disse...

Eu sabia! dentro desse corpitcho ai bate mesmo, um coração!

talita aldebara disse...

tinha muito tempo eu que eu nao dava gargalhadas como dei,isso é a mais pura das verdades,eles fazem isso tudo e mais alguma coisa e continuam sendo nossos maravilhosos amigos inseparaveis,PARABENS PELO TEXTO AMEI....

Caroline Jah Bless disse...

hahahahaha...Eu rí demais!!!Muito verdadeiro seu manifesto!!!hahahaha