quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Marília


Quando eu abri os olhos, só vi o teto da sala borrado, e duas pessoas que me olhavam, também borradas, mas que logo murmuraram alguma coisa e saíram. À medida em que o universo ia ficando nítido e eu me levantava, reparei que estava em um cômodo amplo e cheio de cadeiras, talvez uma sala de aula, repleto de pessoas que eu não conhecia. E isso me incluía: quem diabo era eu?

Não lembrava meu nome, não tinha carteira nem documento nos bolsos, não sabia o que estava fazendo naquele lugar. Nenhuma daquelas pessoas me conhecia, nem parecia se abalar com o meu problema (ou com o fato de que eu estava desmaiado não havia nem um minuto). A bem da verdade, saber quem se é é um drama existencial, individual e intransferível, então não me dei ao trabalho de aborrecer ninguém com isso.

O que eu entendi é que iria haver um sorteio. Uma batedeira Arno. Por que eu estava querendo ganhar uma batedeira? Será que, na minha vida pregressa, eu fazia bolos? Ou estaria querendo dar um presente pra minha esposa, se é que eu tinha uma? Ou, não vamos descartar hipóteses aqui, será que essa batedeira continha algum tipo de segredo ou chave para resolver um problema maior? Um tesouro, talvez, ou a solução de um crime! Quem poderia dizer que eu não era um agente especial infiltrado numa escola de ensino médio procurando pela última pista que faltava pra resolver um grande mistério? Parece improvável, eu sei, mas eu estava zerado ali: podia tanto ser um homem-sanduíche como um astronauta, um mendigo ou o presidente de um país da América Central. Ou talvez tudo isso junto. Por que não? Comecei a gostar da ideia de não ser ninguém, porque isso me permitia ser todo mundo.

Uma mulher se posicionou atrás da única mesa que havia na sala, de frente para todos os outros. Usava uma blusa de seda feia, uma calça rosa, e tinha um nariz que muito provavelmente era maior que a minha rola, embora eu ainda não tivesse tido tempo - nem a oportunidade - de conferir qual era o tamanho dela. Em uma voz nasalada surpreendentemente frágil pra alguém com uma napa tão grande, ela agradeceu a participação de todo mundo e disse que ia chamar o sorteado pelo nome. Puxou um papel recortado fino e comprido, olhou, fez um draminha barato em troca de uns sorrisos amarelos, e anunciou:

- Marília!

Ficou um silêncio. Ninguém comemorou. Ninguém se moveu. Ninguém era Marília. A menos que…

***

Saí da escola com uma caixa branca e um nome. Mesmo em minha confusão, eu sabia identificar que esse era um nome de mulher, mas se ninguém mais era Marília, então devia ser eu.

O sol estava cinquenta centímetros acima da minha cabeça, então preferi atravessar a rua pra pegar a sombra que se derramava na calçada do lado de lá. Enquanto percorria a largura da avenida, um grupo de moleques veio de bicicleta na minha direção, desviando de mim e passando ao meu redor. Um deles esbarrou no meu braço, a caixa caiu e a batedeira se esparramou pelo chão. Outro viu me chamou de viado, naquele degradê de volume que a voz faz quando está em movimento. É a chave do mistério!, respondi, mas eles já iam longe. Recolhi as peças que se espalharam no chão, joguei todas dentro da caixa e continuei meu caminho, rumo ao refrescante reino de trevas sob os muros baixos das casas da vizinhança.

Marília. Existe uma cidade do interior chamada Marília, sopra um participante dentro do meu cérebro. Teria eu nascido lá? Seria esse um apelido, então? Tem cara de ser coisa que algum filho da puta começou a chamar de sacanagem, eu me enfezei, e acabou pegando. Esse meu humor volátil sempre me trouxe dor de cabeça. Provavelmente.

Encontrei um ponto de ônibus e me sentei pra descansar. Coloquei no colo o meu patrimônio, uma caixa de papelão meio rasgada que guardava todos os bens que eu possuía nessa vida: uma batedeira. Por que não chamar a batedeira de Marília também? Se eu sou Marília porque nasci em Marília, por que a batedeira não pode ser Marília por ser minha? Passou um ônibus, encheu minha cara de fumaça, subiu um monte de gente.

Só duas pessoas continuaram no ponto: eu e uma mulher. Bonita, até, bem vestida, até. Usava óculos escuros, essa coisa que faz todo mundo parecer mais belo e mais suspeito. Não havia nada para suspeitar da moça, mas se eu fosse mesmo um agente secreto, era melhor me manter atento. Eu podia sofrer de amnésia, mas ninguém poderia dizer que não era profissional.

Passou outro ônibus, Pinheiros, e a moça suspeita entrou. Fui atrás. Pra onde mais iria? Ela não tirou os óculos nem dentro do veículo. Muito suspeito. Passou na catraca, ficou de pé perto da porta do fundo. Eu parei ao lado de uma mulher gorda, que se ofereceu pra segurar Marília pra mim. A caixa pressionou os seios dela, e eu ganhei algum entretenimento no chacoalhar monótono e sem fim da viagem. Confirmado: o nariz da mulher do sorteio era maior mesmo.

A mulher que me batizou.

O homem que estava sentado ao lado da minha princesa se levantou para sair, e eu ofereci o lugar vago à suspeita. Não é o tipo de conduta que os manuais dos agentes secretos aprovariam, mas eu me sentia ousado. Talvez fosse a testosterona. A mulher agradeceu e sentou-se na cadeira do corredor quando a gorda moveu-se para a janela. O novo ângulo me desfavorecia e a suspeita não oferecia grandes atrações no olhar plongée, o que me permitiu voltar à investigação.

Uns 30 anos, eu diria. O cabelo era avermelhado, mas as evidentes raízes negras mostravam que ela não o pintava havia algum tempo. Nos ombros, algo que parecia ser caspa. Caspa não combina com mulher bonita, mas eu estava apaixonado por uma rapariga que pesa 30kg a mais que eu só porque ela segurou minha batedeira, então não tinha autoridade para opinar nesse assunto. A pele estava daquela cor estranha meio esverdeada que as pessoas adquirem quando ficam muito tempo sob luz fluorescente. Não conseguia me conformar que eu lembrava esse tipo de detalhe mas não a porra do meu nome. Marília não é meu nome, não é nome de homem. Ou de batedeira. Eu devia estar preocupado era com isso, não com a pobre workaholic que não arranja tempo nem pra ir no cabeleireiro.

Mais um ponto, e aquela que foi o grande amor da minha vida por 20 minutos me devolveu Marília, levantou e foi embora. Eu disse obrigado, mas queria dizer te amo, não vá, casa comigo. A suspeita deslizou para perto da janela e eu me sentei a seu lado, a caixa no colo. Ela olha para o meu tesouro por alguns segundos, olha pra janela. Algum tempo depois, outra rabada de olho na batedeira, volta pra paisagem. Mais um minuto, ela puxou assunto.

- Você pegou o ônibus naquele ponto da Coronel, não foi?
- Isso - não faço ideia.
- Você estava na escola?
- Aham.
- Ah, você participou do sorteio da batedeira, então?
- Sim.
- Puxa, que legal. Eu estava lá também, mas atrasou muito e eu precisei sair.

Comecei a suar frio. Meu coração disparou, minhas mãos tremiam.

- Você se chama Marília?
- Sim! Como você sabe?
- Eu sou você.

2 comentários:

Leon Santiago disse...

Comentário de incentivo pra escrever mais. Muito bom!

Eduardo Melo disse...

Comentário de desestímulo para escrever menos. Aff!