Cheguei da minha superviagem há três dias e ainda estou tendo que me readaptar aos costumes de nossa terra natal (pra ser exato, o meu relógio biológico é que ainda está no fuso horário errado). Mas passada a euforia que se apodera de nós no momento do retorno e o consequente banho de água fria com duas horas pra sair do aeroporto + uma hora e meia de trânsito + o chuveiro pegar fogo + gripar, agora já dá pra avaliar melhor as características principais da adorável cidade de Barcelona. E, como tudo fica mais fácil de compreender a partir de uma referência, decidi por a capital da Catalunha e a capital do estado de São Paulo para competirem numa batalha intensa e sangrenta pelo título de melhor cidade em que eu já passei mais de uma semana (são as únicas).
Vamos às regras: as cidades competirão em uma série de categorias, sendo desde conceitos gerais até desafios específicos. A cidade que vencer a categoria ganha um ponto, e ao final do post vence quem tiver mais pontos. Simples.
Já aviso aqui que não pretendo ser parcial ou piedoso. Meus critérios são muito sólidos e meu julgamento se baseará somente em fatos, evidências, números. Nada de opiniõezinhas, nada de "eu acho que". Estamos lidando com coisa séria aqui.
Sem mais, vamos à SUPERTAÇA MUNDIAL DE CIDADES 2014 (clap clap clap clap clap):
FC Barcelona x São Paulo FC
Primeiramente devo explicar que, embora haja mais equipes de futebol em cada uma das cidades, eu escolhi apenas as relevantes (ninguém ia querer ver um desafio entre Espanyol e Palmeiras, pelamordedeus). O Barça é o orgulho da cidade: em toda esquina há uma loja oficial do clube, e entre as esquinas há diversas lojas vendendo produtos piratas. Fundado em 1899, é hoje um dos maiores clubes da Europa e o maior vencedor do continente nos últimos anos. Sua camisa já foi vestida por craques históricos como Maradona, Romário, Stoichkov, Laudrup, Ronaldinho Gaúcho e Messi e o Camp Nou, seu estádio, é o maior da Europa. Foi bucentas vezes campeão espanhol, duas vezes mundial e os quatro títulos europeus são expostos com destaque e orgulho no museu do clube.
Mas nada disso os impediu de levar dois cacetes do São Paulo de Telê e Raí.
Ponto para São Paulo.
Tibidabo x Pico do Jaraguá
O Tibidabo é uma montanha que recorta toda a margem oeste de Barcelona, o que é particularmente útil quando você é um turista panaca que vai entrando em qualquer viela e não sabe como voltar depois. No topo da montanha tem uma igreja, no topo da igreja tem um Jesus, e lá é alto pra caralho. Também tem um parque de diversões, o qual eu só olhei a uma distância segura porque, como eu já devo ter escrito aqui alguma vez, eu morro de medo de montanha russa.
E o Pico do Jaraguá, ah, quem nunca foi lá? Tem antenas, tem algodão doce, tem patos (tem patos? faz muito tempo que não vou). O Pico do Jaraguá é o ponto mais alto da cidade e eu estou enrolando aqui pra arrumar coisas pra falar sobre ele.
Mas, entre os dois competidores, apenas um deles foi citado num episódio de Friends. E aí fica difícil eleger outro vencedor.
Ponto para Barcelona.
Vendedores ambulantes, parte 1: cerveja
A principal razão de eu ter feito toda essa viagem foi um festival de música que, a exemplo de todos os outros festivais de música do mundo, não tinha o Volto Logo Joyce no seu line up. E, vocês sabem, ao redor de eventos assim sempre há os ambulantes vendendo bebidas a preços menos abusivos que os praticados depois do portão. E lá em Barcelona os caras simplesmente seguram uma latinha na mão (ou aquele six-pack, com um bagulho de plástico unindo todas) e ficam dizendo "beer. beer." SEGURANDO A CERVEJA QUENTE SOB UM SOL DE 18 GRAUS (lá isso é muito).
Em São Paulo as bebidas ficam geladinhas dentro do isopor, e além de cerveja você pode comprar refrigerante e água, muito embora a água possa ser somente o gelo do isopor que derreteu. Evite a água.
Ponto para São Paulo.
Vendedores ambulantes, parte 2: apito
Ao caminhar pelos espaços mais dados ao comércio e ao turismo, como La Rambla e a rua 25 de março, você encontrará, é claro, vendedores de todo tipo de merda que só alguém muito idiota compraria (voltei com uma mala cheia). Um dos produtos em comum é um tipo de apito que você põe entre os dentes e faz barulhos divertidos - e eu só não digo que é um kazoo porque eu não sei se é, mas parece um bocado. Em Barcelona, a batalha pela atenção dos turistas provoca um festival de talentos entre os vendedores, cada um improvisando uma canção diferente e mostrando toda a versatilidade de algo tão pequeno e aparentemente simples, numa bela mensagem de que a criatividade supera todas as limitações.
Em São Paulo, todos - absolutamente todos - os vendedores usam esse apito pra gritar "ai titiiiiaaa".
Ponto para São Paulo (porque família vem acima de tudo).
Gente bonita
Aqui temos um exemplo da seriedade dessa competição. Outra pessoa poderia dizer que as pessoas em Barcelona são obviamente mais bonitas, que parece que você é figurante num seriado de televisão, que se apaixonou por todas as mulheres e que com alguns homens até considerou que a homossexualidade não fosse uma má ideia. OUTRA PESSOA diria isso, OUTRA PESSOA! Mas não eu. E por que?
Porque, amigos, a beleza exterior não importa. É tão frágil quanto uma vaca num furacão, tão perecível quanto uma camiseta nova lavada pela moça que faz limpeza aqui em casa. O que importa são os valores, é a bondade, a lisura, a educação, a honestidade, a amizade. Isso dura pra sempre. Beleza exterior é masturbação, mas beleza interior é amor verdadeiro.
Empate.
Conscientização política e social
Em São Paulo, principalmente desde junho do ano passado, o povo não é tímido ao ir às ruas demonstrar sua insatisfação contra tudo que lhe aflige. Protestam por diminuição na passagem do transporte, por melhor educação, por mais salário para os professores, pela legalização da maconha, contra o racismo, contra a homofobia, contra o machismo, contra desapropriações, contra a corrupção, contra a maldade, contra dores de garganta, contra esses eventos engraçadinhos do Facebook, contra gente que faz uma lista imensa de coisas e dá uma indireta sutil lá no meio porque não é homem pra falar na cara. O paulistano não aceita desaforo, porque é só acontecer algo ruim e nós vamos para a rua pintar nossa cara e tirar selfies e postar com a hashtag #vemprarua.
Em Barcelona, nos nove dias em que estive lá, vi três manifestações: uma alertando o mundo para as coisas horríveis que acontecem na Venezuela, com diversos cartazes mostrando números que denunciam a situação do país; uma com o mote Free Biafra, pedindo a independência da região que fica ao sul da Nigéria e que já foi um estado soberano entre 1967 e 70, mas acabou sendo reincorporada ao restante do país graças à ferramenta diplomática mais poderosa que existe: a porrada (e é óbvio que eu pesquisei tudo isso na wikipedia, na hora achei que fosse o fã clube africano do Dead Kennedys); e uma, essa sim finalmente dos cidadãos catalães, pedindo cadeia para os corruptos e coisa e tal.
Ou seja: enquanto o paulistano tem grande consciência política e não se deixa ser ofendido pelos poderosos, o barcelonês é apenas uma marionete do governo, que compra a submissão de seu povo com suas ruas limpas, seu transporte que funciona, sua educação privilegiada, sua qualidade de vida. Alienados! Vendidos!
Ponto para São Paulo.
Altitude
São Paulo: 760m
Barcelona: zerooooooo
Ponto para São Paulo.
Resultado final
E ao final de nossa competição, São Paulo tem 5 pontos enquanto Barcelona tem apenas 1. Uma senhora lavada, que apenas comprova o que vocês todos provavelmente estavam pensando desde o início do post: as cidades europeias podem até ter estudado nas melhores escolas particulares, mas nunca serão aprovadas no vestibular da vida.
Encerramos aqui nossa transmissão. A seguir, provavelmente muitos textos sobre futebol porque a Copa vem aí. Fique conosco.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Barcelona x São Paulo: a batalha final
Postado por
Thiago Padula
às
22:28
3
comentários
Marcadores: Férias, Futebol, Inutilidades, Verdades, Viagem
terça-feira, 27 de maio de 2014
Feira das nações
Barcelona me surpreendeu em alguns aspectos, mesmo eu tendo feito uma pesquisa relativamente decente durante os meses que antecederam essa viagem. Uma dessas surpresas, por exemplo, está na beleza da cidade: ela é muito, muito mais bonita do que eu esperava, e olha que minhas expectativas eram altas. É verdade que talvez o meu senso estético possa ser colocado em avaliação aqui, já que eu também acho bonito o centro de São Paulo e o primeiro modelo da Variant, mas vamos em frente.
Outra coisa que eu não esperava, apesar de conhecer o caráter turístico da cidade, é que a incidência de turistas fosse tão alta. E de lugares tão distintos. Por exemplo, tem muito turista em Aparecida do Norte, mas o máximo que você vai ouvir é uns sotaques diferentes e pronto. Aqui tem tanto viajante e eu ouço tantos idiomas diferentes na rua que ainda não sei identificar nem a língua oficial da cidade, o catalão.
Mas com base em certos aspectos como o idioma, a cor da pele e a bandeirinha bordada na mochila, dá pra perceber vários grupos de nacionalidades diferentes, e nisso tirar umas conclusões rasas ou avaliar aquelas imagens que chegam até nós pelas poucas informações que recebemos desses outros povos e culturas.
A língua que eu mais ouço aqui, depois do castelhano, é o inglês. É tão comum que agora eu só converso em inglês, porque a vida fica bem mais fácil. E uma coisa que deu pra notar é que crianças inglesas invariavelmente soam como almofadinhas irritantes paus no cu. Isso pode ser só reflexo de uma juventude inteira assistindo filmes que gozavam desse perfil, mas que parece, parece. A criança pode falar qualquer coisa (tipo "tá gostoso esse sorvete, hum") e eu já quero gritar pro pai "porra, ponha limites nessa criança!".
Outro grupo que tem bastante aqui, e hoje eu vi tantos que pensei ter acordado na cidade errada, são japoneses (e a tal cidade errada é São Paulo mesmo, no bairro da Liberdade). Eles são muitos. Hoje eu vi tantos no museu do Picasso que as únicas razões que pude pensar é que ou o Picasso é um popstar tipo Romero Britto no Japão ou eles confundiram com Pikachu.
Entre as línguas que eu não identifico, os mais populosos são os alemães (e por "alemão" eu considero "todo aquele que tem a cara branca, o cabelo loiro e fala grunhindo"). Não sei o que dizer deles, não me importo. Eu já vi alguns russos, e devo dizer que me desapontaram um pouco, porque nenhum deles fez nada bizarro como estou acostumado a ver nos vídeos. Hoje vi também uma caravana da Noruega, de umas 40 pessoas. Existia uma história (que não sei se é real) que a média de idade da população na Noruega era tão alta e a taxa de natalidade tão baixa que eles passavam propagandas eróticas no horário nobre pra incentivar o coito nas pessoas. Vamo procriar, galera. O que eu posso dizer, na minha limitada experiência, é que o mais novo desses 40 deve ter, chutando baixo, uns mil e duzentos anos. São muito assombrosamente velhos. Acho que se você emendasse eles todos numa sequência na linha do tempo daqui pro passado, um de cada vez, o primeiro estaria flutuando no espaço porque ainda não haveria Terra.
E há os brasileiros. Aparentemente Barcelona é um destino para famílias, porque a configuração padrão que eu encontro é pai + mãe + filha encalhada. Já vi também casais com crianças e um casal em lua de mel - e eu sei disso porque, no livro que fica na saída da exposição que mostrava a tenebrosa época em que o General Franco surrupiou da Catalunha toda sua identidade e a encheu de nazistas e fascistas, eles escreveram "Ana e Luis estiveram aqui em lua de mel <3" e eu fiquei meio contrangido porque não consigo imaginar nada mais inapropriado pra escrever, tirando aquela vez que o Justin Bieber visitou a casa da Anne Frank e escreveu que, se ela vivesse hoje, seria uma belieber. Fora do padrão, encontrei só dois amigos que desciam uma ladeira cantando Hello Goodbye. É verdade que eu tenho vontade de abraçar os brasileiros aqui (e as pessoas que cantam Beatles em qualquer lugar), mas eles eram jovens e homens, então nah.
Ah, e há também os com a camisa do Corinthians, porque pelo visto não há lugar no mundo livre dessa desgraça. Eu disse que Barcelona me surpreendeu, mas não falei que era positivamente.
Postado por
Thiago Padula
às
18:06
0
comentários
Marcadores: Férias, Inutilidades, Verdades, Viagem
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Suerte
Pode não parecer, pelas coisas que eu escrevo aqui, mas eu sou um cara de muita sorte. Claro que destaco os momentos contrários ou exagero a situação pelo apelo autodepreciativo, mas é fato que tenho mais sorte que a maioria das pessoas, haja visto que mesmo com minha evidente e avassaladora inaptidão em lidar com qualquer desafio que o mundo me apresente ainda não estou vivendo dentro de um esgoto com uma barra de ferro enfiada no estômago que eu não posso tirar ou vou morrer.
Hoje meus planos na capital catalã eram simples: pus o despertador pra tocar às 8, pra eu enrolar até as 8h30, pra sair às 9, pra comprar um chip com internet para o meu celular e então dar início às atividades do dia, que incluíam o Montjuic e o Parc Güell (esse eu tentei ir ontem, mas estava cheio e demoraria muito pra entrar, então empurrei pra hoje. Isso não tem a menor importância), dois espaços abertos. Guarde isso.
Pois o celular despertou às 8, eu pus no soneca, tocou às 8h10, soneca, 8h20, soneca e eu nunca mais soube dele até que acordei, no susto, às 10h41. Puta que pariu, puta que pariu! Levantei correndo, escovei os dentes correndo, troquei de roupa correndo e fui à rua, com as pálpebras ainda coladas pelas remelas e a calça vestida ao contrário (mentira). Chegando na rua, mais más notícias: chuva. Continuo. Descubro que meu tênis direito deve ter um furinho na sola, porque minha meia está molhada. Ótimo. Chego na loja da empresa telefônica, espero uma hora, sou atendido e o sistema cai. No mesmo instante em que o cara me pedia desculpas (na verdade ele não pediu desculpas, o povo aqui é meio - eufemismo - mal educado) o meu intestino me pedia permissão para abrir as comportas. Mais de uma hora depois de eu já estar atrasado duas horas, estou com a meia molhada, sem chip e voltando pro hotel com vontade de cagar. Eu atravessei o oceano, mas a minha sorte perdeu o voo.
Frustrado, fiz o que tinha que fazer (cocô) e voltei à rua. Vou mesmo assim, mesmo com meia molhada, mesmo com chuva na cabeça nos lugares abertos (embora vendessem guarda-chuva na saída do metrô, certas coisas são universais). Então o tempo, assim como a minha sorte, começou a mudar. Rodei meia cidade e, quando cheguei ao Montjuic, o céu já estava limpo e lindo. Quando peguei o teleférico para ir até o castelo no topo do monte, havia sol, céu azul e até calor. O castelo estava vazio e sem filas, excelente. A temperatura era boa, as gaivotas faziam "craaa" (ou o que quer que façam as gaivotas, ou o que quer que sejam aqueles bichos) e os gringos faziam "nhenhenhem" com suas caras rosas estúpidas. Agora vamos à avaliação lógica da coisa toda:
Eu tenho sorte pra caralho. Não porque o tempo mudou e ficou bom, porque isso não significaria sorte, significaria apenas um certo equilíbrio, já que eu me ferrei de manhã e a ferrada foi desativada à tarde. Acompanhe comigo: se eu tivesse acordado no horário certo, teria feito todo o passeio com chuva na cabeça e ainda provavelmente teria ficado com vontade de cagar quando estivesse bem no topo da montanha ou, pior, no ônibus, ou, pior, no teleférico. E ainda teria tuitado isso com meu super 3G no celular. Porém, ao cancelar essas duas horas de chuva com meu sono inconveniente, eu me livrei da chuva, cheguei ao topo da montanha junto com o sol e, como saí pouco antes da chuva acabar, também cheguei antes de todo mundo. Ou seja, minha sorte não anulou os efeitos indesejados dos acontecimentos da manhã, ela transformou-os em vantagens. E, mais pro final do dia, andando aleatoriamente pelas vielas de um bairro qualquer, ainda encontrei diversas coisas que estava procurando e não sabia onde achar (como diabo se diz "isopor" em espanhol?) e comprei o chip, finalmente, seco e sortudo. Ah, e vale comentar que na volta do castelo eu fiquei trancado no teleférico com três inglesas que estavam loucas de desejo e fizemos um montão de sexo.
Vai que cola.
Postado por
Thiago Padula
às
16:51
0
comentários
Marcadores: Férias, I hate myself and I wanna die, Inutilidades, Viagem
domingo, 25 de maio de 2014
Sobre saudades do português (não o Manoel)
Eu saí de solos paulistas às 18 horas da sexta-feira, com os sonhos pulsando e o nariz escorrendo. Duas horas depois cheguei a Salvador com o nariz ainda escorrendo, mas consegui comprar lenços de papel, pelo menos (ê). Na área de embarque a maioria era gringa e o castelhano povoava o ar da Bahia. Ao entrar no avião e avistar a comissária de bordo saudando a todos na porta, pensei que seria minha primeira troca de palavras no idioma dos colonizadores de nosso continente. Eu diria um "buenas noches", ela diria outro "buenas noches" e bacana, bom começo. Então eu cheguei, mostrei minha passagem e ela falou mais ou menos 10 mil palavras em 7 segundos e aquilo foi um choque de realidade tão grotesco que as próximas palavras dela, essas eu entendi, foram "señor, ¿por qué lloras?"*
Sentei na minha poltrona e ao meu lado sentou um espanhol, com sua cara boba e seus dentes tortos - aliás, inacreditável a qualidade dentária nesse continente. Dá a impressão de que dentista é uma daquelas profissões que só tem em alguns lugares, como limpador de neve ou jogador de futebol americano. Perdi a linha. Enfim, o espanhol sentou do meu lado. Liguei minha telinha e pus o fone de ouvido, e descobri que tava quebrada aquela merda. Paciência, não vamos fazer o classe-média-sofre agora. Aí olhei pro lado e o gringo tava assistindo O Hobbit 2 dublado em espanhol. Ver um filme ruim dublado quando a pessoa ao seu lado não tem nada só pode ser considerado ostentação.
Voei, dormi, acordei (e fiz a burrada de despachar minha escova de dentes com a bagagem maior, então imagina o meu bafo), chegamos a Madri, eba. Aeroporto estranho, gente esquisita e duas coisas me marcaram: como estava cheio de gente com uniforme do Real Madrid ou do Atlético esperando o voo pra Lisboa (a final da liga dos campeões seria realizada naquele dia em Lisboa entre os dois times da capital espanhola, caso você não seja desses ligados nas coisas que importam na vida) e como, agora, havia muitos idiomas mais no ar, mais uma coisa pra aumentar a apreensão do cara com mau hálito que parece terrorista. Nesse momento, senhores, eu confesso: senti saudade de casa pela primeira vez, 12 horas depois de tê-la deixado pra trás. Não de casa no sentido de "minha cama, minha bagunça", mas senti falta da minha terra natal, daquela gente com dentes certos, do meu idioma, puta que pariu. Houve uma hora que passou um grupo de quatro brasileiros, entre os 50 e os 70 anos, e eu fiquei seguindo eles só pra ouvir o doce som de um "nóis chega" ou um "preciso mijá".
O próximo voo, que seria o último, atrasou três horas. Fiquei chateado, fiquei impaciente, estava triste de saudade. Fui no banheiro, larguei um barro e não dei descarga*, pra deixar meu protesto contra esse lugar. Quando finalmente estava embarcando, todo mundo putão, um cara da companhia aérea explicou que aquele avião atrasou porque vinha de São Paulo e alguma coisa aconteceu. Lembro que tive dois pensamentos, sendo o primeiro "aff que conversinha um atraso é um atraso como pode uma coisa dessas" e o segundo "peraê, TINHA UM VOO DIRETO DE SÃO PAULO?!". Infelizmente não pude manifestar essa indignação verbalmente, dado meu limitado conhecimento do idioma, mas sorte que já tinha feito o protesto escatológico horas antes, caso isso fosse verdade.
Cheguei em Barcelona, enfim, e a cidade é bonita que só a desgrama. Todos falam comigo fazendo muitas mímicas, como se eu fosse um retardado (o cara do hotel estava me ensinando a usar a chave, sério), algumas pessoas perguntam se eu prefiro que elas falem inglês ou espanhol (e eu faço cara de "whatever", mas eu não falo "whatever" porque meu cérebro tá chaveado no espanhol e eu não sei falar "whatever" em espanhol - uma hora eu disse "tanto faz", mas a moça não entendeu), e eu só quero que elas falem português. Por esse motivo, em todas as atrações que visitei até agora que dispunham da opção, peguei o áudio-guia. Assim posso sempre me sentir em casa, mesmo que seja aprendendo sobre os pórticos da Sagrada Família com um portuga falando no meu ouvido.
Vale dizer que eu peguei um desses ônibus turísticos que dispõem de um guia em áudio e, nos momentos sem fala, toca uma música incidental que por vezes lembra coisas do Massive Attack. Então, com todo respeito, o Gaudí que se lasque, a coisa mais genial em Barcelona é o trip hop com o português contando a história da construção da cidade. Tem que ouvir isso, gente*.
* Mentira total ou parcial
Postado por
Thiago Padula
às
17:20
0
comentários
Marcadores: Férias, I hate myself and I wanna die, Música, Viagem
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Preguiça sem culpa
Se preguiça pudesse ser medida pela escala Richter, um terremoto nas mesmas proporções da minha poderia afundar um continente. Eu vivo numa espécie de universo diferente meio Supermariogalaxyesco em que a aceleração gravitacional de cada cama e cada sofá é muito maior que a da Terra, arremessando-me violentamente à sua superfície fofinha quando entro em sua órbita (leia-se uns dois cômodos pra lá).
Caminho agora para a última parte de um período de férias coletivas e digo, com uma certa confusão de sentimentos, que não fiz nada. O leitor com mais tempo de casa vai saber que essa afirmação não é nova, mas desta vez, além das minhas atividades terem realmente raspado no zero (considerando que jogar o novo Zelda é uma atividade, senão é zero mesmo), uma coisinha preocupante está diferente: eu não me sinto mal.
Todo fim de férias é, pra mim, um longo exercício de arrependimento: olha quanto tempo eu tinha, olha quanta coisa eu poderia fazer, eu sou um inútil, da próxima vez com certeza eu faço uma viagem / gravo um disco / construo um poleiro no quintal do fundo. Dessa vez, entretanto, nada. Tô é achando bom bagarai. Cheguei com uma mochila e um 3DS na casa dos meus pais pra passar uns dias e já estou há quase uma quinzena, aproveitando o que a vida pode me oferecer de melhor: minha família, a cachorra, o gato, roupa passada (de verdade, não aquela esfregada de ferro que eu faço), Coca-Cola sempre geladinha.
Eu sei que a vida pode oferecer mais que isso, mas aí é para as pessoas com aptidão para usufruir essa longa e dolorosa jornada na Terra. Eu só quero a Coca mesmo.
E ainda que nesses dias eu tenha chegado ao portão da rua menos vezes que o Corinthians à final de campeonatos internacionais e meus únicos momentos de esforço real foram pra evitar ver a cena do Anderson Silva quebrando a perna (nenhuminha vez até agora), sinto que estou preparado e confiante para retornar à rotina laboral na próxima semana. Mais do que isso, estou ansioso. Não porque cansei do ócio, não porque quero ver os grandes desafios que me aguardam entre as letras coloridas do Sublime Text 2. Estou ansioso porque por melhor que seja essa vida de vagabundagem, o único lugar onde me deixam entrar, sentar, acessar a internet e ganhar dinheiro sendo lambido pelas doces brisas de um ar condicionado ainda é o trabalho.
Ninguém aguenta esse calor, meu deus.
Postado por
Thiago Padula
às
01:05
1 comentários
Marcadores: Férias, I hate myself and I wanna die, Inutilidades, Videogame
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Aquário
Tive a graciosa oportunidade de aproveitar uma folguinha entretrampos alguns meses atrás e planejei a semana toda para uma série de eventos ao ar livre, em contato com a natureza. Ar limpo, sol quente, céu azul, aquela papagaiada. Claro que acabou só chovendo e minhas principais atividades na semana foram doar sangue e tentar resolver os efeitos colaterais de um assalto na frente da minha casa, mas deu pra aproveitar.
Porém, antes dos meus planos serem encharcados e temperados com leptospirose eu pude ao menos riscar um item da lista: conhecer o famoso aquário que fica perto de casa, um que eu não lembro o nome mas cujo ingresso custa um horror de caro. Fui a pé, escalando paredões que estranhamente estavam no meio das ruas (aquilo não podia ser só uma ladeira) enquanto os raios solares despejavam-se na minha cabeça como um shampoo cósmico. Mas vamos lá, vamos ver peixes, vamos contemplar o reino animal por trás de um vidro, o que me deixava superempolgado porque duas coisas que eu adoro são animais e janelas. Ia ser mara.
Só que o lugar é meio escuro e silencioso, talvez para simular vagamente algumas características de um ambiente subaquático, e confesso que isso me deixou meio, como dizer, receoso. E assim que eu parei na primeira "jaula" (como chama aquilo?) e só vi uma pedra, um galho e umas folhas pra depois descobrir que a pedra era um sapo, o galho era um jacaré e as folhas eram folhas mesmo acabei sendo invadido por um terror irracional, como se assim como aquela pedra deu um pulo o chão pudesse se mexer e eu na verdade estar nas costas do Cthulhu.
Assim eu caminhei pelos corredores do aquário, e enquanto crianças corriam e sorriam e famílias tiravam fotos na frente do peixe colorido e da cobra roliça, eu caminhava travado, lentamente, atento a tudo, como um tira num bairro barra-pesada.
E aí você chega nessa salona bem grande que tem um tancão (aumentativo de "tanque") com vitrines em dois lados do cômodo e uma passagem superior que liga os dois compartimentos. E lá estavam eles, magníficos, deslumbrantes: os tubarões. Eram muitos e estavam de boa num canto lá pra ninguém encher o saco, mas eles eram tão lindos que eu fiquei hipnotizado e fui caminhando lentamente em sua direção até ficar com o nariz atochado no vidro, completamente abobado. E nesse momento me passa a PORRA DUMA ARRAIA bem na minha frente, VUUUSH, DO NADA, com aquele :) ridículo rindo da minha cara enquanto eu não sabia o que ia explodir primeiro, meu coração ou meu rego. Vitória do segundo, me caguei inteiro, e se já estava caminhando lentamente antes você imagina agora.
Fui para a próxima área, ainda não recuperado do choque, mas essa era a ala dos peixes do Procurando Nemo e meu coração saiu da minha boca e voltou pro lugar de antes todo aquecido e feliz. Tinha os peixes-palhaço, tinha a Dory, tinha o Gil, tinha aquele baiacu e eu só ficava fazendo "oooown ♥". Estava apaixonado por um filme da Pixar e me humilhando publicamente, sinais claros de que voltava ao meu normal. Ainda acompanhado daquele cagacinho, mas sem o pavor descontrolado do ataque da arraia.
![]() |
| Tirei uma foto com meu celular. Não ficou ótima. |
Depois vinha a parte dos dinossauros, e ali eu comecei a achar que a passagem da arraia no meu campo de visão era tipo uma vinheta que fazia a minha transição pra um universo em que é normal ter uma área sobre dinossauros num aquário. Além de uns paineis contando a história de dinossauros brasileiros (cid moreira kkkkkk não, brincadeira) e um esqueletão que se era real demonstra que brasileiro já fazia gambiarra desde quando era réptil, havia uma passagem para outra sala, identificada por uma plaquinha como "Vale dos Dinossauros" e lá de dentro vinha a música tema do Jurassic Park. Imperdível!, empolguei-me sozinho, já que os outros grupos haviam ficado pra trás e eu era o próprio elo perdido. Estava vazio o aquário naquele dia, era segunda-feira à tarde.
Você entra e fica claro que você está mesmo no passado, quando a Terra era habitada por gigantes. Além da trilha sonora cinematográfica, o ar era povoado pelos sons das majestosas criaturas, de piados a grunhidos. No alto, um pterodáctilo plana. À minha frente estende-se uma pequena ponte, e às suas margens estão eles, os dinossauros. Não os de verdade (você acreditou por um instante, hein?), mas estátuas provavelmente compradas de algum circo falido, porque além de mal desenhadas e mal cuidadas ainda estavam completamente fora de escala e proporção. Mas isso nem me desagradou tanto, o que me desagradou foi que logo ao entrar eu tive que me deparar com a bunda de um tiranossauro virada pra mim. Porra, falta de educação. E à medida que eu caminhava em frente, revoltado com essa falta de etiqueta cretácea, a cabeça do monstro vira na minha direção.
Na. Minha. Direção.
Recobrada a consciência, segui em frente para ver algumas representações pouco fieis de diferentes etapas da evolução do ser humano e até o final do passeio ainda pude ver um peixe-boi (ah é, era um aquário), um tamanduá (ou não), um bugio, uns morcegos irados. E foi isso por aquele dia, em que depois eu ainda fiquei vendo vídeos de mulheres peitudas tocando violão e toda a coisa do assalto do primeiro parágrafo.
Escrevo isso agora porque acho que finalmente compreendi a minha desaprovação à obsessão daquele cabeleireiro por peixes. Não era nada contra o cara, era só reação instintiva de proteção depois desse recém-adquirido trauma com criaturas do mar.
Se eu ganhasse um real por cada medo babaca que eu tenho...
Postado por
Thiago Padula
às
12:04
0
comentários
Marcadores: Férias, I hate myself and I wanna die, Inutilidades
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Pé na estrada
Postado por
Thiago Padula
às
12:46
2
comentários
Marcadores: Férias, Inutilidades, Morte
domingo, 22 de agosto de 2010
Gente que nunca aprende
Toda vez que eu digo que vou escrever mais aqui (tenho o blog há quase três anos e meio e continuo repetindo esses erros juvenis), desapareço logo em seguida. Dessa vez tenho desculpas:
1- Eu não tenho feito nada, o que leva a não ter assunto pra escrever (sério, olha esse post agora). Na verdade, até tenho feito: tô lendo pra caralho, desenhando pra caralho, tocando violão pra caralho; minhas férias tem sido uma viagem no tempo, para aquela era maravilhosa antes de eu começar a trabalhar, mas isso só é legal pra mim.
2- Falando em trabalhar, eu posso não estar escrevendo aqui, mas tem bastante coisa rolando no blog novo, o Vida corporativa de bosta. Tá bombando, cara. Sucesso no Twitter, sucesso na internet, mais de TRINTA acessos diários. Tá, isso num dia bom. Eu sou tão loser.
3- Eu gastei 350 reais em quadrinhos (é, pois é, eu sei, eu sei) e vi que minha dívida na Caixa (aquela do post anterior) cresce mais rápido do que eu consigo juntar dinheiro - vocês precisavam ver minha cara derretendo na hora que a mulher me mostrou o extrato. E olha só, o antigo eu pegaria essa mínima coisa, enrolaria por quatro parágrafos e faria um post sobre isso, mas o novo eu... O antigo eu era melhor.
Só pra vocês não ficarem sem sua dose de minha desgraça para diversão, saibam que ontem meu dente quebrou. No começo das férias eu comprei um saco de Dadinhos, um saco de 7 Belo e um saco de pirulitos de coração e brincava que até o fim de agosto eu estaria banguela. Nunca achei que fosse virar realidade.
Ah, leiam Maus. Vale a vida.
Postado por
Thiago Padula
às
12:51
1 comentários
Marcadores: Férias, I hate myself and I wanna die, Inutilidades, Jabá, No dentista
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Phérias
Hoje, oficialmente, eu entro em férias. 'DE NOVO?', bradará aquele mais afobado, mas tá tudo dentro da lei, então sente essa bunda na sua cadeira DE ESCRITÓRIO e volte a trabalhar, vagabundo.
Eu tinha um plano para as minhas férias: procurar um apartamento pra me esconder e dar algum sossego aos meus familiares. Esse plano durou até as 13 horas de hoje, quando bateu uma preguiça e tal. O que significa que todo o dinheiro que eu não gastei e as viagens que eu não marquei por conta disso foram em vão. Rá, eu rio na cara de mim mesmo.
(Na verdade, vou é pegar o dinheiro pra pagar uma dívida com a senhora Caixa Econômica Federal, mas isso não é da sua conta)
Pretendo fazer dessas férias um período mais produtivo que da última vez - até aí, também pretendia procurar lugar pra morar e você já viu no que deu -, o que deve inclusive significar mais posts nessa pocilga. Parece inacreditável, mas eu gosto de escrever nessa bosta. É mesmo inacreditável.
Além daqui, também estou há algumas semanas com outro blog, o Vida corporativa de bosta, que serve basicamente pra esculhambar o trabalho e tudo que se relaciona. Com todo respeito, né, afinal tenho crianças pra alimentar. E além dissos, devo fazer mais coisa que não te interessa em nada, mas que estará aí na internet. Aviso quando rolar.
Agora, se permite, vou voltar a assistir Chapolin. Fique com essa música da qual me lembrei agora, e boa noite.
Postado por
Thiago Padula
às
19:12
2
comentários
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Minhas férias
Após uma rápida incursão em São Carlos, terra da mitológica Maurren Maggi, e um punhado de dias sem computador, eis que minhas férias estão batendo na porta do céu. Foi proveitoso, foi divertido, e, melhor de tudo, foi sussa. Joguei bola, fiz desenho, terminei Final Fantasy X (eu, terminando um jogo? Milagre de férias), incomodei vizinho com meus maltratos ao violão (e à obra da Legião Urbana), visitei o irmão lá longe, visitei os parentes aqui perto, vi umas trocentas medalhas de prata, uns trocentos episódios de That '70s Show, e joguei um punhado de horas de Super Smash Bros Brawl, porque ninguém é de ferro. Resumindo: fiz bos-ta-ne-nhu-ma.
Nem a barba. Vou chegar segunda no trabalho cheio de curativo na cara. Hihi.
Postado por
Thiago Padula
às
22:33
1 comentários
Marcadores: Férias
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
... eu vou enfiar um palavrão
Eu sei que deveria escrever mais aqui, já que não faço porra nenhuma o dia inteiro, mas blé. Pelo menos tenho feito algo útil, tipo isso =D
Postado por
Thiago Padula
às
12:30
0
comentários
Marcadores: Férias, Inutilidades
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Scooby-doo e a frustração
Quando eu planejei sair de férias, pensava que a vida seria bela, feliz e com coelhinhos saltitantes. Pensava no sol das terças-feiras aquecendo minhas canelas, nas cinco horas diárias de Final Fantasy X, em acordar e dizer 'bom dia, meio-dia!'. Eu achava que seria diferente, que dessa vez seria maravilhoso. Mas eis que a Velma descobre que o fantasma era na verdade uma pessoa disfarçada, e você fica com aquela cara de bobo de quem esperava que dessa vez haveria uma novidade.
Primeiro porque minhas canelas, em sua condição dermatológica vampiresca, não têm reagido bem ao sol. Ainda procuram o abrigo das calças jeans. E o Final Fantasy, bem, eu não tenho conseguido jogar mais que quatro horas e meia! E também nada de acordar ao meio-dia, já que Maria encontra seu auge de histeria às onze.
Estou desapontado, triste. Fico imaginando o que será dos meus próximos planos, como assistir Batman com cinema vazio e matar uma temporada inteira de That '70s Show num dia só.
Deus, por que me odeias?
Postado por
Thiago Padula
às
15:59
3
comentários
Marcadores: Férias, Inutilidades

