Primeiramente, bom dizer que eu só fui num dos dias, o dia legal, aquele que não tinha o Muse (todo dia que não tem o Muse é legal, hoje mesmo eu não ouvi nenhuma vez, foi um ótimo dia). Eu estou meio velho pra esse negócio de festivais (mas ainda não velho o bastante pra aprender), e como a edição desse ano aconteceu no autódromo de Interlagos, também conhecido como puta que pariu que lugar longe dos infernos, foi possível ver as marcas dos pneus da vida manchando meu corpo atropelado e cansado.
Eita.
Pra começar que eu já cheguei lá morrendo. Meio dia, puta solão, supostamente 6 minutos de caminhada entre a estação de trem e o portão de acesso (levei 20, quase voltei pra casa na metade). Assisti pela primeira vez o show do Apanhador Só e foi bem bom, grande banda, boas canções, planeja demais, calcula demais, e nada demais. Pra terem uma ideia, até dei uma grana no Catarse pra bancar o último álbum deles, mas vocês não vão encontrar meu nome nos agradecimentos. Só o de um tal de Thiago Padilha, minha nêmesis. Tem uma música deles cujo refrão tem a frase "decido respeitar a minha dor", o que não tem nenhuma importância para esse parágrafo mas vocês precisam guardar porque eu vou usar em uma piada daqui a pouco.
Ao fim do show, fui caminhar até o palco mais próximo e descobri que, novamente, ou essas medidas de distância e tempo estão equivocadas ou alguém me colocou no slow motion, porque a suposta distância de 300 metros entre eles eu levei 15 minutos pra percorrer e fiquei fora do tempo de qualificação (o que não tem problema porque minha equipe é apenas um esquema de lavagem de dinheiro). Aliás, tudo subida e descida naquele raio de lugar, você vê a corrida pela TV e parece tudo tão plano. Mas, enfim, cheguei no palco seguinte, onde iria rolar o show do Raimundos, mas estava tão cansado e tão suando e tão fedendo e aquele sol de pelamordedeus que decidi respeitar a minha dor (obrigado pela paciência) e fui me encostar nuns dois palmos de sombra, quase sentando em cima de um belo monte de bosta que, honestamente, não quero nem saber como foi parar ali.
Mesmo assim deu tempo de descansar e ver o Raimundos e, talvez por não ser exatamente a minha banda de Brasília da primeira metade dos anos 90 com letras engraçadinhas favorita, não achei de todo mau. Teve Puteiro em João Pessoa, teve Esporrei na Manivela, teve, é claro, Eu Quero Ver o Oco. Não foi ótimo, mas também não foi terrível.
Andei mais um bocado (gente, sério, que tipo de monstro projetou essa distância entre os palcos?) pra ver o Johnny Marr, e embora os Smiths não sejam exatamente minha banda de Manchester dos anos 80 com vocalista vegetariano favorita, foi uma beleza de show. As pessoas estavam empolgadas, o som estava bom, e é bacana ver um ótimo guitarrista tocando ao vivo. Aí teve esse diálogo estranho entre dois caras do meu lado, em que um deles, pra puxar conversa, diz pro outro que viu o show do Morrissey, no que seu companheiro responde "O MORRISSEY É UM DROGADO SAFADO!" e se volta para o palco, continuando sua dancinha. Oxe.
Aí segue o jogo, muito calor, muita gente, Pepsi (oh, deus), aquela banda sem graça com nome de vampiro e vamos ver o Pixies, porque agora sim uma banda de verdade, uma instituição do rock 'n' roll, essa sim exatamente a minha banda norte-americana surgida nos anos 80 com álbum produzido pelo Steve Albini sem contar o Nirvana favorita! Ah, Frank Black, derrama sobre mim esses hits maravilhosos, Debaser, Wave of Mutilation, Gigantic, Velouria!
"Nop", disse Charles. "Não vou tocar nada disso. E Gigantic, sério? A mulher nem tá na banda mais. Mas olha só essas músicas novas aqui ó". Eu não gosto dessas músicas, senhor Black. "Foda-se. E quer saber? Vou pegar então o violão e tocar o resto do show com ele, como se eu fosse o Jack Johnson. Me processa".
Poxa :(
Chateado com essa apresentação - apesar de aparentemente eu ter sido o único no mundo a achá-la um porre - pulei o Soundgarden (obrigado pelos palcos tão distantes, gente, valeu mesmo) e permaneci lá pra guardar meu lugarzinho pro Arcade Fire. "Por que não o New Order?", pergunta o leitor ligado no encavalamento de horários do festival. Ora, porque não. Eu gosto do New Order, mas obviamente nesse festival bizarro isso não significa muita coisa. Então esperei o Arcade Fire e um monstro horroroso feito de espelhos parou do meu lado e ficou dublando na frente do microfone e apresentou a banda e eles entraram e eles tocaram esse disco novo chato mas também tocaram aquelas mais velhas tipo Rebellion e Power Out e The Suburbs e No Cars Go e, pra derreter os nossos corações na chapa, Wake Up. Que grande show, que lindo show, puta merda.
Fui embora caminhando sozinho entre milhares de corações quentinhos até o trem e do trem pro metrô e do metrô pra casa, feliz da vida com esse show do Arcade Fire, e mais feliz de saber que os reencontrarei mês que vem. Meu corpo dói todo, minha pele tá toda vermelha e queimada, mas valeu, foi bom.
E melhor ainda porque não teve o Muse.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Eu estive no Lollapalooza esse ano e
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Thiago Padula
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segunda-feira, 31 de março de 2014
Essa história
Acordou lá pelas 8, o que era bem tarde (não que ele tivesse algo pra fazer). Abriu a porta, olhou a paisagem se achatando quilômetros abaixo dos seus pés. Era bom estar tão alto. Foi até o esqueleto da baleia, se apoiou numa vértebra e tirou mais um cochilinho. A história de como essa baleia foi parar no topo de uma montanha isolada de quatro mil metros de altitude é muito boa, mas essa história não é sobre isso.
Acabou cochilando mais do que os 15 minutos planejados, até que a sombra do osso saiu de cima dele e entre seu rosto e o sol não havia mais nada visível a olho nu. Acordou assustado, puxou ar bem forte, mas o ar não vem tão fácil quando se está tão alto. Ele ainda não tinha se acostumado. Voltou pra dentro de casa, acendeu o fogo e deixou a água fervendo. Já não chovia tinha algum tempo, e descer pra buscar mais água envolve uma expedição de alguns dias e sério risco de morte, de modo que ele tentava postergar isso o máximo que pudesse, principalmente depois da última vez. Mas deixa a última vez pra lá, vamos nos ater a essa história.
Sentado na mesa, segurou a foto dela e ficou olhando enquanto tomava café. Era a mesma coisa todo dia. A foto já estava desgastada, os cantos rasgados, um buraquinho de cigarro na parte de baixo. Mas ela continuava linda. Suspirou e se arrependeu, como todo dia, como toda hora desde que chegou ao cume daquela montanha. Mas não dá pra voltar no tempo, e ela não estava mais lá. Continuava se lembrando daquele último momento, de como ele deveria ter esticado o braço para ela ao invés de se segurar na árvore. Mas isso é o passado, e não é do passado que essa história se trata.
Essa história é uma merda.
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Thiago Padula
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sábado, 22 de março de 2014
Ao contrário do Bruno de Luca, eu não tenho um programa de viagem
Dois meses atrás, num acesso de coragem e desapego pelo dinheiro e pelas obrigações, comprei ingressos para três dias de um festival em Barcelona no fim de maio. Comprei os ingressos, comprei as passagens, reservei o hotel e molhei o carpete do escritório com minhas lágrimas num emocionante pedido de uma semaninha de folga para o meu chefe (que gentilmente liberou, o que me deixa em débito com eles e pode se voltar contra mim, quando por exemplo me pedirem um dia pra fazer as minhas tarefas ao invés de ficar vendo os posts antigos do AjudaLuciano). Estou com tudo pronto, então, para molhar meus pezinhos no Mar Mediterrâneo uma quinzena antes de começar a Copa - ou seja, dá tempo de vir pintar as calçadas de verde e amarelo, o que eu não perderia por nada.
...Só que, né, também não estou tão pronto assim. Depois desse pulsar de determinação e foco nos objetivos, eu voltei a ser eu mesmo e não fiz mais nada. Não comprei euros, não aprendi espanhol nem catalão (apesar de que esse se parece com português dito por alguém com a boca anestesiada), não planejei meus passeios pela cidade, nem liguei ainda na Decolar.com pra perguntar qual foi a mudança no horário do meu voo que eles anunciaram um tempão atrás. Pior, nesse meio tempo ainda inventaram uma iminente guerra no leste europeu e um avião desapareceu sob a suspeita de sequestro terrorista, o que não é um fato que favoreça minha pele marrom, minha barba negra e minhas profundas olheiras. Além disso, pra passar uma semana lá eu precisarei deixar meu coração em São Paulo. Não que eu vá sentir falta desse inferno, é que o Jesus and Mary Chain toca de graça aqui bem no fim de semana em que eu aterrisso lá. E vai que eu fico tão tocado com essa partida que resolvo desembarcar lá cantando "I wanna die just like Jesus Christ", isso não há de me ajudar muito.
Mas, mesmo assim, estou empolgado. E há de ser uma boa experiência para esse blog, ser escrito em outro hemisfério, outro continente, ¡otro idiuema! (preciso treinar um pouco ainda). E, se não quiserem me deixar entrar por acharem que eu sou terrorista, que essa próxima frase seja um atestado da minha inocência: senhores agentes da imigração espanhola, saibam que tenho tanto medo de bombas que só explodiria uma se não tivesse que viver pra ver o resultado depois.
Acho que agora eu tô garantido.
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Thiago Padula
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Dodói
Se tem uma coisa que eu gosto a meu respeito (disse "se", não é certeza que eu goste de algo) é que, apesar do meu físico frágil, do meu psicológico tênue e do meu histórico de patologias na infância, hoje em dia é bem difícil eu ficar doente, sabe-se lá por que milagre. E considerando também a minha alimentação (nenhuma) e atividades físicas (nenhuma), posso dizer que sou, eu mesmo, uma afronta à indústria farmacêutica.
Explico: não é que eu e a dona indústria tenhamos grandes conflitos não resolvidos (na verdade, tenho que agradecê-la pela ridícula melhora da minha rinite), é só que, na medida do possível, eu me recuso a tomar remédio. Hoje, e desde alguns dias, estou com uma leve gripinha, nada muito grave. E não, não tomarei remédio por causa disso. Poxa merda, pra que eu vou ficar mimando meu sistema imunológico com presentes e Attack +10 se isso certamente vai criar pra mim lá na frente um grande problema? Na hora que a coisa apertar, se não houver remédio, se o remédio não der conta, como eu espero que meus soldados vão enfrentar o perigo sem o auxílio do dopping? De que adianta ter uma equipe de Lance Armstrongs se na hora do aperto eles precisam de bicicletas com rodinhas pra correr?
Então não, não tomo. Se puder evitar, tô fora. Assim, meu corpo fica forte (por dentro, por fora eu ainda preciso inventar pra moça do trabalho que eu desloquei o pulso e por isso não posso levar o galão de água da cozinha lá pra sala) e eu só fico doente a cada volta completa de Urano ao redor do Sol.
Isso tem alguma base científica? Não, nenhuma (até porque desde que eu nasci Urano não chegou nem perto de completar a volta). Eu recomendo para as outras pessoas? Não, não venha dizer que a culpa é minha. Mas estou bem, estou vivo, estou quase sempre gozando de perfeita saúde, apesar de contrariar todos os bons conselhos da medicina e da minha mãe (em ordem crescente de sabedoria). Então vocês avaliem aí se esse negócio de ficar engolindo remédio para cada dor no cílio é mesmo uma boa estratégia (mas qualquer que seja a conclusão, não me responsabilizem).
Claro que eu tenho só 29 anos e que muita coisa ainda pode acontecer e que, se todos esses milênios de avanços científicos serviram pra alguma coisa, tudo isso vai cobrar seu preço lá na frente e um belo dia eu estarei andando na rua e de repente meu olho vai cair, meu pé vai virar ao contrário e minha cabeça vai ficar do lado da minha virilha. Mas até lá: chupa Pfizer, chupa Novartis, chupa Aché.
Aí acontece igual no Jardineiro Fiel e eles me matam.
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Thiago Padula
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terça-feira, 11 de março de 2014
Professor Futebol
Quem gosta de futebol ou pelo menos acompanha os noticiários sabe que nas últimas semanas apareceram alguns casos de racismo, em jogos na América do Sul e mesmo dentro do Brasil (na Europa tem todo dia, nem é notícia mais). Também começou-se uma discussão tímida sobre homofobia após os gritos da torcida corintiana direcionados aos são paulinos (que não é um tratamento exclusivo dos alvinegros paulistanos, diga-se) e vez ou outra uma árbitra ou auxiliar mulher comete algum erro e o machismo vem abaixo.
Os argumentos que relevam ou defendem os fatos baseiam-se naquela história de que foi sempre assim, futebol é isso mesmo, pra provocar o rival vale tudo e tal. E a provocação é o combustível do jogo, concordo: futebol sem zoeira é igual esporte olímpico. Mas acho que pra um esporte que goza de tanto prestígio, influência, importância e adoração popular, passou da hora de deixar de ser apenas esse microcosmo de isolamento moral onde certas coisas são permitidas desde que dentro daquele contexto. Tá na hora do futebol ser exemplo.
Ora porra, vejamos: muito dinheiro é investido no futebol, seja privado, seja público (no último caso é o seu próprio dinheiro, no primeiro caso é de olho no seu próprio dinheiro). Atletas e parasitas associados ganham muita grana, fama, poder, admiração. São parte essencial do movimento popular cotidiano e alvo da dedicação de todo tipo de gente, esses idiotas apaixonados por um esporte babaca que somos nós. E só o que o futebol dá de volta é "entretenimento"? É só esse cirquinho? Tirando ações filantrópicas de atletas mais abonados (muitas vezes mais pelo evento que pela causa) e aquela velha dinâmica do menino-que-poderia-estar-roubando-mas-se-encontrou-no-esporte, o que diabo o futebol realmente entrega pra sociedade que dá a ele sua alma?
Bosta nenhuma, eu digo. E chega dessa porra. É pouco, é nada. Uma máquina dessa proporção, com braços desse tamanho, tem que fazer muito mais. O potencial do futebol para melhorar a sociedade ao seu redor é imensa. Mas ao invés de cobrarmos dele exemplos, entregamos (ao jogo e a nós mesmos, torcedores circulando o gramado) apenas privilégios, o direito de xingar o outro de macaco, de viado, de vagabunda, o direito de chamar o outro de favelado como se isso fosse ofensa, o direito de sentar o dedo no cara da camisa de outra cor sem precisar responder por isso. O futebol deveria ser um instrumento para explicar pra um mundo cada vez mais atrasado e pra essas crianças que veem os seus Batmans no gramado de meião e chuteira que provocar é uma coisa, tirar sarro é uma coisa, ser intolerante com a condição alheia é outra.
E não é só porque eu tenho horror a esse humor de estereótipo, e também não é que eu seja o torcedor de comportamento ideal (e há exemplos - 1, 2 - no blog), o caso é que o futebol é uma delícia e é ótimo como expurgador de demônios. Só que ao invés desses demônios morrerem, eles vão se aconchegando nos espaços vazios da arquibancada e trazendo o pior de cada um de nós à tona. E, meu amigo, se a sociedade já é feia quando finge ser civilizada, imagina quando se deixa levar. Talvez haja um dever social muito maior aqui do que o próprio jogo, e já é mais que hora de fazê-lo prevalecer, sendo você um torcedor, um jogador, um cartola, um profissional da imprensa.
E se há quem diga que isso deixa o futebol chato, eu rebato: se você acha chato um jogo como esse Corinthians x São Paulo do último domingo só porque não pode expressar seus preconceitos em voz alta, seu problema não é com o futebol. Acorda.
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Thiago Padula
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
O tubarão vermelho
- Vejam! É um tubarão!
Gritou o Carlinhos, que àquela hora estava na parte da frente da caixa de papelão embarcação, ao avistar o baldinho vermelho virado de com a boca pra baixo.
- Um tubarão vermelho!
A angústia tomou conta da tripulação. Qualquer um com menos de sete anos sabe que os tubarões vermelhos são os piores, verdadeiros monstros do mar preparados para virar barcos e devorar navegantes.
- Só há uma coisa a fazer! - pronunciou com voz empostada o Douglas, que era sabidamente a referência intelectual no barco - Devemos oferecer uma virgem em sacrifício!
Carlinhos e Maria se entreolharam, confusos. Que diacho é uma virgem?
- Que diacho é uma virgem?
- Ora, uma virgem, uma virgem é... isso! - e Douglas demonstrou a salvação para seus problemas, com pompa e magnificência.
- Isso é uma folha de árvore - disse Maria, cética como não deveria ser com essa idade. Ela deveria estar alimentando sonhos, gritando loucuras, achando que tudo vai ficar melhor, até que a vida encontrasse a idade mais adequada pra dizê-la que não, tsc tsc, sem chance. Talvez a vida já tenha feito isso, no ano passado, quando seus pais se divorciaram.
- Uma folha de árvore é uma folha na árvore - pronunciou Douglas, sempre pomposamente, tendo o cuidado com as palavras que prenuncia um novo Allen Ginsberg, ou quem sabe só uma pessoa muito chata - Uma folha sem árvore é uma virgem, como todos deveriam saber.
Eles ficaram quietos por um segundo, porque talvez todos devessem saber mesmo. Como puderam ser tão descuidados de sair para enfrentar os faniquitos do alto-mar sem nem estudar primeiro?
- Bom, então a gente joga isso pro tubarão, certo? - fez Carlinhos, o prático.
- Bem... sim, é, isso - Douglas não conseguiu inventar nada mais interessante em cima da hora.
- Então me dá aqui.
Carlinhos tomou a folha virgem em sua mão, mirou-a contra o horizonte e atirou-a ao mar. O vento só teve o trabalho de carregar aquilo pra outro lado, lá pra calçada.
- Puta merda, agora fudeu!
Maria gritou a plenos pulmões. Ela aprendeu esses palavrões ouvindo os pais brigarem, mas não tinha permissão pra dizê-los. Bem, mas agora sua vida estava por um fio, então qual o problema? Ela teria acendido um cigarro ali, se tivesse um cigarro. E um isqueiro. Mas era o alto-mar, não tinha nada disso, só desolação e os três e o tubarão vermelho.
- O que a gente faz agora, Douglas? - Carlinhos perguntava legitimamente apavorado e segurava o amigo pelos ombros.
- Temos que remar o mais rápido que pudermos!
Agora, deixe-me dizer que é claro que esses meninos não tinham um domínio tão completo da língua portuguesa. Afinal de contas, eram apenas lobos do mar, mais acostumados ao grasnar das gaivotas que ao raspar das páginas dos livros virando. Mas você pode imaginar uns "sic" aqui e acolá.
Pegaram seus remos, meteram-nos na grama água e puseram-se a navegar para tão longe quanto possível. Infelizmente crianças são burras e, com um remando de um lado e dois de outro, o barco perdeu equilíbrio e - oh, não! - virou.
VIROU!
Fez splash! na água e teriam gritado "homem ao mar" se não fossem eles mesmos os homens. Ali estava o tubarão, e ali estava seu destino. Maria gritou "caralhoooo!" (ela nunca se sentiu tão livre, a vida é mesmo uma prisão), Douglas olhou para Carlinhos e tascou-lhe um beijo na boca. Carlinhos meio que gostou. A sociedade é uma prisão. Estavam eles no mar, lá vinha o tubarão, tam-tam-tam-tam-tam-tam. E eles sabiam que tinham chegado ao fim porque ouviram o chamado do além, e ficaram surpresos porque descobriram que deus era uma mulher e reclamava que eles estavam sujando suas roupas. "Alguém precisa reescrever os 10 mandamentos", pensou Carlinhos, mas já era tarde demais. Era hora de ir pra casa.
- Bucetaaaaa!
Maria estava se divertindo com esse negócio de morrer.
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Thiago Padula
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
As brigas que eu perdi
Na quinta série eu fui pra manhã, não me lembro por quê. Mas lembro por que voltei para a tarde, no começo do segundo semestre: o meu relógio biológico decidiu que 9 da manhã não era hora de estudar, era hora de mandar um barro. E isso numa fase da vida em que você precisa de autorização pra ir ao banheiro não é a melhor combinação.
O campeonato de futebol interclasses era o maior evento da escola, e naquele ano ele seria grande e brutal: entre a quinta série e o primeiro colegial, todo mundo era adversário. O time da minha sala matinal era bom, pra uma quinta série, e eu era o goleiro. Às vésperas do campeonato começar vieram me dizer que eu seria reserva, porque o Felipe ia ser o titular. O Felipe era da panela e eu não (não que eu não tenha tentado me enturmar: virei goleiro só pra ser aceito, queria mesmo era jogar na linha), e aquilo me deixou meio cabreiro porque eu era muito melhor do que ele. E quando eu mudei pra tarde, todo mundo teve certeza que eu tive um ataque de estrelismo, que não aceitei a reserva. Claro que eu preferi confirmar essa versão.
No primeiro dia à tarde, ainda que eu conhecesse quase todo mundo, as coisas mudaram. Mudou a organização social, mudaram os pelos faciais, mudaram as vozes. Fiquei seis meses fora e não pertencia mais àquele lugar. Tanto que no recreio eu fiquei no canto do pátio comendo Foffy's (lembra?) com o Fernando, que era um cara da sexta série que tinha paralisia e não era muito aceito pelas outras crianças da ilha do Senhor das Moscas.
À época das inscrições para o campeonato tinha gente suficiente na minha sala para duas equipes. Sendo a escola um regime de castas, ia ter um time com os melhores e outro com o resto. Como eu era novo, fiquei no time B, junto com os gordos e os gêmeos. O time A já tinha um goleiro, outro Felipe, e esse era meu amigo desde a primeira série e jogava muito melhor do que eu. Como eu nunca gostei desses filmes infantis em que o bando de pernas de pau (que tem o gordo, o japonês, o nerd e a menina, no nosso só faltava a menina) vira um fenômeno do esporte, tentei cavar um lugar no time principal, e consegui depois de mostrar meus talentos futebolísticos em um contra. E, dessa vez, eu ia jogar onde eu queria: na linha.
Caímos no grupo da morte, com a 7ªB, a 8ªA e o primeiro colegial. No primeiro jogo, contra a sétima, muito estudo, muita tática, um a zero pra gente, UM A ZERO PRA GENTE! É possível, vamos lá, vamos... levar uma lavada. 19x1.
O time B da sala estreou, justamente contra a quinta série da manhã, aquela que me desdenhou pelo frangueiro. Foi um massacre. 26x2 pro time da manhã, e eu só pensava que eu não teria tomado aqueles dois gols. O time B nunca mais voltou a quadra depois daquilo, perdendo os dois próximos jogos por W.O.
Mas nós persistimos, e no próximo jogo, contra os metaleiros maconheiros do primeiro colegial, tivemos uma tremenda evolução: perdemos por apenas 17x2. A partir desse momento, nossa briga não era pela classificação, nossa briga não era contra as outras turmas: éramos nós e o outro time da sala, fugindo da honra de ser o pior time do torneio.
Como eles desistiram dos outros jogos, acabaram jogando delicadamente em nossas costas o fardo de ser a defesa mais vazada do torneio. Fomos para o terceiro jogo, contra a 8ªA, e não foi fácil. Eu era muito pequeno, mesmo pra minha idade, e garotos de 14 anos são infinitamente maiores que os de 11. Num lance em que eu estava no gol (no desespero, posições mudam porque vai que um milagre acontece desse jeito) trombei com um desses seres humanos infinitamente maiores e fiquei com uma cicatriz no cotovelo que carrego até hoje. Em outro, levei uma bolada nas costas que o professor teve que paralisar o jogo pra ter certeza de que eu não ia morrer. Acabou a partida e ninguém nem sabia o placar, tamanha a surra, e o professor precisou ficar contando na ficha. Quando ele anunciou, 25x3, eu comemorei. Todos riram, acharam que a bolada nas costas tinha mexido com a minha cabeça, mas a verdade é que, pra mim, foi uma vitória: no único campeonato que nos importava, quem levou a maior goleada não foi a gente. Chupa, time B.
O campeonato seguiu, nós não, e o time da 8ªA sagrou-se campeão, com o da 7ªB em segundo lugar. No ano seguinte, num surto de lucidez, o professor dividiu em dois campeonatos, um para as quintas e sextas séries, outro para a sétima em diante. Dessa vez, chegamos à final, e perdemos por pouco (graças a um frango meu, vejam a ironia). Mas esse parágrafo não importa.
Importa que essa campanha trágica de humilhações e falta de ar ensinou-me, ainda aos 11 anos, uma das mais valiosas lições sobre a vida: o importante é que tem alguém se fudendo mais que você. E, se isso nunca me empurrou à beira do precipício para testar meus limites e evoluir à base de superação, também me permite estar muito mais à vontade com as circunstâncias da vida (na maior parte do tempo, pelo menos). Eu nunca vou ficar chorando no canto porque não escrevo como o Gabriel García Márquez e ainda vou ter um leve regozijo toda vez que ler alguém terminar uma frase com dez pontos de exclamação ou escrever "concertesa". Pequenas vitórias, é isso.
Mas não sigam meus conselhos, sonhem alto. É que toda vez que eu tento fazer isso vejo a cicatriz no cotovelo, e minha resistência à dor é meio baixa, sabe.
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Thiago Padula
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