É engraçado que eu já devo ter dito em algum momento aqui que não gosto de aniversários (porque eu sou o bad boy que mija nas convenções sociais e toda aquela besteira), mas todo ano faço um post no meu nascimento-dia pra falar sobre a nova idade, e normalmente relacionar com alguma daquelas piadinhas de mau gosto pelas quais esse blog é tão conhecido. E o pior é que eu acho que eu gosto sim desse troço. É um dia em que as pessoas são legais com você e se esforçam bem mais pra fingir que se importam. É só uma vez por ano, mas cada um tem o que merece.
E desta vez, dois mil e treze, chego aos meus 28 anos de bosta. Então eu fiquei pensando numa maneira de relacionar essa idade com um assunto qualquer, como eu fiz quando enfrentei meu pai (e perdi) num duelo aos 25 e quando eu desejei morrer e virar uma lenda aos 27, mas nada vinha. Até que plim!, não só apareceu o assunto como também um vórtice de desgraça e desespero que me lembrou do seguinte fato: faz 10 anos que eu sou maior de idade.
Mas 10 anos é uma data redonda, eu deveria comemorar! Deveria pegar meu carro, sair por aí a milhão, pichar o muro da Febem, alugar uns filmes pornô e essas coisas que a gente acha que são legais porque os adultos podem fazer. Mas a verdade é que eu não tenho nem gosto de carro, tenho alergia a spray e ontem mesmo estava comemorando quando anunciaram um Pokémon novo.
("Ah, não, esse é um daqueles posts que você vai passar reclamando das coisas que não fez?". Não. Esse é UM BLOG INTEIRO em que eu fico reclamando das coisas que não fiz)
O problema é que existe um grande terreno baldio chamado "coisas que você pode fazer" logo depois da cerquinha vermelha com os dizeres "só para maiores de 18 anos", e existe uma série de coisas que você quer fazer de fato. Saber preencher esse terreno com essas coisas deve ser o que significa ser adulto. Não é pra mim, me perdoem, eu abro mão. Fiquei pra trás mesmo, com meus bonequinhos, video games portáteis e quadrinhos autobiográficos.
É meio solitário do lado de cá, mas pelo menos existe pornografia na internet. Senão eu ia ter que invadir a propriedade alheia umas cinco vezes por semana. Digo, mês.
Ano?
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Revisitando a maioridade
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Thiago Padula
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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
O herói
Aquele mundo não era privilegiado de três dimensões como esse que você conhece, nem cheio de cores. Para usar uma referência, ele era como um papel cartão preto (porque um mundo precisa de um suporte um pouco mais firme), e tudo era preto em cima dele. E não havia sol. E quando a lua aparecia e estava cheia (ela sempre estava cheia, pois se não havia sol, o mundo não fazia sombra), dava para ver os recortes esbranquiçados dos seres, dos objetos, das coisas. Quando a lua se ia, e seu brilho fraco ia alumiar o lado de trás do papel cartão, tudo voltava à escuridão habitual.
Eis então nosso herói. Ele era preto, pequeno, tinha capa e espada. Ele era valente, ah, se era. Com sua espada negra, ele cortou pescoços de dragões, pescoços de hidras, pescoços de zumbis, pescoços de generais corruptos e de crianças que não obedeciam aos pais. E ele sempre enfrentava seus ferozes adversários em frente à imensidão circular da lua; não só porque era um jeito de enxergar melhor o alvo, mas também porque era bonito pacas.
Porém, lamentam os anais, nosso herói nunca recebeu o reconhecimento que merecia. O motivo, o leitor há de ter adivinhado, é que não era possível reconhecer ninguém naquela pretidão absoluta. Mas nosso herói não era assim o exemplo de modéstia que se manifesta nos arquétipos mais comuns dos virtuosos salvadores: ele precisava da fama, dos louros, da bajulação. Teve então uma ideia: sempre que tivesse uma vitória decisiva sobre algum inimigo e pusesse fim a mais uma ameaça à soberania da paz, sairia pelo restante da noite assobiando uma canção, um hino que ele mesmo inventara. Deste modo, sempre que o povo ouvisse aquela melodia, saberia que por lá passava o herói.
Triste é o destino, entretanto. Ao invés de reconhecer na canção o arauto que anunciava a passagem do herói, os habitantes daquele mundo apaixonaram-se de tal modo pela peça que passaram também a cantá-la pelas ruas, nas casas, sob as janelas das amantes e junto aos ombros dos ébrios companheiros de madrugada. O hino tornara-se uma febre popular.
Nosso herói não poderia ter ficado mais insatisfeito. Tentou mudar a canção, mas ninguém ligava; tentou destacar-se com onomatopeias, urros e trejeitos vocálicos característicos. Ninguém dava a mínima. Todos só se interessavam por aquela música, aquela pequena joia de três minutos (que historiadores recentes dizem ser curiosamente semelhante a My Girl). Nosso herói, desiludido, abandonado pela chama do desejo, resolveu fazer-se notar de maneira definitiva: em combate contra um dragão de duas cabeças que surgira nos arredores, ele entregar-se-ia à morte. Sem sua corajosa espada, a população estaria jogada à sorte contra os caprichos das forças bestiais do mal. E então, somente então, lembrariam-se daquele herói, de baixa estatura, de capa e espada, que tanto fez por eles.
Mas quando já estava entre as mandíbulas de uma das cabeças do terrível dragão, nosso herói finalmente apercebeu-se: seu verdadeiro legado era aquela música. Ninguém interessava-se por viver em um mundo sem luz, mas a canção deu ao povo alegria, encheu os homens de coragem e as mulheres de paixão, coloriu o som do mundo que não tinha cor. E eles sabiam, sim, sabiam quem havia começado tudo aquilo, a presença oculta que assobiava a bela melodia entre toda a gente. Ele teve, sim, o reconhecimento que gostaria.
Mas aí já era meio tarde, e ploft.
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Thiago Padula
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terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Porrada!
Vou lhe ser sincero, não quero mais lhe enganar: eu odeio MMA. Simplesmente porque eu não gosto de ver duas pessoas se espancando até que uma escorregue no próprio sangue e rache a cabeça no chão. E, tipo, nem tem Hadouken, nem Fatality, nem nada. Mas sacomé, cada um é cada um, tem quem goste, parabéns pra eles, mas eu tenho coisas melhores pra fazer numa noite de sábado, se é que vocês me entendem.
(Se vocês pensaram em "assistir um temporada inteira de Friends de uma vez só", vocês me entendem).
Me preocupa, entretanto, esse gosto que a gente parece ter por ver duas pessoas caindo na porrada. Eu também não gosto de boxe, judô, karatê, tudessas merda, mas você poderá argumentar que são competições travadas por pessoas preparadas e que sabem dos riscos que estão correndo ali. Ok, muito bem, concordo. Mas o MMA é a glamourização da coisa toda, é o prazer pelo espancamento levado ao Olimpo da sociedade de consumo e da informação; é uma amplificação, com glitter e canhões de luz, dessa coisa menor, mais simples e mais interioriorizada, que é a vontade que a gente tem de ver pessoas se pegando de porrada.
Eu trabalhei no centro de São Paulo por uns sete meses esse ano, e lá pessoas saem na mão dia sim, dia não. Isso faz inclusive parte do folclore da região, também conhecido como O Lugar Mais Legal Do Mundo. Mas o que me chamava a atenção era como as pessoas ao redor da confusão se divertiam: os olhos brilhavam, os sorrisos iam de orelha-a-orelha; era uma felicidade genuína. E eu não vou dizer que não era legal, porque eu acho curioso quando duas pessoas chegam ao consenso de que a melhor forma de resolver o problema que eles tem - qualquer que seja, desde um que esbarrou no outro sem querer até o cara que tacou uma pedra na mãe de alguém - é ficar se chacoalhando no meio da rua. Essas brigas de rua tendem a ser bem ridículas, aliás, o que acrescenta o fator Pastelão à diversão.
Não estou nem fazendo uma ligação aqui, do tipo "as pessoas veem essas brigas na TV e querem sair fazendo isso na rua", porque seria uma conclusão muito simplista e claramente pretensiosa demais, já que eu não posso provar isso. Eu só acho que essa coisa de se divertir com o derramamento de sangue alheio é o tipo de coisa que é comum há incontáveis séculos, e eu esperava que a humanidade já tivesse achado um jeito de superar isso. Mas até aí, com cada pensamento atrasado que eu vejo voltando à moda ultimamente, deveria é agradecer que nós ainda não estejamos oferecendo virgens em sacrifício pra aplacar a ira de algum demônio.
Bosta, não devia dar ideia.
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Thiago Padula
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domingo, 30 de dezembro de 2012
Passando a régua
Eu poderia começar dizendo que muitas coisas aconteceram em 2012. Mas um ano tem 365 dias (ou 366, nesse caso), que é tempo pra caralho, e muitas coisas acontecem mesmo.
Eu poderia depois dizer o quanto eu mudei com as experiências que tive. O que seria mentira, porque mesmo que eu tivesse mudado alguma coisa, um objeto fora de seu estado natural tende a retornar a esse estado - e vocês não tem ideia da força da gravidade que reina por aqui.
Eu poderia então continuar dizendo que conquistei e fiz muitas coisas. Mas eu só fiz mesmo meia dúzia de páginas de histórias em quadrinhos e gravei uma demo com um ano de atraso.
Eu poderia dizer que realizei meu sonho, mas eu não tenho sonho nenhum. Poderia dizer que cumpri meus objetivos, mas isso também seria mentira.
Eu poderia terminar desejando um ótimo 2013 pra todo mundo. E eu até gostaria que isso acontecesse, mas vou só desejar que o próximo ano não seja pior.
O que, cá pra nós, já tá de bom tamanho.
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Thiago Padula
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terça-feira, 25 de dezembro de 2012
O Cachorro
Ele abriu a porta e percebeu que seu olfato não estava enganado. Voltou para o interior da casa, pegou uma pá e começou a recolher a montanha de cocô que O Cachorro gentilmente deixou em frente à entrada. Não é o tipo de coisa que o incomodava mais. No começo, quando O Filho levou O Cachorro ainda filhote para lá, balbuciando entre lágrimas e soluços que A Ex não queria o bicho em casa, aceitou adotá-lo sem pensar duas vezes. Em tempos de divórcio, é bom fazer pontos com as crianças, e além disso seria interessante ter outro organismo respirando na mesma casa e que pudesse atender pelo nome. Depois, quando O Cachorro começou a crescer demais, e finalmente ficou do tamanho de dois andares, Ele também não ligou muito. E quando precisava diariamente recolher a pilha de esterco que se acumulava sobre o seu capacho que tempos atrás dizia "Bem-vindo", também não recriminava o animal. Foi sua culpa não tê-lo ensinado o lugar certo de cagar, o que é um erro comum de donos de primeira viagem, embora poucos destes possam dizer que tiveram que cuidar de um vira-latas de seis metros de altura.
Quando o azulado do céu pendia mais para o negro que pro amarelo e Ela tocou a campainha, já não havia mais cocô nem resquício do seu cheiro. O Cachorro estava preso nos fundos, a casa estava belamente iluminada por luzes de velas, e o ar era preenchido apenas pelo aroma da comida sobre a mesa e o desconforto instigante que nasce do atrito entre as expectativas dos casais no primeiro encontro. Ela estava linda, e Ele já havia readquirido o jeito depois dos últimos encontros fracassados. Após jantarem e conversarem fluidamente, a campainha tocou mais uma vez.
O Vizinho estava furioso. A dicção ébria por trás do tráfego congestionado de cuspes e o bigode que cobria a boca tornavam impossível entender o que ele dizia, mas o tom de voz era familiar e já explicava tudo: O Cachorro escapou e fez bagunça no seu quintal. Sem graça, Ele pediu licença à encontrante e saiu para procurar seu pulguento.
Encontrou-o ainda na esquina, brincando com uma pilha de sacos de lixo. Notou, entre seus dentes, uma forma esférica e dourada, que refletia as luzes do poste. Ao pegá-la, viu que era oca, e que havia dentro um pedaço de tecido amarelado com o desenho de um mapa estilizado e uma marcação em X no que parecia ser a Colômbia ou a Venezuela.
Um tesouro escondido nos escombros de alguma desconhecida civilização pré-colombiana. Construções antigas acessíveis apenas por passagens na rocha sob os lagos azuis e limpos, mantidas em segredo durante tantos séculos. Fantasmas ancestrais, armadilhas ainda ativas, respostas para perguntas que a humanidade já desistiu de solucionar, locais jamais tocados por nenhum homem, o Eldorado, Atlântida ou qualquer outra cidade tão secreta que nem as lendas conheciam.
Ele arrumou o lixo, puxou O Cachorro pela coleira, pediu desculpas ao Vizinho, prendeu O Cachorro nos fundos - não sem antes verificar o travamento da corrente -, voltou à mesa, pediu desculpas a Ela e continuou sua história sobre como A Ex fugiu para a casa da Sogra durante duas semanas e prometeu voltar apenas se ele nunca mais conversasse com A Mocinha do RH, nem mesmo no trabalho.
Ele só queria uma vida normal.
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Thiago Padula
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domingo, 23 de dezembro de 2012
O mundo não acabou
- O mundo não acabou.
Quando o Rafa finalmente disse isso em voz alta, já haviam se passado cinco minutos, e todos já tinham percebido o que ocorrera - ou, pra ser mais exato, o que não ocorrera. O céu continuava lá em cima, a terra continuava embaixo, as pessoas continuavam suas vidas normalmente.
- Que caralho aconteceu?
A revolta da Rebeca - que nunca dizia um palavrão - era justificada. Ela passou as últimas 24 horas transando praticamente sem intervalos. Primeiro com o namorado, Marcos, depois com o Darlan, depois com o Rafa, depois com a Ana. Nem era exatamente o que ela queria, mas "o mundo vai acabar amanhã!", todos repetiam, e parecia um desperdício inacreditável não passar as últimas horas na Terra numa orgia com os seus melhores amigos, o tipo de coisa que ela jamais faria se houvesse amanhã.
O Marcos, diga-se, não era a favor da ideia. Ele queria ficar só com a Rebeca, mas aqueles filhos da puta ficaram forçando - e ele só não quebrou a cara do Darlan porque havia outras coisas a fazer e pouco tempo, e como a própria Rebeca não foi muito contra ele decidiu não lutar por uma causa perdida. Então saiu do apartamento, mochila nas costas e lágrimas na cara, e resolveu distribuir o amor que ele tinha guardado para a ruivinha fajuta. Abraçou desconhecidos, conversou com velhinhos, comprou cigarros para os mendigos, até tocou a escaleta toda babada da menina que performava Belchior com o pai. Poucas horas depois, foi atropelado por um Civic preto guiado por um rapaz que resolveu aproveitar antes que a nova Lei Seca entrasse em vigor, e perdeu mais sangue do que podia ainda na sarjeta da Líbero Badaró.
Ninguém ia muito com a cara do Darlan, mas o poder de influência que ele tinha sobre o grupo era incontestável. Às vezes ríspido, às vezes racional ao extremo, não era o melhor amigo de ninguém ali, mas mesmo assim o grupo jamais funcionaria sem ele. Portanto não era de se estranhar que tenha partido dele a ideia de reunir todo mundo no seu apartamento para que passassem as últimas 24 horas juntos: os grandes amigos, unidos até que o mundo acabasse. O trabalho começou bem antes, na verdade, desde o ano passado, quando ele abusou de seu poder de argumentação para convencer a todos de que o mundo realmente acabaria dia 21 de dezembro.
O Pato foi o mais difícil de convencer, pois era o mais inteligente. A bem da verdade, é provável que nunca tenha se convencido de que o mundo acabaria, e que ele só se deixou seduzir pela ideia de passar 24 horas no mesmo lugar que outras pessoas que não fossem seus pais ou seus colegas de trabalho. O caso é que Pato nunca se sentiu parte do grupo, ou parte de nada, e talvez esse tenha sido o grande trunfo do Darlan: fazê-lo sentir-se incluído, prometer maconha e álcool, e pronto: se o Pato acreditava que o mundo acabaria, a tese do líder estaria muito mais estofada.
Mas o Pato ficou lá, de canto, só chapando. Quando o Darlan sugeriu que era injusto só o Marcos poder comer a Rebeca e começou a confusão, ele ficou de fora. Quando o Marcos foi embora, só ele o abraçou. Quando todos resolveram estuprar a moça do cabelo pintado de vermelho - foi como ele viu a situação -, o Pato simplesmente saiu pela porta, desceu o elevador, pegou o ônibus e torceu para não estar drogado a ponto de não saber como voltar pra casa. Se o mundo realmente acabasse, ele morreria virgem - mas com dignidade, e isso haveria de valer algo no Juízo Final, no qual ele nem acreditava.
O que levou o Pato a achar que aquilo era uma filha da putagem organizada pelo Darlan era que havia outra moça no apartamento: a Ana. E ainda que aquela japonesa toda tatuada e com uma mancha de nascença enorme na bochecha esquerda não fosse o tipo de mulher que parasse o trânsito, se o mundo iria acabar logo, não lhe parecia justo que a esnobassem completamente. Mas a Ana nunca foi o tipo de gente que encanava demais com as coisas. Talvez por isso todos achavam que ela era a mais legal do grupo, embora sua gentebonisse fosse, assim como as tatuagens e os piercings, apenas camadas de escamas que ela vestia pra que ninguém notasse seu complexo de inferioridade, sua notória perspectiva de fracasso na vida e, claro, a mancha enorme na cara. E todas essas camadas foram obliteradas a golpes de marreta quando, depois de tanto tempo, a Rebeca simplesmente a convidou para fazer amor. E então, depois de passar mais de vinte horas observando cenas abjetas, perdendo o respeito pelos amigos e se sentindo humilhada, ela recebeu a proposta de passar as últimas horas da sua vida sendo amada pela sua melhor amiga, de um jeito que ela nunca esperou.
Rebobina.
- O mundo não acabou.
- Que caralho aconteceu?
- Calma - disse Darlan, lento -, é um processo, não acontece de uma hora pra outra.
- Não é o que você tinha dito, você disse que acabaria de uma vez, que a gente não ia nem ver.
- Calma.
- Calma porra nenhuma, vou ligar pro Marcos.
Ela ligou. Outra pessoa atendeu. Página de rosto com reticências no centro.
- E aí? - Rafa perguntou.
- É. Acabou.
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Thiago Padula
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sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Patriamada
Essa semana eu fui ao estádio ver o meu apreciado São Paulo Futebol Clube jogar, o que, ainda que eu esteja meio em débito esse ano, é algo relativamente comum. Mas algo incomum aconteceu pouco antes do jogo começar.
Caso você não esteja ligado nos detalhes da bateção de bola ou não seja um conterrâneo, cabe explicar que há uma lei que obriga a execução do hino nacional brasileiro em qualquer evento esportivo realizado no estado de São Paulo (pelo menos os oficiais, né, sei lá se tocam essa porra no Ceefó). Pois que nessa vez, ao dia sete de novembro de dois mil e doze, por volta das quinze para as dez da noite, no estádio Paulo Machado de Carvalho, eu cantei o hino nacional.
Tá, não tem nada de mais, mas é que eu me toquei que nunca tinha cantado ele antes de jogo. E comecei a tentar analisar o que isso poderia significar.
Pode ser porque eu estou ficando velho, e quando você envelhece tende a gostar mais da pátria, sei lá. Pode ser resultado da minha primeira viagem internacional, que, ao me afastar desse solo abençoado em que se plantando tudo dá, reconectou-me ao cordão umbilical da Mãe Gentil. Pode ser... bom, eu vou parar por aqui, porque obviamente não é nada disso.
Eu não sou uma pessoa absoluta. Não tenho opiniões, desejos e posturas que me sejam característicos. Eu sou relativo, eu dependo dos outros pra me posicionar (devo ter falado disso em alguns posts já). E tem me saltado aos olhos ultimamente (em ano de eleição rola uma amplificação do fenômeno) a proliferação desses sujeitos, ah, esses sujeitos, que pra tudo arrumam um jeito de falar mal do Brasil. É o derrotista disfarçado de indignado, o cara que acha que deveria ter nascido na Europa quando merecia ter sido parido debaixo do viaduto do Gasômetro, o camarada que não abre mão dos direitos mas finge que não viu os deveres, a pessoa pra quem não há crueldade maior do que pagar imposto (a menos que lhe roubem o iPhone, aí é bala na cabeça desses vagabundos). E eu, que só torço pelo Brasil na Copa, que voto nulo, que sei toda a discografia dos Beatles de trás pra frente mas nunca ouvi o Chega de Saudade, de repente estou cantando o hino a plenos pulmões, com a mão no peito. Só pra contrariar os pau no cu.
Pensei numa piada hilária com essa última frase, mas não vou falar, porque é mentira.
Sei lá se algum dia na vida eu vou virar um ufanista, ou, pior, virar um desses daí de cima, e passar as minhas tardes escrevendo comentários em caixa alta no site da Folha. Mas hoje a vida me levou a ser esse Ditto ao contrário, esse imbecil sem personalidade. Eu não ligo muito, e sinceramente estou orgulhoso demais pelo fato de ter colocado uma referência a Pokémon pra me importar em como terminar esse texto.
É por isso que eu nunca vou ser levado a sério como escritor ou como adulto.
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Thiago Padula
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13:00
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