domingo, 23 de dezembro de 2012

O mundo não acabou

- O mundo não acabou.

Quando o Rafa finalmente disse isso em voz alta, já haviam se passado cinco minutos, e todos já tinham percebido o que ocorrera - ou, pra ser mais exato, o que não ocorrera. O céu continuava lá em cima, a terra continuava embaixo, as pessoas continuavam suas vidas normalmente.

- Que caralho aconteceu?

A revolta da Rebeca - que nunca dizia um palavrão - era justificada. Ela passou as últimas 24 horas transando praticamente sem intervalos. Primeiro com o namorado, Marcos, depois com o Darlan, depois com o Rafa, depois com a Ana. Nem era exatamente o que ela queria, mas "o mundo vai acabar amanhã!", todos repetiam, e parecia um desperdício inacreditável não passar as últimas horas na Terra numa orgia com os seus melhores amigos, o tipo de coisa que ela jamais faria se houvesse amanhã.

O Marcos, diga-se, não era a favor da ideia. Ele queria ficar só com a Rebeca, mas aqueles filhos da puta ficaram forçando - e ele só não quebrou a cara do Darlan porque havia outras coisas a fazer e pouco tempo, e como a própria Rebeca não foi muito contra ele decidiu não lutar por uma causa perdida. Então saiu do apartamento, mochila nas costas e lágrimas na cara, e resolveu distribuir o amor que ele tinha guardado para a ruivinha fajuta. Abraçou desconhecidos, conversou com velhinhos, comprou cigarros para os mendigos, até tocou a escaleta toda babada da menina que performava Belchior com o pai. Poucas horas depois, foi atropelado por um Civic preto guiado por um rapaz que resolveu aproveitar antes que a nova Lei Seca entrasse em vigor, e perdeu mais sangue do que podia ainda na sarjeta da Líbero Badaró.

Ninguém ia muito com a cara do Darlan, mas o poder de influência que ele tinha sobre o grupo era incontestável. Às vezes ríspido, às vezes racional ao extremo, não era o melhor amigo de ninguém ali, mas mesmo assim o grupo jamais funcionaria sem ele. Portanto não era de se estranhar que tenha partido dele a ideia de reunir todo mundo no seu apartamento para que passassem as últimas 24 horas juntos: os grandes amigos, unidos até que o mundo acabasse. O trabalho começou bem antes, na verdade, desde o ano passado, quando ele abusou de seu poder de argumentação para convencer a todos de que o mundo realmente acabaria dia 21 de dezembro.

O Pato foi o mais difícil de convencer, pois era o mais inteligente. A bem da verdade, é provável que nunca tenha se convencido de que o mundo acabaria, e que ele só se deixou seduzir pela ideia de passar 24 horas no mesmo lugar que outras pessoas que não fossem seus pais ou seus colegas de trabalho. O caso é que Pato nunca se sentiu parte do grupo, ou parte de nada, e talvez esse tenha sido o grande trunfo do Darlan: fazê-lo sentir-se incluído, prometer maconha e álcool, e pronto: se o Pato acreditava que o mundo acabaria, a tese do líder estaria muito mais estofada.

Mas o Pato ficou lá, de canto, só chapando. Quando o Darlan sugeriu que era injusto só o Marcos poder comer a Rebeca e começou a confusão, ele ficou de fora. Quando o Marcos foi embora, só ele o abraçou. Quando todos resolveram estuprar a moça do cabelo pintado de vermelho - foi como ele viu a situação -, o Pato simplesmente saiu pela porta, desceu o elevador, pegou o ônibus e torceu para não estar drogado a ponto de não saber como voltar pra casa. Se o mundo realmente acabasse, ele morreria virgem - mas com dignidade, e isso haveria de valer algo no Juízo Final, no qual ele nem acreditava.

O que levou o Pato a achar que aquilo era uma filha da putagem organizada pelo Darlan era que havia outra moça no apartamento: a Ana. E ainda que aquela japonesa toda tatuada e com uma mancha de nascença enorme na bochecha esquerda não fosse o tipo de mulher que parasse o trânsito, se o mundo iria acabar logo, não lhe parecia justo que a esnobassem completamente. Mas a Ana nunca foi o tipo de gente que encanava demais com as coisas. Talvez por isso todos achavam que ela era a mais legal do grupo, embora sua gentebonisse fosse, assim como as tatuagens e os piercings, apenas camadas de escamas que ela vestia pra que ninguém notasse seu complexo de inferioridade, sua notória perspectiva de fracasso na vida e, claro, a mancha enorme na cara. E todas essas camadas foram obliteradas a golpes de marreta quando, depois de tanto tempo, a Rebeca simplesmente a convidou para fazer amor. E então, depois de passar mais de vinte horas observando cenas abjetas, perdendo o respeito pelos amigos e se sentindo humilhada, ela recebeu a proposta de passar as últimas horas da sua vida sendo amada pela sua melhor amiga, de um jeito que ela nunca esperou.

Rebobina.

- O mundo não acabou.
- Que caralho aconteceu?
- Calma - disse Darlan, lento -, é um processo, não acontece de uma hora pra outra.
- Não é o que você tinha dito, você disse que acabaria de uma vez, que a gente não ia nem ver.
- Calma.
- Calma porra nenhuma, vou ligar pro Marcos.

Ela ligou. Outra pessoa atendeu. Página de rosto com reticências no centro.

- E aí? - Rafa perguntou.
- É. Acabou.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Patriamada


Essa semana eu fui ao estádio ver o meu apreciado São Paulo Futebol Clube jogar, o que, ainda que eu esteja meio em débito esse ano, é algo relativamente comum. Mas algo incomum aconteceu pouco antes do jogo começar.

Caso você não esteja ligado nos detalhes da bateção de bola ou não seja um conterrâneo, cabe explicar que há uma lei que obriga a execução do hino nacional brasileiro em qualquer evento esportivo realizado no estado de São Paulo (pelo menos os oficiais, né, sei lá se tocam essa porra no Ceefó). Pois que nessa vez, ao dia sete de novembro de dois mil e doze, por volta das quinze para as dez da noite, no estádio Paulo Machado de Carvalho, eu cantei o hino nacional.

Tá, não tem nada de mais, mas é que eu me toquei que nunca tinha cantado ele antes de jogo. E comecei a tentar analisar o que isso poderia significar.

Pode ser porque eu estou ficando velho, e quando você envelhece tende a gostar mais da pátria, sei lá. Pode ser resultado da minha primeira viagem internacional, que, ao me afastar desse solo abençoado em que se plantando tudo dá, reconectou-me ao cordão umbilical da Mãe Gentil. Pode ser... bom, eu vou parar por aqui, porque obviamente não é nada disso.

Eu não sou uma pessoa absoluta. Não tenho opiniões, desejos e posturas que me sejam característicos. Eu sou relativo, eu dependo dos outros pra me posicionar (devo ter falado disso em alguns posts já). E tem me saltado aos olhos ultimamente (em ano de eleição rola uma amplificação do fenômeno) a proliferação desses sujeitos, ah, esses sujeitos, que pra tudo arrumam um jeito de falar mal do Brasil. É o derrotista disfarçado de indignado, o cara que acha que deveria ter nascido na Europa quando merecia ter sido parido debaixo do viaduto do Gasômetro, o camarada que não abre mão dos direitos mas finge que não viu os deveres, a pessoa pra quem não há crueldade maior do que pagar imposto (a menos que lhe roubem o iPhone, aí é bala na cabeça desses vagabundos). E eu, que só torço pelo Brasil na Copa, que voto nulo, que sei toda a discografia dos Beatles de trás pra frente mas nunca ouvi o Chega de Saudade, de repente estou cantando o hino a plenos pulmões, com a mão no peito. Só pra contrariar os pau no cu.

Pensei numa piada hilária com essa última frase, mas não vou falar, porque é mentira.

Sei lá se algum dia na vida eu vou virar um ufanista, ou, pior, virar um desses daí de cima, e passar as minhas tardes escrevendo comentários em caixa alta no site da Folha. Mas hoje a vida me levou a ser esse Ditto ao contrário, esse imbecil sem personalidade. Eu não ligo muito, e sinceramente estou orgulhoso demais pelo fato de ter colocado uma referência a Pokémon pra me importar em como terminar esse texto.

É por isso que eu nunca vou ser levado a sério como escritor ou como adulto.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Clube dos Corações Solitários

Eu devo começar metade dos posts desse blog tentando identificar se você é um leitor antigo ou não (e a outra metade dizendo que eu já comecei várias vezes um texto do mesmo jeito), mas a verdade é que deve ter umas três ou quatro pessoas aí do outro lado, então vou parar com esse negócio de achar que tô falando com um auditório. Desliga o microfone.

Enfim, eu já falei aqui, tenha você lido ou não, que faço parte de uma bandinha que toca musiquinhas cretinas. A gente é ruim, mas se esforça e tal. O que eu esqueci de falar é que nós - que atendemos pela razão social Volto Logo Joyce - gravamos uma demo esse ano e lançamos pela grande distribuidora INTERNET™. E já que você é benevolente e destituído de senso crítico o bastante pra acompanhar as coisas que eu escrevo aqui, talvez queira acompanhar as coisas que eu escrevo lá. Dá até pra ouvir o doce som da minha guitarra e o esquálido ganir da minha voz. E, se você for um ouvinte realmente atento, dá pra escutar também a gente comemorando o gol da Ponte Preta.

Mentira.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Pé na estrada


Há uns 15 dias eu deixei as fronteiras desse querido Brasil pela primeira vez na vida. Não foi assim aquela superviagem pra desbravar horizontes desconhecidos, enfiar-se na cultura alheia, nadar nu com os índios ou dormir em um motel pulguento na beira da estrada. Não foi um longo mochilão por um continente, nem um intercâmbio para aprender outra língua. Também não foi uma viagem de negócios, embora eu tenha comprado uns negócios (turum-psh). Na verdade foi rapidim, quatro dias, eu falei portunhol a maior parte do tempo e tudo que eu recebi do sonho americano foi um calor insuportável e um ar que não se move (que maneira mais afetada de dizer que não tinha vento).

E enquanto a Hebe morria aqui no Brasil eu tava lá em Miami enchendo a sacola de bosta. Se você me conhece, deve imaginar que eu só trouxe video game, brinquedos e instrumentos musicais. Pois você me conhece muito bem. Aí teve um pulinho na praia, uma andadinha num museu, e pega o avião e volta pra casa.

Até aí tudo bem, foi uma viagem agradável e é legal passar pela experiência de conhecer um lugar diferente (mesmo que ele se pareça com uma 25 de Março cheia de limusines e bandeiras dos Estados Unidos - em TODO lugar tem bandeira do país, veja a necessidade de lembrar à cubanaiada que eles não estão em casa). O negócio é que, lá no fundo, eu percebi que não era isso que eu queria ver. E isso estava lá no fundo porque é uma coisa meio ruim de se falar: eu queria ver tragédia.

Ah, eu sinto muito, eu sou horrível, eu sei. Mas vocês sabem como é frustrante viver num lugar maravilhoso que não tem furacões, trombas d'água, vulcões, terremotos, nevascas e tsunamis? Evidente que sabem como é morar aqui, mas provavelmente não compartilham a frustração (espero que não). Já falei disso antes, veja só. Aliás, vá lá ler o outro texto (é curtinho) e repare que, da lista de tragédias, eu tirei os aerolitos. Porque um caiu aqui na rua onde eu trabalho e atingiu um cara na cabeça. Sério. O centro de São Paulo é o lugar mais legal do mundo.

O máximo que eu vi da fúria da natureza foram relâmpagos quando sobrevoava a Venezuela. Era bonito e pá, mas convenhamos, relâmpagos são meio meh. Em Miami, só sol, gente bonita e mar tranquilo. Provavelmente é uma situação ideal pra qualquer turista, mas eu tenho lá minhas peculiaridades.

Mas então eu saí do país, conheci outro lugar, meu passaporte perdeu a virgindade. E a tendência que eu vejo nessa juventude que me contemporaniza (existe?) é planejar a próxima viagem, então façamos isso. Minha pergunta a você, estimado leitor, é: pra que lugar eu devo ir para ser trucidado pelas forças da natureza? Pode ser varrido por um tornado (tudo bem que com meu peso qualquer ventinho já serve, mas pensemos grande), banhado pelo vômito de um vulcão ou engolido pelas profundezas da terra fendida por um tremor de 10 pontos na escala Richter. Obviamente esses são só exemplos, use a sua criatividade pra me ajudar a desaparecer em grande estilo.

Mas pense bem, porque se eu sobreviver vou cobrar a passagem de volta do seu bolso, seu filho da puta.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Viu, vó (ou Tribute to a work in progress)

Se eu fosse uma dessas pessoas injustas que nunca assumem a culpa, vó, eu ia dizer que a senhora me estragou. Fique tranquila que eu não vou lhe jogar essa bomba em cima, mas não pense que está salva não, dona Helena. Não pense que eu esqueci de todas as bolachas que a senhora escondia pra mim quando a minha mãe me proibia de comer porcaria, nem do Nescau que me dava pra tomar quando minha mãe insistia no Sustagen, nem do Sustagen que me dava pra tomar quando minha mãe desistia mas a senhora sabia que havia muito trabalho a fazer naquele moreninho mirrado.

Não pense que eu não via que a senhora me beneficiava claramente a despeito do meu irmão, esse coitado que teve o azar de não ser o primeiro neto só por um ano e meio. Eu sei, vó, que a senhora ajudava a pagar minha escola quando tava difícil pro meu pai, e que quando eu fui estudar na ETESP e o pobre do seu filho perdeu o emprego no Sudameris a senhora me dava dois reais todo dia pra comprar lanche. Confissão, vó (ai que vergonha): eu nunca comprava lanche, guardava tudo pra comprar mangá. Vixe, vó, não tem ideia da quantidade de pastel que eu deixei de comer pra ler Yu Yu Hakusho. A senhora (vergonha é tua agora) foi diretamente responsável por eu crescer fraco, desnutrido e viciado nessas porcarias japonesas.

E quando eu fui pra faculdade, vó, e toda noite a senhora ligava pra saber se eu tava chegando? A senhora achava que o escadão era perigoso porque tava sempre cheio de maconheiro, mas maconheiro nunca fez mal pra ninguém nessa vida. E então essa bosta que a senhora tem na cabeça começou a evoluir e aí era uma farra do boi da porra, a senhora me ligava no meio da aula, ou ligava 10 minutos depois quando eu dizia que ainda ia levar uma hora.

Mas a senhora já teve sua quantidade de sofrimento comigo também. Lembra como eu sempre dava um jeito de derrubar a sua santa de gesso e quebrar a cabeça dela? Se a Igreja soubesse da quantidade de mães de Jesus que eu decapitei eu tava bem lascado. E aquela vez que eu tinha acabado de tirar carta de motorista e fui te levar no posto, e deixei a Elba do vô morrer na subida? A senhora dizia "tem nada, não se preocupa, não fica nervoso", e depois desatava a cantar música de igreja. Hahahaha. E nessa mesma corrida, quando eu já tinha chegado na rua de casa na volta e a senhora quis saber onde a gente tava, foi que eu percebi que tinha começado.

Tem sido uma viagem longa, né, vó. Longa e ruim. Primeiro não sabia onde estava, depois tacava todas as minhas meias na cândida, depois ficou difícil articular os pensamentos, a fala, os movimentos. E quando a senhora já pouco se articulava, e ficava o dia inteiro com aquela cara de brava simplesmente andando de um lado pro outro porque era a única coisa que a senhora conseguia fazer, a senhora tinha a moral de chorar quando me via. De chorar, vó! Eu tenho uma macheza a perpetuar, vó, a senhora não pode fazer essas coisas! Tudo bem que a senhora acha que eu sou só um menino educado e gentil, e eu sou mesmo, mas os outros não podem saber.

E o motivo de eu estar escrevendo tudo isso agora, vó, é que eu preciso te dizer essas coisas enquanto a senhora está viva. Eu sei que a senhora não tem mais condições de ler nada, mas também não ia entender se eu falasse, e eu sempre fui melhor com as letras que com a voz. Além do que, vai que a gente acha que a senhora tá aí nessa viagem pelos domínios da demência sem saber de nada e na verdade a senhora está é conectada a um ambiente virtual e consegue acessar tudo que aparece na internet com a mente. Já leu Neuromancer, vó? Deve ter em pdf, dá uma procurada.

Viu, vó, eu sei que joguei um monte de coisa na sua cara, e a senhora, convenhamos, foi meio filha da puta mesmo com a minha mãe (essa mesma que agora te dá banho e te limpa a bunda, minha mãe é uma pessoa boa demais), mas a senhora me amava, né. Deve amar ainda, espero. E nessa a senhora meteu os pés pelas mãos e fez coisas que fariam os psicólogos infantis buscarem asilo no Tibet, mas, cá pra nós, foda-se essa merda toda. Amor bom é assim, irracional, sem limites, cheio de Trakinas de chocolate escondidas no guarda-roupa. Além do que, nunca vi alguém ficar com cicatrizes emocionais por causa de um monte de bons momentos. Deixa esses palhaços falarem, vó. São um bando de otários criados pelas avós (hihihi).

Daqui, do meu lado, eu só quero dizer que a senhora, no meu time, é o 9. E brigado, viu. Por ter casado com o meu vô (esse homem incrível), por ter dado à luz o meu pai, por ter comprado aquele jogo de cama muito foda dos Transformers. Um beijo pra senhora - isso eu posso fazer pessoalmente depois, mas essa carta precisa terminar de algum jeito.

(Aproveitando, prometa não surtar, mas eu não acredito mais em Deus. Beijo, tchau!)

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Marília


Quando eu abri os olhos, só vi o teto da sala borrado, e duas pessoas que me olhavam, também borradas, mas que logo murmuraram alguma coisa e saíram. À medida em que o universo ia ficando nítido e eu me levantava, reparei que estava em um cômodo amplo e cheio de cadeiras, talvez uma sala de aula, repleto de pessoas que eu não conhecia. E isso me incluía: quem diabo era eu?

Não lembrava meu nome, não tinha carteira nem documento nos bolsos, não sabia o que estava fazendo naquele lugar. Nenhuma daquelas pessoas me conhecia, nem parecia se abalar com o meu problema (ou com o fato de que eu estava desmaiado não havia nem um minuto). A bem da verdade, saber quem se é é um drama existencial, individual e intransferível, então não me dei ao trabalho de aborrecer ninguém com isso.

O que eu entendi é que iria haver um sorteio. Uma batedeira Arno. Por que eu estava querendo ganhar uma batedeira? Será que, na minha vida pregressa, eu fazia bolos? Ou estaria querendo dar um presente pra minha esposa, se é que eu tinha uma? Ou, não vamos descartar hipóteses aqui, será que essa batedeira continha algum tipo de segredo ou chave para resolver um problema maior? Um tesouro, talvez, ou a solução de um crime! Quem poderia dizer que eu não era um agente especial infiltrado numa escola de ensino médio procurando pela última pista que faltava pra resolver um grande mistério? Parece improvável, eu sei, mas eu estava zerado ali: podia tanto ser um homem-sanduíche como um astronauta, um mendigo ou o presidente de um país da América Central. Ou talvez tudo isso junto. Por que não? Comecei a gostar da ideia de não ser ninguém, porque isso me permitia ser todo mundo.

Uma mulher se posicionou atrás da única mesa que havia na sala, de frente para todos os outros. Usava uma blusa de seda feia, uma calça rosa, e tinha um nariz que muito provavelmente era maior que a minha rola, embora eu ainda não tivesse tido tempo - nem a oportunidade - de conferir qual era o tamanho dela. Em uma voz nasalada surpreendentemente frágil pra alguém com uma napa tão grande, ela agradeceu a participação de todo mundo e disse que ia chamar o sorteado pelo nome. Puxou um papel recortado fino e comprido, olhou, fez um draminha barato em troca de uns sorrisos amarelos, e anunciou:

- Marília!

Ficou um silêncio. Ninguém comemorou. Ninguém se moveu. Ninguém era Marília. A menos que…

***

Saí da escola com uma caixa branca e um nome. Mesmo em minha confusão, eu sabia identificar que esse era um nome de mulher, mas se ninguém mais era Marília, então devia ser eu.

O sol estava cinquenta centímetros acima da minha cabeça, então preferi atravessar a rua pra pegar a sombra que se derramava na calçada do lado de lá. Enquanto percorria a largura da avenida, um grupo de moleques veio de bicicleta na minha direção, desviando de mim e passando ao meu redor. Um deles esbarrou no meu braço, a caixa caiu e a batedeira se esparramou pelo chão. Outro viu me chamou de viado, naquele degradê de volume que a voz faz quando está em movimento. É a chave do mistério!, respondi, mas eles já iam longe. Recolhi as peças que se espalharam no chão, joguei todas dentro da caixa e continuei meu caminho, rumo ao refrescante reino de trevas sob os muros baixos das casas da vizinhança.

Marília. Existe uma cidade do interior chamada Marília, sopra um participante dentro do meu cérebro. Teria eu nascido lá? Seria esse um apelido, então? Tem cara de ser coisa que algum filho da puta começou a chamar de sacanagem, eu me enfezei, e acabou pegando. Esse meu humor volátil sempre me trouxe dor de cabeça. Provavelmente.

Encontrei um ponto de ônibus e me sentei pra descansar. Coloquei no colo o meu patrimônio, uma caixa de papelão meio rasgada que guardava todos os bens que eu possuía nessa vida: uma batedeira. Por que não chamar a batedeira de Marília também? Se eu sou Marília porque nasci em Marília, por que a batedeira não pode ser Marília por ser minha? Passou um ônibus, encheu minha cara de fumaça, subiu um monte de gente.

Só duas pessoas continuaram no ponto: eu e uma mulher. Bonita, até, bem vestida, até. Usava óculos escuros, essa coisa que faz todo mundo parecer mais belo e mais suspeito. Não havia nada para suspeitar da moça, mas se eu fosse mesmo um agente secreto, era melhor me manter atento. Eu podia sofrer de amnésia, mas ninguém poderia dizer que não era profissional.

Passou outro ônibus, Pinheiros, e a moça suspeita entrou. Fui atrás. Pra onde mais iria? Ela não tirou os óculos nem dentro do veículo. Muito suspeito. Passou na catraca, ficou de pé perto da porta do fundo. Eu parei ao lado de uma mulher gorda, que se ofereceu pra segurar Marília pra mim. A caixa pressionou os seios dela, e eu ganhei algum entretenimento no chacoalhar monótono e sem fim da viagem. Confirmado: o nariz da mulher do sorteio era maior mesmo.

A mulher que me batizou.

O homem que estava sentado ao lado da minha princesa se levantou para sair, e eu ofereci o lugar vago à suspeita. Não é o tipo de conduta que os manuais dos agentes secretos aprovariam, mas eu me sentia ousado. Talvez fosse a testosterona. A mulher agradeceu e sentou-se na cadeira do corredor quando a gorda moveu-se para a janela. O novo ângulo me desfavorecia e a suspeita não oferecia grandes atrações no olhar plongée, o que me permitiu voltar à investigação.

Uns 30 anos, eu diria. O cabelo era avermelhado, mas as evidentes raízes negras mostravam que ela não o pintava havia algum tempo. Nos ombros, algo que parecia ser caspa. Caspa não combina com mulher bonita, mas eu estava apaixonado por uma rapariga que pesa 30kg a mais que eu só porque ela segurou minha batedeira, então não tinha autoridade para opinar nesse assunto. A pele estava daquela cor estranha meio esverdeada que as pessoas adquirem quando ficam muito tempo sob luz fluorescente. Não conseguia me conformar que eu lembrava esse tipo de detalhe mas não a porra do meu nome. Marília não é meu nome, não é nome de homem. Ou de batedeira. Eu devia estar preocupado era com isso, não com a pobre workaholic que não arranja tempo nem pra ir no cabeleireiro.

Mais um ponto, e aquela que foi o grande amor da minha vida por 20 minutos me devolveu Marília, levantou e foi embora. Eu disse obrigado, mas queria dizer te amo, não vá, casa comigo. A suspeita deslizou para perto da janela e eu me sentei a seu lado, a caixa no colo. Ela olha para o meu tesouro por alguns segundos, olha pra janela. Algum tempo depois, outra rabada de olho na batedeira, volta pra paisagem. Mais um minuto, ela puxou assunto.

- Você pegou o ônibus naquele ponto da Coronel, não foi?
- Isso - não faço ideia.
- Você estava na escola?
- Aham.
- Ah, você participou do sorteio da batedeira, então?
- Sim.
- Puxa, que legal. Eu estava lá também, mas atrasou muito e eu precisei sair.

Comecei a suar frio. Meu coração disparou, minhas mãos tremiam.

- Você se chama Marília?
- Sim! Como você sabe?
- Eu sou você.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A elasticidade do tempo


Eu toco no Volto Logo Joyce há dois anos e meio. Quando saí da TerraForum, em março, estava com quatro anos e oito meses de casa. O Vida de bosta existe há cinco voltas da Terra, e Maria há seis. A maior parte dos meus poucos amigos eu conheço há pelo menos nove anos, e até meu relacionamento platônico com a Isis Valverde já está aí me calejando há um bom tempo também.

Eu nunca tinha durado mais de 11 meses num emprego, nem tive um blog que vivesse mais de um ano, e o Jamanta, meu gato mongo de uma orelha só (a outra ele perdeu apanhando, tipo um Evander Holyfield felino), respirou por 3 anos até encontrar a parte de baixo dos pneus de um carro qualquer. A idade vai chegando e, pelo jeito, as coisas vão adquirindo um senso de permanência maior. Não só elas duram mais, elas não parecem durar mais, como se a partir de algum momento as coisas não existissem mais pra acabar. E isso é tanto um sinal dos tempos como uma percepção pessoal cagada pela digestão da informação pela experiência. A idade adulta é, de longe, a maior de todas, e parece que as coisas se esticam pra se adaptar a todo esse espaço disponível.

E, no entanto, não dá seis horas nunca nessa porra.