- Vejam! É um tubarão!
Gritou o Carlinhos, que àquela hora estava na parte da frente da caixa de papelão embarcação, ao avistar o baldinho vermelho virado de com a boca pra baixo.
- Um tubarão vermelho!
A angústia tomou conta da tripulação. Qualquer um com menos de sete anos sabe que os tubarões vermelhos são os piores, verdadeiros monstros do mar preparados para virar barcos e devorar navegantes.
- Só há uma coisa a fazer! - pronunciou com voz empostada o Douglas, que era sabidamente a referência intelectual no barco - Devemos oferecer uma virgem em sacrifício!
Carlinhos e Maria se entreolharam, confusos. Que diacho é uma virgem?
- Que diacho é uma virgem?
- Ora, uma virgem, uma virgem é... isso! - e Douglas demonstrou a salvação para seus problemas, com pompa e magnificência.
- Isso é uma folha de árvore - disse Maria, cética como não deveria ser com essa idade. Ela deveria estar alimentando sonhos, gritando loucuras, achando que tudo vai ficar melhor, até que a vida encontrasse a idade mais adequada pra dizê-la que não, tsc tsc, sem chance. Talvez a vida já tenha feito isso, no ano passado, quando seus pais se divorciaram.
- Uma folha de árvore é uma folha na árvore - pronunciou Douglas, sempre pomposamente, tendo o cuidado com as palavras que prenuncia um novo Allen Ginsberg, ou quem sabe só uma pessoa muito chata - Uma folha sem árvore é uma virgem, como todos deveriam saber.
Eles ficaram quietos por um segundo, porque talvez todos devessem saber mesmo. Como puderam ser tão descuidados de sair para enfrentar os faniquitos do alto-mar sem nem estudar primeiro?
- Bom, então a gente joga isso pro tubarão, certo? - fez Carlinhos, o prático.
- Bem... sim, é, isso - Douglas não conseguiu inventar nada mais interessante em cima da hora.
- Então me dá aqui.
Carlinhos tomou a folha virgem em sua mão, mirou-a contra o horizonte e atirou-a ao mar. O vento só teve o trabalho de carregar aquilo pra outro lado, lá pra calçada.
- Puta merda, agora fudeu!
Maria gritou a plenos pulmões. Ela aprendeu esses palavrões ouvindo os pais brigarem, mas não tinha permissão pra dizê-los. Bem, mas agora sua vida estava por um fio, então qual o problema? Ela teria acendido um cigarro ali, se tivesse um cigarro. E um isqueiro. Mas era o alto-mar, não tinha nada disso, só desolação e os três e o tubarão vermelho.
- O que a gente faz agora, Douglas? - Carlinhos perguntava legitimamente apavorado e segurava o amigo pelos ombros.
- Temos que remar o mais rápido que pudermos!
Agora, deixe-me dizer que é claro que esses meninos não tinham um domínio tão completo da língua portuguesa. Afinal de contas, eram apenas lobos do mar, mais acostumados ao grasnar das gaivotas que ao raspar das páginas dos livros virando. Mas você pode imaginar uns "sic" aqui e acolá.
Pegaram seus remos, meteram-nos na grama água e puseram-se a navegar para tão longe quanto possível. Infelizmente crianças são burras e, com um remando de um lado e dois de outro, o barco perdeu equilíbrio e - oh, não! - virou.
VIROU!
Fez splash! na água e teriam gritado "homem ao mar" se não fossem eles mesmos os homens. Ali estava o tubarão, e ali estava seu destino. Maria gritou "caralhoooo!" (ela nunca se sentiu tão livre, a vida é mesmo uma prisão), Douglas olhou para Carlinhos e tascou-lhe um beijo na boca. Carlinhos meio que gostou. A sociedade é uma prisão. Estavam eles no mar, lá vinha o tubarão, tam-tam-tam-tam-tam-tam. E eles sabiam que tinham chegado ao fim porque ouviram o chamado do além, e ficaram surpresos porque descobriram que deus era uma mulher e reclamava que eles estavam sujando suas roupas. "Alguém precisa reescrever os 10 mandamentos", pensou Carlinhos, mas já era tarde demais. Era hora de ir pra casa.
- Bucetaaaaa!
Maria estava se divertindo com esse negócio de morrer.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
O tubarão vermelho
Postado por
Thiago Padula
às
20:51
0
comentários
Marcadores: Histórias avulsas, Morte
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
As brigas que eu perdi
Na quinta série eu fui pra manhã, não me lembro por quê. Mas lembro por que voltei para a tarde, no começo do segundo semestre: o meu relógio biológico decidiu que 9 da manhã não era hora de estudar, era hora de mandar um barro. E isso numa fase da vida em que você precisa de autorização pra ir ao banheiro não é a melhor combinação.
O campeonato de futebol interclasses era o maior evento da escola, e naquele ano ele seria grande e brutal: entre a quinta série e o primeiro colegial, todo mundo era adversário. O time da minha sala matinal era bom, pra uma quinta série, e eu era o goleiro. Às vésperas do campeonato começar vieram me dizer que eu seria reserva, porque o Felipe ia ser o titular. O Felipe era da panela e eu não (não que eu não tenha tentado me enturmar: virei goleiro só pra ser aceito, queria mesmo era jogar na linha), e aquilo me deixou meio cabreiro porque eu era muito melhor do que ele. E quando eu mudei pra tarde, todo mundo teve certeza que eu tive um ataque de estrelismo, que não aceitei a reserva. Claro que eu preferi confirmar essa versão.
No primeiro dia à tarde, ainda que eu conhecesse quase todo mundo, as coisas mudaram. Mudou a organização social, mudaram os pelos faciais, mudaram as vozes. Fiquei seis meses fora e não pertencia mais àquele lugar. Tanto que no recreio eu fiquei no canto do pátio comendo Foffy's (lembra?) com o Fernando, que era um cara da sexta série que tinha paralisia e não era muito aceito pelas outras crianças da ilha do Senhor das Moscas.
À época das inscrições para o campeonato tinha gente suficiente na minha sala para duas equipes. Sendo a escola um regime de castas, ia ter um time com os melhores e outro com o resto. Como eu era novo, fiquei no time B, junto com os gordos e os gêmeos. O time A já tinha um goleiro, outro Felipe, e esse era meu amigo desde a primeira série e jogava muito melhor do que eu. Como eu nunca gostei desses filmes infantis em que o bando de pernas de pau (que tem o gordo, o japonês, o nerd e a menina, no nosso só faltava a menina) vira um fenômeno do esporte, tentei cavar um lugar no time principal, e consegui depois de mostrar meus talentos futebolísticos em um contra. E, dessa vez, eu ia jogar onde eu queria: na linha.
Caímos no grupo da morte, com a 7ªB, a 8ªA e o primeiro colegial. No primeiro jogo, contra a sétima, muito estudo, muita tática, um a zero pra gente, UM A ZERO PRA GENTE! É possível, vamos lá, vamos... levar uma lavada. 19x1.
O time B da sala estreou, justamente contra a quinta série da manhã, aquela que me desdenhou pelo frangueiro. Foi um massacre. 26x2 pro time da manhã, e eu só pensava que eu não teria tomado aqueles dois gols. O time B nunca mais voltou a quadra depois daquilo, perdendo os dois próximos jogos por W.O.
Mas nós persistimos, e no próximo jogo, contra os metaleiros maconheiros do primeiro colegial, tivemos uma tremenda evolução: perdemos por apenas 17x2. A partir desse momento, nossa briga não era pela classificação, nossa briga não era contra as outras turmas: éramos nós e o outro time da sala, fugindo da honra de ser o pior time do torneio.
Como eles desistiram dos outros jogos, acabaram jogando delicadamente em nossas costas o fardo de ser a defesa mais vazada do torneio. Fomos para o terceiro jogo, contra a 8ªA, e não foi fácil. Eu era muito pequeno, mesmo pra minha idade, e garotos de 14 anos são infinitamente maiores que os de 11. Num lance em que eu estava no gol (no desespero, posições mudam porque vai que um milagre acontece desse jeito) trombei com um desses seres humanos infinitamente maiores e fiquei com uma cicatriz no cotovelo que carrego até hoje. Em outro, levei uma bolada nas costas que o professor teve que paralisar o jogo pra ter certeza de que eu não ia morrer. Acabou a partida e ninguém nem sabia o placar, tamanha a surra, e o professor precisou ficar contando na ficha. Quando ele anunciou, 25x3, eu comemorei. Todos riram, acharam que a bolada nas costas tinha mexido com a minha cabeça, mas a verdade é que, pra mim, foi uma vitória: no único campeonato que nos importava, quem levou a maior goleada não foi a gente. Chupa, time B.
O campeonato seguiu, nós não, e o time da 8ªA sagrou-se campeão, com o da 7ªB em segundo lugar. No ano seguinte, num surto de lucidez, o professor dividiu em dois campeonatos, um para as quintas e sextas séries, outro para a sétima em diante. Dessa vez, chegamos à final, e perdemos por pouco (graças a um frango meu, vejam a ironia). Mas esse parágrafo não importa.
Importa que essa campanha trágica de humilhações e falta de ar ensinou-me, ainda aos 11 anos, uma das mais valiosas lições sobre a vida: o importante é que tem alguém se fudendo mais que você. E, se isso nunca me empurrou à beira do precipício para testar meus limites e evoluir à base de superação, também me permite estar muito mais à vontade com as circunstâncias da vida (na maior parte do tempo, pelo menos). Eu nunca vou ficar chorando no canto porque não escrevo como o Gabriel García Márquez e ainda vou ter um leve regozijo toda vez que ler alguém terminar uma frase com dez pontos de exclamação ou escrever "concertesa". Pequenas vitórias, é isso.
Mas não sigam meus conselhos, sonhem alto. É que toda vez que eu tento fazer isso vejo a cicatriz no cotovelo, e minha resistência à dor é meio baixa, sabe.
Postado por
Thiago Padula
às
13:18
3
comentários
Marcadores: Futebol, I hate myself and I wanna die, Verdades
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Anão
Apesar de ser esse adulto recluso, complexado e com óbvias dificuldades sociais, a minha versão criança era mais dada ao ar livre e à interação com outras pessoas (a parte do complexado nunca mudou). E quando você está estapeando o asfalto quente com as solas cascudas dos seus pés sem nenhuma função aparente além de gastar toda sua energia e entusiasmo pela vida em movimentos aleatórios e imbecis, você conhece pessoas, você vê coisas, você mapeia os arredores. Ser criança não é ter que ir pra escola ou ser livre pra chorar quando você perde no videogame sem ninguém te julgar (saudades), ser criança é uma missão de criação geográfica, de estabelecer o continente que é o seu bairro, quem são os personagens, qual a organização política, quais as leis e como burlá-las. Para adultos isso tudo é só um monte de casa pra invejar e gente pra odiar, mas pra crianças a sua vila é o seu mundo fantástico, e quando você vive no mesmo lugar desde pequeno, ainda que a crueza que vem com a idade jogue uma pá de bosta por cima, você ainda vê a sua vizinhança com um pouco daquele mesmo caráter mitológico de outrora.
E lá na Vila Marina (que a gente chamava de Vila Miriam), dentre todas as figuras peculiares e insólitas, ninguém se destacava mais que Luis. Ninguém chamava ele de Luis, vai. Ele era o Anão. Porque, óbvio, ele era um anão.
Vamos tirar isso da frente: na minha época de criança era mais aceitável ser babaca, e a gente ria do Anão porque, pra começar, ele era do nosso tamanho e tinha barba. Assim como a gente ria do Diego por ele ter síndrome de down e ria das duas bichinhas com seus dobermans. O que não livra nossa cara, mas certamente depõe contra quem ainda gosta dessas coisas sendo adulto hoje em dia.
O Anão não era uma lenda só por ser pequeno. Ele ganhou fama e reconhecimento porque, além de anão, era DOIDO, maluco do cacete, surtado. Para terem uma ideia, essas três situações eram muito frequentes: ele pulando o portão bêbado enquanto os cachorros ficavam latindo embaixo querendo rasgar aqueles 40 quilos nos dentes; ele tendo que ser agarrado à força pela família pra tomar banho de mangueira, porque já estava há um mês sem se lavar; ele correndo na rua com o pau duro de fora atrás de garotas, no sentido pedófilo da palavra, algumas vezes até no sentido incestuoso da palavra. Uma vez ele entrou na minha casa e meteu aquela mão que viu água semanas antes na salada e depois foi embora. Outra vez mostrou pra gente uma foto com uns trinta outros anões, tipo uma reunião do clube dos nanicos. E ia apontando pra cada um e dizendo "esse aqui morreu, essa aqui morreu, esse aqui foi morar em Ribeirão Preto, esse aqui morreu". Lembro de ter pensado que anões morrem rápido.
Nem todos, porque o Luis viveu um monte, até que hoje ele não viveu mais. Morreu no meio dessa onda horrorosa de calor, o que talvez seja uma maneira poética de se adaptar ao lugar onde ele vai morar agora, se vocês acreditam nessas coisas.
Então eu lembrei que uma vez a gente jogava bola na rua e eu achei cinco reais no chão. Foi mágico, foi maravilhoso. A gente desconfiou que era do Anão, mas agora era meu, sou o legítimo dono deste tesouro de piratas. Mais tarde, quando o corsário de humildes proporções passou por ali de volta, meu irmão sugeriu, ainda não acostumado à prática do sarcasmo: "perdeu alguma coisa, Anão?". Reduzindo a história, tive que devolver o dinheiro pra ele. Como recompensa por termos encontrado as suas próximas cinco pingas, ele nos presenteou, numa atitude muito bonita, com lápis e borrachas vagabundas. Deu mais pro meu irmão que pra mim, e eu pensei "que anão filho da puta". Eu não era uma boa pessoa quando criança.
Julgamentos morais à parte, hoje se foi um personagem importante da minha Nárnia. Se a vida já tinha tirado grande parte da magia que eu via no lugar, hoje a morte tirou outra grande parte. Vai em paz, Luis. Até a próxima.
Postado por
Thiago Padula
às
16:59
0
comentários
Marcadores: I hate myself and I wanna die, Inutilidades, Morte
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Falar do tempo
Eu não sou um cara viajado, ao menos não dentro do planeta Terra, e mesmo nos lugares em que estive não passei grandes temporadas. Sendo assim posso afirmar, com todas as letras (embora eu não precise de todas, não preciso do k, nem do y, nem do z) que eu nunca passei tanto calor nessa bosta dessa vida. Eu sei que São Paulo não é assim o Rio ou Cuiabá ou Manaus, mas puta que me pariu, não tô dando conta.
E não uso isso apenas como expressão: já considerei o suicídio como fuga desse reinado de satanás ao menos três vezes. Hoje. Porque se é pra viver suando feito uma panela de pressão, com a roupa molhada, a pele vermelha e chegar ao ponto de preferir ficar no trabalho a ir pra casa porque lá tem ar condicionado, eu prefiro não. Abro mão, adeus.
Não é só que a temperatura subiu um pouquinho, é possível ver outros sinais que indicam alterações drásticas na maneira como nada a vida na Terra. Por exemplo, o fato de que à noite faz tanto calor quanto durante o dia é óbvio indício de que não só o segundo sol chegou para realinhar as órbitas dos planetas como ele é negro e joga seus tentáculos de nanquim sobre nossas cabeças para nos fazer pensar que é noite e o sol - o único que conhecemos - está do outro lado do globo espalhando caos e miséria sobre os habitantes de um hemisfério coirmão. Os insetos não só cresceram em quantidade como em tamanho. Já viram os tamanhos dessas baratas? Outro dia eu calcei uma achando que era meu chinelo. Tem pernilongo que entra no meu quarto de madrugada e eu percebo sua presença não pelo bzzz característico (já que eu uso um protetor no ouvido), mas pelo vento que se choca contra o meu rosto, provocado pelo bater das asas desse monstro voador. E eu posso estar enganado, mas tenho a impressão de que outro dia vi, durante uma madrugada de insônia (quem consegue dormir?) a silhueta de uma iguana gigante recortada pelo luar.
São Paulo sempre foi um deserto de gentileza, pontilhado por cactos que são prédios com todos os apartamentos esgotados já na planta, onde sonhos são enterrados na areia e corações rolam e pingam no chão carregados pelo vento. Mas estava bom quando era só na metáfora: isso aí, esse inferno, esse sol a um palmo das nossas cabeças, isso aí num dá não, vocês me desculpem. Vou corrigir meu déficit de viagens do primeiro parágrafo, juntar meus trapos e meus videogames e pegar o primeiro trem pra Groenlândia. Porque só na minha cabeça a melhor maneira de combater esse calor é viver num frio muito pior que tudo que eu já vi na vida.
O que me segura aqui entre vocês é a tubaína que está no congelador, esperando sua hora de estalar na minha boca. Ela é o meu oásis. Mas o dia que faltar ela no mercado, aí é adeus mesmo, pergunte à minha mãe se no céu tem ventilador, e morri.
Mas se me mandarem pro inferno, lascou.
Postado por
Thiago Padula
às
22:18
1 comentários
Marcadores: I hate myself and I wanna die, Inutilidades, Verdades
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Como eu sofro
O sofrimento humano é, sob a ótica dos manuais de autoajuda e mensagens mal diagramadas do Facebook, algo a se expurgar, uma mancha cinzenta sobre nossa imagem de mundo colorida e ensolarada que precisa ser raspada de lá. Essa é a versão oficial que consta no nosso guia de julgamentos a respeito das coisas da vida: sofrimento é mau, ponto.
Mas, curiosamente, ele também carrega algo muito positivo (e cobiçado): status. E não é de hoje: cicatrizes de guerra sempre pintaram sobre a pele de qualquer cabeça-fraca-maluco as marcas da honra, e todos viam e diziam "esse cara sofreu muito, esse cara é bacana". Funciona também metaforicamente, vejam o Ronaldo, o ex-jogador, que traiu a namorada grávida com três travestis e ainda assim era visto por muitos como um exemplo de vida porque fez uns gols no Santos depois de arrebentar o joelho algumas vezes.
E é claro que o fenômeno se repete em esferas menores, numa acelerada viagem vetorial até que chegamos a este ponto maravilhoso de nossas vidas atuais em que (lei universal da dinâmica social contemporânea, parágrafo único) todo diálogo tende à guerra de mimimis. Significa que alguém sempre vai fazer uma reclamação sobre algo e então a outra pessoa vai menosprezar a insatisfação de seu interlocutor com algum problema próprio no mesmo tema ou em contexto semelhante. Acompanhem essa dramatização:
- Tô preocupado, cara. Meu pai tá sentindo umas dores de cabeça, o médico tá desconfiado de câncer.
- Meu pai teve câncer no ombro, teve que fazer quimioterapia.
- O meu já teve na próstata, ia direto no proctologista, tenho a impressão que um dia eu vi ele no telefone com o médico de noite e ele se despediu dizendo "tchau, amor".
- Tiveram que amputar o braço do meu pai por causa disso, o braço direito, ele nem podia trabalhar mais. Teve que por uma vassoura no lugar porque pelo menos podia trabalhar como faxineiro.
- O meu ficou seis anos desempregado.
- Depois com a vassoura ele derrubou sem querer um balde de cândida em cima do cachorro da mulher do presidente e foi processado e perdeu a casa.
- Meu pai teve que se prostituir pra conseguir pagar o aluguel, e estranhamente ele só tinha um cliente que por coincidência tinha o mesmo nome do proctologista.
- Sem a casa, a gente foi morar debaixo da rua e aí apareceu outro câncer, na perna esquerda.
- O câncer na próstata avançou e ele foi parar na UTI, não tinha nem convênio.
- O câncer na perna avançou e ele foi parar na UTI, teve morte respiratória, foi ressuscitado pelos médicos e logo depois foi esfaqueado por um médico que na verdade era o marido da amante dele disfarçado.
- ...
- ...
- Minha mãe levou chifre da própria irmã.
E qual a razão de tudo isso, senhores? Não, eu não faria vocês lerem todo esse diálogo completamente fictício que não se relaciona a ninguém que eu conheço se não tivesse uma resposta. Ei-la: há uma grande pressão social para sermos grandes, para sermos incríveis, para sermos quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar. Só que, vamo lá, a gente não é tão bom assim. Nem perto disso. Na verdade, perdoe-me por antecipação o habilidoso leitor, a gente é ruim pra caralho em quase tudo. E nisso fica aquele bailinho adolescente com as meninas de um lado e os meninos do outro: ninguém conseguiu nada impressionante, mas ninguém admite que é medíocre. Na verdade, ninguém nem acha que é medíocre, porque se nossas mães disseram que nós somos especiais, então nós devemos ser. Mas e aí, o que faz com todos esses troféus que estão do outro lado do salão sem a gente poder ir pegar?
Arranja uma desculpa. "Não, sabe o que é, eu até ia na mina mais bonita da festa, mas é que machuquei o lábio e tal", no que outro responde "eu machuquei o lábio e o pinto" e um terceiro vai chegar cheio de band-aids nos dedos. As reclamações nada mais são que justificativas orgulhosas e, também, uma tentativa de relativizar o que é sucesso e o que é fracasso, como se alguém fosse pensar "nossa, ele teve bronquite na infância, então é admirável que hoje tenha chegado nesse ponto em que faz um trabalho burocrático numa empresa pequena e usa um crachá com o nome escrito errado".
Só que ninguém pensa isso, porque apesar de tudo ainda existe a guerra do mimimi, era a guerra das trincheiras. E por que, por que isso, por que essa competição? Porque apesar de tudo que não aconteceu nas nossas vidas, continuamos nos achando especiais, continuamos nos achando melhores que os outros. E isso gera um clima de insensibilidade geral, em que todo mundo está sofrendo mas todo mundo está se lixando para o sofrimento alheio, até que todo mundo morra por dentro.
Isso foi muito negativo, peço desculpas, fiquem com essa foto de gatinho pra descontrair:
Eu tenho um blog, e é um blog chamado "vida de bosta". Mas a minha vida é uma bosta? Não, não é. Na verdade, é até mancada reclamar dela: eu tenho saúde, minha família está bem, tenho um bom emprego, não preciso de carro, o Muricy finalmente pôs o Douglas no banco. Mas eu, eu sim sou um fracasso como produto humano, cheio dessas neuras e medos e baixa autoestima e pouco talento. E o que um blog tem a ver com tudo isso? O blog te dá credibilidade. Te dá respaldo. Se meu maior problema na vida é o chuveiro que esquenta demais, eu não aguentaria cinco minutos em campo aberto contra uma garotinha rica cujo braço do ursinho descosturou. Mas ter um blog me dá uma certa autoridade não merecida no assunto, como se qualquer idiota não pudesse entrar no blogger e criar um em cinco minutos. Não sei exatamente porque isso acontece, mas é um fato e que pode ser estendido a outras realidades: já tive muitos colegas que trabalhavam tão bem quanto uma porta sanfonada mas gozavam de prestígio em suas áreas de atuação por escreverem na internet. Funciona, eu vi.
Significa que ao confessar isso tudo eu estou abrindo mão de minha patente, rasgando minha farda, largando o campo de batalha pra ir plantar algodão numa fazenda no sul do Arizona? Não, claro que não. O sul do Arizona é muito quente (diz o cara que nunca foi além de Caieiras). Estou confessando isso tudo é pra esnobar. Continuarão me achando uma autoridade em má vida, continuarão achando o máximo eu ter chegado onde cheguei mesmo tendo bronquite na infância. É a vida, sinto muito.
Demorei quase 30 anos pra encontrar algo em que eu sou bom, até parece que vou largar agora.
Postado por
Thiago Padula
às
19:30
1 comentários
Marcadores: I hate myself and I wanna die, Inutilidades, Verdades
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
O celular e a vida enquanto produtores de possibilidades infinitas
Há quase um ano eu publiquei um texto sobre como eu não tinha um smartphone pra poder cagar melhor (não era exatamente sobre isso, mas é uma interpretação possível). Pois passaram-se 11 meses e meio e meu antigo celular, o velho de guerra, o que me avisava a hora de acordar desde a última Copa, se foi. Na verdade ele não se foi, mas começou a não funcionar da maneira que eu espero que ele funcione (me acordando de manhã) e precisei comprar outro. Estou há uma semana com, sim, um smartphone.
É um aparelho bacana, tem cores, tem som, tem milhões de aplicativos (dos quais eu só uso aquele de afinar o violão e o de fazer flexões) e me abriu a um mundo de possibilidades nunca dantes navegadas (mentira, claro que eu não faço flexões) e isso... não é bem o que eu gostaria.
(eu não tenho força nem pra tirar a capinha do celular, imagina pra fazer flexões)
Não me leve a mal, não é que eu não aprecie o esforço do aparelho, e não é que eu esteja fechando meus portos a toda influência estrangeira, é só que me parece um desperdício. Ok, eu tenho acesso a um mundo de informações e posso estar conectado com todos os meus mil amigos em qualquer lugar. Mas eu tenho tipo dois amigos e as únicas informações que me interessam não vivem assim um período de grande produção, visto que a pré-temporada acabou agora e meu time é um lixo. Não é uma novidade, eu sempre fui assim, não é um paralelepípedo de plástico que vai mudar algo, mas me dói um pouco ver tudo que eu poderia usufruir e, em contraste, o quão pouco eu aproveito.
E esse pensamento me levou a outro, e foi aí que eu fiquei preocupado: nessa dinâmica da decepção entre o posso fazer - realmente faço, existe um sério déficit de minha parte com relação a outro produtor de possibilidades, que vocês talvez já tenham ouvido falar sob o pseudônimo de "vida". Ou talvez tivesse ouvido falar se largasse essa merda uia que jogo é esse tem pra Android? E não foi exatamente isso que me preocupou, esse lance de "oh, cada minuto é precioso, carpe diem, caga pela boca bla bla bla". Me preocupou eu ter ficado mais chateado com o mal aproveitamento do celular que com o da vida.
Claro, é uma comparação injusta, afinal de contas eu paguei pelo celular. Mas a vida tem lá seu valor, e talvez o melhor fosse eu parar de me entristecer pelo telefone. Ou aproveitar melhor a vida, mas sejamos realistas. Então, a partir de agora, nada de ficar olhando a cada três minutos pra ver se a luzinha está piscando ("uau está piscando alguém me ama! ah é spam"), nada de ficar fuçando atrás de aplicativos novos para coisas que eu não vou fazer (eu não tenho um aplicativo de flexões, sério), nada de ficar acompanhando a bateria pra não deixar nunca acabar e correr o risco de não tirar aquela foto do cachorro quando ele fizer uma pose fofa. Se não pela qualidade de vida, pela coerência.
Que fique de ponto positivo que eu nunca mais perdi a hora de acordar, esses negócios são bons mesmo.
Postado por
Thiago Padula
às
13:14
1 comentários
Marcadores: I hate myself and I wanna die, Inutilidades
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Faça o que eu digo, faça o que eu não faço
Embora essa seja uma eleição difícil, já que vivemos um tempo em que todo mundo usa qualquer coisa pra criticar qualquer um, uma das causas de insatisfações mais comuns que pessoas atribuem a outras encontra-se no meio do caminho entre a teoria e a prática, aquilo que o dito popular consagrou como "faça o que eu digo, não faça o que eu faço", o dicionário rotulou de hipocrisia e um primo meu chamava de "hepoesia", numa leitura equivocada de antiga canção de Claudinho e Buchecha. A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e autenticidade.
(não era essa música que meu primo cantava, essa é do Titãs, vá estudar um pouco)
Comigo (é claro que esse texto era sobre mim) funciona assim também, embora não é que eu seja contraditório: eu só sou covarde. Explico: sou, em meu lado conceitual, romântico, político, um apreciador da desordem. Na prática, sou um nerd cagão. Esse tal de rolezinho, por exemplo, que consiste em um bom número de jovens reunindo-se e divertindo-se no shopping center: há os que são contra, acusando de balbúrdia, há os que são a favor, dizendo que não tem treta, só gente curtindo e pá. Eu sou um pouco dos dois: sou a favor, mas pra mim é melhor se tiver putaria. Que entrem todos munidos de canos de metal e pedras e tintas e espírito rebelde e ponham aquele lugar abaixo, os pisos reflexivos, as vitrines limpinhas, aquelas música de filho da puta ("ai não gosto que toque funk acho funk de mau gosto" e essa merda de mpb-eletrônica com disfunção erétil não tem problema?) e entreguem paus e pregos pra cada pobre assalariado de uniforme naquela fábrica de demolir corações e façam uma grande pira olímpica na beira da Marginal. Quanto pior, melhor (se ninguém se machucar e tal, machucar é mancada).
Então na minha cabeça é essa revolução constante moça com as teta de fora no meio dos corpos caídos hasteando a bandeira da França. Mas se eu vou ao banco pagar as minhas contas rigorosamente em dia e aí tem fila e as pessoas não respeitam as linhas amarelas no chão eu já fico transtornado. Gente, isso aqui é pra garantir A ORDEM, vocês não percebem a loucura que é ficar se enfileirando de qualquer jeito, depois disso vão fazer o que, festa no shopping?
Sou cagão, e, mais do que isso, fui feito para obedecer. Nasci pra ser peão. Comigo não tem jeitinho (o que aliás eu aprovo, na minha cabeça), não tem fazer loucuras, não tem quebrar as regras. Em algum momento da minha infância eu devo ter acreditado ser um animal doméstico e agora me coloco imediatamente sob a autoridade de qualquer pessoa, maquininha de senha e faixa amarela. Nem é algo deliberado, é automático. Eu sou aquele professor do Fahrenheit 451 que sabe todos os livros mas não, não quero saber desse negócio de revolução, boa sorte aí, vou trancar a porta. E eu nem gosto desse livro, o que talvez expresse melhor meu sentimento a respeito de toda essa situação.
A verdade é que eu apoio o crime mas tenho medo do castigo, seja este uma bronca da minha mãe ou o encarceramento numa penitenciária maranhense. Não que eu tenha medo de ir para os braços de satanás com a cabeça separada do corpo, é que só deus sabe quantas vezes eu deixo cair o sabonete quando estou tomando banho.
Sendo assim, não arrisco, não petisco, mas você tem todo o meu apoio moral para os seus delitos leves ou celebrações aos hormônios juvenis em espaços públicos. Mas também tenho horror a sangue, então você vai ter que seguir nessa sozinho, companheiro.
Postado por
Thiago Padula
às
20:20
0
comentários
Marcadores: I hate myself and I wanna die, Notícias, Verdades

