São Paulo é uma cidade pós-apocalíptica com um problema sério de timing. Melhor dizendo, é uma cidade pronta para a merda, não no sentido de "estamos preparados, venham os demônios alienígenas" mas no de "quando tudo acontecer, aqui será como nos filmes". E há poesia nisso, sim senhor.
O metrô da cidade cinzenta é multicolorido, como muitos devem saber: tem a linha verde, a azul, a vermelha e tal. A linha mais nova é a amarela, e essa é motivo de orgulho para o paulistano mais apaixonado: moderna, elegante, veloz e bela. Tudo cheira a futuro, parece que estamos dentro de uma estação espacial. Não há, pasme, um maquinista. Ninguém pra fazer cara de "olha que babaca do caralho" quando você acha superengraçado estender o braço pro trem, ninguém pra dizer a próxima estação, ninguém pra pedir encarecidamente que o bovino usuário não impeça o fechamento das portas, ninguém para aguardar conosco a movimentação do trem à frente.
Esse é o modelo de futuro que habita o inconsciente popular: coisas fazendo o trabalho. Quanto mais puderem se livrar de pessoas, melhor. A assepsia misantropa tem seus entraves: quem vai dizer qual a próxima estação e por qual lado devemos descer? A solução foi usar uma gravação humana (porque a voz humana ainda soa melhor que a da GLaDOS) e deixar lá. É o melhor que dá, funciona bem, e o futuro não desapareceu do horizonte por causa disso. Ufa.
SÓ QUE, acompanhe o raciocínio comigo: um dia a pessoa da voz do metrô vai morrer. Um dia todos nós vamos morrer. Um dia os demônios alienígenas virão, colocarão um vírus terrivelmente terrível em algo que todos usam (tipo no gelimão) e aí PLAU, humanidade foi pro caralho. Os times não vão mais jogar, os videogames não vão mais ligar, as guitarras não vão mais tocar. Mas o metrô, vixe maria, o metrô vai continuar rodando, dia após dia, noite após noite (parando à meia noite ou uma hora no sábado), chug chug chug chug por debaixo da terra enquanto a mocinha tão simpática, tão alegre, a mocinha que morreu continuará narrando, do além-túmulo, próxima estação República, próxima estação Faria Lima, próxima estação Butantã. Desembarque pelo lado direito do trem.
E quando outros alienígenas pousarem na Terra, daqui a mil anos, e catalogarem o nosso rico ecossistema - e ele estará obviamente mais rico do que é hoje -, haverá um animal que eles não conseguirão classificar. Um grande verme feito de metal que ronrona chug chug chug chug e diz coisas sem sentido repetidamente com uma voz doce e angelical. E eles tentarão colocar as próprias naves para cruzar com os vermes, porque sei lá, vai que.
Com todo o respeito, esse futuro de macintosh que tentam me vender eu não quero. Eu quero o verme com voz de mulher.
Aviso: este texto ignora as leis mais básicas da física e da biologia. Caso os alienígenas resgatem também esse blog, saibam que se isso aí tudo aconteceu foi cagada.
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Paramos para aguardar a movimentação do trem da história
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Thiago Padula
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terça-feira, 13 de agosto de 2013
Ali, moço
Eu moro numa rua tal. Descendo ela e virando no final à direita, tem uma outra ruazona que vai até o metrô. Nessa outra ruazona tem uma escola de crianças pequenas. Nesse dia eu estava saindo de casa mais cedo (leia-se nove horas) porque tinha acordado duas horas antes pra ver meu tricolor perder (não vem ao caso). Ao atravessar a rua bem na altura da escola, noto que por uma pequena abertura no portão um grupo de quatro pequenotes de uns cinco ou seis anos de idade tenta alcançar algo na calçada. Eles, me vendo, começam a dizer:
- Moço, moço, pega pra gente, moço.
Melhor, três deles diziam isso. O quarto ficava só me olhando e repetindo:
- A gente tá numa escola.
Eu tava ali meio perdido, não havia nada na calçada além de folhas caídas, folhetos de mercado e um pote de chamyto amassado. Tentei então travar um diálogo com a criançada, o futuro do Brasil.
- O que vocês querem que eu pegue, seus pestinhas?
Mentira, eu não chamei eles de "seus pestinhas", porque isso seria muito de tiozão.
Só que imaginem que tudo isso não aconteceu como nesse texto, com vírgulas e quebras de linha. A coisa foi mais ou menos assim:
MOÇO PEGA PRA GENTE MOÇO Ô MOÇO a gente tá numa escola PEGA PRA GENTE MOÇO o que vocês querem que PEGA PRA numa escola GENTE MOÇO PEGA o que MOÇO a gente tá numa escola AÍ NO CHÃO seus pestinhas MOÇO MOÇO a gente PEGA MOÇO
Eu não conseguia saber o que eles queriam. Eu queria ajudar, fazer o bem para os pequenos dementes (NÃO É UMA ESCOLA PARA DEFICIENTES MENTAIS ENTÃO A PIADA NÃO É DE MAU GOSTO OK?) em busca de sua pokébola imaginária, só que eu tenho 28 anos e não consigo mais ficar por aí imaginando pokébolas. Eu trabalho, posso comprar as de verdade. Mas nada da gente chegar num diálogo (pentálogo?).
a gente tá numa escola PEGA ALI MOÇO PEGA PRA GENTE o que vocês ALI MOÇO o que NO CHÃO MOÇO PEGA a gente tá numa escola POR FAVOR MOÇO o que voc ISSO ALI MOÇO a gente tá numa escola MOÇO PEGA
Veja bem: eu tinha acabado de ver o meu time sofrer a derrota mais patética dos últimos meses (e os últimos meses foram pródigos em derrotas patéticas). Eu acordei mais cedo, dormi mal, estava saindo para o trabalho às ultrajantes nove da madrugada e ainda borbulhavam em mim aqueles desejos violentos incandescentes. Eu só queria saber o que diabo eles queriam pra entregar aquela merda e deixar eles felizes e ir trabalhar com minha consciência metropolitana satisfeita. Mas nós não conseguíamos nos entender. Não conseguíamos conversar. Todos seres humanos, do mesmo gênero (usar a palavra "sexo" num texto sobre crianças não deve pegar bem), da mesma vizinhança, todos unidos na frustração (eu com o futebol, eles com as grades que limitavam sua liberdade e seu desenvolvimento criativo), mas não havia comunicação. Desistindo, eu peguei o pote de chamyto e entreguei e parece que era isso mesmo que eles queriam. Quando foi que todas as crianças do mundo caíram de cabeça pra achar que Chamyto é melhor que Yakult? Quando foi que o barulho da cidade ficou tão alto que não conseguimos mais ouvir, só gritar? Por que aquele tapado daquele idiota ficava repetindo que eles estavam numa escola EU MORO AQUI CARALHO EU SEI QUE ISSO É UMA ESCOLA E MESMO QUE EU NÃO SOUBESSE O QUE MAIS EU PODERIA PENSAR QUE É ESSE LUGAR?
São tantas perguntas, e o mundo parece ser o lugar com todas as respostas. A gente está mesmo numa escola.
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Thiago Padula
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sábado, 10 de agosto de 2013
Gelimão
Bar, restaurante, algo do tipo. Você está sentado, o garçom está de pé, ansioso.
- Vou querer uma Coca.
Ele anota. Sem levantar os olhos do bloquinho, manda:
- Gelimão?
Não, caralho. Não quero gelimão. Eu odeio gelimão. Não sei como alguém, em pleno uso de suas faculdades mentais, pode gostar de gelimão. Joguem bosta dentro do meu copo d'água, é menos agressivo e desrespeitoso que gelimão.
Não sei qual foi o desvio errado que o trem da sociedade pegou no passado que nos deixou nesse ponto em que é padrão colocar gelo e limão dentro de um copo de Coca. Não é uma questão de gosto, é obrigação já. Experimente dizer "não, só a Coca" pro garçom. Ele vai tomar como sarcasmo e vai trazer o refrigerante com gelimão do mesmo jeito.
A Coca-Cola é um líquido abençoado e maravilhoso, feito segundo receita de Deus, preparado por anjos, beijado por Satanás. Me dê um copo de Coca gelada e cheia de gás e eu não preciso nem da minha mãe. Então vamos começar pelo gelo: gelo é água. Serião. Se o seu refrigerante já está na temperatura ideal (que é o que se espera dele num estabelecimento desse tipo), por que bucetas você vai aguar ele com gelo? Nem deixa mais frio aquela porra, é só um cubo batendo no seu beiço. É tática pra enganar trouxa. A única coisa que fica gelada no processo é o seu bigode.
E refrigerantes, como sabemos, são feitos com doses industriais inacreditáveis jesuscristoémuitoessaporra de açúcar. Pesquisas comprovaram que em cada gota de Coca-Cola tem açúcar suficiente pra cobrir um vilarejo inteiro e ainda sobra um tantinho pra polvilhar na cabeça das crianças pra elas acharem que tem caspa. Quando você decide ingerir esse veneno, já está decidido a trocar dez anos de vida saudável por doçura e amor. E aí me joga o limão pra AZEDAR o bagulho. Vai tomar no cu.
O gelimão é só mais uma ferramenta dessa urubuzação invisível que é o conceito - jamais pronunciado em voz alta - de que a gente não merece a verdadeira felicidade. De que se uma coisa é boa demais, está automaticamente errada e é moralmente reprovável. O gelimão é a chuva ácida da sociedade sobre nossa liberdade, é o muro que nos separa dos nossos sonhos. O gelimão é o imposto abusivo, é o terceiro cartão amarelo, é o professor de educação artística, é a hora de ir pra cama. O gelimão é o DRM, é os talheres, é pagar mais pra beijar na boca, é não poder usar drogas, é não poder dizer pra sua vó que trabalhar é importante e casar é legal, mas as suas coisas preferidas na vida são dormir e cagar. O gelimão é o despertador, é não poder beber no estádio, é a porta do armário, é a borracha, é o DJ tocar Bon Jovi logo depois de The Cure, é a chapinha, é as definições de vírus foram atualizadas. O gelimão é o não.
Pois eu quero que o gelimão se foda. Eu quero é ser feliz, beber grandes goladas, arrotar alto. Gelimão é frescura, e de frescura na minha vida já basta esse post.
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Thiago Padula
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quarta-feira, 7 de agosto de 2013
My bloody valentão
A sociedade está sempre em transição, faz parte do seu movimento migratório rumo à completa falta de sentido (falta pouco, mas chegaremos lá). Pessoas que querem a mesma coisa estão no mesmo lugar, mas pessoas em movimento frequentemente querem coisas diferentes, e daí vemos tantas divisões de filosofias e atitudes, tantas discordâncias morais. Tanta enrolação para um primeiro parágrafo.
Uma das distorções que misturam os fantasmas chuviscados do passado à imagem em alta resolução do futuro é a relação do homem masculino com a violência física (tratei mais ou menos disso em outros tempos, lembra?). Não é aceitável, segundo o moleskine do Bom Gosto na Contemporaneidade, sair agredindo outras pessoas por aí para resolver seus problemas. Mas, ao mesmo tempo, existe essa pressão invisível (um livro de capa dura e páginas amarelas chamado "Tradição") que insinua, assim de leve, que um homem só é homem se já tiver saído na porrada com outro cara (eu sei, EU SEI que é uma contradição divertida). E aí, como faz?
Você pode ficar chocado com essa informação (sente-se primeiro, pegue um copo d'água), mas eu não sou briguento. Nunca tretei com ninguém. Sou uma pessoa que evita conflitos, mesmo os verbais. Sou da paz e tal, mas nem tanto por ter uma alma pacífica e conciliatória, mais por ser um cagão espetacular. E, além disso, eu tenho baixa resistência à dor e a constituição física de um louva-deus, todos atributos que alguém racional como yo levam grandemente em consideração antes de sair por aí se engatando com outro rapaz.
Mas não é a repreensão histórica que me preocupa. Não tenho problemas de não me considerarem um homem por nunca ter levado um soco na cara - acreditem, mesmo que eu já tivesse levando cem socos, ainda há ao menos uma dezena de atributos faltantes que me desqualificam dessa condição -, eu tenho é medo por causa da minha já conhecida sugestionabilidade.
Explico: Breaking Bad ainda não voltou, fica aquele vazio no peito e tal, então fui em busca de outras séries para preencher minha sede de não trabalhar nem ler um bom livro. Encontrei nos clássicos do passado The Sopranos, uma série sobre máfia e tal. E uma das coisas que me impressionam é como esse povo resolve tudo na porrada. Tudo. Eu pedi um ovo frito, ele veio com a gema meio mole, eu entro na cozinha jogo as panela no chão chuto os rato pela janela e soco a cara do cozinheiro até não dar pra saber se o que tá por cima daquele macarrão é molho mesmo.
Pois que eu sou um sujeito sem flexibilidade para lidar com os vai-vens da vida, então observo, calculo, repito. Como eu prefiro a ilha deserta à cidade grande, frequentemente meus parâmetros sociais não vem do que fazem as pessoas de verdade, mas os personagens da ficção. Então não tem sido raro nas últimas semanas eu me pegar com o desejo de partir pra porrada por causa de qualquer coisa que arranhe a superfície do meu ego inflado. Mas há uma coisa na série que não se reproduz na vida real: lá, os apanhantes nunca revidam. Eles só ficam chorando, sofrendo, dizendo porfavorsenhorbatenieunão. E como minha sensibilidade à dor é aguçada, mesmo se eu fosse bater em alguém ia acabar sofrendo por isso. Então na minha cabeça o que se passa sempre sou eu intimidando o "oponente" e ele se cagando de medo.
Motivos pelos quais isso nunca aconteceria:
1- As pessoas podem me enxergar de dois jeitos: como um maluco, perigoso, instável, impiedoso; ou como o rapaz inofensivo vindo de uma família que o criou com muito amor e que tomou Sustagen na infância pra ver se ficava mais fortinho. Adivinha qual eu sou. Adivinha como me enxergarão.
2- Eu não assusto ninguém. Eu tenho 60 quilos, meus braços são finos, minhas mãos são delicadas, meus ombros são pra frente e os joelhos são pra dentro. Eu tenho uma camiseta do Radiohead.
3- A chave da intimidação é a imponência. Então me imagino com os olhos arregalados, olhando bem no fundo da alma do filho da puta e gritando umas coisas aterrorizantes e que não fazem o menor sentido tipo EU VOU CORTAR SUAS UNHAS E PENDURAR ELAS NO VARAL. Na prática, meus olhos iam ficar lacrimejando pelo esforço de manter-se abertos e, dada minha dicção privilegiada, a outra pessoa só ia ouvir algo tipo FSGDFNAF ADPOJFSDF ADASDJ 99ADFS U. O mais provável é que ele se compadeça da minha situação e me entregue o cartão de uma fonoaudióloga dizendo "vai lá, ela é muito boa".
Sem contar que, sendo o robô programado pra abaixar a cabeça que sou, eu sempre devo pensar no que vai acontecer depois que o narrador do além gritar round one: fight. Por exemplo, se o cara estiver acompanhado de outros caras, serei massacrado. Se ele estiver com a namorada, tem traumas psicológicos já expostos. Se ele for uma criança, pode chamar o pai. Em nenhuma possibilidade eu vou me sair bem. A questão é: e se não der tempo de a interpretação tresloucada de Tony Soprano passar pelo script de pessimismo na minha cabeça e eu simplesmente começar a ofender a pessoa que tá esfregando a bolsa na minha cara enquanto eu estou sentado no metrô, dizendo coisas tipo "foda-se se você tá grávida, devia ter pensado mais antes de ir enfiando a piroca de qualquer um aí a menos que você tenha sido estuprada porque aí é mancada e eu sinto muito"? Nada de bom pode vir daí (bom, a criança vai iluminar a vida dela e tal, mas eu vou passar a enxergar o mundo com um olho só). Tudo bem que eu não sou um homem de arroubos emocionais, mas e se meu instinto de Abed suprir essa falta e me por em enrascada do mesmo jeito?
Tô precisando que Breaking Bad volte logo. Nunca tive problemas dando aulas de química.
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Thiago Padula
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sábado, 3 de agosto de 2013
Um assunto delicado de se tocar
É engraçado (mentira, é triste pra caralho) como existe essa percepção geral de que eu sou um incansável masturbador, workaholic na Amor Próprio S/A, ó fabuloso onanista. Lamento desapontar aos apontadores de braguilhas (mentira de novo, quero que vocês vão à merda), mas não é bem assim que a coisa funciona, como comprovam páginas e páginas de um relatório estatístico sério que eu encomendei e não posso publicar aqui porque óbvio que não é verdade. De qualquer modo, sendo esse blog de alguma maneira sobre a solidão, precisamos falar sobre o amor solo.
Há pessoas, acredite, que não veem a quiromania com bons olhos. "Coisa de quem não consegue arrumar mulher", dirão uns; "coisa de tarado", dirão outros. Os que são contra o aborto, pela lógica, devem considerar a masturbação um genocídio. Mas estas pessoas desconsideram todos os aspectos positivos do autoamor, e todos os largos passos que este proporcionou à humanidade. Quer um exemplo? A internet.
Se você usa a ~rede mundial de computadores~ para se conectar com seus amigos, para ler as informações mais quentes que saíram no último segundo, para cultivar fazendas virtuais ou para colocar a Galinha Pintadinha no Netflix porque afinal você tem filhos e eles precisam ser educados por alguém, tudo bem, é seu direito, é um bom jeito de usar. Mas a internet é nada mais que um grande mapa hidrográfico, e todos os rios levam para um mar de pornografia. Ou de estímulos variados à punheta amiga. Para cada pessoa que está contando uma fofoca para um superamigão há outra tentando convencer uma pobre moça a mostrar o sutiã na webcam; de cada dez notícias que pulularam nos grandes portais na última hora, seis são variações do tema "gostosa é fotografada na praia não construindo um reator nuclear"; e a Galinha Pintadinha é legal e tal, mas não quando você descobre que é possível ver a Laura Prepon com os peitinhos à mostra beijando outra moça no chuveiro. O Youtube um dia acabará, mas o xvideos, esse nunca.
E há também o benefício filosófico: a masturbação pega esses dois conceitos aparentemente distantes que são o amor e o ódio e os traz tão pra perto um do outro que não dá nem pra resumir falando em "amor/ódio", porque essa barra está dando a eles um distanciamento que não é real. O melhor seria "amoródio". "Amódio". "Odor". Desculpem.
Mas o que eu quero dizer (e há gente muito melhor do que eu me apoiando nisso) é que a masturbação justapõe a euforia e a depressão de um jeito que quase nada mais faz. Você não queria estar em nenhum outro lugar fazendo outra coisa (exceto aquilo em que você está pensando naquele momento) e logo depois você se liga de como aqueles últimos minutos poderiam ter sido gastos meditando ou brincando com o cachorro e você os desperdiçou chacoalhando o pinto pra cima e pra baixo. A punheta tem uma personalidade complexa e cativante que a tornaria um coadjuvante amado em qualquer filme ou seriado (eu não assistiria a isso, mas fica a ideia).
A masturbação faz jovens deslocados e sozinhos sentirem alguma coisa, se sentirem acolhidos. Faz o mais pragmático dos homens abrir os portões da sua imaginação habitada por planilhas e cheques especiais para um céu azul pontilhado por dragões e ilhas voadoras (digo metaforicamente, mas tem doido pra tudo). A masturbação é um dos únicos (junto com o álcool em excesso e a iminência da cadeia) cenários em que o cara tonto e sem malemolência sexual pode comer a gostosa da praia que não está construindo um reator nuclear. Quer saber, talvez ela até esteja sim construindo um.
Eu sei, eu sei, mulheres também se masturbam e eu tratei esse texto como isso sendo uma exclusividade masculina. Não é, eu compreendo. Mas, novamente, vou recorrer a gente muito melhor do que eu.
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Thiago Padula
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segunda-feira, 29 de julho de 2013
Nas narinas da loucura
Normalmente eu penso num assunto (ou numa piada) e então desenvolvo a questão mais ou menos por cima, na cabeça, até saber se dá jogo e se vale a pena sentar e escrever. Mas tem vezes (como agora) em que eu simplesmente clico em "nova postagem" e começo a escrever. Esse é o tipo de texto que eu tenho medo.
Ainda que o planejamento que eu faço seja um tanto raso (não cabe tanta coisa assim na cabeça, menos ainda na minha), ao menos ele me diz previamente em que lugares eu vou pisar, cuidado com essa quina, talvez seja melhor começar por aqui e depois ir pra lá. É um jeito covarde de escrever, mas eu vivo de um jeito covarde, então, cagão por cagão, ao menos há honestidade. Mas esses textos que saem do nada e sabe-lá-satanás pra onde vão são perigosos. Eu posso bater a cabeça. Posso pensar alto. Vocês podem me ver cutucando o nariz.
Mas todo mundo cutuca o nariz. É verdade. Só que o problema não está exatamente na invasão digital, está na evasão: quando alguém te vê com o dedão lá, vai querer saber que fim você vai dar pra meleca depois. E isso pode dizer muita coisa sobre você: é um dos prudentes e zelosos pelo circuito social que guardam o muco num pedaço de papel que será cuidadosamente depositado na lata de lixo orgânico? É um hedonista que gosta de criar a sua própria colônia de estalactites sob o tampo da mesa? É um aventureiro, servo do supremo acaso, que faz uma bolinha e dá-lhe um peteleco para os confins da aleatoriedade?
A escala de possibilidades continua. Nada disso existe se ninguém te vê cutucando o nariz. O nariz é o cofre que guarda seus segredos, o nariz é o portal por onde as mil variações dimensionais de um homem trafegam, indo e voltando, cada uma carregando nos braços a verdade, a grosseira verdade. Se ninguém te vê cutucando o nariz você é só @voce, o avatar personalizado, a figura pública, o produto bem aparado construído a partir de cem mil neuras demoníacas devidamente processadas e escondidas nas cavidades nasais. Mas se alguém vê o momento em que seu dedo - a chave - entra pela sala dos mistérios, você morre e volta a ser aquele, o horrível, o que foi empurrado para o campanário da catedral pelos gritos da professora. São apenas segundos, mas se o tempo passa e desliza e desaparece graciosamente rumo ao passado, esses segundos são permanentes, estáticos, ficam flutuando naquele mesmo ponto sem ter para onde ir.
O que eu quero dizer é: se algum dia se sentarem à minha mesa, procurem manter as mãos sobre ela, ok?
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Thiago Padula
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sexta-feira, 26 de julho de 2013
O estagiário, esse leproso
Esse texto deveria ir para o Vida corporativa de bosta, mas como este é apenas um fantasma do passado arrastando suas correntes pela noite enquanto uiva o número do seu CNPJ, estamos aqui.
O estagiário, o amigo do blog deve saber, é o profissional novato, ainda não muito experimentado nas agruras do simulacro de pós-apocalipse que é o mercado de trabalho e que possui vínculo com uma unidade de ensino - o que é por si só bastante contraproducente, já que a pessoa passa metade do dia numa sala de aula aprendendo como fazer as coisas e a outra metade num escritório descobrindo que tudo que ensinaram na faculdade não se usa mais na vida prática há uns catorze anos.
Só que as raízes do organismo social caminham por direções inesperadas, e o estagiário, aquele que está lá para aprender, de repente virou o único e eterno responsável por toda bosta que acontece num prédio espelhado. O portal de notícias publicou o obituário do vereador enquanto ele ainda está vivo? Culpa do estagiário. A loja de departamentos respondeu grosseiramente à reclamação da cliente que foi soterrada pelo guarda-roupas que estava com uma perna bamba? Culpa do estagiário. A página do Facebook do canal de TV esportivo postou uma foto do Adriano Gabiru com um texto sobre o aniversário da Sharapova? O estagiário vai ser demitido kkk.
Sejamos razoáveis, amigos. Atribuir ao estagiário (nunca é "um" estagiário, é "o" estagiário, porque todos são a mesma merda) a responsabilidade por tudo que sai de errado nessa vida não é só bastante injusto como é covarde. Por debaixo dessa piadinha inocente sobre a inexperiência do jovem profissional há uma sutil afirmação: quem já tá nessa vida há bastante tempo criou sobre a pele uma camada invisível de fodeza que o torna imune ao erro. Se alguém errou, é o moleque. E, ora bosta, é esse tipo de hierarquização etária trouxa que torna a vida profissional uma coisa tão desagradável de encarar.
E você pode dizer que é só piada, que é só gracinha, e eu direi que de piada sem graça o mercado de trabalho tá cheio. E de gente que assume o erro, tá vazí. É mais fácil ficar na chacota de que o estagiário só erra, que o carioca é folgado, que o nordestino não gosta de trabalhar, que mulher bonita só tá em cargos altos porque deu pra alguém. Principalmente porque lá no fundo, eu sei (não me engane), muita gente acredita mesmo nisso. A vida corporativa é um mundo 2D em que estereótipos são verdades. E, como a gente trabalha mais do que vive, você já sabe o impacto negativo dessa história nas nossas vidas alegres.
E se você reparar que em determinado momento o texto deixou de ser uma alegre tiração de sarro e passou a ficar carrancudo e amargo, é porque foi nessa hora que eu descobri que o Bruce Springsteen vai tocar em São Paulo (depois de eu ter gastado os olhos da bunda para ir vê-lo no Rio). Queria ter um estagiário pra socar agora.
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Thiago Padula
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14:56
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