quarta-feira, 9 de julho de 2014

Obrigado, Harry Potter

25 de novembro de 2001, domingão à tarde, ligam lá em casa. Vamo ver o filme do Harry Potter, querem ir? Queremos. Meu irmão e minha prima liam os livros, gostavam e tal, e eu achava a experiência de passar uma tarde de domingo no cinema sempre divertida, qualquer que fosse o filme. Pois lá passamos duas horas e alguma coisa aprendendo sobre bruxos jovenzinhos que vão pra escola e jogam bola em cima de uma vassoura. Pra ser sincero, achei tudo uma bobeira sem fim, mas qualquer atividade era melhor que ficar em casa desenhando, como de costume.

Na volta a gente desceu na casa da prima e do primo, e na TV passavam os minutos finais do jogo sagrado de domingo. Mas o resultado na tela foi uma cacetada nas minhas pretensões de vida: Vasco 7x1 São Paulo. Minhanossassenhora, como foi que isso aconteceu? Rogério foi expulso, diziam os comentaristas, aí entrou o Alencar, maior frangueiro que eu já vi no futebol profissional. E por um peruzeiro no gol contra o Romário é garantia de massacre. Fiquei meio zonzo, meio atordoado, mas por pior que fosse, não chegava a ser tão terrível. Pior seria assistir o jogo inteiro, ver cada gol acontecendo, cada bola entrando, cada cagada da defesa, cada comemoração da torcida adversária. Ver só o resultado no final é como ler uma notícia sobre uma catástrofe, que você pensa "oh não, que coisa terrível" mas secretamente agradece que não foi com você. E por isso eu só podia direcionar meus agradecimentos a ele: Harry Potter. Se eu fosse crítico de cinema, teria adicionado mais uma estrelinha pro filme na hora. Vida longa a Hogwarts, quadribol é melhor que futebol, vai Grifinória (ou qualquer que seja o nome daquela que tinha os mongolão, que era mais o meu perfil).

De lá pra cá, muito mudou. O São Paulo ganhou três títulos nacionais, o Vasco foi rebaixado duas vezes, os livros do Harry Potter acabaram, os filmes do Harry Potter acabaram (não com a minha audiência), a Hermione cresceu (com a minha audiência), eu parei de desenhar e ir no cinema perdeu um pouco da graça. Foram 12 anos e meio, e só agora eu me senti confortável pra falar sobre esse assunto, sobre essa goleada tão acachapante, tão desmoralizadora, tão voldemortesca.

Então em 2027, se eu ainda estiver vivo e se esse blog ainda existir, a gente conversa sobre o que aconteceu essa semana.

sábado, 5 de julho de 2014

Um lugar na história



Eu sei que já escrevi isso por aqui antes, mas vamos lá: eu adoro Copa do Mundo. E apesar de essa estar sendo, até aqui, sensacional - ao menos desportivamente - eu ainda via um certo problema de encaixe histórico nessa seleção brasileira que não a credenciava ao título. E por "credenciar" eu quero dizer que eu não aceito, não com essa bolinha aí.

Estou sendo babaca, já aviso agora. O que eu quero dizer é que, dado o meu apreço pela história das Copas, eu posso tender a ser meio superprotetor com quem eu acho que tem o direito de ser campeão (e eu entendo que se há uma coisa que não tem o menor impacto nisso tudo é a minha opinião). Cada Copa precisa ser uma história, e cada campeão precisa ser um carregador digno dessa bandeira. Ou por se impor tecnicamente sobre os demais (Brasil em 58 e 70), ou por oferecer um desfecho trágico àquele que se impõe (Itália em 82, Alemanha quase sempre), ou por oferecer à conversa o grande craque que se torna o símbolo da conquista (Maradona em 86, Romário em 94, Zidane em 98). E a seleção brasileira dessa Copa de 2014 não tem nada disso: é um time fraco, não-competitivo e cujo tal craque ainda carecia de se demonstrar à altura da tarefa.

Mas então o Brasil jogou contra a Colômbia pelas quartas de final e fez uma boa partida, claramente melhor que as anteriores, claramente insuficiente ainda do ponto de vista técnico. A Colômbia era um grande adversário por ser, essa sim, uma seleção que já havia ocupado seu espaço na história. Vencê-la era um ponto fundamental para o Brasil almejar a mesma coisa, mas ainda não era tudo. Até que no segundo tempo de um jogo em que imperou a lei do sarrafo (de lado a lado) o lateral Zuñiga tentou subir uma escada invisível mas foi deselegantemente interrompido pelas costas de Neymar, encerrando a participação do craque canarinho na Copa que era pra ser sua. Zuñiga e seus familiares foram xingados e ameaçados de morte e outras violências naquilo que há de ser deus testando a humanidade e esta falhando miseravelmente. Faltam escolas no país, é verdade, mas tem faltado também a boa e velha educação que se recebe em casa.

Sem Neymar, lamento dizê-los, o Brasil é um time tão capaz de vencer uma Copa do Mundo quanto eu sou de namorar a Bruna Marquezine. E foi assim, com uma joelhada nas costas e uma lesão infeliz, que a seleção brasileira paradoxalmente se encaixou no fluxo da história e se tornou merecedora do título, ao menos nos meus exigentes critérios.

A seleção brasileira é muito ruim. Meu deus, horrível. Tem dois zagueiros fabulosos, mas também tem o Jô, provavelmente o pior jogador a calçar uma chuteira em todos os tempos, e olha que eu já calcei uma. Mas um time desses vencer a Copa, apesar de todas as suas limitações, impulsionado apenas pelo apoio popular e pela vontade de entregar essa taça a um dos seus (o que é bem diferente de vingança, seus filhos dumas puta) é justamente o que tornaria esse título espetacular, uma das melhores histórias a se contar sobre uma Copa do Mundo. Não seria o Brasil de 70 nem a Argentina de 86, mas seria melhor ainda: seria como o Uruguai de 50.

E isso seria provavelmente o desfecho mais poético de todos: ganharíamos finalmente o mundial em nossa própria casa, exatamente da maneira como perdemos a primeira vez. Dessa vez não seremos vítimas do Maracanazo, mas AGENTES dele. A partir de agora, eu estou proibindo qualquer outro time de ganhar essa Copa: seria um crime contra a história. O futebol é técnica e tática, mas é, antes de tudo, um livro cheio de páginas em branco. Seria escrotice escrever uma história ruim nele.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Orkut

Eu entrei no Orkut acho que em 2004, e me matei em 2005. Na época as coisas eram diferentes, redes sociais eram novidades e as pessoas até usavam termos hoje obsoletos como "web 2.0" e "urru novo jogo do Sonic". Pra entrar no Orkut você precisava ser convidado, uma dessas babaquices exclusivistas que existem desde sempre na internet porque tem pessoas que querem se sentir importantes. E pelas estalactites de mágoa que se penduraram na frase anterior você deve ter adivinhado que eu tive alguma dificuldade pra participar do negócio.

Não vou negar: eu acessei o Orkut do meu irmão e me convidei. Comecei minha carreira nesse universo das redes sociais como um larápio que ganha acesso a um local para onde não foi convidado porque esse mundo não foi feito para essa gentalha. E eu percebi isso depois de pouco tempo: o Orkut era como uma festa em que o único lugar confortável para você é o canto da parede. Era muita amizade, muita curtição, muitos scraps, muitos depoimentos. Eu só tive um depoimento: "Padula, você merece mais do que essa vida miserável que você leva". Obrigado, amigo.

Como eu nunca me dei mesmo à interação social, pulei do topo do prédio e enterrei meu crânio no esquecimento digital. Como diziam, se você não estava no Orkut você não era ninguém, e essa função me cabia melhor. Voltei às redes sociais vários anos depois, porque a gente envelhece e amolece, mas nunca me senti totalmente à vontade ou tive certeza de que estava me comportando direito (o Twitter deve servir pra mais coisas do que apenas xingar os jogadores do São Paulo gratuitamente, por exemplo). E então essa semana surgiu a notícia de que o Orkut será finalmente encerrado no dia 30 de setembro.

E eu criei uma conta nele.

Senhores, não quero ser palhação (embora eu seja) ou saudosista brega (embora eu seja embora eu seja). Mantenho minha posição inicial: esse mundo de gente feliz, sorte do dia e o que falar desse cara que eu mal conheço mas já considero pacas continua não sendo pra mim. Porque eu não gosto de gente feliz, não gosto de sorte, não gosto de dia e posso garantir que o melhor é que eu mal conheça esse cara, porque me dá mais uma semana e eu não vou gostar dele também. Mas vocês sabem o que é o Orkut hoje? Um mundo que já viu o apocalipse e agora vê o rastro vermelho do cometa vindo terminar com tudo.

Não há mais jovens e hormônios. Eu ando no chão poeirento e piso em cadáveres, em corações e gelinhos despedaçados, em gifs animados e flyers de balada. Eu vejo pessoas conhecidas congeladas, com a aparência de 10 anos atrás. Eu passo na frente de um grande coliseu chamado "Eu odeio as segundas-feiras", aos pedaços. O céu é sempre vermelho, o silêncio predomina.

Essa é uma rede social pra mim, caro leitor. Gélida, vazia, com todos os componentes que simulam um universo fantasioso adequado à minha imaturidade. Eu nem fico zanzando, procurando conhecidos ou explorando comunidades. Só fico lá, no silêncio. É agradável. E o fim do mundo é um cenário que me fascina - não lembro se postei aqui sobre isso, mas já escrevi uma música -, de modo que eu não poderia escolher um lugar melhor pra sentar numa cadeirinha de praia e ver o horizonte se desmanchando.

Óbvio que nada disso vai acontecer de verdade, mas essa é uma das vantagens de ser um bobão: as coisas são bem mais legais na minha cabeça.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O Mario Kart, a Copa do Mundo e a prótese de silicone emocional

Já tem alguns dias (ou semanas) que toda minha atividade cotidiana foi drasticamente reduzida a apenas acompanhar a Copa do Mundo (os jogos, entre eles as entrevistas, depois deles os debates) ou jogar Mario Kart 8, numa espécie de hibernação contraproducente que, infelizmente, há de acabar.

E se digo infelizmente é, na verdade, por uma confusão de significados: embora eu esteja desanimado com a perspectiva de uma vida sem futebol o dia inteiro e sem personagens novos pra desbloquear, essa tal rotina de momento tem me feito, se tanto, infeliz. E eu estou achando muito bom.

Eu sou quase um robô, uma criatura mecânica sem a capacidade de amar criada somente para uma missão: falhar miseravelmente. Confesso que tenho uma certa dificuldade com sentimentos: embora eu já tenha me declarado chorão (digo, um amigo meu) em outro texto, as lágrimas funcionam muito mais como uma resposta genérica a um estímulo com o qual eu não estou confortável (praticamente todos eles) do que um arroubo emocional não planejado. Eu reajo muitas vezes mais de acordo com o protocolo social do que por espontaneidade, visto que, na prática, eu não sou muito capaz de sentir qualquer coisa além de calor e vergonha.

Talvez nesse ponto esteja parecendo que eu sofro da síndrome de Asperger, mas considere que eu exagero um pouco as coisas.

E é aí que entram o futebol e o videogame. Com todos os jogos maravilhosos que tem acontecido nessa Copa, eu posso sentir a adrenalina, a vibração, as emocionantes jornadas de gigantes que tombam e dos guerreiros que os derrubam, do herói que renasce das cinzas da incerteza para retornar à desgraça de sempre, do capitão que perece afogado em suas próprias lágrimas. Cada jogo é um pequeno épico, é um novo conto, e eu me aproprio de toda essa miríade de emoções como se elas fossem minhas de nascença e de direito. É uma prótese de silicone sentimental, alguém poderia dizer.

Porque assim como a moça que não está satisfeita com suas dimensões mamárias ou o rapaz que nasceu com a coisa errada entre as pernas, eu estou aqui tentando preencher uma lacuna pessoal com artifícios produzidos, de certa forma, em laboratório. A humanidade tem avançado para isso, e que deus abençoe os malditos ingleses ou os pais do Miyamoto por permitirem a esse homem de lata o direito a sentir coisas. Por outro lado...

Por outro lado o mundo é cruel e filho da puta. E o universo, ah, ele há de te arrebentar. E os jogos folclóricos divertidos urru que maravilha é o futebol se transformam em prorrogações, bolas na trave e Daniéis Alveses. E o Mario Kart carros coloridos pistas divertidas música feliz fatalmente se converterá em onze gringo na internet jogando casco vermelho e verde e azul na sua bunda bem quando você vê a porta da glória lhe sorrindo, mas você não consegue sorrir de volta. Cuidado com que desejas pois... alguma coisa. Eu queria sentimentos, e todos eles vieram na forma de sofrimento e dor.

Mas é melhor que nada. E é por isso que lamento por antecipação o fatídico dia em que um ricaço levantará uma taça dourada e que a última rodinha do kart estará disponível no menu. Ao menos a moça peituda e o rapaz que deixará muitos bêbados arrependidos poderão usufruir de seus apêndices artificiais pelo resto da vida. Já eu continuarei no meu esvaziamento habitual.

Pelo menos até sair o próximo Smash Bros :D

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Gol roubado


Quando estreou na Copa de 2002, a seleção brasileira venceu a Turquia com um gol descabeladamente roubado, e eu não comemorei. Na verdade, não comemorei mais nenhum gol até o jogo contra a Bélgica, que também se viu prejudicada pelo apito amigo verde e amarelo. Sendo assim, também não vibrei com o segundo gol do Neymar hoje, fruto de um pênalti tão sem vergonha que vai conhecer os pais da namorada e bebe o whisky do sogro e passa a mão na bunda da sogra. E não me agitei no gol do Oscar, mas isso pode ser porque eu odeio esse filho da puta e quero que o calção dele pegue fogo na hora do exame antidoping.

Mas se fosse um jogo do São Paulo, olha só, a história seria outra. Se o tricolor ganhasse de 5 a 0 com cinco gols roubados eu comemoraria todos eles e no final ainda beijaria o juiz (se eu torcesse pra outro time seria só a parte da comemoração). Mas isso não porque eu quero que o São Paulo ganhe, mas porque eu PRECISO que o São Paulo ganhe. É uma questão de saúde, naquele ponto em que você tolera pequenas desonestidades em troca de algo mais importante, como a mãe que rouba comida pros filhos não passarem fome.

Só que a seleção é a minha possibilidade de acompanhar o futebol como ele deve ser visto: de maneira saudável, amigável, bacana, sem que eu termine com tremedeira ou apontando uma faca pra garganta de alguém. É minha chance de conhecer o que há de maravilhoso no futebol, de vê-lo como um bolo de chocolate e não como um cachimbo de crack. E aí, já que eu estou de turista no Pão de Açúcar do esporte e sou uma pessoa fundamentalmente honesta, me dói ver esse tipo de coisa: o cara que se joga no chão, o juiz que é um jumento, o adversário que jogou limpo e levou no cu mesmo assim.

Claro que eu não acho que a Copa está comprada e esse tipo de coisa. Você pode dizer que eu sou inocente, mas vou lembrá-lo de que eu sou mais esperto que você. Mas, poxa vida, com tanta coisa escrota envolvida no planejamento, na execução e no submundo político da Copa, a única coisa que salva nela - o esporte em si - devia rolar sem peso na consciência depois. Vejamos o que vem daqui pra frente.

(na categoria karma ruim vale lembrar que depois de levar aquela Copa com o gol de mão do Maradona a Argentina nunca mais ganhou nada, então cuidado aí)

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Por que eu vou torcer pelo Brasil na Copa

Quatro anos atrás, nos dias que antecediam a Copa da África do Sul, eu publiquei um texto chamado "Por que eu vou torcer pela Argentina na Copa", motivado por essa mania besta em período pré-mundial de despejar sentimentos negativos em cima dos vizinhos que além de não ter nada a ver com a baixa autoestima do Galvão Bueno ainda sequer podem ser considerados um rival à altura da seleção brasileira, convenhamos. Esse post também é um dos campeões de audiência do blog, ganha um doce quem adivinhar o motivo.

E então não deixa de ser divertido perceber que quatro anos depois eu não só estou repetindo o assunto como ainda estou mudando o objeto do post para, justamente, a seleção do país onde eu nasci. São circunstâncias do tempo. Torcer contra a seleção não é mais apenas a melancia no pescoço do sujeito que é meio pamonha e precisa chamar a atenção, agora é uma posição política, um manifesto contra os absurdos feitos e desfeitos nos últimos sete anos por quem deveria fazer dessa Copa um evento que colocasse o Brasil de vez no primeiro escalão nas nações do mundo. Foda-se a Copa, eles bradam, foda-se a seleção brasileira! Um professor vale mais que o Neymar!

É por todo esse contexto e essas circunstâncias que eu achei que devia, portanto, esclarecer a minha posição. Dados todos os acontecimentos e o peso político do maior torneio do maior esporte do maior planeta rochoso do sistema solar, eu decidi vir a público esclarecer por que eu vou torcer pelo Brasil na Copa:

Porque eu quero.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Barcelona x São Paulo: a batalha final

Cheguei da minha superviagem há três dias e ainda estou tendo que me readaptar aos costumes de nossa terra natal (pra ser exato, o meu relógio biológico é que ainda está no fuso horário errado). Mas passada a euforia que se apodera de nós no momento do retorno e o consequente banho de água fria com duas horas pra sair do aeroporto + uma hora e meia de trânsito + o chuveiro pegar fogo + gripar, agora já dá pra avaliar melhor as características principais da adorável cidade de Barcelona. E, como tudo fica mais fácil de compreender a partir de uma referência, decidi por a capital da Catalunha e a capital do estado de São Paulo para competirem numa batalha intensa e sangrenta pelo título de melhor cidade em que eu já passei mais de uma semana (são as únicas).

Vamos às regras: as cidades competirão em uma série de categorias, sendo desde conceitos gerais até desafios específicos. A cidade que vencer a categoria ganha um ponto, e ao final do post vence quem tiver mais pontos. Simples.

Já aviso aqui que não pretendo ser parcial ou piedoso. Meus critérios são muito sólidos e meu julgamento se baseará somente em fatos, evidências, números. Nada de opiniõezinhas, nada de "eu acho que". Estamos lidando com coisa séria aqui.

Sem mais, vamos à SUPERTAÇA MUNDIAL DE CIDADES 2014 (clap clap clap clap clap):


FC Barcelona x São Paulo FC

Primeiramente devo explicar que, embora haja mais equipes de futebol em cada uma das cidades, eu escolhi apenas as relevantes (ninguém ia querer ver um desafio entre Espanyol e Palmeiras, pelamordedeus). O Barça é o orgulho da cidade: em toda esquina há uma loja oficial do clube, e entre as esquinas há diversas lojas vendendo produtos piratas. Fundado em 1899, é hoje um dos maiores clubes da Europa e o maior vencedor do continente nos últimos anos. Sua camisa já foi vestida por craques históricos como Maradona, Romário, Stoichkov, Laudrup, Ronaldinho Gaúcho e Messi e o Camp Nou, seu estádio, é o maior da Europa. Foi bucentas vezes campeão espanhol, duas vezes mundial e os quatro títulos europeus são expostos com destaque e orgulho no museu do clube.

Mas nada disso os impediu de levar dois cacetes do São Paulo de Telê e Raí.

Ponto para São Paulo.


Tibidabo x Pico do Jaraguá

O Tibidabo é uma montanha que recorta toda a margem oeste de Barcelona, o que é particularmente útil quando você é um turista panaca que vai entrando em qualquer viela e não sabe como voltar depois. No topo da montanha tem uma igreja, no topo da igreja tem um Jesus, e lá é alto pra caralho. Também tem um parque de diversões, o qual eu só olhei a uma distância segura porque, como eu já devo ter escrito aqui alguma vez, eu morro de medo de montanha russa.

E o Pico do Jaraguá, ah, quem nunca foi lá? Tem antenas, tem algodão doce, tem patos (tem patos? faz muito tempo que não vou). O Pico do Jaraguá é o ponto mais alto da cidade e eu estou enrolando aqui pra arrumar coisas pra falar sobre ele.

Mas, entre os dois competidores, apenas um deles foi citado num episódio de Friends. E aí fica difícil eleger outro vencedor.

Ponto para Barcelona.


Vendedores ambulantes, parte 1: cerveja

A principal razão de eu ter feito toda essa viagem foi um festival de música que, a exemplo de todos os outros festivais de música do mundo, não tinha o Volto Logo Joyce no seu line up. E, vocês sabem, ao redor de eventos assim sempre há os ambulantes vendendo bebidas a preços menos abusivos que os praticados depois do portão. E lá em Barcelona os caras simplesmente seguram uma latinha na mão (ou aquele six-pack, com um bagulho de plástico unindo todas) e ficam dizendo "beer. beer." SEGURANDO A CERVEJA QUENTE SOB UM SOL DE 18 GRAUS (lá isso é muito).

Em São Paulo as bebidas ficam geladinhas dentro do isopor, e além de cerveja você pode comprar refrigerante e água, muito embora a água possa ser somente o gelo do isopor que derreteu. Evite a água.

Ponto para São Paulo.


Vendedores ambulantes, parte 2: apito

Ao caminhar pelos espaços mais dados ao comércio e ao turismo, como La Rambla e a rua 25 de março, você encontrará, é claro, vendedores de todo tipo de merda que só alguém muito idiota compraria (voltei com uma mala cheia). Um dos produtos em comum é um tipo de apito que você põe entre os dentes e faz barulhos divertidos - e eu só não digo que é um kazoo porque eu não sei se é, mas parece um bocado. Em Barcelona, a batalha pela atenção dos turistas provoca um festival de talentos entre os vendedores, cada um improvisando uma canção diferente e mostrando toda a versatilidade de algo tão pequeno e aparentemente simples, numa bela mensagem de que a criatividade supera todas as limitações.

Em São Paulo, todos - absolutamente todos - os vendedores usam esse apito pra gritar "ai titiiiiaaa".

Ponto para São Paulo (porque família vem acima de tudo).


Gente bonita

Aqui temos um exemplo da seriedade dessa competição. Outra pessoa poderia dizer que as pessoas em Barcelona são obviamente mais bonitas, que parece que você é figurante num seriado de televisão, que se apaixonou por todas as mulheres e que com alguns homens até considerou que a homossexualidade não fosse uma má ideia. OUTRA PESSOA diria isso, OUTRA PESSOA! Mas não eu. E por que?

Porque, amigos, a beleza exterior não importa. É tão frágil quanto uma vaca num furacão, tão perecível quanto uma camiseta nova lavada pela moça que faz limpeza aqui em casa. O que importa são os valores, é a bondade, a lisura, a educação, a honestidade, a amizade. Isso dura pra sempre. Beleza exterior é masturbação, mas beleza interior é amor verdadeiro.

Empate.


Conscientização política e social

Em São Paulo, principalmente desde junho do ano passado, o povo não é tímido ao ir às ruas demonstrar sua insatisfação contra tudo que lhe aflige. Protestam por diminuição na passagem do transporte, por melhor educação, por mais salário para os professores, pela legalização da maconha, contra o racismo, contra a homofobia, contra o machismo, contra desapropriações, contra a corrupção, contra a maldade, contra dores de garganta, contra esses eventos engraçadinhos do Facebook, contra gente que faz uma lista imensa de coisas e dá uma indireta sutil lá no meio porque não é homem pra falar na cara. O paulistano não aceita desaforo, porque é só acontecer algo ruim e nós vamos para a rua pintar nossa cara e tirar selfies e postar com a hashtag #vemprarua.

Em Barcelona, nos nove dias em que estive lá, vi três manifestações: uma alertando o mundo para as coisas horríveis que acontecem na Venezuela, com diversos cartazes mostrando números que denunciam a situação do país; uma com o mote Free Biafra, pedindo a independência da região que fica ao sul da Nigéria e que já foi um estado soberano entre 1967 e 70, mas acabou sendo reincorporada ao restante do país graças à ferramenta diplomática mais poderosa que existe: a porrada (e é óbvio que eu pesquisei tudo isso na wikipedia, na hora achei que fosse o fã clube africano do Dead Kennedys); e uma, essa sim finalmente dos cidadãos catalães, pedindo cadeia para os corruptos e coisa e tal.

Ou seja: enquanto o paulistano tem grande consciência política e não se deixa ser ofendido pelos poderosos, o barcelonês é apenas uma marionete do governo, que compra a submissão de seu povo com suas ruas limpas, seu transporte que funciona, sua educação privilegiada, sua qualidade de vida. Alienados! Vendidos!

Ponto para São Paulo.


Altitude

São Paulo: 760m
Barcelona: zerooooooo

Ponto para São Paulo.


Resultado final

E ao final de nossa competição, São Paulo tem 5 pontos enquanto Barcelona tem apenas 1. Uma senhora lavada, que apenas comprova o que vocês todos provavelmente estavam pensando desde o início do post: as cidades europeias podem até ter estudado nas melhores escolas particulares, mas nunca serão aprovadas no vestibular da vida.

Encerramos aqui nossa transmissão. A seguir, provavelmente muitos textos sobre futebol porque a Copa vem aí. Fique conosco.