segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Mais jabá

Mais jabá? Mais jabá.

Na próxima quarta-feira, 20 de novembro, meus correligionários e eu tocaremos na Praça da República, em São Paulo (não na praça exatamente). É feriado, dia da consciência negra (como se os pobres afrodescendentes já não tivessem sofrido o bastante), e dá pra chegar, beber, ouvir nossos alaridos e ir me atualizando sobre São Paulo x Ponte Preta, porque eu estarei um pouco ocupado diminuindo a expectativa de vida dos incautos que comparecerem. Só bons motivos, olha só.

Tem um evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/217860498394611

E um flyer horrível:


Eu se fosse você, ia. Na verdade não ia, não, mas se você fosse eu, iria. Porque aí você teria que tocar. Não sei como isso pode ser um fator de convencimento pra alguém, mas também não sei como tem gente que gosta desse blog, e aqui está você.

Melhor eu parar. Até lá, então.

domingo, 10 de novembro de 2013

A gente se veste do mesmo jeito porque se sente do mesmo jeito

http://www.reverbcity.com/produto/Camisetas/T-shirts/Blur

Já que não sou de colocar fotos minhas no blog, cabe dizer, antes de ir direto ao assunto, que eu me visto assim: camiseta, calça jeans, tênis. A camiseta pode ser de time (difícil), de banda (de vez em quando) ou lisa (o mais normal). Então se um dia você encontrar na rua um cara de camiseta branca, jeans e tênis da Adidas, já sabe: provavelmente não sou eu, mas pode ser.

Passei o último sábado numa epopeia particular para ver o Blur, uma das poucas coisas que faltavam na minha lista de shows obrigatórios pra assistir antes de morrer (vem, Neil Young). Aparei a barba, tomei banho, peguei meu tênis da Adidas mais confortável e fui na camiseta que estava separada desde o começo da semana: uma verde com caixinhas de leite que caricaturizam os integrantes da banda. Ela estava lá havia tanto tempo aguardando esse dia, e esse dia chegou. Não era só uma realização minha, era da camiseta também.

E aí na fila pra entrar eu vejo um cara com a camiseta igual. Bem, era de se esperar, é a grande banda do festival, vai ter mesmo um ou outro usando essa aí. Passando a catraca, vejo mais uma moça. E depois mais um, e mais um e mais outra. Faço uma volta completa em torno do meu próprio eixo e avisto quatro. Não, pera, tem mais um no fundo.

Era uma legião de pessoas com a camiseta verde do leitinho (sendo mais correto, alguns estavam de vermelho, mas com a mesma estampa). Lembrei de End of a Century: a gente se veste do mesmo jeito porque se sente do mesmo jeito. Não que eu ligue pra qualquer aspecto do mundo fashion, mas quando você tem uma camiseta diferente e ela acaba sendo igual, isso meio que te rebaixa como indivíduo e te joga num comboio cheio de gente sem cara.

(Camiseta de time é outra história, gente, é diferente)

Entretanto, foi um grande, grande show. Que banda, amiguinhos. Era pra ser uma realização minha e da camiseta, acabou sendo só minha. Mas, já que a cidade da felicidade era pequena demais para nós dois, a camiseta que se foda.

Se não afirmo minha individualidade pela vestimenta, afirmo pelo egoísmo.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Nelson

Era um fim de tarde de domingo típico, em que eu voltava pra casa depois de passar o fim de semana a mil (sendo paparicado na casa dos meus pais). Cheguei no portão e fui recebido pelos três cachorros, naquele fervor habitual. E enquanto eu habilmente destrancava o cadeado, com todo cuidado e firmeza pra não deixar a chave cair e eu ficar panguando do lado de fora (já aconteceu), ouvi um quarto latido, mais grave, mais rouco. Que diabo é isso. Abri o portão, fechei o portão, abri a porta de casa e tá lá dentro um cocker gordo e marrom de grandes olheiras (e orelhas, claro) que eu nunca tinha visto na vida.

Sei lá quem é esse cara, mas e aí véi, beleza, passa a mão na cabeça e tal. Minutos depois recebo mensagem de uma amiga (que não vou nomear porque ela ainda vai se tornar vilã até o final do texto) dizendo "já conheceu o Nelson?". Ah, então esse é o Nelson. Nelsão.

Ele foi encontrado amarrado num poste, debaixo de chuva. Alguém viu, socorreu e hospedou num pet shop. Outro alguém soube e resolveu levar para um lugar mais aconchegante, até achar alguém pra adotar. Esse lugar era lá em casa (esse pet shop devia se chamar Gomorra, porque imagina).

Nelsão é uma figura. Ele faz barulho igual o primeiro modelo do PlayStation 3, aquele grandão. Ele tem um bafo desgraçado. Ele peida. Ele fica parado do seu lado te olhando por horas, se deixar. Ele tem uma pirocona que só não me deixava apavorado porque eu sabia que ele não conseguia subir na minha cama. Ele foi adotado por outro casal, e a vida ficou triste, e depois ele voltou pra cá, e a vida ficou feliz de novo. Era meu companheirão, ainda que o fato dele ficar parado te olhando por horas seja mais digno de preocupação que qualquer outra coisa.

Então um dia eu estava resolvendo burocracias em recantos engravatados de São Paulo e, na plataforma do trem, recebo outra mensagem, da mesma pessoa, dizendo "achei os donos do Nelson".

Digressão: a gente notou, pelos hábitos e pela educação, que ele foi bem criado. Digo, ele peidava e tal, mas minha família toda faz isso. Então o evento dele estar amarrado no poste deve ter sido um acidente. Decidiu-se procurar os donos antigos. Voltemos.

"Achei os donos do Nelson". Assim, plau, na fuça. E vou dizer que esse não foi dos dias menos ridículos que eu já vivi: embora eu compreendesse a força desse momento, de como era legal o Nelsão voltar para o seu lar, de como era incrível ter-se encontrado uma agulha nesse palheiro interminável, a frustração me escorria pelos olhos. E assim o fez durante o dia todo, mas por sorte eu consegui camuflar com a rinite (lágrimas e catarro / molham o vidro da janela / mas ninguém me vê).

Os donos do Nelson (que na verdade se chama Boris, hunf) buscá-lo-iam naquela mesma noite. Mas naquela mesma noite eu já estava compromissado com os meus tolos sonhos de sucesso e relevância, de maneira que só fui pra casa pegar minha guitarra, meus pedais e correr pro estúdio. Como humilhação nunca é o bastante, ainda deu tempo de pegar o violão e me despedir do meu amigão com uma canção que eu havia composto em tempos anteriores e se chama "Eu vou deixar vocês pra trás" (que eu copiei de um lado B do Oasis, conta pra ninguém). Não consegui, fui engolido pela emoção.

Que fique bem claro que embora eu costume exagerar e incrementar adereços patéticos às minhas histórias para fins cômicos, dessa vez aconteceu exatamente como descrito, por mais vergonha que eu tenha de admitir.

Então eu fiz o caminho inverso daquele do primeiro dia: passei-lhe a mão na cabeça, atravessei a porta, depois o portão, tranquei com o cadeado. Quando voltei, Nelsão não estava mais lá. Se foi pra sempre o meu amigo.

Como eu sou muito bom com datas (e confesso que já tentei escrever um post sobre isso, mas ele conseguiu o inacreditável feito de ser ainda menos interessante que a média publicada), sei que hoje faz um ano da ida do Nelsão, da volta do Boris. Da última vez que soube, uma ou duas semanas atrás, ele estava mal: estava internado, problemas renais. Não sei qual a situação atual e, na moral, também não quero saber. Deixa eu achar que ele tá peidando e encarando por aí, como sempre. Aceitações racionais não funcionaram pra mim um ano atrás, não vão funcionar agora.

Meu amigo vai viver pra sempre e pronto.

Sei que essa foto não combina com a frase final do texto, mas era essa ou uma que somada ao parágrafo sobre a piroca dele poderia levantar suspeitas que eu não tô com a moral assim tão alta pra combater.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Vingança, índios e salgadinhos fedorentos

Eu trabalho nesse lugar que eu trabalho há quase dois meses. É na Vila Mariana, é perto do metrô, é bom. Descobri, pouco antes de iniciar minhas aventuras aqui, que era possível ir andando do trampo pra casa (e vice-versa, mas isso significaria perder minutos preciosos de sono), desde que estivesse disposto a dar uma caminhadinha não desprezível. Eu sempre estou, então tenho feito o percurso da liberdade quase todos os dias desbravando as ruas da zona sul de São Paulo com nada mais que minhas pernas, minha mochila e minha vontade de correr esse mundo em busca de vingança contra o assassino de meu pai.

Meu pai tá vivo, eu que me deixei levar, perdão.

Ainda no começo do trajeto, onde cruza a Vergueiro com a Lins de Ivans Vasconcelos, há uma praça pequena e dentro dela uma quadra de futebol de salão. Os portões estão sempre abertos, qualquer um pode chegar e jogar. Só que...

Na primeira vez que eu passei lá, estava indo ensaiar com a gloriosa e achei estranho uma quadra pública vazia numa cidade do tamanho de São Paulo num país devotado ao futebol como o Brasil. Na segunda vez, já nesse circuito trabalho-casa, a quadra continuava vazia. E continuou vazia todas as vezes que eu passava lá, apesar de sempre ter pessoas na arquibancada improvisada fazendo aquilo que a gente sabe que os jovens fazem de melhor: viver. Poderia-se achar que essa presença de pessoas em estados alterados de consciência contribui para afastar os potenciais jogadores, mas não, qualquer um que já desbravou o futebol amador nesse país sabe que não é futebol se não tiver maconha e armas de fogo.

Comecei a pensar, então, que a razão mais lógica para esse bizarro fenômeno era que a praça foi construída em cima de um campo de futebol indígena, onde os nativos de tempos mais simples batiam a sua bola jogando com as cabeças e aquela coisa toda. Por isso a quadra estava agora amaldiçoada pelos espíritos dos índios craques do passado, como aquele grande time do Tabajara que venceu o Guarani e levou a Copa Vergueiro de 1490. Ora, o que mais poderia ser, certo?

Bom, poderia ser que as pessoas não tavam afim de jogar naquela época, porque agora o diabo da quadra tá sempre cheio e eu perdi o timing do post. Mas num dia a gente perde, no outro a gente ganha: descobri também nesse trajeto um mercado que vende Magikitos, o pior salgadinho do mundo. Dá pra sentir o cheiro daquela desgraça com o pacote lacrado. É irresistível.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Vamos faturar

Além de escrever nesse blog e ter um trabalho normal, alguns de vocês devem saber que eu tenho uma banda. Ah, a banda.

Pois a banda está lançando coisas: é um EP com três faixas chamado 13 minutos, porque ele dura 13 minutos. Não passou o caminhão da criatividade hoje. As três músicas foram escritas por mim, e devo advertir que escrevendo músicas eu sou ainda pior que escrevendo prosa, então você imagine o nível do negócio. Pior, são três canções sobre o amor, e eu não sei nada sobre o amor, porque quando eu pensei que era amor, não era, era cilada.

Como deu um trabalho do caralho pra fazer esse negócio - trabalho suficiente pra sobrescrever o tempo que eu teria para compor um texto para esse blog e cumprir a meta mensal - sinto que é meu dever vir aqui avisá-los e apresentá-los a essa pérola da música pop velha-demais-pra-ser-emo-jovem-demais-pra-ser-careca-mas-a-genética-é-foda-ops-estou-fugindo-do-assunto. Aí se vocês quiserem vocês ouçam, se não quiserem não ouçam, se gostarem espalhem para os amiguinhos, se não gostarem ninguém está aqui para julgar.


Agradeço a atenção, voltaremos à programação normal no top de 5 segundos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Bunda pra cima

A deusa da coordenação motora nunca beijou meus lábios. Quando pequeno, costumava deixar os lápis caírem toda hora, o lanche estava sempre no chão, meus dedos frequentemente ficavam grudados nos palitos de sorvete nas aulas de educação artística. Lembro de brigar com a minha mãe por ela ter-me feito defeituoso, e ela, sem sequer tentar explicar como as coisas são feitas, simplesmente colocava a culpa no meu pai. Mas eu não brigava com meu pai, não tinha essa liberdade.

O tempo passa, a gente - supostamente - fica mais esperto e passa a evitar certos eventos que ponham à prova nossas descapacidades. Dançar, por exemplo, nunca. Nem qualquer coisa que exija movimentos coreografados, como artes marciais (triste a vida de um homem nessa época em que há mais oportunidades para dançar que para brigar). Mas sendo a vida adulta esse mecanismo intrincado preparado para nos foder de qualquer maneira, não dá para se esquivar de tudo.

Não dá pra se esquivar, por exemplo, de receber o troco em moedas no caixa do mercado ou na catraca do ônibus. E moedas são coisas traiçoeiras, vivas, mancomunadas com Satanás. Ao contato da minha mão elas pulam e correm e rolam e fazem todo tipo de movimentos aleatórios e imprevisíveis. Ao chão elas vão, invariavelmente.

A esta altura cabe informar ao leitor, que me conhece há três parágrafos, que no meu quintal não há árvore de dinheiro. Por necessidade financeira e respeito aos descompassos sociais que nos entristecem publicamente é preciso pegar as moedas no chão. Não é uma tarefa digna, não. Desenhemos esse cenário sem os detalhes superficiais: é um homem adulto com a bunda pra cima.

Então corra os olhos pelo fio dessa meada: moedas estão caindo aos meus pés constantemente. Várias vezes por dia, até. E eu estou lá pegando-as, apontando o canhão para a lua, engolindo a dignidade que me quer escapar pelos olhos. Eu passo, portanto, boa parte da minha vida com a bunda pra cima. É uma posição vulnerável, talvez a mais frágil de todas. Você sabe do que eu estou falando. E ficou impossível separar as duas coisas: pra mim, a vida são os pequenos intervalos de tempo entre os momentos em que estou oferecendo meu cu ao mundo em troca de algumas moedas. Não é algo bonito de dizer, muito menos de admitir, mas é isso, não é?

Eu penso nisso, penso em como tudo pode ser visto como uma metáfora sem graça para a existência, e ainda me sinto empurrado pelo ventos da injustiça a culpar a minha mãe, a que me fez quebrado. Eu poderia ser surdo, eu conseguiria viver soluçando permanentemente, mas isso, isso é muita humilhação.

O leitor há de achar que estou reclamando de barriga cheia, que há coisas piores, que ao menos eu tenho moedas para pegar no chão. É verdade, admito. Mas não leia isso como um manifesto, pois não é meu objetivo incomodar a agenda de preocupações de ninguém. Quero apenas contar a minha história, nem que seja para trocar minha vergonha pelo riso alheio. Você pode achar que eu estou me rebaixando, que faço tudo isso para receber escárnio. Mas, no meu caso, é melhor receber gargalhadas que receber moedas. Afinal, é preferível o risco de rirem de mim que o risco de comerem minha bunda.

Ps: O autor achou por bem deixar claro que essa é uma obra de ficção, sem relação com a vida real - exceto a parte sobre não gostar que lhe comam a bunda.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

TC (ou algo assim)

A gente começou a montar o time com primos e amigos. Depois foram chegando os amigos dos amigos, os primos dos primos, os amigos dos primos e a coisa foi crescendo. Viramos um time com titulares, reservas, dois quadros. Tínhamos até uniforme, que era, divertidamente, o uniforme do São Paulo (o pai de um dos caras trabalhava na distribuidora da Adidas no Brasil, à época fornecedora de material esportivo do São Paulo). Estávamos com tudo.

Então fomos disputar nosso primeiro festival, e o adversário era o time de uma escolinha que treinava na mesma quadra. Não lembro o nome, era alguma sigla boba, tipo TC. Estávamos prontos, estávamos confiantes, íamos debulhar. Aí o juiz apitou e eles começaram a trocar passe, um dois três, um corria pra cá, um corria pra lá, chute, gol. 1 a 0 pro TC (ou o que quer que seja), nem um minuto de jogo, nem na bola a gente relou. Eu nem entendi o que aconteceu, como assim eles corriam sem a bola? Que loucura isso, rapaz. O jogo acabou uns 9x3 (pra eles claro), e eu fui até expulso - não fiz uma falta durante o ano inteiro, mas fui expulso mesmo assim.

O TC virou nosso rival, nosso Gary, nossa baleia branca. Jogamos de novo outras vezes, perdemos de novo todas as vezes. Quando estávamos com o time mais forte, mais bem treinado, voando, quando o próximo festival ia acontecer e a gente ia, finalmente, ganhar, eles cancelaram e aí o jogo foi contra outros caras (perdemos também e o time acabou depois disso). Esse último parágrafo não importa muito, mas eu queria contar essa parte da história.

Quarta feira o São Paulo (que usa uniforme igual ao que a gente usava) vai jogar contra o Cruzeiro em Belo Horizonte. E quando eu penso nisso, lembro daquele primeiro jogo contra o TC, deles tocando bola e da gente tonto sem saber pra onde correr tapando o olho pra proteger da areia que subia enquanto eles corriam feito pés-de-vento. Um time que sabe os fundamentos do futebol contra um que tem a resistência emocional de um papel molhado. Naquele ano, o ano do nosso time, o São Paulo foi campeão paulista, tinha França, Denilson, Raí voltando. 15 anos depois, eles viraram a gente. Quem sabe nós não poderíamos ser eles agora.

O curioso é que eu me lembro desse período da minha vida, meus 13 anos, como um dos mais felizes. Mas quando o juiz apitar o fim do jogo na quarta feira e o layout do placar da Globo estiver quebrado porque não prevê três dígitos, a única lembrança dessa época feliz pairando suspensa no ar será a da calamidade. Qual a lição que tiramos disso, hein?

Exato: nunca seja feliz, ou acabará contribuindo decisivamente para a humilhação de 15 milhões de pessoas. Que você não venha me dizer que nunca aprendeu nada com esse blog.