sexta-feira, 19 de julho de 2013

Mundo bizarro

Ano atrás, estava eu dentro do falecido Perus via Lapa 8171/10 a caminho da casa onde já morei quando aconteceu algo bizarro que eu gostaria de compartilhar com vocês. É a primeira vez que conto isso pra alguém pela internet hoje. Parece simples e insignificante, mas crer nisso talvez tenha sido o meu erro durante todo esse tempo.

Minha cabeça manchava a janela com uma pequena amostra da quantidade massiva de óleo produzida diariamente (CRESCER CABELO QUE É BOM NADA, NÉ?!) e meus ouvidos provavelmente eram estropiados pelo alto volume de qualquer porcaria que eu estivesse ouvindo. Estava distraído, relaxado. O ônibus parou num ponto, pouco antes de subir a magnífica Ponte do Piqueri (se houvesse uma lista com as 7 100 maravilhas da zona noroeste de São Paulo, essa ponte passaria perto de entrar), e pessoas embarcavam e outras pessoas desembarcavam e outras pessoas ficavam de boa, esperando outros letreiros, outros destinos. Levantei os olhos da contemplação invisível e passei panoramicamente pela massa de gente que estava de pé a olhar para outro lugar, quando eu vi, eu vi. Eu me vi lá fora.

Não era reflexo na janela, não seja besta. Mas claro que não era eu também (nem meu irmão). Era só um cara que tinha mais ou menos a minha altura, a mesma pele cor de diarreia, o mesmo cabelo cortado baixinho e a mesma blusa de moleton que eu usava de vez em quando. Mas de cara, o primeiro reflexo que eu tive foi de achar que era eu lá fora, e então, por uma garradejogadordosãopaulo de segundo, o universo fendeu, tudo parou, algo mudou. Era como um tilt, um tropeço do tempo. E o ônibus seguiu, e eu segui, e aqui estamos.

Mas só agora (ou esses dias) me ocorreu que aquela sensação estranha pudesse não ser só uma aleatoriedade. Eu acho que, na verdade, naquele momento eu fui transportado para uma dimensão paralela. Acho que a pessoa que estava no ponto de ônibus era eu, sim, e o contato visual de uma pessoa consigo mesma (se ela não for vesga) foi a tela azul que forçou o sistema a rearranjar o espaço, e então eu fui pra outro lugar, e nesse outro lugar o cara no ponto era só um cara parecido comigo.

Impossível não imaginar o que aconteceu com o outro eu, o que estava esperando o ônibus. Ele hoje pode estar rico, pode ter crescido cabelo do nada, pode estar casado, pode estar feliz, pode estar famoso. Pode ter comido a Isis Valverde e tocado com o Michael Jackson (nessa outra dimensão, o Michael Jackson não morreu). E assim como há essa outra dimensão, pode haver mais. Em alguma delas eu posso inclusive morar na Lua.

Eu poderia ter mil vidas. Usando o título do blog como dica, adivinha qual é essa aqui.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Mil fantasias

Essa é a semana Só Pra Contrariar no blog (mil piadas), e como essa nova categoria de análise de músicas tem se mostrado um sucesso (porque sucesso pra mim é conseguir arrumar algo pra postar, não tem nada a ver com aceitação popular), nada mais previsível que isso aí que você acabou de deduzir sozinho.


Em 1993, quando o presidente era o Itamar e a moeda era a URV o Cruzeiro/Cruzeiro Real, quando o Brasil ainda era tri e o povo clamava por Romário na seleção, a banda dos irmãos Pratorraso lançou seu primeiro álbum e seu primeiro sucesso, "Que se chama amor". Uma linda canção romântica, não? Veremos.

Como é que uma coisa assim machuca tanto
E toma conta de todo o meu ser?
É uma saudade imensa que partiu meu coração
É a dor mais funda que a pessoa pode ter

Olha. Como dizer isso. Ahn. Pode ser amor e tal, ninguém está julgando, mas acho que há um foco específico de modalidade de amor feito (não amor sentido) aqui. Com até algumas indicações de por onde o amor entra.

Você pode achar que o pagode romântico nunca primou pela qualidade das letras, temas, arranjos ou dancinhas, mas convenhamos que é muito engraçado ouvir um cara chamando o pau de outra pessoa de "saudade". Provavelmente o melhor apelido peniano já feito.

É um vírus que se pega com mil fantasias
Um simples toque de olhar

A menos que haja um tipo particular de vírus que se aloje nas fantasias de pirata da ladeira Porto Geral, isso aqui tá mais pra doença venérea que qualquer outra coisa. O problema é o lance do "mil fantasias": é como se não bastasse um fetiche ou dois, mas anos e anos explorando as possibilidades da bizarria sexual para enfim merecer esse supervírus que se transmite pelo contato ocular. Não é conjuntivite.

Me sinto tão carente, conseqüência desta dor
Que não tem dia e nem tem hora pra acabar

Estamos conhecendo mais detalhes sobre a doença. Ela ataca também o lado psicológico do enfermo, levando à carência - fora a dor física. E, o mais estarrecedor: é para sempre! Ou o período de incubação ainda é desconhecido pelos cientistas, não ficou claro.

O amigo pode pensar que Alex Pirrê está com HIV, mas lembre-se que a AIDS em si não provoca dor no paciente. Então fica a dúvida: qual é o nome dessa doença sexualmente transmissível, que entra em contato pelo olho (não ficou claro qual deles) e causa dor e carência? Estamos diante de um mistério clínico, senhoras e senhores, chamem o George Clooney.

Aí eu me afogo num copo de cerveja
E que nela esteja minha solução
Então, eu chego em casa todo dia embriagado
Vou enfrentar o quarto e dormir com a solidão

MAIS DETALHES EMBASBACANTES! E que claramente desafiam a medicina e, por que não, a ciência em seu estágio atual. Notem que ele diz que se AFOGA num copo de cerveja. Ou esse é um copo inimaginavelmente grande (improvável), ou ele caiu numa piscina e chamou de copo (o que mostraria que um dos sintomas da doença é a dislexia), ou - tirem as crianças da sala - o vírus de nome ainda desconhecido ENCOLHE AS PESSOAS. Isso é grande, senhoras e senhores. A notícia, não o doente. Esse é menor que um copo.

Em seguida ele diz que chega em casa todo dia embriagado (um liliputiano alcoólatra, não lembro de o Gulliver ter visto um desses - e por "não lembro" eu quis dizer "não li porque achei chato pra caralho"), enfrenta o quarto e dorme com a solidão. Parece só uma frase de draminha romântico, mas lembre-se que no começo da música ele se refere ao mastruço imenso daquele que lhe passou a doença como "saudade", o que nos abre o precedente para crer que "solidão" pode também ser outra coisa. Pode ser, claro, só um efeito da dislexia provocada pela enfermidade, mas me parece, vou correr o risco de fazer uma afirmação baseada em nada - ao contrário de todos os outros argumentos fortemente amparados por evidências que temos nesse texto -, que "solidão" é o nome que ele dá para seu amante. "Mas por que ele usou uma palavra feminina para descrever um homem, senhor blogueiro?" Vou deixar você deduzir essa sozinho, Timmy.

Mas continuamos com a dúvida: como se chama essa doença?

Meu Deus, não!
Eu não posso enfrentar essa dor
Que se chama amor

Claro (suspiro).

Tomou conta do meu ser

Bom, ele não deve estar usando "o meu ser" para se referir a si mesmo, porque além de brega não faz sentido. Provavelmente é um outro ser vivo, como uma planta, um animal ou um Pokémon. Mas o mais importante é que acabamos de descobrir um aspecto positivo dessa doença chamada Amor: apesar de ela te arrebentar a alma e lacerar o ânus, ao menos cuida dos seus seres para eles não ficarem sem água ou comida. O que isso tem a ver com a música eu não sei, mas é bacana.

Dia-a-dia! Pouco a pouco
Já estou ficando louco
Só por causa de você!

Aqui descobrimos que além da dislexia e a da carência (ou exatamente por causa disso), o paciente passa, aos poucos, para a demência. Não sabemos até onde isso vai, se ele vai se degradando até ficar se cagando na cama enquanto o seu ser come os pudins de cocô ou se um dia melhora e a vida segue. O que sabemos, entretanto, é que a música tem um alvo muito claro ao final: a(o) Solidão.

Depois de tudo isso, acho que vale o apelo: usem camisinha. Mesmo se - por qualquer motivo que eu não compreenda - quiser colocar o seu pipiu no olho do(a) parceiro(a). Vamos nos cuidar, gente, e erradicar o Amor do Brasil ;)

domingo, 7 de julho de 2013

Essa tal nostalgia

Eu era um molecote de joelhos tortos e cabelo oleoso na Freguesia do Ó, e gastava todo o tempo em que não estava ocupado com deveres acadêmicos ou futebolísticos dentro da Brasília do meu pai ouvindo Raça Negra no toca-fitas. A graça de ser criança é que tudo é novo e maravilhoso, e eu me lembro do dia em que, depois de decorar todas as letras e aprender a cantar todos os solos de saxofone, eu pensei: "será que tem mais?"

Vou cortar um pouco a história e avisar que houve um desvio no plano inicial, mas no final eu estava com uma fita cassete que tinha num dos lados Negritude Jr. e no outro, que é o que importa nesse texto, algumas canções pinçadas do primeiro álbum do Só Pra Contrariar. Não preciso dizer que esse era o lado que eu ouvia mais (SPC >>>> Negritude), e daí em diante a trupe colorida dos irmãos Pires cantou intermináveis serenatas sob a janela do meu desenvolvimento pessoal - me lembro especialmente de uma gincana na escola que a gente tinha que cantar uma música qualquer e uma equipe humilhou improvisando uma versão de A Barata enquanto meus comparsas e eu só conseguimos pensar em interpretar o coelhinho bossa nova.

Aí eu cresci, descobri o Nirvana, aprendi a tocar violão, deixei cair os cabelos (foi opção minha, vejam só), montei uma banda, comprei uma camiseta do Led Zeppelin e fui traído, covardemente rendido por essa terrível danação chamada nostalgia. Onze anos depois de gravar a Brasil 2000 na memória do meu rádio FM eu estava no Credicard Hall - perto de onde eu só havia chegado para assistir o Oasis no estacionamento - esperando começar o show que comemora os 25 anos do grupo que me ensinou que o samba não tem fronteiras e que não adianta nada essa tal liberdade se estou na solidão pensando em você.

Havia uns sérios problemas de coerência conceitual - a plateia ficava sentada e ou eles fazem muito sucesso na Noruega ou não tem mais água oxigenada em São Paulo -, mas lá estavam os sucessos, os refrões e os mesmos rostos que estão enormes na capa do vinil que eu comprei por 2 reais no centro há uns meses. Só que mais velhos, mais sábios, mais platina tripla.

Não era um show pra me emocionar, nem um show que me inundava de ansiedade e expectativa - isso eu guardo pro Blur e pro Bruce Springsteen - porque eu não estava ali como fã, estava ali a passeio. Um passeio num trenó mágico guiado por unicórnios sobre nuvens e arco-íris pela minha infância, por um tempo mais simples em que eu podia ter um gosto musical horroroso sem que ninguém me olhasse feio por isso. Não que eu sinta falta, longe disso, mas fica dentro do meu peito sempre uma saudade.

domingo, 30 de junho de 2013

A ponte (parte 1)

Foram dez minutos olhando para baixo, para o rio, numa visão que parecia de história em quadrinhos - se fosse um mangá, você poderia ver as hachuras apontando para o centro do quadro, para o violento curso de água que se atropelava, da esquerda para a direita, rumo a ninguémsabeoque. Se eu fosse mais brega ou mais sensível, traçaria um paralelo com a vida, mas deixemos isto para lá. Depois desses dez minutos ou seiscentos segundos ou três-miojos-e-um-terço eu movi o pescoço como um guindaste para apontar minha cabeça para a montanha à frente e depois para o céu azul dessaturado acima. Por mais horroroso que seja o céu desse lugar, ainda é melhor que o rio que grita "morte!". Dei um passo para trás e então notei, à minha esquerda, um rapaz que já se projetava da borda da ponte para o centro da Terra, e ele foi, foi, e nem deu pra ouvir quando bateu na água lá embaixo. Tinha 18 ou 19 anos, passei uma tarde na casa da família dele há algumas semanas. Mais uma pessoa que se encaixa no mórbido mosaico cultural dessa cidade, a cidade sem nome, a cidade da ponte.

A ponte

1, suspensão e dúvida

Eu cheguei nesse lugar maluco há uns dois meses, por acaso. Tão por acaso que nem sei que desvio foi que peguei na estrada pra vir parar aqui. Tão por acaso que não há placas apontando pra cá, porque nenhuma placa ensina a chegar a um lugar sem nome. Um lugar que mereça ser chegado deve ao menos ter um nome, o leitor há de pensar, e eu concordo. Mas tem algo fascinante aqui, e vou tentar descrever da maneira menos prolixa e mais direta possível (só entenda que haverá enfeites romatiquescos aqui e acolá, porque eu não consigo evitar).

A minha primeira impressão foi de que se tratava de uma cidade fantasma: algumas poucas ruas com casas vagabundas pontilhando as laterais, um posto de gasolina sujo, uma igreja abandonada, umas vendinhas e tal. Durante o dia, só se ouve o rugido feroz do rio e o uivo descompassado do vento, dois animais elementais brigando por atenção. À noite, somam-se os respingos piscantes da guizalha dos grilhos e, meudeus, o barulho de gente trepando. Aqueles gemidos em rápidos fade-ins e fade-outs misturando-se uns aos outros na vizinhança, como uma alucinação. Mas estou pulando algumas etapas, voltemos um pouco.

A cidade fica às margens de um rio, o rio que eu citei antes; ele corta, divide, risca o lugar onde termina o mundo como nós o conhecemos e começa esse curioso povoado. Para atravessá-lo há a ponte, que eu também já falei, e digo isso porque esses dois elementos são definidores em toda a história, o fim e a suspensão, a morte e a dúvida.

Assim que cheguei, a primeira imagem que vi foi semelhante à narrada anteriormente: uma mulher corpulenta, cuja idade não dava pra saber pela distância, deixava-se rolar pelo ar até o curso de água. Deixei o carro parado na borda da estrada, porta aberta e tudo, e corri para a ponte, apenas para não ver a infeliz vítima da gravidade. É algo chocante ver uma pessoa saltar a morte, então me deixei ficar por uns minutos, voltei para o carro e segui para a cidade.

2, todo mundo vai pular

Não vou citar o nome de ninguém, porque não seria justo com a cidade, coitada. Mas tem esse cara, aposentado por invalidez, que fica arrastando a perna esquerda continuamente num caminho quadrado ao redor de um pequeno quarteirão que tem um restaurante e uma loja de conveniências. Ele é desses caras que conhecem tudo ao redor - porque afinal não faz nada da vida além de andar em movimentos repetitivos e conversar com todo mundo que passa - e é exatamente o tipo de gente que você procura quando chega num lugar desconhecido.

Nenhuma informação importante me foi dada de cara, mas era tão simpático o senhor aleijado que a conversa rolou por um tempo, até que me senti à vontade pra comentar da mulher que pulou da ponte. Ele me respondeu, sentem-se primeiro, "o que é que tem?". Fiquei meio desconcertado, porque se ele não se sente abalado com a notícia do suicídio de alguém - provavelmente alguém que ele conheceu, estamos falando de um lugar muito pequeno -, não sei como eu poderia explicar a gravidade da situação. Mas então ele riu, revelando um senso de humor insuspeito, e disse, espero que vocês não tenham se levantado, "não se assusta, forasteiro. Aqui é assim, todo mundo um dia vai pular da ponte".


3, tradição cultural

Vou te poupar de todas as minhas reações ridículas subsequentes. Acontece assim: o suicídio é uma tradição cultural da cidade. Não de qualquer jeito: sempre de cima da ponte, sempre pra dentro do rio - que, assim como a cidade, não tem nome. São apenas "a ponte" e "o rio". Não é assim como o cara disse, todo mundo vai pular. Existem acidentes, tem gente que parte pra outro lugar, e tem sempre quem quer viver mesmo até quando der e pronto - embora, depois de dois meses nesse lugar de merda, eu já consiga respeitar mais a vontade de quem opta pelo contrário.

O mais divertido - se não for um pouco sádico usar o termo "divertido" aqui - é que toda a filosofia flutuante da cidade está a algumas passadas de distância da positividade forçada do pensamento ocidental. Não tem "nunca desista dos seus sonhos", nem "agarre todas as oportunidades", tampouco "nada como um dia após o outro". Não existe autoenganação: se eles acham que as coisas não vão dar certo, não ficam lutando com isso. O suicídio não é visto como uma fuga, mas como uma resposta a um chamado. Nunca consegui perceber se eles entendem o quanto a morte é definitiva e se eles pensam que a coisa termina mesmo depois disso. O que me pareceu é que eles não se preocupam. É como ganhar dinheiro: a gente nunca pensa no quão pouco sentido isso faz, a gente só segue o fluxo. Eles seguem o fluxo, literalmente até. Nada a ver com felicidade ou tristeza. Eles nem tem disso aqui; é engraçado como a desimportância da morte também tira o peso dos estados emocionais. Não é que eles são como robôs. Eles só são práticos.


(continua qualquer dia)

domingo, 23 de junho de 2013

O rei

Ele abriu a porta do galpão e a luz brilhou de um jeito engraçado por cima da massaroca meio-cinza-meio-esverdeada-meio-incolor que se acomodou no lugar durante o tempo que ele ficou fora. A quantidade do negócio dava a medida de quanto tempo ele esteve longe do espaço: estava por todo lugar. No chão, nas paredes, descendo do teto como estalactites, pingando em movimentos arqueados arremessados pelo ventilador pendurado. Em alguns lugares, amontoava-se como pequenos outeiros. O cheiro era forte, ardido, desagradável, e o chiado que fazia quando seu calçado pisava e soltava - shlep, shlep - revelava uma textura pegajosa. Ele passou o dedo na substância e levou à boca, pra perceber que o gosto era só amargo, nada mais.

Depois de alguns minutos, sentiu-se não só habituado, mas também preenchido. Era como se o cheiro forte entrasse pelas suas narinas, invadisse os pulmões e ficasse lá. Não era exatamente confortável, mas deu a ele uma espécie de sentido para manter-se de pé que ele não tinha havia muito tempo - foi por isso que resolveu voltar para o galpão, para começo de conversa.

Então começou a trabalhar. Com as mãos em concha, foi juntando um pouquinho dali e outro pouquinho daqui, aparando as pontas, desenhando os detalhes. Fez um castelinho, depois fez outro maior. Fez uma coroa, pôs na cabeça. Saiu pela porta do galpão, fuçou sabe-se lá onde e voltou com uma pá, e então começou a lidar com quantidades cada vez maiores do material. Fez um altar com escadas, e sobre ele fez um trono. Sentou-se no trono, as nádegas confortáveis sobre a consistência macia da meleca. Fez um cetro, e decidiu que era hora de ver outras pessoas, interagir com elas.

Foi até a porta do galpão e abriu-a. Deu as costas para a luz intrometida, subiu os degraus e posicionou-se sobre o trono, coroa na cabeça, cetro nas mãos. Lá fora, pararam para observar. O rei. Apontou seu cetro para o primeiro e ofendeu-o. Caçoou do trabalho da segunda, menosprezou os ideais do terceiro. Do lado de lá da porta, puseram-se em movimento novamente, mas ele continuou apontando e disparando enquanto as pessoas passavam e iam, algumas vezes dando uma olhadinha, em outras ignorando-o completamente. Um dia, precisou fazer xixi, mas não pôde sair: os tornozelos e metade das canelas já estavam atolados no negócio. Ele começou a olhar ao redor, e viu que o galpão ficava cada vez menor, pelas janelas passava cada vez menos luz, pela porta acenavam cada vez menos pessoas.

Sem saída, ajeitou a coroa, fez sua melhor cara de desprezo e continuou com sua monarquia de mentira. Quis viver como um rei, deve morrer como um rei. Tendo aceitado seu destino, ficou implacável. Ele e seu cetro tornaram-se um só, recarrega, aponta, dispara, recarrega, aponta, dispara. A meleca já ocupava mais da metade do galpão, e aumentava num ritmo mais veloz a cada segundo.

Então, quando ele já estava suavemente deitado nos braços do destino, um ruído terrível partiu o céu em dois, e de repente o galpão veio abaixo. Lutando para se livrar da avalanche que o soterrara, sentiu algo agarrar-lhe pelo estômago e puxá-lo para fora, para cima, e para a frente. Estava nas garras de um pterodáctilo-ciborgue que bailou atmosfera acima recitando Edgar Allan Poe numa voz metálica. Quando a terra abaixo passou a ser um mapa, a pressão em sua cintura sumiu e as nuvens correram céu acima para lhe estapear o rosto.

Ele quis viver como um rei e aceitou morrer como um rei. Mas nunca foi bom com finais.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Minha cidade

Você já deve ter visto tudo que poderia ver a respeito e já deve ter lido coisas bem melhores, o que me deixa um pouco acanhado pra tocar nesse assunto. Mas não quero que vocês pensem que eu me preocupo mais com a temperatura do chuveiro que com os acontecimentos realmente importantes desse conturbado mundo em que vivemos, então vou pedir licença para não acrescentar nada à discussão.

Com licença.

Estamos mudando, amiguinhos. E é curioso notar a coisa acontecendo, a força muscular dos braços e pernas da sociedade se ativando e mexendo a ordem das coisas. É feio, mas interessante. O que eu vejo de mais importante nessa série de eventos explodindo no Brasil essa semana é que a coisa finalmente ameaça subjugar a estrutura fossilizada e criar algo novo - ou trazer algo que ficou para trás. Não é sobre partidos políticos, não é sobre capitalismo ou socialismo, não é sobre classes sociais, não é sobre os vândalos ou a polícia. Não importam os motivos, seja a corrupção, o preço da passagem ou a Copa do Mundo. O que estamos vendo é uma retomada, é a cidade voltando para o povo, para o seu dono de direito. Mas antes há degraus, porque já não somos mais "povo"; fomos diminuídos para manifestantes e depois para criminosos. Marginais que vandalizam o chão da cidade com seu sangue, que ousam sujar o precioso asfalto, o tapete vermelho que estendemos à nobreza da vida urbana, nossos reis de couraça metálica e rodas de borracha.

Mas está mudando, porque estamos deixando de ser apenas vistos como formulários e carteiras de trabalho. Estão nos ouvindo. Ouvindo o nosso pé batendo, nossos gritos gritando, nossos ossos quebrando, mas nos ouvem. E, antes de tudo, estamos nós mesmos abrindo os olhos. Percebendo que o patrimônio da cidade são minhas costas, meu pescoço e meus pés, não o vidro da minha casa. E que a democracia não é poder votar, é poder decidir. Muitos ainda vão sangrar, chorar, correr e sabe-se lá o que mais enquanto o monstro da sociedade se remexe para encontrar uma nova posição mais confortável. Mas a de antes não serve mais. Não nos serve mais.

Ontem, pela primeira vez em 28 anos, eu tive orgulho do povo da minha cidade. E, pela primeira vez, eu a chamei de "minha cidade".

domingo, 9 de junho de 2013

Banho de sol

Esses últimos dias tem sido muito agitados para o mundo mundial, com tantos protestos pelo aumento das tarifas de transportes em todo o Brasil, mais protestos contra o governo na Turquia, o estatuto do nascituro, o fim da Playboy, a PEC 37, o prefeito que quer matar cães de rua, os salários dos professores diminuindo, o papa que disse que a gente não vai pro inferno opa peraí vamos sim, etc, etc, etc. Sendo época de assuntos tão delicados, tão urgentes, quero falar sobre algo também importante: chuveiros.

Por que não existe nesse mundo, em todo esse planeta azul, um chuveiro decente? Um chuveiro capaz de nos proporcionar um banho com água de temperatura agradável? Água abundante, não dois pingos. Por que essa merda sempre está ou não-quente-o-bastante ou está como se pegassem o inferno, esquentassem mais um pouco até entrar em ponto de fusão e virar líquido e então despejassem no nosso lombo? Tem gente que canta no chuveiro, eu grito e xingo.

Desculpem esse momento de revolta. Me deixei levar. Mas vocês entendem que há assuntos que não podem ser tratados com a mesma leveza de outros mais desimportantes, como educação e saúde. Isso tem que acabar. O que deve escorrer para o ralo é nossa sujeira, nossa imundície, não nossa vontade de viver.

É por isso que eu não tomo mais banho.