Quando eu era criança, nem sonhava em voar de avião. Primeiro porque achava que era coisa de rico. Segundo porque tinha medo de altura - o que não chega a ser uma surpresa se considerarmos que eu tenho medo de quase tudo (embora altura seja algo que não me incomode mais). Hoje a possibilidade já não me parece tão desagradável, mas eu continuo virgem de altitude.
Até gostaria de dar uma voltinha num treco desses, mas confesso que a idéia não me deixa tão empolgado. Eu gosto de viajar, sabe, mas não pra conhecer lugares e etc, eu gosto mesmo é da viagem, do trajeto que se faz entre a sua casa e onde você quer chegar. Gosto de curtir a estrada, ver a paisagem se desenrolando ao redor, descobrir coisas do mundo que eu nem imaginava que existia, acostumado a essa redoma de asfalto e dióxido de carbono.
Eu curto mesmo viajar de ônibus, nem de carro eu sou fã. E a idéia do avião, embora muito prática, elimina dois aspectos importantes da coisa toda: a sensação de que se está sendo envolvido pelo cenário, uma vez que a paisagem se baseia a céu acima e terra abaixo; e o negócio do tempo, de você sentir que está indo pra um lugar longe, que está atravessando fronteiras desconhecidas, e, claro, de aproveitar mesmo a viagem. De avião eu vou ao outro lado do mundo no mesmo tempo em que de ônibus eu vou daqui a Minas.
Outra coisa que eu queria experimentar, e já disse em algum post no pé-na-cova fotolog, é viajar de trem. No Brasil você não encontra trens de passageiro que vão muito longe (ok, Francisco Morato é longe, mas estou falando num plano mais amplo), coisa que se acha bastante na Europa, US and A, Japão e etc. Trem é uma coisa muito velho-oeste, e, caso não tenha sido possível deduzir pelos parágrafos acima, eu adoro me sentir em uma aventura =P
Mas esse parágrafo do trem é irrelevante, eu falava do avião. Por esses dias ouvi muita gente falar que tem medo de voar de avião agora, por causa desse acidente, e por aí vai. Do ano passado pra cá, só me lembro de ter ouvido falar de dois acidentes com vítimas, aquele da Gol e esse da TAM. Mas de carro, moto e ônibus ouve-se falar diariamente de vários, fora os que você não ouve falar, mas vê com seus próprios olhos. E nesse momento eu acabo de perceber que isso não tem nada a ver com o resto do texto. Então vou encerrar por aqui, pra não ficar pior pra mim.
quinta-feira, 26 de julho de 2007
Road trippin'
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Thiago Padula
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quarta-feira, 25 de julho de 2007
Eles não usam black-tie
Um dos grandes indícios de que a sociedade às vezes é retrógrada demais em coisas simples é o uso de roupa social. Se você andar na avenida Paulista, por exemplo, em um dia útil, vai ver que a esmagadora maioria das pessoas se traja socialmente, afinal estão em horário de serviço.
É incrível como a gente avança em tantos pontos como tecnologia, cura de doenças e consciência sobre o meio ambiente e simplesmente se recusa a admitir que conforto é importante. Roupa social é o tipo de coisa que se usava há decadas, séculos atrás, quando ainda não haviam inventado a camiseta e o tênis. Camisa, gravata, sapato, salto, terno, são coisas difíceis de usar, desengonçadas, pesadas e desconfortáveis. As pessoas já estão perdendo metade de seus dias em escritórios, porque tornar tudo ainda mais insuportável?
O que me parece é que é um tipo de tradição que a gente não pode tocar. Prova disso é a invenção de um negócio chamado sapatênis, que é, supostamente, um sapato com leve aparência de tênis. Nada, aquilo é tênis puro, mas a gente chama de sapatênis pra parecer que é sapato, e se é sapato, pode usar com roupa social. Quem estamos querendo enganar? Por quanto tempo ainda vamos admitir esse cabresto que controla nossas vidas? Já quebramos tantas convenções e tradições, hoje usamos camisinha, trepamos sem casar, nos divorciamos, não apanhamos mais dos professores na sala de aula, as mulheres votam e trabalham, os negros estudam e os japoneses podem ser encontrados longe das feiras e das barracas de pastel. Mesmo já tendo passado por tudo isso, ainda nos vestimos como no século 19.
E olha, desculpa dizer, mas o mundo tá acabando, ou a gente começa a ir trabalhar de bermuda e chinelo ou o aquecimento global nos consome.
Ou teria sido o ar-condicionado inventado só pra evitar que morrêssemos de calor e nos rebelássemos? Hum, boa pergunta...
Em tempo: eu me visto de tênis e calça jeans no trabalho, mas às vezes posso sentir os olhares atravessados. Eu sei que estão olhando, eu sei...
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Thiago Padula
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13:04
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terça-feira, 24 de julho de 2007
É ouro...
Dois posts num dia, que coisa.
Mas esse é rápido. Eu bato muito na mesma tecla, sabe como é, e ainda não tinha dito abertamente o quanto eu detesto esse Panamericano. Que perda de tempo miserável. Então eu li esse texto aqui, coluna de domingo do Juca Kfouri na Folha de São Paulo, e resolvi compartilhar com vocês. Não é só sobre o Pan, é sobre tudo, e vale muito a pena ser lido. Separe um tempo aí, pare de assistir o tiro ao alvo ou qualquer coisa assim e se dê esse banho de realidade.
Relaxa, top top top, e goza. É ouro!
Impressiona como o país cada vez mais se acostuma a fingir e a viver, e a morrer, das próprias mentiras
Por Juca Kfouri
PEGUE-SE QUALQUER exemplo, mas fiquemos com os mais recentes.
No esporte, para começar.
O milésimo de Romário é um bom caso.
O Pan-2007, outro.
Ora, todos sabemos que o Baixinho, fabuloso, maior jogador que uma grande área já viu, criou um objetivo para ele mesmo e todos entraram na festa. Viva!
Mentira inofensiva. Mas mentira. Mentirinha, digamos.
Com o Pan é mais grave, pelo uso do dinheiro público sem a menor cerimônia, um dinheiro que os passageiros que cruzam o país pelos ares agradeceriam se o vissem mais bem gasto.
E aí a falsidade é grave, porque mata.
Em torno do Pan, a omissão é medalha de diamantes.
Thiago Pereira, que é um nadador digno de todo respeito e não tem a menor culpa do que se omite, é tratado como quem superou Mark Spitz.
E, friamente, é verdade.
Mas meia verdade, muitas vezes pior que a mentira pura, por mais difícil de ser desmascarada.
Ora, Spitz, ao ganhar cinco ouros no Pan de Winnipeg, em 1967, simplesmente bateu três recordes mundiais, como bateu outros sete ao ganhar mais sete medalhas de ouro em Munique, nos Jogos Olímpicos de 1972.
Compará-lo a Pereira não honra nenhum dos dois.
Fiquemos por aqui, para falar do que é mais chocante, porque sempre com a cumplicidade da mídia.
A tragédia da TAM, que obscureceu o Pan, é rica em ensinamentos.
Começou não é de hoje, com o escândalo do Sivam, no governo anterior, e continuou impávida e colossal de lá para cá.
Uma frase debochada e ultrajante da ministra do Turismo, um gesto raivoso e moralmente pornográfico do assessor presidencial, um pronunciamento vazio e perplexo do presidente que nunca havia visto uma sucessão de acontecimentos tão caóticos nos aeroportos nacionais e pronto!
Tudo continua como antes, a não ser, é claro, para quem morreu e para quem ficou por aqui, na saudade.
Ora, nem Romário é um artilheiro comparável a Pelé nem Pereira é o novo Spitz nem este governo é mais ou menos culpado que o anterior.
Somos todos responsáveis, ou quase todos, que continuamos a voar como voamos, a votar como votamos, a festejar como festejamos e a reclamar mais dos que são rigorosos do que daqueles que são complacentes.
Dar ao Pan-2007 sua verdadeira dimensão é, para muitos, sintoma ou de bairrismo ou de mau humor.
E a crise aérea vira exploração política.
Mas o que se vê na TV no Pan, e o que se viu e ainda se verá na TV sobre o avião da TAM, é de dar vergonha de como se faz jornalismo/sensacionalismo no Brasil.
O ufanismo sem limites e a demagogia sentimentalóide não nos levarão a lugar algum, a não ser neste em que estamos, do caos, da falta de perspectiva e da acomodação cúmplice e criminosa.
Os resultados superdimensionados do Pan-2007 inevitavelmente se transformarão em frustração quando Pequim chegar, no ano que vem.
Ou alguém acredita mesmo que o Brasil superou o Canadá, que é mais saudável e pratica mais esporte que o país norte-americano?
Brasileiro com muito orgulho?
Quadro de medalhas: 200 mortos.
O blog do Juca é esse aqui.
Pra boi dormir
Oi, meu nome é Thiago.
'Oi, Thiago!'
Vou lhes contar minha história.
Eu tinha pra mim alguns valores que, na prática, às vezes não se aplicavam. Por exemplo, sempre tentei fazer as coisas para os outros não de acordo com o que faziam por mim, mas pelo que eu achava certo. Mas depois de muito tempo segurando minha mochilona no aperto vertical do ônibus, sem um filho da mãe pra se oferecer pra segurar, comecei a ignorar também os bolsistas quando estava sentado. Podia esfregar a sacola na minha cara, fingir que tava se esquivando de alguém no corredor e praticamente colocar ela no meu colo, mas de jeito nenhum eu segurava, tava nem aí (claro que havia exceções, às vezes a carne é fraca).
Mas hoje eu posso me orgulhar e dizer que sou uma pessoa mudada, uma pessoa melhor. Seguro a bolsa de quem está próximo, mulher ou homem, bonita ou feia, levanto pros velhinhos sentarem, e pras crianças também (não está no adesivo, mas lembra quando você era uma pessoinha e precisava ficar duas horas de pé no ônibus? Criança não tem estrutura pra agüentar isso, é maldade). Dou dinheiro trocado pro cobrador, deixo as pessoas entrarem na minha frente, dou bom dia ao motorista e presto atenção em todos os ônibus no caminho pra poder informar pra quem me perguntar depois.
E eu posso dizer a vocês, com a mão no coração, que é muito bom fazer o bem. Um incrível sentimento de paz lava o interior, e os dias cinzentos desse inverno chuvoso ganham um pouco de cor, graças a bla bla bla, bla bla. Bla bla bla bla, bla bla, bla bla: bla bla bla bla.
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Thiago Padula
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domingo, 22 de julho de 2007
I-bop
Nos meus tempos de moleque, o melhor jeito de registrar o quanto uma pessoa era popular era quando o coitado se estrepava e quebrava algum osso. O fraturado costumava ser o centro das atenções, com seu gesso cheio de 'testimonials' gravados em bic ou pincel atômico (pincel atômico é o clássico exemplo de algo que não é nada daquilo que o nome sugere).
Hoje tem por aí nosso famoso amigo Orkut, que é o novo índice de popularidade das pessoas, e que não exige fratura ou luxação, só que você exponha sua vida medíocre e desinteressante para o Brasil inteiro.
O Orkut é o gesso moderno. Quando você quebra e engessa o braço, arruma um atestado e não vai trabalhar. Quando você acessa o Orkut, automaticamente não está trabalhando (a menos que seu trabalho seja escarafunchar perfis alheios ou metralhar scraps do tipo 'oi-ta-sumido-bjos'). Quando você quebra a perna, não pode jogar bola nem correr no parque. Quando você está no Orkut, os únicos jogos do qual faz parte são 'pega-ou-não-pega-a-pessoa-acima'. Usar gesso é um saco, usar o Orkut, bem, deduzam.
Se tem uma coisa da qual nunca escondi aversão é esse jogo de egos no qual nosso mundinho se transformou. É uma questão pura e simples de espaço: não cabe tanto umbigo assim num planetinha só - talvez em Júpiter, mas eu não quero ir pra lá depois que vi 2001. Uma biblioteca só suporta aquela quantidade imensa de volumes porque eles estão fechados, ladeados e organizados em prateleiras. Imagine só se cada um deles fosse um livro aberto.
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Thiago Padula
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sexta-feira, 20 de julho de 2007
Sensacional
Um dia tem o Panamericano, um troço que celebra a saúde, a vida plena, e toda a atenção da mídia está lá. No dia seguinte, um avião se espatifa contra um prédio e tome a mídia mudar de vedete, a dama da morte, sempre estrela das atenções.
Não sei que tipo de paixão mórbida a gente tem pela morte, mas ela é forte. Basta um carro se enfiar debaixo de um ônibus e um coitado ficar com a cabeça suando sangue e tem lá uma dezena de pessoas que simplesmente abandona suas tarefas - que não quiseram abandonar pra levar a tia doente ao hospital - pra assistir o pobre agonizar até a morte entre cacos de vidro e bombeiros.
Quanto mais mortos, melhor. O 11 de setembro, o Katrina e o Tsunami são alguns dos clássicos recentes da pauta cotidiana do mundo. E repare que a gente sempre gosta mais quando é algo espontâneo, como um acidente ou uma ação terrorista isolada. Guerra, bandidagem, isso tudo não é tão legal, porque as mortes estão sempre no script. Falando em script, a criatividade no desenvolvimento do plot é importante: uma cratera numa construção de metrô é algo que não se vê sempre por aí.
Na moral, eu não agüento mais essa porra desse avião. Todo dia alguém levanta uma dúzia de irregularidades e hipóteses que poderiam ter causado o acidente, e teoria conspiratória é coisa de criança que brinca de gangue. Ok, foi uma catástrofe, as causas precisam ser apuradas, as vítimas adjacentes indenizadas e tudo precisa servir de aprendizado pra que isso nunca mais ocorra, mas ficar voando sobre o assunto como um bando de urubus sobre a carne fresca é deprimente, e um belo retrato desse nosso mundo em que a exclamação vale mais que o alfabeto inteiro.
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Thiago Padula
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quarta-feira, 18 de julho de 2007
O importante é competir
Essa overdose involuntária de Pan acaba lançando luz a uma série de esportes dos quais a gente nem se lembrava que existia, o que põe de volta em pauta uma discussão que eu costumo ter comigo mesmo de quatro em quatro anos, aproximadamente: quais os critérios pra dizer se algo é esporte?
Tipo hipismo. Que diabo é aquilo? Se um cavalo pulando barreiras é esporte, aquelas competições caninas em que os bichos correm por dentro de tubos é esporte também, e o circo é um ginásio, com seus elefantes, leões e ursos fazendo todo tipo de papagaiada. Hipismo é tão não-esporte que os cavaleiros não sabem nem se trajar como atletas - no pódio eles estão mais elegantes até que quem entrega as medalhas.
E xadrez? Gosto de xadrez, acho um jogo bem divertido, mas se aquilo é esporte, Banco Imobiliário também é.
Tem esporte que até é esporte, mas é difícil de entender. Como o boxe. Desde que inventaram o diálogo, ver dois caras se esmurrando até um deles cair sangrando no chão não faz mais sentido. Eu sei que esporte às vezes não tem muita conexão com a vida real, mas eu não consigo entender de que maneira isso pode ajudar no desenvolvimento do ser humano, que é, dizem, o propósito da coisa.
Agora, o esporte mais ridículo de todos, sem dúvida, e com quilômetros de vantagem sobre o segundo colocado, é a marcha atlética. Qual o propósito daquilo? Apostar quem caminha mais rápido? Quem rebola mais? Quem teve a mãe mais relapsa? É ridículo, e qualquer um que mostre não ter nenhum senso crítico ao se propor a esse tipo de coisa não mereceria ser chamado de atleta. Às vezes eu penso que eles sabem o quão patético aquilo é e ficam rindo da gente quando ninguém tá vendo. E eu não ligo, sério. Prefiro que riam de mim do que acreditar que a humanidade chegou a esse ponto.
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Thiago Padula
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